Abstinência

Este é um texto sobre vícios. Como todo e qualquer ser humano, bem diria Nelson Rodrigues – o irmão do Maraca – eu sou a soma das minhas obsessões. Com muito mais vícios que virtudes. E toda vez que abandono um mau hábito, tendo a substituí-lo por outro. Mas há um deles com o qual travo batalha árdua e duradoura, e encaro mais uma vez: a nicotina.

Ser viciado em cigarros não é algo para se orgulhar. Mas gosto de fumar. Gosto do gosto, do hábito, da postura e muitas vezes salvei relacionamentos interpessoais com meus xingamentos transformados em fumaça. A companhia em momentos de solidão que o cigarro traz também não deve ser desprezada.

O Marlboro de filtro amarelo me acompanhou em diversos momentos da minha vida, dos mais difíceis aos mais felizes e nunca escondeu que há uma contrapartida a ser paga, financeiramente e em saúde. Foram, até agora, 16 anos de amizade.

Entretanto, há amizades cuja contrapartida é cara. Falsas, até. Ou daquelas que só querem te usar como estepe e depois te descartam. Desconfio que minha relação com o cigarro é destas. Acho que ele vai me transformar em trecho de música dos Racionais, me descartando depois como modess usado ou bombril. Por isso, tento, pela quarta vez, parar de fumar.

A abstinência que a falta do cigarro me causa é brutal. Não há outra palavra para definir melhor. De cinco a dez horas sem o primeiro cigarro, começa a fase do bonde sem freio moral:  A paciência se esgota, o pavio – que já é curto – some, a vontade de responder e falar verdades inconvenientes aumenta exponencialmente. Uma bomba relógio, é o que se tem nas primeiras horas sem cigarro.

O segundo momento é o que chamo de emulação de câncer. A nicotina, como se fosse um aziago lhe desejando tudo de ruim, ao sair do seu corpo causa de uma vez todos os efeitos que lhe causaria a longo prazo: o metabolismo pára, há febre, calafrios, dores pelo corpo todo. Náuseas, vômitos. Uma gigantesca vontade de não sair da cama. É um momento tão ou mais dramático do que a abstinência de várias drogas piores.

E o terceiro – e pior – momento da abstinência é a arrogância. A fase quando se acha que tudo se resolveu. Quando a vida começa a andar relativamente normal. Aí se volta a beber, se olha para o cigarro, parado marotamente ali, pinta um clima, um envolvimento, toca um “Careless Whisper” e se pensa: “só um cigarro”. Fudeu. A partir daí todo o esforço desce a ladeira.

A ressaca moral da volta ao vício é lancinante. Dói. É triste. E depois de três dias, como qualquer mulher de malandro, você está lá, fumando um maço inteiro de novo. Então, para evitar esse sentimento, é recomendável evitar essa armadilha de “mais um”, que é bastante lamentável.

É necessário também escolher um novo vício para substituir este. Pode ser o boxe, paixão antiga que não pratico há tempos. Pode ser o Tylenol PM, santo salvador de noites mal dormidas. Pode ser a corrida, se meus joelhos não doerem mais – é muito triste para o ser humano ser trecho de música d´O Rappa. Merecíamos melhor sorte.

Antes que indaguem o porquê de não tomar remédios, eu realmente acho que a parada de vício tem de ser traumática, até para evitar recaídas. Mesmo que nem sempre funcione. Bem, não evitei as três anteriores, mas espero que não haja desta vez. Estamos lutando para tal. Não sou médico, mas é assim que funciona comigo.

A batalha contra a abstinência é igual a relacionamento: dogma particular, cada um tem sua fórmula e receita que dá certo – ou não. A minha é esta. Não quer dizer que funcione. Por ora, cá estou eu, sofrendo. Mas diz o canto popular que é “de dor que se chega ao céu”. Veremos, pois.

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