A Metamorfose

“Em suma, se eu tivesse agido com sensatez, então nada mais teria acontecido, tudo o que ainda estava para acontecer teria sido logo sufocado. Mas estamos tão pouco preparados!” [Trecho de “O Processo”, de Kafka]

As coisas podem sempre mudar na vida. Às vezes, mudanças são radicais. No mundo do futebol, nenhuma reviravolta foi tão brutal quanto a que ocorreu com Bruno. De ídolo da maior torcida do Brasil a presidiário, o mineiro polêmico hoje é figura esquecida do mundo do futebol e enfrenta um inferno astral atrás das grades da penitenciária de Contagem.

Escrever sobre ele hoje parece inoportuno, visto o tempo de sua prisão e conseqüente afastamento. Mas com o julgamento se aproximando, avaliar sua trajetória é traçar um retrato do que muitos jogadores de futebol estão sujeitos com o deslumbramento e despreparo. Uma metamorfose digna da personagem do livro de Franz Kafka.

Bruno Souza se destacou no Atlético-MG rebaixado no Brasileiro. Posteriormente, foi contratado pelo Corinthians como vaso decorativo, figurante de novela e dublê de corpo, não tendo entrado em campo sequer uma vez. De lá, desembarcou no Flamengo, onde rapidamente tornou-se titular e se destacou ao defender dois pênaltis contra o Botafogo na decisão do Carioca de 2007, tornando-se ídolo.

Quanto mais o tempo passava, mais Bruno tornava-se ídolo da torcida. Foi pilar na milagrosa retomada do brasileiro de 2007, da Zona de Rebaixamento ao 3º lugar; na Libertadores de 2008, consolidou sua idolatria ao marcar um gol importantíssimo de falta contra o Coronel Bolognesi no Maraca lotado; e em 2009, foi um dos heróis do título brasileiro, peça importantíssima na conquista, cujo auge pessoal ocorreu em um jogo contra o Santos, quando defendeu dois pênaltis do jovem Paulo Henrique, então com joelhos, hoje conhecido como Ganso.

Com a fama, as polêmicas. Primeiro, as declarações esdrúxulas defendendo agressões à mulher e questionando quem nunca bateu em uma mulher na vida. Depois, crises de relacionamento no grupo. E após várias noitadas, bebedeiras e, certamente, infidelidades, Bruno se envolveu em um caso de desaparecimento – hoje presumido em morte – de Eliza Samudio.

Bruno misturou o romance – que é romance – com um lance – que é um lance – e foi acusado, junto com sua trupe de amigos, de ser autor de um crime que, se confirmado, é dos mais bárbaros ocorridos envolvendo pessoas públicas no país.

Um ótimo jogador de futebol, famoso, com dinheiro e uma vida inteira pela frente. Bruno se envolveu em uma trama policial cuja teia complexa o aprisionou. O homem acostumado a guardar a meta se envolveu e emaranhou na rede de intrigas que ele próprio criou.

Não se trata de julgá-lo aqui, posto que não temos conhecimento técnico dos autos nem elementos para isso. Entretanto, é nítido que a esta altura do campeonato mais importante da sua vida, Bruno, embora possa ser absolvido, já perdeu a inocência.

Não tem mais a visão do gol e enfrenta a amargura das grades. A pequena área na qual reina hoje é o cubículo da cela. A falta de direção e orientação o levou a onde está hoje, defenestrado do Flamengo, embora ainda seja jogador do clube – com contrato suspenso. Da glória à lama.

E assim, treinando na Penitenciária, aguardando com ansiedade uma sentença favorável, sem saber se voltará ao Flamengo, Bruno vai sobrevivendo. Do goleiro polêmico, sobrou o homem, já condenado e execrado pela mídia. Os amigos sumiram, exceto os também presos com ele.Das mulheres, sobraram apenas as fiéis – porque Bruno tem mais esposa e noiva do que Fabio Junior, com o agravante de ser tudo ao mesmo tempo agora.

Ele é a perfeita caracterização da personagem de Franz Kafka, em edição revista e ampliada. Quando Bruno Souza despertou, certa manhã, de um sonho agitado, viu que se transformara, durante o sono, numa espécie monstruosa de inseto.