Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XVI – Das Fraudes

[Nada escrito neste texto é inverídico. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. São depoimentos reais de cafajestes atuantes, em remissão, aposentados, mas sempre, sempre com o gene da cafajestagem como dominante]

Ser cafajeste demanda muito trabalho. É uma arte milenar, burilada e lapidada no âmago da malemolência. Como diria Baden e Vinicius – dois cafajestes notórios – no “Canto de Ossanha”, o homem que diz “vou”, não vai, porque quem vai mesmo não diz. O cafajeste até diz que é, mas nunca parece ser. A cafajestagem é um drink emocional com doses bem divididas de canalhice, cretinice, lealdade e quetais. Uma dose equivocada e dá uma dor de cabeça danada.

Certa vez, em uma mesa redonda formada por cafajestes em remissão – a cafajestagem é um comportamento autoimune, ela pode até estar adormecida, mas nunca sai do interior dos raros hospedeiros – se discutiu a tendência e necessidade atual deste arquétipo. Como é um tipo valorizado, estão tentando vendê-lo como moda, tendência, como se fosse um Nauru do início dos anos 90, uma calça de bali, uma tiara de flores, uma cerveja artesanal.

Portanto, você, leitor ou leitora que tem uma queda inexorável por cafajestes, tem de saber que há fraudes por aí. Em todos os lados, todos os setores. A verdade está lá fora. O cafajeste, tal e qual o papa, é pop. E, vocês sabem, o pop não poupa ninguém.

Hoje, os diários secretos da cafajestagem apresentam pequenos relatos feitos por experts na área, do sexo masculino e feminino, que não serão identificados pela preservação das identidades e da – má – reputação.

São 4 tipos comuns de fraude, que sempre, incontáveis vezes, conseguem engambelar o incauto. Observem essas dicas, pois podem ser muito úteis naqueles momentos garotos, marotos, travessos e podem evitar o gosto amargo da desilusão. [Aviso: Não se pode reclamar de cafajestagem no Procon. Você compra o que você acha que vê]

Importante ressaltar que até cafajestes experimentados já se utilizaram de movimentações fraudulentas. Ninguém é inocente neste mundo, jovens. Então, não é uma questão territorial. Às vezes, é até um mea culpa, ou culpa inteira, quiçá culpa e meia. Importante dizer que a fraude da cafajestagem pode até ser entendida como um tipo diferente de cafajestagem, vegetariana, digamos assim. Não há um julgamento sobre quem usa esta
artimanha. Cada um joga o jogo com a bola que tem.

O cara do violão: Normalmente, sempre há um cara do violão. Ele, nas festinhas, puxando um sucesso da época, para encantar inocentes que acabam caindo naquela ladainha cifrada. Entre lá, si, dó, uma pestana mal colocada, aquele olhar lânguido dizendo que é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, querendo demonstrar toda a habilidade musical que o levaria no máximo ao programa de Calouros do Raul Gil. Este é um tipo que hoje em dia normalmente usa barba e canta músicas de bandas pretensiosas, com temas sensíveis demais – pois ele é alguém que chora.

O poeta/escriba/cronista das belezas femininas: Esta é uma fraude refinada. Sempre com aqueles escritos sob medida, como se fosse um tailleur espiritual. Valoriza a imperfeição, a rejeição, o talento, com muita maestria. Como se fosse um disco do AC/DC, faz várias variações sobre o mesmo tema. Conta com a benevolência de quem ouve/lê, porque o discurso encaixa perfeitamente no desejo. E aí, como diria o filósofo moderno, créu. O alvo, inebriado, e já na querência, não tarda a cair. É um tipo mais raro, porque demanda habilidades de escrita, inclusive para fazer a tática Zinho em 94: rodar, rodar, rodar e parar no mesmo lugar – a cama.

O polêmico: Aquele que sempre entra na discussão com uma visão absolutamente diferente de tudo que se viu, imaginando fazer um voleio de Bebeto contra a Argentina em 1989, mas na maioria das vezes elaborando um cruzamento do André Santos. Mesmo assim, chama a atenção pela opinião firme e personalidade forte, dando um ar de sapiência naquele momento da conquista. É uma fraude que exige esforço porque é não é uma fraude-arte, uma fraude moleque, uma fraude toco y me voy. É uma fraude científica, que exige tática para saber o melhor momento para atacar. É a tentativa que a cafajestagem força tenha sucesso sobre a cafajestagem malemolência [no pasarán]

O ativista de ocasião: Essa é uma fraude nova, que veio com a evidência do terceiro setor, das ONGs, da consciência social, das manifestações. Sempre a favor de uma causa que mexa com o seu alvo. Com seu conhecimento tão profundo quanto a banheira do Gugu, vai desfiando palavras de ordem para deixar o coração em desordem. Quando consegue seu intuito, demonstra ser uma pessoa comum, até mesmo com vícios e preconceitos incomuns e aí, parte para um novo ativismo/alvo, com suas botas vermelhas, seu casaco de general, alguns broches e anéis. É um tipo de fraude polêmica – embora faça bastante sucesso, pois envolve um mosaico de personalidade que não nos cabe julgar aqui, nem em canto algum.

Esses tipos andam por aí, entre nós. Podem inclusive ser um de nós. Portanto, ao se encantar com um cafajeste por aí, leitor ou leitora, lembre-se que ele pode ser uma fraude, contra a qual você não pode pedir ressarcimento. Divirta-se, mas fique de olho. Boa noite. E boa sorte.

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O capítulo I dos Diários Secretos da Cafajestagem, “La Bombonera”, está aqui

O capítulo II dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Reveillón”, está aqui

O capítulo III dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Falha”, está aqui

O capítulo IV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Evidências”, está aqui

O capítulo V dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Impedimento”, está aqui

O capítulo VI dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Urucubaca e Pênalti”, está aqui

O capítulo VII dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Cultura da Sacanagem”, está aqui

O capítulo VIII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Nome Artístico”, está aqui

O capítulo IX dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Churrasco”, está aqui

O capítulo X dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Aniversário”, está aqui

O capítulo XI dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Consórcio”, está aqui

O capítulo XII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Toalha”, está aqui

O capítulo XIII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Miscelânea”, está aqui

O capítulo XIV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Putão”, está aqui

O capítulo XV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Cachê”, está aqui

 

 

Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XV – Cachê

Eles sempre tinham um ponto de encontro pós-noitadas, bebedeiras e, certamente, cafajestagens. Aquele bar à beira-mar, na altura do Lido, tinha chopp gelado e havia sido testemunha ocular de grandes romances, quebra-paus e gargalhadas. Nada mais natural de ter se tornado o quartel-general de um bando de canalhas.

Ademais, aquele mesmo bar tinha a característica de ser o local da happy after hour das moças pós-trabalho na Help, na rua, nas boates da Prado Junior e localidades afins. Ao fim do expediente, elas iam pra lá relaxar, partilhar experiências, beber um chopp gelado e paquerar.

Sim. Paquerar. Porque trabalho é trabalho, romance é romance, amor é amor e um lance é um lance. Ali era campo neutro, fora do horário de expediente. Um xamego e um xodó valiam tanto quanto algumas notas de dólar amassadas. Unindo o útil ao agradável com o chopp gelado, muitos casais fugazes de apenas uma noite se formaram naquelas mesas e balcões.

Muitas vezes nem se viam mais. Em algumas viravam casais eternos, leais, ciumentos e confidentes com a duração de poucas horas. Ninguém esperava nada daquele fim de noite, que poderia se tornar a parte mais interessante da saída. Certa vez, eles estavam no bar e já começavam aqueles movimentos típicos do xadrez entre os possíveis casais. Um deles, observando – e bebendo – fixamente seu sexto chopp, viu adentrar uma mulher estonteante.

Com sorriso de comercial de pasta de dente, simpatia de comercial (011) 1406 e uma malemolência que faria Michael Jackson ter uma ponta de inveja, ela pediu um chopp como se estivesse em um filme francês, tamanho charme. Ele a observava e já tinha engatilhado todo seu estoque de cantadas para que pudesse observá-la. Ela o fitou nos olhos e naquele momento tudo parou, virou clichê, tocou música de Julio Iglesias e filme de John Woo, com todos os presentes em câmera lenta.

E ele gastou sua saliva, seu repertório, seu latim e ela se mostrou muito acessível. Ela sapecou-lhe um beijo na boca, tão inesperado quanto correspondido. Galvão e seu “É tetra!” já ecoavam em sua mente. A vitória estava quase garantida. Tomou coragem e a chamou para da um passeio.

Era a senha para ser feliz. Se levantou, os amigos bateram palmas. Era o gol do fantástico, o assunto que permearia a mesa de bar por dias, semanas e seria lembrado nas próximas gerações. De mãos dadas, na porta do bar, começam a travar um singelo diálogo.

– Meu amor, você vai me levar pra onde?
– Naquele motelzinho ali, é simples, mas gostoso. Vamos curtir o momento e depois ver o amanhecer no
Arpoador.
– Tá. Mas olha, meu cachê é de R$ 250,00

Cachê?! Cachê?!?!?! Havia uma regra não-escrita na qual não se cobrava cachê ali. Ela estava ferindo a regra. Mas naquela hora, não poderia recuar. Não havia dinheiro suficiente para o cachê, apenas malemolência para curtir a situação. Tinha de pensar rápido. E pensou.

– R$ 250,00?! Tá bom.
[ela o beija demoradamente]
– Minha gata, vamos nessa, mas você está me devendo R$ 50,00.
– R$ 50,00?! De que?!
– Meu cachê é de R$ 300,00. Já que você faz por R$ 250,00, te dou um abatimento e você só me deve R$ 50,00.

O estampido do tapa na cara foi ouvido no bar inteiro. Enquanto ele era xingado, as amigas explicavam que naquele bar não era hora de trabalho, mas sim de descanso. Até os mal-entendidos serem desfeitos, foram alguns minutos.

Ela decidiu ir pra casa, não sem antes se desculpar e dar o telefone a ele, caso ele precisasse de um relax depois. Ele foi consolado por uma amiga dela, que se sentiu compelida a reverter o quadro. E os amigos gargalham e contam essa história até hoje.

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O capítulo XII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Toalha”, está aqui

O capítulo XIII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Miscelânea”, está aqui

O capítulo XIV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Putão”, está aqui

 

Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XIV – Putão

[Nada escrito neste texto é inverídico. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. São depoimentos reais de cafajestes atuantes, em remissão, aposentados, mas sempre, sempre com o gene da cafajestagem como dominante]

Estava tudo certo para o churrasco que se avizinhava. Aniversário de um deles, comemoração grande, coisa de 100 pessoas. Carne comprada, cerveja também. Som garantido, um ziriguidum ali, um pancadão acolá, os amigos – e as amigas – convidados, tudo nos conformes, exceto pelo céu chumbo que se avizinhava.

– Ih, caralho, será que vai chover?
– Vai nada.
– Porra, tu é meteorologista?
– Não.
– Então como é que tu sabe que não vai chover?
– Eu tenho um pacto com o cara lá de cima.

Caiu um temporal durante a madrugada, mas o certo é que – com renegociação do pacto ou não – o dia amanheceu bem ensolarado. O churrasco começou sem grandes percalços, e com muita diversão.

Um deles não aguentava mais beber e decidiu ir pra casa descansar, enquanto os outros continuaram uma baratona que duraria a eternidade de uma madrugada, com direito a tombos escalafobéticos no gelo e no box blindex classic sesosbra realizados por uma mesma pessoa, que poderia ter virado dublê – fontes dizem que foi o narrador desta história, que desmente categoricamente tal fato, inclusive apagando essas linh… continuemos.

Entre 3 e 4 da manhã, pegam o telefone para ligar para o amigo desertor:

– Tuuuu.
– “Oi, você ligou para a casa da avó do amigo, deixe seu recado na caixa postal que retornaremos assim que pudermos”
– E aí, putããããããão, foi embora, né? Desertor. Sabe aquela menininha que você curte? Ela está aqui perguntando por você. Que vacilo, hein? Alô, putãããããããão, devia ter ficado com a gente. Da próxima vez fica com a gente, putão.
– Piiii.

O amigo já estava dormindo chapado em casa e não escutou a secretária eletrônica…

… entretanto, a avó dele acordou cedo para ir à missa. Antes disso, viu aquele pisca-pisca vermelho no aparelho telefônico e foi checar a mensagem. Nada disse.

Ao voltar pra casa da Missa, a avó o encontrou tomando café.

– Oi, Vó, bom dia.
– [ela olha e coloca a bolsa no apoio, antes de se sentar]
– Tudo bem vó? Como foi a missa?
– Foi tudo ótimo, putão. E o seu churrasco, foi bem?

Ele não sabia onde enfiar a cara…

– Seus amigos deixaram uma mensagem na secretária eletrônica pra você.

E enquanto ele ouvia a mensagem, apenas uma expressão passava pela sua cabeça: “filhos da puta”.

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Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XIII – Miscelânea

[Nada escrito neste texto é inverídico. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. São depoimentos reais de cafajestes atuantes, em remissão, aposentados, mas sempre, sempre com o gene da cafajestagem como dominante]

– E aí, galera? Tudo beleza? Desce uma cerveja aí, camarada. O que me contam?
– Estamos aqui conversando sobre essas modernidades de avaliação de homens e mulheres.
– Cara, besteira. Alguém se importa?
– Não, nem um pouco.
– Embora eu seja adepto do “Teorema da Tailândia”.
– ?
– O que acontece na Tailândia, fica na Tailândia. E o mundo, caras, o mundo é uma imensa Tailândia.
– E quando você comenta com a gente sobre as queridas?
– Vocês estão retirando do contexto.
– Hum. Entendo. Conte-me mais.
– Eu sou o protagonista da minha vida. Vocês são os coadjuvantes que alegram, como se fossem uns Morgan Freeman. Então, o protagonista sempre conversa com o Morgan Freeman. Apenas isso. Sem segunda intenção.
– Sei. Faz sentido, mas você deveria parar de beber.
[gargalham]

* * *

– Já eu prefiro o “Teorema de Alexandre Pires”.
– Cuma?
– Mineiramente a gente come quieto, come mais e come duas vezes.
– Claro. Danado.
– É sério.
– Tô quase acreditando.
– Pois acredite. Cunhado.
– Cunhado?
– Eu não te contei, você não sabia. Tá vendo como o teorema funciona?
– Mas que filho da puta.

* * *

– Mas, então, lembram daquela guria?
– Putz, ela é muito gata.
– Me mandou umas fotos.
– Fotos?
– Sim, fotos.
– Porra, compartilha com a gente.
– Não.
– Sou contra também. E se fosse pra ver fotos e imagens, prefiro ver filme pornô. Esse negócio de fotos amadoras é complicado. Tem de saber proteger quem confiou.
– Justo.
– Mas nem uma espiadela?
– Também acho que não tem que mostrar foto não. Foto de mulher nua é que nem maconha: Se for pra consumo próprio, é sossegado, se for pra distribuir, é criminoso.
– Vocês são cheios das expressões de efeito.
– Claro.
– Então vou soltar uma expressão de efeito: “Vão à merda”.
– Você está muito beligerante. Sossega o facho. Agora paga a cerveja.

* * *

– E ela, o que você acha?
– Charmosa. Eu pegaria.
– Eu também.
– Eu também.
– Eu não, não faz meu estilo.
– Hum. Estilo. Sei.
– É. Estilo. Você vai querer regular meu estilo.
– A verdade é que há homens na vida que se aproximam do camisa 10 clássico, sempre com estilo, assinatura, buscando a plasticidade do lance.
– …
– Outros são como camisas 9, matadores, trombadores, limpra-trilhos, feio é não fazer o gol, DNA de Charles Miller, o que importa é a bola rolar.
– Isso está interessante.
– Alguns jogam na cabeça de área ou na zaga, são mais contidos, tímidos, defendem o amor de toda a vida, vestem a mesma camisa sempre.
– Faz todo sentido.
– Vocês se encaixam em algum desses arquétipos.
– Eu não.
– Não?
– De jeito nenhum.
– Porra, claro que se encaixa. Qual é sua teoria?
– Nenhuma teoria, neste time aí eu jogo de libero.
– ?!
– Amigo, eu sou feio, desprovido de charme e chato. Enquanto vocês debatem se são 9 clássicos, 10 matadores e vice-versa, eu fico de libero. Saio jogando na sobra, sempre.
– Ah, deixa de história.
– Sério. Faço meu papel de líbero com perfeição. Enquanto vocês disputam o papel de bola de ouro, eu fico lá, dizendo que o defeito é lindo, que a calcinha de algodão é bela, que o sorriso desdentado tem o vácuo do amor. Sou uma fraude, mas a canalhice colarinho branco tem valor.
– Mas que filho da puta.
[gargalham]

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O capítulo VI dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Urucubaca e Pênalti”, está aqui

O capítulo VII dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Cultura da Sacanagem”, está aqui

O capítulo VIII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Nome Artístico”, está aqui

O capítulo IX dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Churrasco”, está aqui

O capítulo X dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Aniversário”, está aqui

O capítulo XI dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Consórcio”, está aqui

O capítulo XII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Toalha”, está aqui

Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XII – A Toalha

[Nada escrito neste texto é inverídico. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. São depoimentos reais de cafajestes atuantes, em remissão, aposentados, mas sempre, sempre com o gene da cafajestagem como dominante]

– Cara, ela é linda.
– Sim, é linda mesmo.
– Estou cortejando fortemente, preciso sair com essa mulher.
– Bicho, você não vai conseguir.
– Claro que vou conseguir, como não vou?
– Ela é loira, olhos verdes, parece a Michelle Pfeiffer e você, embora seja um rapaz ajeitado, bem… é você.
[gargalhadas]
– Isso é coisa que se diz de um amigo?! Vocês deveriam me apoiar, serem camaradas, apostar no meu potencial.
– Olha, eu não duvidaria dele não. Já fisgou altas gatas.
– E também já ficou com meninas não tão bonitas.
– Amigo, não é só a beleza que traz felicidade, é todo um conjunto. Na artilharia do amor, não dá pra ficar escolhendo. Pelé só fez gol de bicicleta nessa vida?!
– Sejamos realistas, você está mais para Dadá Maravilha do que pra Pelé. Às vezes até Obina.
– É verdade, mas ainda assim é preciso ser feliz. Esse negócio de só querer namorar musa é palhaçada. O importante estar bem, à vontade, com uma mulher com M maiúsculo ao lado.
– E outra coisa, esse discurso lembra discurso de coluna de jornal ou programa de rádio de notícias. Você já foi mais canalha do que isso nesta vida. Essa cafajestagem estilo paz e amor é uma inovação.
– É desse jeito que eu penso, cara. Não tenho grana, nem tenho a lataria bonita, tenho que valorizar esses aspectos da vida para poder ser feliz.
– Hum, filósofo. Entendo. Mas conte-me mais, você vai mesmo investir na loirona? Porque é um golaço, hein?
– Vou. Ela é gente finíssima, gatíssima e merece. Mesmo que eu não namore com ela, serão bons momentos.
– Essa eu quero ver. Sei do seu histórico, mas sinceramente, eu duvido que você consiga.
– Mas que calhorda!
– Calhorda, não. Realista.

* * *

Durante duas semanas, o investimento na menina foi intenso. Devagar e sempre, conquistando e cortejando, aos poucos. Ela foi seduzindo e sendo seduzida. Cedendo aos gracejos. A verdade inexorável é que não adianta ser grosseiro com mulher. A gentileza e a perspicácia sempre vão ganhar da ignorância. Não é força, é jeito.

Outra das grandes verdades é que o poder de escolha do início de qualquer relacionamento, seja fugaz ou duradouro, é de uma mulher. Amor é essencialmente matriarcal. Qualquer argumento em contrário é mera ilusão. Gostamos de nos iludir, mas há horas em que o jogo é jogado e a verdade aparece. Alea Jacta Est.

O resultado do investimento desembocou num cinema, um almoço, uma matada no trabalho. Marcaram um motel numa tarde de sexta-feira. E foi um encontro demolidor, uma pororoca, consonantal. O negócio encaixou. E deitados na cama, embalaram a conversa:

– Meus amigos não acreditaram que eu fosse te conquistar.
– Bem, a gente dá choque há meses, era difícil não ficarmos juntos.
– Pois é, mas sabe como é, eles não valorizam.
– Enfim. Eu adorei. Quero repetir mais vezes.
– Pois vamos repetir. Muitas vezes.
– Você vai à festa da faculdade hoje?
– Vou.
– Vamos juntos?
– Sim, claro.
– Inclusive vou dar uma sacaneada nos seus amigos?
– Vai? Excelente! Posso sugerir algo?
– Claro que vou. O que você me sugere?

E então combinam a doce confirmação do sucesso do encontro.

* * *

Chega a hora da festa e os canalhas estão reunidos no bar de sempre, atendidos pelo garçom de sempre e tomando a cerveja de sempre. Eles chegam juntos, de mãos dadas. Todos se entreolham.

– Hummmmmmmmmmmmmmmm.
– Ei, vem cá. Ela quer falar contigo.
– Oi gatona, tudo bem? Vocês fazem um bonito casal.
[ela abre a bolsa]
[pega a toalha do motel]
[entrega]
– Foi uma tarde excelente.
[gargalham]
– Mas que filho da puta!
– Agora nos pague uma cerveja. Falei pra você não duvidar da gente.

Foi uma grande festa. Eles ainda saíram juntos por um tempo, depois se tornaram grandes amigos. E essa história entrou pro anedotário dos cafajestes. A toalha ficou guardada por anos, até que…

… um dia, os amigos iam para um casamento de outro dos amigos e se reuniram na casa daquele que ficou com a toalha, que ficava na região central da cidade. Com anos de amizade, a mãe dele tinha virado a mãe de todos. Usaram as toalhas e colocaram pra secar, até que a mãe dele, por acaso, passou pela copa enquanto eles se arrumavam pro casório. Quando ela checou o varal…

* * *

– Meu filho, você anda roubando toalha de motel?
– Mãe, deixa eu te explicar. Não fui eu, é que…
– Não tem que explicar nada! Sabe quem é o dono desse motel? É o Manolito! O Manolito é amigo da família! Como eu vou explicar se um dia ele vem aqui e tem uma toalha de motel roubada na minha casa!
– Mas mãe…
– Tome vergonha, meu filho! Não te criei pra isso, roubar toalhas de motel! Graças a Deus temos condições. Isso é uma vergonha.
– Cara, que vergonha, roubando toalha de motel… lamentável…
– Porra, não faz isso não. Foi você quem pegou a toalha, diz pra minha mãe, cara. Deixa de ser filho da puta.
– Ei, só porque sua mãe tá brigando contigo, tu vai xingar a minha mãe? Mancada.

[gargalham]

– Isso é verdade? Meu filho não roubou a toalha?
– Tia, isso é uma longa história…

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O capítulo IV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Evidências”, está aqui

O capítulo V dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Impedimento”, está aqui

O capítulo VI dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Urucubaca e Pênalti”, está aqui

O capítulo VII dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Cultura da Sacanagem”, está aqui

O capítulo VIII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Nome Artístico”, está aqui

O capítulo IX dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Churrasco”, está aqui

O capítulo X dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Aniversário”, está aqui

O capítulo XI dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Consórcio”, está aqui

Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XI – O Consórcio

[Nada escrito neste texto é inverídico. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. São depoimentos reais de cafajestes atuantes, em remissão, aposentados, mas sempre, sempre com o gene da cafajestagem como dominante]

[Em uma reunião no bar da faculdade…]

– E aí, galera?
– Fala, beleza?
– Tudo na paz. Como está essa força?
– A solteirice consumindo, tá complicado. Vida de estagiário não é fácil, não sobra dinheiro pra nada. No máximo, estou no estilo Bozo, só nas bicotas.
– Todos nós estamos passando por isso. Tá difícil até pra paquerar, nunca tem uma graninha, pro cineminha, prum jantarzinho, nada…
– Tá complicado.
– Traz mais duas cervejas aí.

[cês vão pendurar essa porra ou pagar?]

– Pera, deixa a gente contar umas moedas aqui.

* * *

– Tive uma idéia para sairmos desse miserê sexual.
– Qual?
– Vocês conhecem aquele site de acompanhantes, o Classe A?
– Claro, sonho de consumo, só modelos ficha-rosa.
– Que isso, não seja chulo. É escort girl.
– Que babaquice, porra. Esses nomes de gourmet. Respeitem as moças.São mulheres lindas. E que cobram alto. E isso é um problema: Se eu não tô conseguindo nem pagar o motel, como é que vou sonhar com uma coisa dessas?
– Tenha calma, tenho a solução pra isso. Vocês sabem que eu estagio em banco. Estou responsável pela parte de consórcio…
– E?
– É o melhor mecanismo para se conseguir sonhos gastando pouco. Sem juros, sem gasto exorbitante, sem nada.
– Como funciona?
– Simples. Somos em sete. Me dá seu telefone aí? Ele tá com créditos? Já explico.
– Toma, tenho uns bônus de ligação.

[liga pra moça]
[conversa]
[debate sobre valores]
[se despede com um beijo]

– Então, por 3 horas de companhia, R$ 700,00.
– Somos em 7, então cada um dá R$ 100,00 por mês. Fazemos um sorteio. Quem sair, tem direito ao sonho do mês. Os outros vão pela ordem.
– Que idéia genial!
– Eu sei, mereço até não pagar a conta hoje.
– Nem fudendo, vai pagar sim.
– Eu tenho uma dúvida, precisamos fazer um contrato disso.
– Contrato? Somos amigos, que coisa de traíra!
– Não. Temos de colocar as cláusulas bem claras. Se porventura começar a namorar após o início do consórcio, tem que continuar contribuindo.
– Alguém se opõe? E se não usufruiu, como fica?
– Aí cabe à responsabilidade de cada um, se vai retirar o prêmio ou não. Qualquer coisa, pega a grana. Todos de acordo?
– Sim. E tem mais, não podemos ficar com a mesma garota, pra termos assuntos diferentes na mesa.
– Essa é uma cláusula elitista, hein? Mas tudo bem.
– Quem ganha o sorteio tem direito a prioridade na seleção?
– Tem.
– E o que mais no contrato, senhor legalista?
– O de sempre, sem fotos, sem registros. Ok?
– Ok.
– Amanhã no escritório eu faço o contrato.
– No escritório é um cacete. Contrato entre amigos, feito no bar, merece papel especial. Angelim, traz o papel toalha aí!
[o garçom traz o papel toalha]
[Escrevem os termos. Todos assinam]
– Cuidado com a mesa molhada, porra. Esse contrato é algo sério.

* * *

E foi assim que aqueles 7 estagiários, um por mês, durante 7 meses, tiveram a oportunidade de conhecer, até aquele momento, a companhia das mulheres mais estonteantes de suas vidas.

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Baseado em argumento do brother Renato

O capítulo I dos Diários Secretos da Cafajestagem, “La Bombonera”, está aqui

O capítulo II dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Reveillón”, está aqui

O capítulo III dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Falha”, está aqui

O capítulo IV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Evidências”, está aqui

O capítulo V dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Impedimento”, está aqui

O capítulo VI dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Urucubaca e Pênalti”, está aqui

O capítulo VII dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Cultura da Sacanagem”, está aqui

O capítulo VIII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Nome Artístico”, está aqui

O capítulo IX dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Churrasco”, está aqui

O capítulo X dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Aniversário”, está aqui

Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo X – Aniversário

[Nada escrito neste texto é inverídico. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. São depoimentos reais de cafajestes atuantes, em remissão, aposentados, mas sempre, sempre com o gene da cafajestagem como dominante]

Era o aniversário de um dos cafajestes. Todos marcaram para comemorar num quiosque em Ipanema. Celebrar algo no point da cocotagem Zona Sul não era lá algo muito agradável. A maioria deles achava algo como futebol-arte, escanteio curto, coração aberto e amor platônico, uma coisa de gourmet. Mas amizade supera essas coisas.

Todos foram chegando calmamente ao lugar marcado. Noite agradável de sábado. Havia algumas vantagens naquele lugar. O desfile de mulheres bonitas era ininterrupto, propiciando um belo colírio contrastando com o céu estrelado. Os chopps começaram a descer suaves e gelados.

De repente, estaciona em frente ao quiosque um carro conversível. De lá sai um coroa. Normalmente, ou se tem dinheiro ou se tem juventude para andar num carro desses, raramente ambos vêm de braços dados. Ele estava lá, com seus 50 anos bem vividos, banhado em perfume. Relógio de ouro, cordão aparente e – mais impressionante – com duas morenas lindíssimas a tiracolo.

Todos olharam para o conjunto da obra e, obviamente, para as duas morenas. Ambas lindíssimas, com corpo espetacular, daquelas que não pegavam chuva no calcanhar. Entre um chopp e outro, aquela olhadela se fazia necessária.

Correu mais um tempo e eles se mimetizaram na paisagem, tomando seu whisky 18 anos e comendo bolinhos de bacalhau. A hora passava e chegou o momento do parabéns. Entre comemorações e galhofas dos amigos, se escutava ao longe: “Parabéns, idiota!”.

Mais uma vez se escutou “Parabéns, idiota!”. E mais uma vez. Aquela situação estava incômoda e irritante. Partir para a porrada já era uma solução a ser considerada, até que o improvável ocorreu: o coroa, malemolente, com as pernas trançando, se aproximou da mesa e o seguinte diálogo se consumou.

“Quem é o aniversariante?”
“Sou eu.”
“Parabéns, idiota!”
“Por que você está me ofendendo, vovô?”
“Vovô é o caralho. Você é o idiota. Aliás, todos vocês são.”
“Hum, é mesmo?”
“É. Eu tenho carro de luxo”
“Sei”
“Tenho duas mulheres a tiracolo”
“Conte-me mais”
“Tenho dinheiro”
“Certo”
“Tenho tudo que posso imaginar. E vocês? Vocês não tem nada na vida? O
que vocês tem?”
“Vovô, nós temos ereção.”
[silêncio]
[mais silêncio]
[as morenas riem]
“Bela resposta, garoto”

E assim o coroa foi embora, mas deixou a saideira paga na mesa do aniversariante.

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O capítulo I dos Diários Secretos da Cafajestagem, “La Bombonera”, está aqui

O capítulo II dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Reveillón”, está aqui

O capítulo III dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Falha”, está aqui

O capítulo IV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Evidências”, está aqui

O capítulo V dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Impedimento”, está aqui

O capítulo VI dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Urucubaca e Pênalti”, está aqui

O capítulo VII dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Cultura da Sacanagem”, está aqui

O capítulo VIII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Nome Artístico”, está aqui

O capítulo IX dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Churrasco”, está aqui

Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo IX – Churrasco

[Nada escrito neste texto é inverídico. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. São depoimentos reais de cafajestes atuantes, em remissão, aposentados, mas sempre, sempre com o gene da cafajestagem como dominante]

– E aí galera? Beleza.
– Beleza.
– Trouxe um amigo pra ficar com a gente no churrasco, terminou com a noiva recentemente, é gente fina, meio cult, espero que não tenha problema.
Cult. Entendo. Vamos fazer o teste do banheiro com ele e já te dizemos.
[o amigo chega]
[devidos cumprimentos]
[amenidades]
– Quer cerveja?
– Claro!
[uma hora e algumas cervejas depois, o amigo vai ao banheiro. Um dos cafajestes também]

* * *

[lado a lado no banheiro]
[ambos olhando pra frente no mictório]
[nenhuma palavra]
[ambos lavam as mãos]
[nenhuma palavra]
[finalizam a mijada]
[trocam amenidades]

– E aí?
– O cara é brother, chegou no banheiro e manteve a etiqueta.
[o amigo olha sem entender nada]

* * *

[duas rodadas de cerveja depois]

– Senta aí, vamos conversar. Nosso brother falou que você está meio triste, terminou com a mulher. O que houve?
– Pois é, cara. A vida é assim. O mal do século, aquele ciúme desmedido, aquele stress. Mas da minha parte era a mesma coisa também. Não dá pra crucificá-la, eu mandei mal.
– Bem, essas coisas acontecem, meu camarada. Você precisa espairecer, viver coisas. Já te contaram a história do gol urucubaca?
– Sim, já contaram.
– Então, é disso que você precisa pra viver feliz.
– Preciso me reacostumar a ser só. Preciso parar com essa dor profunda no meu peito.
– Cara, a vida não é bossa nova, pare com esse drama, parece letra do Djavan.
– Não sei o que fazer.
– A gente sabe. Olha aquela menina ali. Linda, hein? E solteira.
– É mesmo, uma gata.
– Esculpida, e gente finíssima.
– E aí, o que eu falo pra ela?
– Você conhece o teorema de La Bombonera?
– Não.
– Conta pra ele aí.
– Ok…

* * *
[mais uma dezena de cervejas depois…]

– Bem, agora vou lá e falo com ela de música, cinema, artes em geral?
– Cara, só não seja chato. Um pretendente chato é amor sem beijinho, nem é Buchecha, muito menos sem Claudinho.
– E como é que eu sei que não estou sendo incômodo.
– Simples. Não seja enfadonho, nem prepotente. Também não seja babaca. Não adianta olhar pros peitos dela como se fosse o Tom Hanks nadando atrás do Wilson.
– Entendi.
– Chega lá, curte o pagode, dá uma sambada, sorri na boa. Seja você mesmo.
– Mas eu não gosto de pagode.
– Amigo, no amor, na guerra e na cafajestagem, todo mundo gosta de pagode. Até pra namorar no Badoo você precisa curtir um pagodinho.
Badoo? Você já se inscreveu lá?
– Ihhhhhhhhhh.
– Só testei, só testei.
– Então é você que manda os e-mails com virus pro grupo de amigos? Mas que canalha.

* * *

[Mais uma dezena de cervejas depois…]

– Agora vou lá, tomei coragem.
– Mas tem um cara paquerando a garota, você deu mole, agora tem que deixar o desdobramento acontecer.
– Mas, porra…
– Amigo, o solteiro na conquista é igual a lateral. Se avançar muito, toma bola nas costas. Se ficar só na marcação, toma o drible. Tem que saber equilibrar.
– Não entendo muito de futebol.
– Como não entende de futebol? Esse negócio de cult não leva ninguém a lugar nenhum. Então fica a lição pra vida.
– Merda…
– Ih, o cara tá beijando a guria…
– O que me resta é beber.
– Você acabou sofrendo do teorema de Jovelina Pérola Negra, meu camarada, letal em qualquer churrasco.
– Que porra é essa?
– Você foi no pagode, acabou a comida, acabou a bebida e acabou a canja. Sobrou pra você o bagaço da laranja.

[todos gargalham]

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O capítulo I dos Diários Secretos da Cafajestagem, “La Bombonera”, está aqui

O capítulo II dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Reveillón”, está aqui

O capítulo III dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Falha”, está aqui

O capítulo IV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Evidências”, está aqui

O capítulo V dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Impedimento”, está aqui

O capítulo VI dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Urucubaca e Pênalti”, está aqui

O capítulo VII dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Cultura da Sacanagem”, está aqui

O capítulo VIII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Nome Artístico”, está aqui

 

Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo VIII – Nome Artístico

[Nada escrito neste texto é inverídico. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. São depoimentos reais de cafajestes atuantes, em remissão, aposentados, mas sempre, sempre com o gene da cafajestagem como dominante]

– E aí, cara, beleza?
– Uma ressaca desgraçada, tirando isso, tudo bem.
– Quer uma cervejinha pra rebater?
– Mas claro.
– Que houve?
– Lembra daquela festa gigante, com bastante gente famosa, que alguns amigos nossos foram convidados?
– Sim, claro. Inclusive fui convidado, mas não pude ir.
– Pois é, eu não fui convidado, mas fui. Com seu nome, aliás.
– Mas que filho da puta. [risos] E a festa, foi boa?
– A festa foi sensacional. Whisky 18 anos, vinho da melhor safra, cerveja só daquelas gourmets, que depois do décimo copo ficam com o mesmo gosto da mais sórdida cevada.
– Aí sim. Mandou ver na comida.
– Sim. Tirei a barriga da miseria.
– E a mulherada?
– Cara, sensacional. Muitas mulheres bonitas. Coisa linda de ver. Eu preciso, inclusive, te contar uma coisa.
– Ih, rapaz, lá vem bomba.
– É algo sério, não ria.
– Pois conte, meu amigo.
– Estava eu lá, bebendo meu whisky, fumando meu cigarro, sentindo o ambiente, quando a avisto. Um monumento. Estava de salto alto, o que a fazia parecer ainda mais alta. Cabelos loiros, lisos, sedosos, mac…
– Está parecendo comercial de shampoo. Deixe de ser prolixo. Prossiga.
– Então, ela era gostosa demais. E começou a trocar olhares comigo.
– Hum.
– Começamos a conversar. Sobre a vida, o futebol, a situação da crise no Egito, quem era o melhor calouro de American Idol, todas essas coisas comuns.
– Comuns, Sei. E ela?
– Ela debateu cada assunto com um refinamento de dar gosto. Inclusive disse que morou na Espanha três anos. Uma moça de garbo e elegância.

– E você?
– Tomei mais um whisky e tomei coragem. Dei uma cantada daquelas, cheia de malemolência. E ela correspondeu.
– Danado.
– E o beijo, cara, um beijo daqueles que só se vê nas revistas Julia, Sabrina e Bianca. Que beijaço, fiquei leve. Um shiatsu bucal.

[Garçom, mais cerveja]

– “Shiatsu bucal”. Entendo. E depois?
– Sugeri a ela que saíssemos da festa e fôssemos para um lugar mais calmo, ela me disse que precisava contar um segredo antes de ir comigo.
– Segredo? Ih, rapaz. Ela era casada?
– Não, pior.
– Ela tinha alguma doença grave?
– Não.
– Que segredo era esse?
– Ela disse que o nome que me deu era “artístico”, tinha sido rebatizada agora. Antes ela se chamava Antônio e que morou três anos na Espanha se prostituindo. Mas que tinha acabado de se operar e estava se sentindo virgem.
[cara de espanto] E você? O que falou?
– Cara, depois da quantidade de whisky que tomei, me lembrei que tinha entrado na festa e me apresentado a ela com seu nome. Ou seja, também estava com meu “nome artístico”. Não titubeei.
– Mas que filho da puta!
– A levei pro motel do mesmo jeito. Com seu nome, claro. Artisticamente, claro.
– Canalha!
– E, olha, você foi muito liberal por ter ido ao motel com uma moça operada, mas ela disse que foi ótimo.
– Miserável! Isso não se faz.
– Fica tranquilo, eu pago a conta.

* * *

[Garçom traz a saideira e a conta]

– Mas essa garrafa de whisky 18 anos saiu de onde? A gente não pediu.
– Então, usei seu nome “artisticamente” e abri um clube do whisky em meu nome, de presente. Como você está pagando a conta, achei justo…
– Você é rancoroso, hein?
[Gargalham]

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O capítulo I dos Diários Secretos da Cafajestagem, “La Bombonera”, está aqui

O capítulo II dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Reveillón”, está aqui

O capítulo III dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Falha”, está aqui

O capítulo IV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Evidências”, está aqui

O capítulo V dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Impedimento”, está aqui

O capítulo VI dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Urucubaca e Pênalti”, está aqui

O capítulo VII dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Cultura da Sacanagem”, está aqui

Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo VII – Cultura da Sacanagem

[Nada escrito neste texto é inverídico. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. São depoimentos reais de cafajestes atuantes, em remissão, aposentados, mas sempre, sempre com o gene da cafajestagem como dominante]

[Garçom, traz cinco cervejas]
[E uma caipirinha com adoçante, que eu não bebo cerveja]
[viadinho…]

– Caras, nossa adolescência foi muito mais sofrida da que os meninos de hoje.
– É verdade, hoje em dia é tudo muito fácil.
– Você quer ver a gostosa pelada, só colocar no google e voilá, aparece ela lá peladona, em todos os ângulos, com tira-teima e tudo, parece transmissão de futebol.
– No nosso tempo, tudo era mais difícil. Ver era mais difícil, imagine praticar?
– Certamente. Havia um esquema especial de contrabando da putaria.
– Sim, a contravenção da punheta.
– Exatamente! Acredito inclusive que isso tenha sido formador de caráter. As pessoas se acostumam com o fácil demais e não valorizam hoje em dia.
– Claro, formou caráter, como não? As revistas de sacanagem e os filmes em VHS deram a dimensão de toda uma geração.
– Sim, os filmes. As musas! Todas com aqueles nomes pomposos.
– Nina Hartley. Amber Lynn. Ginger Lynn. Tracy Lords. Savannah, que era muito gostosa. Pena que essa morreu cedo.
– Todas eram gostosas.  E adoravam o que faziam. Muita técnica. Era a Seleção de 1970 da sacanagem.
– Lembro quando eu me trancava no quarto pra ver os filmes e minha avó perguntava se estava vendo filme de monstro.
– Filme de monstro?
– É. Ela dizia: “Meu filho, muito gemido nesse filme que você estava assistindo, achei que era o Godzilla invadindo a cidade”. Herdei o sarcasmo da avó.
– Mas o dela era muito melhor.
– Shhh, não espalha.

* * *

[uma série de “mais seis cervejas” depois…]
– O jornaleiro, aquele cúmplice, incomodado quando os primeiros raios de sol do fim de semana saíam, para vender aquelas revistas embaladas em sacos plásticos pretos.
– Era a versão de “Caçadores da Arca Perdida” com espinhas!
– Sim, caras. E ainda tinha aquela questão. As Playboy para “admirar” as grandes atrizes da época, as menos cotadas para aprender o kama sutra ginecológico.
– E a “Ele & Ela”, que além de mulher pelada tinha aquele “Fórum”! Eu queria conhecer alguém que tivesse escrito aquilo, o cara era um gênio. Merecia cadeira na ABL.
– Um ghost writer da putaria. E ainda tinha um vocabulário mais extenso do que muito escritor famoso por aí. Grandes expressões eternizadas.
“Membro rijo”, “gruta entumescida”. O cara era um gênio.
– Caras, “entumescida” é a prova viva de que os anos dourados da putaria já passaram. Pornografia fina.
– O supra-sumo era conseguir uma “Playboy”. Era quase um troféu. Os coroas sempre perguntavam: “E aí, já viu a Playboy?”. Todo mundo da nossa época ficou marcado por uma musa diferente.
– Ísis de Oliveira, caras. Essa revista sofreu na minha mão.
– Ana Lima, a bunda mais perfeita da história da revista, em tempos que não havia photoshop! Se o Procon tivesse utilidade, proibiria a venda do photoshop no Brasil. É muita propaganda enganosa.
– Tânia Alves! Eu adorava a da Tânia Alves. Certa vez, no Baixo Gávea, a vi e gritei “Tânia Alves, eu sou seu fã!”. Ela acenou entusiasmada!
– E aí?
– Aí eu disse que a Playboy dela foi a primeira revista de sacanagem que tive na vida e que a filha dela deveria posar também. Ela ficou constrangida e evaporou do local.
– Gosto da sua sutileza.
– Mas é importante ressaltar que a filha dela posou um ano depois do nosso “encontro”. Eu devia ser olheiro de revista de mulher pelada.

* * *
– A melhor de todas as revistas era a das Irmãs Rammé.
– Putz, a natureza foi generosa com aquela família, muita sequestrabilidade.
– Impressionante a quantidade de talento daquelas moças. Benza Deus.
– Amém.
– Irmãs Rammé, ah, as Irmãs Rammé, fiquei grudado naquela revista.
– Aquela revista das Irmãs Rammé era deliciosa, cada pág… mas, peraí, como assim grudado?
– Ahn, então…

[Garçom, mais seis cervejas!]

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