Inimigos Íntimos

Em semana de Fla-Flu, nada melhor do que escrever sobre um dos clássicos mais bonitos do mundo. Vamos mexer no baú…

O Flamengo nasceu do Fluminense. Deste instinto maternal, é parida uma das mais atrozes rivalidades do rubro-negro, imortalizada até no hino. Neste Édipo-Rei redesenhado, dois gigantes se entrelaçam numa relação familiar.

O Fla-Flu é o clássico mais colorido do Brasil. O vermelho, o negro, o verde, o grená e o branco se unem numa festa que disfarça a tensão que sempre cerca este jogo.Não há um clássico que não seja marcante. Os torcedores de ambos sempre terão na mente um Fla-Flu especial no qual viveram uma emoção inesquecível.

O que move Flamengo e Fluminense rumo ao panteão da rivalidade é o extremo. Como um filho rebelde, um é o oposto do outro. De um lado, a raça, do outro a beleza; de um lado o povo, do outro a elite; de um lado Mario Filho, do outro Nélson Rodrigues. Claro que hoje em dia a democracia e a miscigenação fazem com que as linhas anteriores sejam meros estereótipos – e é saudável que seja assim – mas o clichê permanece alimentado pelos próprios torcedores dos times.

As decisões de Fla-Flu são mágicas. Sempre há um fato a ser guardado no livro da história do futebol. Um pênalti defendido que pega efeito e entra, um gol de barriga no fim do jogo, um voleio aos 44 do segundo tempo, uma virada imponderável e sobrenatural. Não existe uma decisão entre os rivais que seja normal. Como numa relação entre mãe e filho, absolutamente cada momento é especial.

Das arquibancadas onde as torcidas cerram fileiras, a respiração sempre será presa. O coração sempre baterá mais rápido e, por vezes, irá parar. A cada jogo, a cada decisão, a mística das cores se misturando em uma nuvem de competição acirrada será mais e mais espessa. Não é uma mera rivalidade, é uma questão familiar. É mais do que clubístico, é genético. É provar a supremacia de um lado sobre o outro, para que quem perca saiba que jamais deveria ter se separado. É uma inimizade íntima, pessoal e passional.

Mario Filho criou o termo Fla-Flu. Mal sabia ele que tão poucas letras significariam tanto. Nelson Rodrigues dizia que o Fla-Flu começou 40 minutos antes do nada. Tomo a ousadia de ampliar a definição e dizer que o Fla-Flu terminará 40 minutos depois de tudo. É mais que um jogo. É a defesa de uma honra. É provar que o inimigo íntimo é mais fraco. É fazer, na explosão de cores do jogo, que as cores de seu pavilhão brilhem mais, deixando as outras opacas. Se um dia o Fla-Flu for normal, o futebol terá deixado de ser futebol.

[Publicado originalmente no “Bola Pra Quem Sabe”, na série Trilogia das Rivalidades, em XX.3.2012]

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