Ébano, Marfim, Ouro

22 de novembro de 1986. Na África do Sul, em uma Johanesburgo tomada pelo Apartheid, o menino Oscar Pistorius nasceu, e aos onze meses teve parte de suas pernas amputadas devido a uma doença chamada “hemimelia fibular”, a ausência congênita da fíbula.

1º de setembro de 1992. Nascia em Granada Kirani James. Saudável e forte. Mal sabiam os pais que o menino se tornaria a mais explosiva revelação dos 400 metros, o homem no qual a lenda Michael Johnson aposta que irá pulverizar todos os seus recordes.

O menino sul-africano cresceu, o apartheid caiu e a criança branca virou esportista em uma categoria dominada pelos negros. Mesmo com limitações, queria ser um corredor de velocidade. Conseguiu. Com suas próteses, se tornou um grande velocista paraolímpico. Não tardou para se tornar recordista mundial paraolímpico dos 100, 200 e 400 metros. Seus tempos chamaram a atenção do mundo.

O menino granadino acumulou título atrás de título nas categorias juvenis, até chegar em Daegu, Coréia do Sul, e se tornar o mais jovem campeão mundial dos 400 metros na história. Kirani vinha sendo olhado com uma certa desconfiança por causa de sua performance ruim no mundial indoor de 2012, se tornando uma incógnita para Londres. Conseguiria retomar o nível de 2011 – e de toda sua carreira?

Oscar achou que deveria competir entre pessoas ditas normais. A IAAF tentou impedi-lo, alegando que suas próteses lhe dariam vantagem. Na mesquinhez da teia de regulamentos, queriam barrar o sonho de um atleta que já é campeão por não se entregar às dificuldades. Pistorius recorreu e venceu. Não conseguiu se classificar para Pequim-2008, mas garantiu índice para Londres-2012. E se classificou para a semifinal.

Na semifinal dos 400 metros, Kirani James e Oscar Pistorius se encontram na pista do Estádio Olímpico. Pistorius corre; James voa. O granadino ganha a série, enquanto o sul-africano é eliminado. Entretanto,muito maior do que a prova é o que ocorre quando a corrida acaba. O espírito humano dá a prova de sua grandeza.

Em vez de comemorar loucamente, Kirani James pára e se vira para Oscar Pistorius. Pede para trocar sua placa de identificação com a do sul-africano e a anexa, com um orgulho enorme. O estádio vem abaixo. Ao ser entrevistado posteriormente, James diz – com razão – que Pistorius significa um ganho de superação inacreditável ao esporte, além de ser uma grande pessoa fora dele. E garante que vai enquadrar a placa de identificação do amigo. Comovente.

“Ébano e marfim vivem em perfeita harmonia, lado a lado no piano […] nós aprendemos a viver e a dar um ao outro o que precisamos para sobreviver juntos[…]”. “Ebony & Ivory”, interpretada por Paul McCartney e por Stevie Wonder, é a natural trilha sonora de um dos grandes momentos das Olimpíadas de Londres, mesclando igualdade, humildade, respeito e amizade.

Não bastasse Kirani James ter um coração de ouro, daqueles que é descrito na música de Neil Young – embora eu prefira a versão com Johnny Cash cantando – ele ainda coroa o enredo com seu melhor tempo pessoal e a medalha de ouro em Londres. James foi bafejado com o sopro do vento dos Deuses do esporte. Vento tão forte que afetou até outros atletas no Estádio Olímpico, de diversas maneiras – mas isso é assunto para outros textos.

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Gabrielle Andersen

Os primeiros Jogos Olímpicos que acompanhei na íntegra foram os de Seul, 1988. Eu tinha 10 anos e conseguia criar um esquema em casa com despertador e a ajuda inestimável da minha avó, companheira de traquinagens, para assistir os jogos na madrugada. A paixão pelos esportes em geral, herdada do velho, cada vez aflorava mais. Mas meu primeiro e marcante encontro com a competição veio em 1984, Los Angeles, e mudou a minha vida.

Com 6 anos eu era uma criança como a maioria: cruel, egoísta, abusada. Sempre queria competir e ganhar, e não sabia perder. Meus pais enfrentavam a crise no relacionamento, que culminou no divórcio. Isso me deixou ainda mais bravo e arredio.

Daqueles tempos, talvez pelo divórcio dos meus pais, não lembro de quase nada. E os Jogos Olímpicos de Los Angeles não seriam diferentes. Guardo pouca coisa na memória. Lembro da corrida do Joaquim Cruz, ganhando do Sebastian Coe e batendo o recorde olímpico [1:43, nunca esqueci disso, vai saber o porquê]. Lembro do Brasil jogando no futebol contra algum time vermelho – Canadá, acho – e mais uma ou outra competição. Entretanto, há uma lembrança nítida e absurda na minha mente: Gabrielle Andersen.

Não lembro da prova da maratona feminina. Não lembro nem quem foi a medalhista de ouro. Mas a imagem da suiça Gabrielle Andersen, chegando ao fim da prova mais retorcida do que tronco de aroeira, me impactou à época. Eu, moleque, primeiramente me horrorizei com aquilo. Depois, vi as pessoas ajudando a moça e comecei a perceber que vencer não era o mais importante. A partir disso, a competição com meus amiguinhos ficou em segundo plano. E passei a me divertir em vez de tentar simplesmente ganhar. E passei a saber perder. Gabrielle Andersen moldou meu caráter.

A partir daquele dia, o mais importante não era o primeiro lugar, era dar o máximo sempre. Era se divertir e ter a consciência que o meu melhor foi alcançado. Os Jogos Olímpicos são sensacionais porque mostram Moussambanis e Phelps sob a mesma perspectiva e brilho. Como a humanidade deve ser. E isso não é faz de conta. É simplesmente como a vida deveria ser.

Em um mundo corporativo, yuppie, injusto, idiota, é bom ter a semente da justiça e da competição saudável brotando e florescendo, nem que seja de quatro em quatro anos. No meu caso, ela só foi plantada graças a Gabrielle Andersen e seu esforço em honrar o espírito olímpico. E mesmo admirando e batendo palmas para os gênios do esporte, meu olhar sempre terá ternura e carinho reservados a quem honra a grandeza dos Jogos.