Pátria de Chuteiras

A globalização gerou equipes de futebol estelares, times que se equiparam e, muitas vezes, superam seleções. Atualmente, temos oportunidade de ver verdadeiros esquadrões dos sonhos forjados com dinheiro, quando antigamente os que timaços existentes eram muito mais obra da inspiração do acaso e da transpiração do treinamento do que moldados pelo vil metal. Mas há um time que destoa desta nova ordem mundial: O Athletic Bilbao.

O Athletic é o legítimo representante do País Basco. Mesmo com a flexibilização de algumas regras, só aceita jogadores bascos ou que tenham raízes bascas em seu elenco, ao contrário de sua maior rival, La Real Sociedad – que aceita estrangeiros, embora não aceite espanhóis. Por isso, reduz as alternativas de mão de obra, recrutando apenas jovens com as características citadas.

Nos tempos de limitações de estrangeiros, o Athletic foi um grande da Espanha, faturando vários títulos e sendo temido pelos rivais Barcelona, Real Madrid e a própria Sociedad. Com a abertura de mercado, o time perdeu espaço e correu, por diversas vezes, o risco de ser rebaixado. Quis o destino que um forasteiro desse à instituição de alma nativista um novo alento.

Marcelo Bielsa, argentino, de família intelectual, conhecido por sua obsessão nos fundamentos do futebol, assumiu o desafio de treinar a esquadra basca e moldá-la ao seu feitio. No decorrer da temporada, transformou um time vacilante em insinuante, que ataca com rapidez e busca o gol a qualquer preço.

De berço influente, cujo irmão Rafael foi Ministro de Relações Exteriores da Argentina e é um dos maiores juristas de direito público da atualidade, além de bom poeta, Marcelo teve intimidade com a delicadeza das palavras e conhecimento, atrelando a isso sua fome eterna em jogar, estudar e aprender os meandros do futebol. O resultado disso é um técnico com características e peculiaridades únicas, conhecido popularmente com o apodo “El Loco”.

Pois El Loco chegou a Bilbao para virar herói, como se fosse um “ballenero vasco”, mito das cantigas locais. A ele, juntam-se os alucinados e ensandecidos que povoam “La Catedral” de San Mamés, torcedores fanáticos que pulsam o time nas veias, bombeando a equipe de encontro aos adversários e transformando o estádio num dos mais sagrados locais profanos do futebol.

Soma-se a este conjunto de fatores uma geração talentosa que conta com ótimos jogadores como Muniain, Susaeta e Llorente, que aprendeu com seu treinador a não desistir nunca e vem demonstrando ser copera y peleadora, a ponto de estar na final das duas competições eliminatórias que disputou, a Copa del Rey e a Liga Europa, buscando um título, uma vez que o doce sabor da vitória há muito tempo não é degustado pela equipe e seus adeptos.

Em Bucareste, na final do torneio europeu, o Athletic encontrará o Atletico Madrid, time que nasceu em sua homenagem. Atletico, o pato feio e primo pobre da capital. Num jogo entre clubes que foram grandes e querem retomar seu lugar entre os gigantes espanhóis. Um jogo de Davi contra Davi, no qual ambos lutam por recuperar a grandeza mas só o Athletic joga pela grandeza e por uma nação.

Este time, cuja camisa é vestida por nativos ao menos na essência, que leva no coração e nos pés a esperança de um povo sedento por afirmação cultural e política, defendendo uma língua rara e marcando sua identidade como poucos outros, chegando até a níveis extremos.

Athletic, a verdadeira pátria de chuteiras, carregando os anseios de uma nação e fazendo o mundo observar uma região que estava sendo notada pelos atentados terroristas do ETA, hoje finalmente relembrada pelo seu futebol. Pela história, por Bielsa, pelo estilo e pelo futebol, essa pátria terá na torcida o reforço carinhoso de muitos amantes da bola no dia 9 de maio de 2012, para que Bucareste seja mais um pedaço do Euskadi.