Laxante

Ele já estava irritado. Irritado era eufemismo. Puto. Estava possesso. Indignado. Já não havia mais sinônimo para expressar o quanto ele tinha raiva. Aquela situação já tinha fugido ao controle na empresa. Foi convocada então uma reunião, que se fazia muito necessária.

Explicou que toda vez que levava sua comida, seu lanche, para a geladeira da empresa, ela era roubada. Isso não tinha acontecido uma, nem duas, nem três vezes. Já chegava ao limite do jocoso. Um dos gerentes se exaltou. Aos berros, fez o discurso de que “quem rouba comida, rouba uma moeda e rouba milhões.” Era bonito, mas pouco eficiente.

A situação não se resolvia. Já estava ficando desmotivado no trabalho. Estava inclusive procurando um emprego novo. Quem rouba comida, puxa tapete. É o tipo de coisa que não existe. E tentavam culpar gente humilde do trabalho, num claro preconceito. Decidiu falar com seu chefe. Ia pedir o boné.

O chefe escutou atentamente. Ficou revoltado, pois perderia um bom funcionário. Ofereceu uma solução. Contaria com a conviência e a cumplicidade dele. Ele topou. Pediu pra que ele chegasse cedo no dia seguinte e trouxesse o lanche, de preferência com patê ou manteiga. Assim foi feito.

No dia seguinte, chegou bem cedo. O chefe também. Quando trouxe o lanche e mostrou, seu parceiro no crime não se fez de rogado: Abriu o sanduíche e pingou gotas e mais gotas de laxante. Pediu para que ele colocasse o lanche na geladeira. Missão cumprida.

Não parou por aí. Após tocar o primeiro sinal do horário de ponto, o chefe levantou discretamente. Foi trancando todas as portas dos banheiros da firma e levando a chave. Deixou aberto apenas o banheiro externo. Quando deu o horário aproximado do lanche, ele foi à geladeira. O larápio tinha agido, a comida havia sumido.

Seu chefe o ligou no celular. O fumódromo ficava ao lado do banheiro externo. Bastaram apenas alguns minutos. Nisso, um burburinho se escuta dentro da repartição. O diretor ligou perguntando quem tinha trancado os banheiros. Nenhum pio. O murmúrio se transformou no estrondo de portas tentando ser arrombadas chegava ao limite entre o patético e hilário.

Ele e seu comparsa saboreavam um cigarro enquanto viam aquele gerente, que fazia discurso de moral, correr desbaratadamente em direção ao banheiro externo, na última esperança de chegar ileso. Não deu tempo. A quantidade de laxante era grande, e ele se evacuou inteiro.

No dia seguinte, era o assunto do momento: O gerente entregou sua carta de demissão, não tinha mais clima pra ficar na empresa. Enquanto comia o lanche, ele ainda escutou do seu chefe: “Quem rouba um sanduíche pode roubar uma moeda, pode roubar milhões, pode fazer discurso vazio e sair todo cagado”. Saboreou a última mordida antes de gargalhar.

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O Rádio

Ele tinha a mania de dormir ouvindo rádio. Ela odiava a mania que ele tinha de dormir ouvindo rádio. Não entendia como era possível adormecer com aquele barulho estridente. Era uma tecla na qual ela sempre batucava nas discussões e crises do casal.

E ele ouvia rádio AM, pra piorar a questão. Aqueles barulhos e vinhetas, aquelas vozes vibrantes ou soturnas. O rádio AM é o extremo, a moderação passa longe. Aquilo a incomodava profundamente. Para ele, era demais. Desde a infância, os locutores de rádio eram seus amigos, companheiros de aventura e desventura.

Passaram pelas bodas de prata e ele, ali, ouvindo seu rádio; ela, sempre reclamando. Algumas vezes jogou o aparelho pela janela; noutras arrumou a mala – dele – jurando pedir divórcio. No fim das contas, ele abaixava o volume completamente e pedia clemência. Ela aceitava e sorria, triunfante.

Quando estavam perto das bodas de ouro, ele estava no seu cantinho. A cadeira não balançava,  o rádio estava desligado. Ela estranhou e foi vê-lo. Ele tinha partido, sem sofrer, de um infarto fulminante. Ainda hoje, ela liga o rádio de vez em quando pra matar a saudade dele.

Expectativa

Eles se conheceram há oito anos. Numa festa, através de amigos em comum. Ele enlouqueceu com ela, fazia seu tipo. Tudo nela fazia com que ele gostasse. Ela o achou interessante, mas não a ponto de querer algo com ele. Entretanto, flerte é bom, todo mundo gosta. Ela também, e não evitou.

Nada evoluiu. Por mais que ele tentasse, ela soube se esquivar com maestria. Como uma boxeadora peso-pena, flanava sobre as cantadas dele. O tempo passou, ambos tiveram relacionamentos com outras pessoas. Viveram, se feriram, cicatrizaram. Ele nunca esqueceu dela; ela sequer lembrava dele.

O tempo passou e eles se reencontraram, por acaso, em uma festa. Ainda existia uma familiaridade. Eles perceberam isso. Ele pegou o novo número dela, mandou mensagens, usou as redes sociais. Ela lia todas, se divertia com muitas, mas continuava habilmente escapando.

Ele lembrou do velho ditado, se manteve por perto. Esperava que ela tivesse um momento de fraqueza, para que, quando isso ocorresse, ele pudesse finalmente ser feliz. No fundo, ele não entendia como ela não queria ter nada com ele. Um partidão, diria sua mãe. Ela não entendia a ele, quanto mais o resto.

Às vezes, ele ficava bravo, com raiva. Chegava a ofendê-la. Dizia que ela não era pra se levar a sério, que ela brincava com os sentimentos dele. Ela não o levava sério, essa era uma grande verdade. Mas não brincava com o que ele dizia sentir. Era um flerte, apenas um flerte, nada mais do que isso.

Até que um dia, ela se sentiu especialmente carente. Ligou pra ele. Ele se surpreendeu. Marcaram de se encontrar. Ele estava nervoso. Passou seu melhor perfume, colocou sua melhor cueca. Se encontraram, jantaram. Ela curtiu o momento, ele parecia um adolescente.

Depois, ele sugeriu, trêmulo, que fossem para um lugar especial. Ela assentiu. Eles foram. Na cabeça dele, seria tudo às mil maravilhas, a chance que sempre sonhou; para ela, curtir o momento seria tudo, queria ver qual é. Ele, cheio de expectativas. Ela, com os hormônios borbulhando. Quando chegaram lá, depois de algumas preliminares e muitas tentativas, ele broxou; ela riu. Ele nunca mais a procurou; ela preferia o flerte.

O Valor

Eles se conheceram muito novos. Se apaixonaram. O primeiro relacionamento sério dos dois. De uma cumplicidade, nasceu o encanto. Entre beijos, abraços e amassos, se desvirginaram. E engataram um namoro.

Cada vez mais, até por terem começado juntos, se complementavam no sexo. Mas no dia a dia, eram cada vez mais diferentes. Simetricamente. Ele começou a tratá-la mal. Primeiro, de forma jocosa; depois, de forma direta. Muitas humilhações, dúvidas sobre a capacidade dela. Muitas brigas e discussões.

Até que um dia se apaixonou por uma mulher mais velha, com mais experiência, mais vivida. E decidiu terminar aquele suplício mútuo. Ele se aliviou; ela, deveria ter se aliviado também, mas enlouqueceu. E fez da vida dele um inferno.

Sem escândalos, nas pequenas coisas, nos pequenos detalhes, sempre o perturbava, para chamar a atenção. Sempre pedia uma chance. Eles se encontravam, faziam sexo. E depois, ele a humilhava categoricamente das mais diversas maneiras, sempre terminando com: “Eu nunca vou querer você de volta, eu jamais voltaria pra você. Você não vale nada pra mim”.

Durante um ano e muito, quase dois, essa relação doentia se sustentou. Atração que, se não era fatal, era incômoda. Sempre com encontros tumultuados, gritos, acusações, que terminavam na cama, e, posteriormente, e, desatino.

Até que, da última vez, ele a humilhou publicamente. E afirmou. “Nunca mais me ligue. Eu não quero mais ouvir sua voz. Você não vale nada pra mim”. Ele saiu batendo a porta, pra ser feliz com outra. Ela se debulhou em lágrimas.

Dessa vez, doeu. Ela decidiu não passar mais por isso. Tinha que tocar a vida. E foi assim que fez. Procurou terapia, lambeu as feridas, virou uma mulher. Os anos passaram. Encontrou alguém que a amava de verdade, se relacionaram, noivaram, decidiram se casar.

Antes, porém, passou na casa do seu primeiro namorado e deixou um convite do casamento, por debaixo da porta. Ele, ao chegar em casa, viu o convite. Se tocou de quanto tempo havia passado. Pela primeira vez, lembrou dela com muito carinho. Decidiu ligar.

Ligou, disse que queria vê-la, que estava com saudades. Nunca tinha falado assim. Marcaram um horário. Ela passou de carro, o pegou. Seguiram por uma dezena de quilômetros, não trocaram uma palavra, entraram no motel.

Transaram loucamente a noite inteira, como animais no cio. Ele disse “eu te amo”, fazia tempo que não dizia isso. Ela permaneceu impassível, usufruindo do sexo. Gozaram. Ele adormeceu, ela não. Ao amanhecer, quando ele acordou, a conta estava paga, o café servido, e um bilhete ao lado. “Você não vale nada pra mim, nunca mais me ligue”. Nunca mais se viram.

Flor de Vitória-Régia

“Eu devia ter pensado nisso”. Foi assim que ele se sentou à mesa e começou a matutar sobre tudo que tinha passado naquele período. Como se fosse um arquivo morto, com suas lembranças que seriam exumadas.

Devia ter pedido desculpas, devia ter aproveitado o momento. Talvez sorrido mais, quiçá tolerado mais. Assumido as culpas e pedido desculpas. Não escutava nada do que havia em sua volta, estava imerso em seu pensamento.

Poderia ter chorado mais também. Poderia ter lembrado de tantas boas coisas, assim como esquecido de todas as más. E talvez pedido tantos quanto deveria ter dado perdões. “Perdão, o senhor pode assinar aqui?”

Olhava o papel, não via nada. Devia ter discutido menos com as palavras que cortam e afagado mais com o silêncio que conforta. E se alegrado mais com o ridículo que é a vida, tão ridículo quanto esse monte de pensamentos descoordenados que parecia estrofe de música dos Titãs. “Senhor, temos um dia cheio, por favor, leia e assine aqui”.

Pegou a caneta, finalmente apertou os olhos cheios de lágrima que brotavam e teimavam em não cair, se esforçando para ler. Cada ponto, cada parágrafo, tudo ok. Lembrou do quanto gostava de botânica e do quanto nunca mais tinha olhado para uma flor.

Naquele momento, queria ser uma flor de vitória-régia, efêmera, e sumir. Naquele momento, seu casamento, como uma flor de vitória-régia, efêmero, ruiu. Assinou o papel, consumou o divórcio.

Olhares e Murmúrios

Era uma situação absolutamente imprevisível de se encontrarem. Pensando bem, não era não. Uma festa, conhecidos em comum, era até bem plausível o encontro. Em meio a tantos abraços efusivos e reencontros, seus olhares se cruzaram.

Se conheciam há tempos. O suficiente para travarem um diálogo sem falar, apenas mirando um ao outro. Chiaroscuro, pupilas dilatadas e retraídas. Um balé imperceptível. O barulho do todo, o silêncio recíproco.

– Oi
– Oi
– Quanto tempo…
– …
– Queria tanto te dar um abraço
– …
– Tenho pensado tanto na amizade que tínhamos, em tudo que representou, nas coisas que vivemos juntos. Como sorri e como chorei perto de você.
– …
– Me desculpe
– Não
– Me perdoe, eu não queria dizer o que eu disse.
– Não
– Sei que eu fui injusta, que me afastei, que virei as costas em um momento importante.
– Isso me poupa de dizer bastante coisa.
– Fui ingrata, não devia ter sido assim. E além de tudo, fui arrogante, como nunca tinha sido. Sei que te decepcionei. Decepcionei a mim mesma também.
– Este não é um problema meu. Não posso lidar com suas culpas.
– Nossa amizade viveu tantos momentos bons, tantos momentos de companheirismo, nós fomos tão ligados…
– E você jogou fora.
– Você não sente falta?
– Nos primeiros dias, senti muita falta. Depois da primeira semana, bem menos. Atualmente, nem lembro do que ocorreu.
– Você me matou dentro de você?
– Quando há uma morte de alguém querido, depois do luto e da dor, ainda resta saudade. No seu caso, não restou nada. Pulverizei você da minha vida. No cemitério de relacionamentos que habita meu coração, você não tem túmulo.
– Não tenho mais o que pensar.
– Não pense. Siga seu rumo.
– Tchau.
– Adeus.
– Espero te ver de novo.
– Eu não.

Em menos de trinta segundos, a troca de olhares tinha resumido e traduzido uma conversa há tempos pendente, agora desnecessária. Aproveitaram o fuzuê, trocaram alguns murmúrios, fingiram cordialidade, foram para lados opostos. Até o resto da vida.

Batatas

Ele acordou possesso. O banco tinha debitado uma taxa exorbitante, a título de um contrato com letras miúdas daqueles que ninguém lê e tem uma cópia em casa. A primeira expressão que disse quando olhou seu extrato foi “puta que pariu”. Durante o dia, a repetiu diversas vezes.

Tentou negociar com o banco. Ofereceram valores ridículos, parcelamentos monstruosos e nada que o deixasse satisfeito. Teria de gastar ainda mais dinheiro para se livrar da enrascada em que se meteu, apenas por não ler direito o contrato. Cadê aquele negócio de cliente exclusivo, private corporate, essas coisas empoladas?

Lembrou de que deveria seguir os conselhos de sua ex-mulher sobre investimentos, capitais e coisas afins. Ela dizia: “banco é como você: filho da puta”. Ele não levava o que ela dizia a sério. Ficou sem mulher. E sem dinheiro – não por causa dela.

Depois de mais alguns dias tentando uma solução, foi destratado pela gerente do banco, que desdenhou dele não ter lido o contrato. O fato de ter sido abocanhado na grana já era uma dor, chapéu na cabeça de otário é marreta, mas a humilhação doeu ainda mais.

A gerente, justo ela, que o bajulava tanto, fazendo aquele escárnio. Ele ficou possesso, revoltado. Decidiu que iria se vingar.  Naquele dia, saiu do banco direto para o advogado. Conversou, alinhou os termos e demais coisas. Em seguida, a ação correu na justiça e a liminar foi concedida.

Ainda não era suficiente. Sua vingança só estava começando. Ele lembrou de um velho provérbio que seu pai, feirante, dizia: “Ao vencedor, as batatas”. Foi ao banco, acompanhando ao oficial de justiça, com liminar em mãos. Além disso, levava um saco e uma jóia. Ao chegar no banco, se dirigiu à gerente.

Ela recebeu a liminar do funcionário da lei, assinou o recebimento e imediatamente passou o documento para o departamento jurídico da matriz. Aquela briga seria como Copa do Mundo, com resultado dali a quatro anos, certamente. Quando ela ia embora, furibunda, ele a chamou. Com máxima calma, informou que queria usufruir de um serviço. Afinal,ainda era correntista do banco. Queria alugar um cofre.

Organizou os procedimentos, pediu o aluguel por um ano. Viu o preço, mostrou a jóia que seria guardada, observou a papelada, inclusive as letras miúdas, assinou. Colocou o artefato no saco e guardou no cofre. Dali, saiu e, aliviado, decidiu tirar férias.

Só esqueceu de se avisar que, dentro do saco, junto com a jóia, guardou um quilo de batatas, que, obviamente, apodreceram dentro do cofre. Quando o cheiro do tubérculo invadiu toda a agência, tomou de ânsia de vômito os funcionários e clientes. A gerente tentava ligar para ele desesperada. Ele não atendia. Já estava longe, gargalhando.

 

 

A Roda da Fortuna

Ela era uma menina muito inteligente, bem nascida, que chamava a atenção por onde passava, do alto do seu corpo torneado e de seus cabelos cacheados, atrelado ao seu lindo sorriso.

Filha de porteiros, imigrantes nordestinos, sempre se divertia quando dizia que morava na avenida mais cara da cidade, na beira da praia, por ser filha dos zeladores. Ninguém acreditava, mas ela nunca mentiu. Alguns pretendentes se chocavam, ela não dava a mínima importância. Sabia, por ver a prostituição e as drogas tão de perto com a riqueza, que as aparências enganavam.

Sempre foi bem criada, de maneira humilde, sem arroubos de prepotência ou vontade de ter muito dinheiro. Sabia o valor do metal, o que podia proporcionar e sempre queria fazer suas escolhas da melhor maneira possível, valorizando o conhecimento, que ninguém poderia tirar.

Foi aprovada no vestibular em universidade pública. Mesmo tendo direito a cotas, não precisou usá-las, porque alcançou a pontuação necessária para a vaga no curso que queria. Estudou em bons colégios públicos a vida inteira e sempre lembrava do “hino da tabuada” com carinho.

Conforme foi evoluindo nos estudos, chegou a hora dos estágios. Sua mãe tinha bastante afinidade com alguns moradores do prédio onde trabalhavam como zeladores e moravam. Assim, conseguiu várias peças para quando ela precisasse. Entretanto, no primeiro momento, ela gostaria de comprar algo para ela, coisa simbólica, rito de passagem.

No sábado, após a praia, foi a um shopping center, em uma loja boa e famosa. Ao entrar na loja, não recebeu atenção, e esperou pacientemente. Ninguém falava com ela. Após quase vinte minutos, chiou.

A gerente da loja a destratou, a humilhou, a xingou pela sua etnia. A confusão estava formada, gritaria, a segurança foi chamada para retirá-la. Os truculentos guardas do shopping já a estavam arrastando, como se fosse uma bandida, quando uma senhora, moradora do edifício onde seus pais eram zeladores, estava passando na hora e a reconheceu.

A senhora se impôs. Além de ser dona de lojas no shopping, era casada com sujeito muito conhecido. Ameaçou chamar a TV, colocar no “Jornal Nacional”, acabar com a reputação do shopping, mesmo tendo alguns vídeos do fato fatalmente sendo colocados na internet, em tempo real. A administração do shopping foi chamada.

Ânimos serenados, a dona da loja ofereceu desculpas e roupas como compensação. Ela não quis. Foi embora se sentindo humilhada por todos os fatos, mas confortada por aquela senhora, que sempre a tratou bem, tê-la defendido. No dia seguinte, a mesma senhora deixou de presente algumas roupas, novas, e foi com elas que ela foi à entrevista e foi aprovada.

Grande estágio, sempre elogiada, foi sempre crescendo. Até que um dia, andando pela orla da praia, passou em frente a um bar, famoso por concentrar turistas e prostitutas. Naquele dia, uma confusão e algumas meninas foram expulsas e agredidas pelos seguranças, sob suspeitas de terem furtado um turista.

Entre as meninas jogadas no chão pela segurança, entre gritos de “suas putas” e “ladras vadias”, viu a ex-gerente da loja que tanto a destratou naquela tarde de sábado no shopping. Reconheceu a voz e os trejeitos.

Olhou-a fixamente nos olhos. Parou lentamente, a ponto de ser notada. O mundo dá voltas, a roda da fortuna também. Ele a reconheceu imediatamente e baixou os olhos de vergonha. Ela seguiu em frente. E sorriu.

Conversa ao Pé do Ouvido

 

Ele já estava na casa dos 40 anos. Era locutor do programa de rádio mais ouvido da cidade, logo depois da Voz do Brasil. Tocava músicas românticas, traduzia baladas estrangeiras, fazia correio do amor. Era o “Conversa ao Pé do Ouvido”.

Na sua juventude, nos anos 80, fazendo faculdade de comunicação, era roqueiro. Começou nas rádios jovens, emplacando bordões e ganhando fãs, em uma época que não havia internet nem TV a cabo. Fenômeno de audiência. Era apaixonado por sua então namorada, com ele desde adolescente. Faziam promessas de casamento e juras de amor eterno.

Entretanto, a fama subiu sua cabeça, junto com mulheres, bebidas, iates, comida. Virou personagem de si mesmo. A sua paixão eterna, cansada de ser humilhada e ver seu noivo como assunto e cobiça nas colunas sociais, sempre de romance com outras pessoas, saiu de cena e terminou o relacionamento. Nunca mais falou com ele.

Ele tentou ligar pra ela, implorou por perdão, mas nunca obteve resposta. Vagou perdido por meses, mais de ano. Perdeu a moral e se perdeu. Depois de uma grande depressão e tristeza, largou o oba-oba, colocou a cabeça no lugar e redirecionou a carreira.

Seguiu pelo segmento de rádio popular, pois o povão era menos hipócrita. Decidiu fazer programas românticos, porque assim, embora se aninhasse no desamor, poderia visualizar pessoas felizes e testemunhar lindas histórias.

De segunda a sábado, escutava as dores e delícias dos ouvintes, muitas vezes informando o telefone dos mesmos lia cartas de amor e sofrimento, traduzia músicas românticas de grandes cantores que embalaram muitos relacionamentos e mela-cuecas por todo o estado. Era feliz assim.

Em um dia daqueles que parecia normal, mais uma ouvinte ligou, querendo contar sobre seu grande amor. Ele reconheceu o timbre de voz familiar, mas achou apenas coincidência. A colocou no ar. Quando ela começou a contar a história que lhe marcou a vida, teve certeza. Era a grande paixão de sua vida falando.

Pela primeira vez, ouviu a versão dela na íntegra. Cada detalhe, cada vírgula, cada pormenor. Neste dia, o programa praticamente não teve intervalos comerciais. A audiência mandava e-mails espantada com a riqueza de detalhes e com a intensidade de amor e dor daquelas palavras.

Ela finalizou seu relato dizendo que estava com saudades daquele amor, pedindo desculpas por ter falado ininterruptamente e dando seu nome real e dizendo que deixaria seu telefone para contato com a produção. Um sinal.

Naquele dia, ele colocou a música de fundo e, em vez de traduzi-la, declarou seu amor e pediu perdão. A grande maioria dos ouvintes se encantou com as palavras e não percebeu que não era a tradução da canção. Após o programa, pegou o telefone dela, ligou, se desculpou. Marcaram de se encontrar.

O amor era o mesmo, o tempo apenas potencializou. Ela estava ótima, ele também. Voltaram a namorar, depois de poucos meses decidiram se casar, sem alarde, tendo como convidados apenas os dois. Ainda hoje, ele apresenta o programa líder de audiência. E, de vez em quando, ela ainda liga como ouvinte misteriosa para se declarar a ele, em conversa ao pé do ouvido.

 

Cleide

[ponto de ônibus lotado]
[sol escaldante]
[toca um telefone]

– Alô?

[musiquinha a cobrar]

– Ainda liga a cobrar, espero que seja importante…

[após o sinal, siga seu nome e a cidade de onde está falando]

– Alô? Quem?
– Cleide? Cleide, você ainda tem a cara de pau de me ligar, Cleide?
– Você é muito sem vergonha mesmo, Cleide. Vagabunda. E ainda me liga de um número trocado. Safada.
– O que? Eu tenho que escutar o que você tem a me dizer? Por que eu faria isso, hein? Me diga.
– Cleide, você tem um minuto.
– Não, Cleide, eu não acredito em você. Vai dizer que estava apaixonada por esse cara? Agora você me diz que simplesmente aconteceu? E quer que eu acredite em você? Tenha dó, Cleide, você é uma mentirosa!
– O que? Eu que procurei? Porra nenhuma, Cleide. Quem procura acha, eu sei que o corno acima de tudo é um curioso, mas eu estava na minha, fui te fazer uma surpresa e quando cheguei na sua casa, ele estava lá, colocando a pitoca pra vadiar. E você estava gostando, sorrindo.
– Na cama que eu comprei em doze vezes, Cleide, móvel rústico, madeira de angelim. Nosso ninho de amor. E você, o que fez? Jogou tudo fora. E o que me sobrou? Dor. Ta me doendo mais do que refrão de música do Raça Negra, Cleide. Você tá feliz com isso? Hein?

[pessoas consternadas e constrangidas no ponto de ônibus]

[ele com lágrimas nos olhos]

– Não quero mais saber de você, Cleide. Você só me traz tristeza, só me traz desilusão, agora estou aqui, acabado.
– Te perdoar? Que te perdoar o quê, Cleide, segue seu rumo. Eu tô arrasado, tá aqui o – qual é seu nome mesmo? – Demócrito que não me deixa mentir. Sem dormir, insone, abalado.

[Demócrito faz cara de quenga nova em puteiro, sem entender nada]


– Como é, Cleide?
– O que?
– Você tá maluca, Cleide?
– Só porque eu sou casado você acha que tem o direito de me chifrar? Eu nunca escondi nada de você, Cleide!

[todos no ponto de ônibus se entreolham]

– Mas, Cleide…
– Cleide…
– Calma, Cleide, deixa eu falar…
– Cleide, não me chama de cabra safado não!
– Para com isso.
– Também não quero nunca mais falar com você! Sua canalha!
– O que? Vai ficar com o cara de novo na cama que eu comprei? Vai namorar com ele? Eu mereço?
– Cleide?
– Cleide?
[disca o número de novo]
[“Seus créditos acabaram”]

– Roubou minha vida, roubou meu juízo e acabou de acabar com meus créditos. Cleide, eu te odeio.

[uma velhinha do ponto se encaminha e olha na cara dele]

– Meu filho, mude de vida. Vai encontrar Jesus ou, pelo menos, encontre vergonha pra essa cara de pau. Cabra Safado.

[ele baixou a cabeça e foi embora do ponto de ônibus]