Das Certezas e Expectativas

A terceira vez que se encontraram em campo. Como nas outras, vitória do mais experiente e do melhor. Em comum, a admiração mútua e o amor pelo objeto de trabalho. Mais do que labor, ideologia pelo futebol. Eles são o presente e o futuro, e tratam a bola com imenso carinho. Messi e Neymar.

Eles são especiais, é inegável. E tão inquestionável quanto isso é o fato de que o argentino está níveis acima do brasileiro. E não há demérito nisso. O próprio Neymar reconhece. Se coloca como aprendiz, enquanto Messi é mestre. Mas ambos, certamente, são fora de série.

Na peleja de ontem, Neymar jogou bem. Messi foi monstruoso.  O brasileiro participou de dois gols; o argentino fez três – barba, cabelo e bigode. E um momento do fim do primeiro tempo – no lance do gol de empate argentino – ilustra perfeitamente a diferença entre os dois.  Neymar dribla um caminhão de portenhos, é acossado ferrenhamente e poderia concluir, mas acaba se rendendo à irritação e perde a chance.

Messi, ato contínuo, recebe a bola, parte em disparada e tal e qual um perfil de twitter deixa um monte de seguidores brasileiros atrás de seus passos. A Pulga e a bola, amor sem fim. Gol.

Como este, depois houve mais dois, ambos importantes e que sacramentaram a vitória argentina por 4-3, em um jogo que o Brasil foi superior enquanto conjunto, mas cuja estrela que brilhou era Albiceleste.

Há a pretensa discussão se Neymar é melhor do que Messi. Não é. Messi está num patamar de debates de mesa de bar onde seu nome figura ao lado de Pelé, Garrincha e Maradona. Neymar começa a se aconchegar no escalão de Zidane, Van Basten, Romário, Platini, Zico, entre outros.

Messi é único. Monstro. Gênio. Neymar é craque. Talvez seja único. E talvez seja gênio. O argentino é. O brasileiro pode ser. O que não desmerece o Sonic Caiçara, apenas o coloca alguns degraus abaixo da Pulga, mas muitos, quase infinitos degraus acima de um jogador comum.

Ainda há um desfiladeiro de talento entre Messi e Neymar. Em seus clubes, como estrelas e protagonistas, ambos brilham. Obviamente o argentino tem melhores coadjuvantes, mas seu brilho individual, a garra em continuar as jogadas e como ele usa seu dom para o jogo coletivo são atributos sensacionais, coisa que o brasileiro tem de – e deve – aperfeiçoar

Felizes somos nós que podemos observar vários grandes monstros em diversos esportes no século XXI. Messi certamente é um deles. Neymar claramente pode vir a ser um deles. Ambos têm algo especial. Só que Messi é um Mestre Jedi e Neymar ainda é um Padawan. Faz um grande estrago, mas é “apenas” um Padawan.

Que o tempo o faça evoluir, assim como fará – ainda mais – a Messi. E que venha o dia do confronto em nível máximo, para nosso deleite, para que seja daqueles fatos que se conta aos netos. Quando o presente e o futuro irão se entrelaçar. Mas hoje, um é certeza. O outro é uma – bela – expectativa.

Tic Tac

O Brasil é o país da contradição. Mais do que a hipocrisia, a contradição molda e ambienta todo nosso modus vivendi. Camadas e camadas de pessoas que teimam em se achar diferenciadas, água e óleo, quando são apenas pessoas.  Nesta pátria partida, a evolução social e financeira vem causando a inevitável queda da máscara da hipocrisia e, com isso, se aproxima o momento de uma verdadeira convulsão social, que hoje, embora ainda seja silenciosa, já começa a emitir seus primeiros murmúrios.

Com a estabilidade da moeda iniciada no governo de Fernando Henrique e perpetuada nos governos Lula e Dilma, o povo brasileiro de qualquer classe social passou a poder sonhar e se planejar. Os governos Lula e Dilma adicionaram a esta mistura um componente social importante, que permitiu às camadas sociais mais pobres finalmente respirar o ar da modernidade e viver com mais conforto e dignidade do que jamais viveu.

Além disso, a jovem democracia agora debutante permite as mais diversas formas de expressão e inclusão. E, curiosamente, a soma de evolução social com evolução da liberdade de expressão abre uma rachadura irreparável na lenda de que o brasileiro é um povo tolerante, compreensivo e sociável. Não é. E isso é comprovado desde as senhorinhas pudicas de Higienópolis até os playboys de Boa Viagem, passando pelos pitboys da Barra da Tijuca, todos irmanados em serem irascíveis.

A moda do momento no Brasil é o maniqueísmo. Uma moda vintage, eu diria. Esquerda contra direita, cotas contra anticotas, a favor do aborto, contra o aborto, velha classe média contra nova classe média. A tentativa de impor posições e rótulos no grito, para mostrar que sua posição é onisciente, como se houvesse apenas uma face da moeda. O debate é esquecido, não existe mais, o que comprova que toda a evolução social e financeira não esconde uma falha grave e letal na formação do caráter da atual sociedade brasileira: A involução da educação.

O país que trata professores como prostitutas, obrigando profissionais dedicados a trabalharem em diversos lugares e fazerem jornada tripla para viverem com um mínimo de dignidade, pois seu salário é ridículo. O péssimo trato ao professorado é uma chaga indelével e nefasta do governo de FHC, que Lula e Dilma não corrigiram. E o impacto disso se reflete de forma cada vez mais cristalina em nosso convívio social.

Cada vez menos jovens querem ser professores. Cada vez menos educação é dada em casa e, com menos docentes, o nível educacional decai. E assim, vamos criando uma sociedade cada vez menos educada e mais involuída, num paradoxo gritante com a evolução social e financeira.

Sem educação, com ignorância, com truculência. É assim que opiniões divergentes hoje se tratam no Brasil. Uma das maiores virtudes que qualquer sociedade pode ter é o bom senso. E esta virtude é solenemente ignorada no país. Pegando o gancho de uma discussão recente, cada vez mais o corpo social brasileiro é anencéfalo.

Assim, com mais informação, com mais dinheiro, com mais pessoas podendo se expressar, mas sem um pingo de educação e respeito, nosso país vai se tornando uma ode ao confronto  entre classes, uma bomba-relógio prestes a explodir e que, caso seja acionado o detonador, pode expor ainda mais a fratura horrenda do caráter de nossa sociedade. Tic Tac.