Esfinge Carioca

Em um país com diversidade cultural tão grande, produções muito boas e outras nem tanto, diversos artistas são apresentados ao público, que cria suas idolatrias e rejeições com impressionante e absurda rapidez. No meio de tantas opções e personagens apresentados, um especialmente chama a atenção, por suas idiossincrasias e, principalmente, pela fascinação que qualquer evento com ele proporciona: Catra.

Wagner Domingues da Costa, o Mr.Catra, já fazia relativo sucesso no underground do funk carioca, mas explodiu nas caixas de alto-falantes dos bailes com o hit “Simpático”, um petardo violento sobre caráter e modo de vida dos morros. Mesmo sem tocar nas rádios, “Simpático” virou um estrondoso sucesso no asfalto do Rio de Janeiro e pode ser considerada a primeira música indie do Brasil a estourar [ou você acha que indie é um monte de gente de cabelo escovado e olhando pro chão cantando músicas complexas misturando gêneros? Calypso é o maior fenômeno indie do Brasil, por exemplo]

A partir daí, Catra começou a escalar o sucesso, seja com seus proibidões, pelo qual foi indiciado por apologia ao crime, ou com suas paródias, como “Adultério”, hit instantâneo de boates e casas de conveniência com luz vermelha. Hoje, é artista de ponta no país e lota shows com sua voz que lembra Barry White, com menos amor e mais luxúria.

O lado musical de Catra é bem conhecido, mas sua faceta pessoal chama muito mais atenção. Nascido na favela, mas criado no asfalto, sendo adotado por uma família de classe média-alta, fala quatro idiomas, estudou no tradicional Pedro II – único colégio brasileiro a ser explicitamente citado na Constituição Federal – e foi líder estudantil.

Além dessa formação escolar, Catra tocou funk e soul com banda, é judeu convertido, pai dedicado de mais de vinte filhos – você achando que é garanhão, hein? – e polígamo confesso – é “casado” com duas mulheres e mantém relacionamento fixo com outras tantas, o que o fez dizer a clássica frase: “Sou um homem de muitas mulheres, mas das mesmas muitas mulheres”. Em todas as entrevistas que concede, é capaz de emendar um raciocínio lógico que desconcerta o entrevistador.

Nos seus prounciamentos, Catra mostra um lado religioso arraigado, que resvala no conservadorismo e, por vezes, no machismo. Mas diz isso sem querer arrebanhar súditos, sem se contrariar com quem pensa o contrário, sem esculachar a posição diferente. Na idiossincrasia na qual vive, a ternura em respeitar a opinião oposta o transforma numa figura cujas declarações levam o leitor ou telespectador a formar pontos de vista surpreendentes, o que atualmente é algo raro e intrigante.

Trafegando entre religião e putaria, entre vida libertária e conservadora, Catra se transforma numa personagem na qual devemos prestar atenção, concordando ou discordando. Por trás das músicas de pura sacanagem – que eu, particularmente, me divirto escutando – há um ser humano com nuances de delicadeza muito peculiares, que vale observar. Porque desvendar o ser humano é sempre um exercício para nos conhecermos melhor. Catra, na melhor acepção da palavra, é uma esfinge carioca cujo enigma na maneira de viver desafia o marasmo e a uniformidade dos chatos dias de hoje.

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Off que talvez seja necessário, para melhor compreensão do texto:

Para ler – Entrevista de Catra à Trip – 2009 

Para ler – Entrevista de Catra ao Extra – 2012 

Para assistir – Documentário 90 dias com Catra – 2011 

Para assistir – Catra The Faithful – 2009 – Documentário dinamarquês – Torrent