O Céu é Azul. O Inferno é Vermelho.

Futebol não é uma questão de vida ou morte. É muito mais do que isso. Bill Shankly, um sábio. Na Alemanha, Chelsea e Bayern de Munique levaram este provérbio aos extremos. Dois times que desbancaram os prognósticos e deixaram as potências Barcelona e Real Madrid pelo caminho, chorando pitangas entre tapas y copas de uma rambla qualquer. Os coadjuvantes anunciados pela expectativa viraram protagonistas. Belos protagonistas de um jogo épico.

O Chelsea de Di Matteo, o interino que soube completar a aura de um time cheio de contradições. Torcida fanática, dinheiro do magnata russo Abramovich, se tornando um time mal visto pelos puristas. Mas que não se diga que é um time sem tradição. Usando um esquema clássico italiano, o catenaccio, que aliás foi aprimorado por um argentino, Helenio Herrera.

O Bayern, treinado por Heynckes, com base teutônica e estrangeiros já adaptados. O gigante bávaro jogando em sua própria casa, buscando mais um título europeu para sua vasta coleção. Com habilidade, garra, vindo de uma temporada em que foi vice duas vezes, querendo dar alegria ao seu povo, dentro de sua casa, jogando com rapidez e objetividade. Malemolência alemã, provada e comprovada.

O jogo começou amarrado, os times desfalcados, posto que em uma guerra como a Champions League sempre há baixas nas batalhas passadas. Muitos heróis estavam fora de campo, roendo as unhas e virando meros torcedores. Finais quase nunca são feitas de primor técnico. Normalmente são feitas de alma, sangue e coração. Esta não foi diferente.

E num jogo nervoso, demorou 82 minutos para que o primeiro ato fosse consumado. Cruzamento de Schweinsteiger, que até o momento era o dono do jogo, soberano, um Kaiser. Ocupando todos os espaços e fazendo uma releitura da expressão blitzkrieg. A bola alçada na área encontra Thomas Müller, tal e qual um míssil alemão desabando sobre Londres. Bayern 1 – 0. O céu era vermelho.

Petr Cech finalmente havia sido vazado. O goleiro tcheco que sabe o que fazer com as mãos, visto que é baterista por hobby. E que na final de Munique estava ungido como o Menino Jesus de Praga. Desta vez, foi superado. Será que a benção havia acabado?

87 minutos. O Bayern já vislumbrava a taça. A Orelhuda. Ao lado do campo. Os jogadores do clube bávaro começavam a ouvir os doces acordes da vitória. “Die Meister, Die Besten…”. Mas o jogo não acabou. Escanteio para o Chelsea.

Juan Mata, manquitolando, corre para bater na bola. A respiração alemã para. A respiração inglesa para. O momento se congela. Churchill, inglês, quando proferiu seu mais famoso discurso da 2ª Guerra, bem disse: “Nos lutaremos até o fim […] com crescente confiança e crescente força nos ares […] nós lutaremos nos campos […] nós nunca nos renderemos!”

O camisa 10 do Chelsea bate na bola e Didier Drogba, elefante marfinense, atacante mortal, voa sobre os ares, com crescente confiança, sem se render. Simplesmente ignora Jerome Boateng e de sua cabeça a bola se torna um míssil enviado pela Royal Air Force britânica, que destrói o muro Manuel Neuer. Aces High. Chelsea 1 – 1. O céu tem cores indefinidas. Um pôr-do-sol.

Acabam os 90 minutos. Que comece a prorrogação. E ela começa. E começa em alto estilo. 94 minutos de jogo. Drogba, outrora herói, preenche os espaços do campo. Na ânsia de defender, ataca. E ataca Franck Ribery, derrubado na área. Pênalti bem marcado. Arjen Robben corre para a cobrança.

Pênalti não é loteria. Pênalti é técnica, força e mente. É a arte da conquista na versão futebolística. A teoria da mesa do bar diz, sabiamente: “Quem bate pênalti com cara de triste não faz gol”. Arjen Robben correu para a bola com um semblante tão constrito que parecia fã dos Los Hermanos cantando música de derrota.

Bateu forte, mas bateu mal. Cech, o Menino Jesus de Praga, vira mais uma vez um gigante. Milagre. Continua 1 – 1. Schweinsteiger virou as costas na hora da cobrança. Olhava para Neuer e para a torcida. A torcida ficou atônita, Schweine também. Coube a Manuel lhe dar um tapa e acordá-lo para o jogo.

Após este momento, os ânimos se arrefeceram um pouco. Embora ocorressem chances, mas sem agudez. 120 minutos. Apito final. A sorte está lançada. Milhões de torcedores querem títulos como à sua vida. Outros muitos milhões de amantes do futebol acompanham atentamente o momento. Uns por paixão, outros por sadismo, mas todos atentos.

Lahm converte seu pênalti. Juan Mata vai para a cobrança. Manuel Neuer já tinha feito Madrid ser vítima de suas próprias touradas. O espanhol Mata, sofrido, sem plenas condições, bateu. Neuer voou e pegou. O céu seria vermelho de novo? Mario Gomez fez, David Luiz também. Manuel Neuer, não satisfeito em pegar pênalti, bateu o seu e converteu. Lampard, também.

Ivica Olic vai para sua cobrança. Corre. Bate. A bola sai bem batida. Mas Cech, o Menino Jesus de Praga, pratica mais um milagre. Voa como um anjo e cata a bola. Ashley Cole faz o seu. Tudo igual.

Bastien Schweinsteiger parte para a cobrança. Melhor jogador dos 120 minutos, ao lado de Cech. Jogador e torcedor do Bayern. Ajeita a bola com todo carinho. Parte para a cobrança. Naqueles parcos e intermináveis segundos, sua corrida vira um trote, como se a força da emoção lhe embolasse as pernas. Bate sem confiança, a bola desvia sutilmente em Cech e explode contra a trave. Cech sorri, a torcida azul, idem. Schweine chora. Compulsivamente.

Didier Drogba parte para a cobrança que pode dar o título ao Chelsea. Ele, que perdeu vários pênaltis importantes no ano, pela Costa do Marfim. Mas hoje corre com a força da superação. Herói nos 90 minutos, quase vilão na prorrogação. Bate com absurda tranquilidade, deslocando Neuer. Chelsea 4 – 3, Chelsea campeão. O céu é azul.

Nesta epopéia, que gerou um texto longo, o choro do Bayern valoriza o sorriso do Chelsea. Talvez Abramovich, homem materialista, tenha sorrido e imitado seu compatriota Gagarin, dizendo que a Terra é Azul. Mas o foco deve ser na torcida, que sua, sangra e dá a alma pelo futebol.

Torcida do Bayern representada no choro sentido de Bastien Schweinseiger, um dos melhores em campo, bafejado pela fina e cruel ironia dos Deuses do Futebol, ao explodir na trave a chance de dar o título ao seu clube, em sua casa. A do Chelsea refletida no choro de Frank Lampard, que comemora os gols olhando para o céu como se olhasse para a mãe, falecida em 2008, ano em que o Chelsea perdeu a final da UCL para o Manchester United. Hoje, ele foi abençoado com o título. E sua mãe deve estar feliz.

Em uma final que, diziam os analistas, seria jogada por coadjuvantes, todos foram artistas principais. Alguns heróis, outros vilões e tivemos heróis e vilões ao mesmo tempo. Como nas histórias de criança, neste dia o céu é azul, o inferno é vermelho. E de momentos como esses é feita a história do futebol. Que não se trata de uma questão de vida ou morte, é muito mais do que isso. Bill Shankly, um sábio.

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