[Des]Poesias

Quando se conheceram, foi amor à primeira vista. Ele amava poesia e ela adorava ouvir a poesia que ele declamava. Depois do primeiro beijo, inesquecível, a olhou e declamou Drummond: “Leitura de relâmpago cifrado, que, decifrado nada mais existe”. Ela se apaixonou.

Subiram ao altar um ano depois, em cerimônia religiosa com direito a véu, grinalda, dama de honra e festa cheia de gente. Ao olhar para a noiva, deslumbrante, citou Cecília Meireles: “É difícil para os indecisos. É assustador para os medrosos, avassalador para os apaixonados!” E ela se derreteu ainda mais.

Tiveram filhos gêmeos, lindos. Uma família feliz, de comercial de margarina. Ao ver aquela foto belíssima, ele sorriu pra ela e cantarolou Vinícius: “Amo-te, enfim, com grande liberdade, dentro da eternidade e a cada instante.”. Naquele momento, ela tinha tudo que poderia querer na vida.

Durante a rotina, o amor foi amornando. Depois de quatro anos juntos, não era a mesma coisa. Ele se tornou peça nula, ausente, pálida. Ela se perguntava o porquê daquilo. Ele, pela primeira vez, não foi trovador, preferiu o silêncio. Viraram letra morta, desafinaram.

Ela não se conformou e resolveu investigar. Revirou coisas, viu bilhetes, contas telefônicas, virou uma paranóica, mas não foi em vão. Quem procura, acha, com ela não foi diferente: Descobriu que ele tinha uma amante fixa. Mais: tinha outra casa. Ainda mais: A manteúda  estava grávida. Se sentiu como personagem de Nelson Rodrigues, sem poesia alguma.

Quando chegou em casa, arrumou as malas, colocou os filhos embaixo do braço e lhe escreveu um bilhete…” a você que tanto me declamou poemas, me fez feliz e depois me iludiu, deixo Mario Quintana, pois dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei, e da minha boca fechada nasceram sussurros. Complemento com uma poesia da minha autoria, dizendo que os sussurros agora viram gritos e te mandam para a puta que pariu, seu miserável mentiroso.”

Hoje em dia ela seguiu a vida e quase não mantém contato com ele, que continua declamando poesias em qualquer lugar, inclusive no xilindró, para onde vai quando deixa de pagar a pensão dos gêmeos e do filho da amante.

É Hoje

“É hoje”. Ele acorda com um brilho diferente no olhar. Esperou tanto tempo por esse momento. É histórico, é clássico, é antológico. Toda hipérbole é mero adjetivo nessa hora. Levanta, toma banho, assovia o hino do clube enquanto a água cai. Escolhe a sua camisa social pro trabalho, com a camisa do seu time por baixo. Afinal, “é hoje”.

Sai e, inconscientemente, descobre aqueles que são iguais a ele. É um olhar brilhante, uma faísca diferente, um sorriso nervoso e as unhas comidas. Mas quando se cruzam, quando se encontram, se reconhecem. “É hoje”. Se apóiam silenciosamente.

Hoje, o caos da cidade é no tom do acorde do hino, nos decibéis do grito da torcida. Os rivais também estão diferentes. Eles olham com raiva, eles olham com temor. Mais do que um título, está em jogo a honra. A honra de ser o mestre de cerimônias do chiste e da zoação do dia seguinte. Para o amante da bola, é uma posição magistral. É a pedra branca do xadrez. Essa supremacia se decidirá em poucas horas. “É hoje”.

Daqui a momentos, quando o apito soar, a bola rolar e a respiração ofegar, o olhar dele irá procurar o céu, a mão dele buscará um amigo. A promessa que fará invocará a todos os santos e ídolos que teve. O batuque da torcida será o ogan do atabaque que o coração se tornará. Estes dias são únicos. “É hoje”

Ele está ansioso. Ele é ele. Mas pode ser eu, tu, nós, vós, eles. Ele somos todos nós, que amamos futebol. De um lado ou de outro. A decisão pode ser de qualquer time. O título pode ser de qualquer torneio. O time não é qualquer um. É o nosso. Grande ou pequeno, de primeira ou última divisão. Sempre há um momento que é o de maior importância para nós, para ele. É neste dia que acordamos com brilho diferente no olhar. “É hoje”.

Multicolorida

Você veio ao mundo no dia da final entre Brasil x França. Naquele dia xexelento, alguma coisa tinha de brilhar. E foi você. Eu ainda estava no Rio de Janeiro, mais de 2.000 quilômetros longe, e mal sabia que você se tornaria tão importante na minha vida.

Quando eu conheci você, era uma pequenininha bem abusada. Fazia bico e mordia o lábio, do alto de sua pequena brabeza. Quando comecei a namorar sua mãe, adquiri o pacote completo,  sabia que você vinha de bônus. Só não sabia que depois de tanto tempo você viraria um dos grandes amores da minha vida.

Tem tanta coisa que a gente já passou junto. Quando você aprendeu a ler, estava no meu colo. Íamos ao carnaval na Praça do Arsenal e você começou a declamar o hino do Galo da Madrugada. “Ei, pessoal, ei, moçada, o carnaval começa no Galo da Madrugada”. Pra mim foi uma conquista de Copa do Mundo.

Como foi recompensador quando você só queria subir pelas ladeiras de Olinda no meu colo. E você já pesava pra cacete! É magra e ossuda. E eu chegava no Alto da Sé quase desmaiando, mas todo orgulhoso.

Tem uns momentos complicados também. Como daquela vez que você estava com suspeita de meniningite e eu quase esganei a médica de cabelo rosa que te atendeu, sem saber que a Nina Hagen dos agrestes era uma das melhores neurologistas do país. E eu e sua mãe ficamos anos sem plano de saúde, mas o seu tinha até helicóptero incluso, porque você sempre foi o mais importante pra gente.

E momentos de orgulho monstruoso, como quando você tocava “Smoke on the Water” e “Iron Man” no Guitar Hero, colocando o ventilador em cima, para o cabelo ficar voando, como se fosse guitarrista de banda de rock farofa. E até hoje você pede pra escutar Placebo e detesta música mal feita.

Cresce e floresce com todas as dores e delícias de ser adolescente, mas tem índole, retidão, um sorriso que acalenta qualquer pessoa e é meiga com todos. Boa filha, boa neta, boa amiga. Mesmo com pouca experiência, já sabe diferenciar as sutilezas que a vida impõe.

Vai fazer 14 anos. É minha Pequena, sempre será minha Pequena. Eu não fiz você, mas tenho certeza que aprimorei. E aprimoro. É o orgulho da minha vida. É o arco multicolorido que pinta meus olhos. Como diz aquela música com seu nome, quando tudo parece feito para se quebrar, eu apenas quero que você lembre quem eu sou. E eu te amo. Parabéns.