Liberta, DJ!

“Eu sou pobre, pobre, pobre, pobre de marré. Mas sou rico, rico, rico, rico de mulher”. “Resusscita, São Gonçalo! Liberta, DJ”. Com estes versos, em 1995, o programa da Furacão 2000, no canal 9, tremeu no Rio de Janeiro. Cantando o “Rap do Salgueiro”, Claudinho e Buchecha eram apresentados ao público carioca adolescente, turbinado com refrescos de laranja com acerola, maracujá, limão [é furacão]. Nascia, em meados dos anos 90, a dupla ícone do funk carioca e uma das melhores coisas da música brasileira na década.

Cláudio e Claucirlei, amigos, flamenguistas, suburbanos, irmãos de fé, começaram a cantar nos festivais de rap de São Gonçalo, até que estouraram com o “Rap do Salgueiro” e chegaram à Furacão 2000. Era a onda funk, que revelou gente como Marcinho, Bob Rum, Danda e Tafarel, William e Duda e Neném, entre muitos outros.

Claudinho & Buchecha [o Claucirlei] eram diferentes das demais vozes do movimento funk. Não cantavam proibidões, tinham cara, jeito e eram bons moços, seus shows não tinham lado a, nem lado b. Eram diversão pura. Funk arte, funk moleque, funk oh yes y me voy. Simon & Garfunkel dançantes, de ébano. Tinham a característica marcante de procurar palavras diferentes e incomuns no dicionário e incorporarem aos funks.

Assinaram com uma gravadora major, a Universal, e lançaram um disco homônimo em 1996, que simplesmente alcançou platina triplo, vendendo 750.000 cópias.

O álbum é discoteca básica da música brasileira. Além do “Rap do Salgueiro”, uma cover de “Tempos Modernos” [melhor que a original, aliás], “Carrossel de Emoções” [um dos melhores retratos de bailes funks pacíficos da história], “Conquista”, “Barco da Paz” e o maior hit do funk na história, “Nosso Sonho”.

O funk chegou ao mainstream com MC Batata e a “Feira de Acari”, que foi até trilha sonora de novela. Mas “Nosso Sonho” fez o funk ganhar o mundo. Chegou ao ápice de ser música de comercial da Nike, cantada por Ronaldo, na época magro e fenômeno – mas sempre desafinado.

O funk, pela primeira vez, como dizia sabiamente a letra do “Rap do Silva”, o “Stairway to Heaven” do pancadão, cantado por Bob Rum, calava os gemidos que tinham nas cidades.

O segundo disco, A Forma, de 1997, manteve o sucesso do primeiro. Mais um disco de platina triplo. A guinada do funk para o pop era evidente. “Quero Te Encontrar” foi a música mais pedida do Oiapoque ao Chuí. A dancinha de Buchecha, a interjeição “Oh, Yes” e a versão de “Uma Noite e Meia” foram febre no país.

No terceiro disco, Só Love, de 1998, o sucesso não foi tão grande.”Apenas” platina duplo, 500.000 cópias vendidas, mas é dos discos mais lembrados. A versão de “Lilás”, de Djavan, foi hit, assim como “Xereta” e a música título, que trazia Claudinho tocando violão e antológicos versos como “controlo o calendário sem utilizar as mãos”. O disco trazia a dupla cada vez mais pop e mais familizarizada com a produção musical.

Nesta migração definitiva para o pop, gravaram um disco ao vivo, em 1999, e um disco mais obscuro, Destino, de 2000, que contava com um hit de arquibancada, “Vermelho e Preto“, exaltando o Flamengo, e “Berreco”, um semi-hit, que fez relativo sucesso no Rio de Janeiro. Destino não ganhou nem disco de ouro.

Depois de um hiato de dois anos, gravaram Vamos Dançar, que explodiu nas paradas graças a dois hits: “Gostosa” e “Fico Assim Sem Você”, principalmente pelo segundo som. A música de Abdula, com um malemolente jogo de palavras e o profético verso “Buchecha sem Claudinho”, invadiu o Brasil inteiro e recolocou a dupla na rota frenética de shows, até o dia 13 de julho de 2002…

… quando Claudinho resolveu ir para um show dirigindo seu carro novo e sofreu um grave acidente, morrendo no local. O fim de um dos maiores fenômenos musicais brasileiros estava decretado, mas até hoje Claudinho & Buchecha são reverenciados, seja em festinha de criança, seja nos bailes funks do Brasil.

Figuras da música pop como Kid Abelha, Ivete Sangalo, Adriana Calcanhoto e Emicida regravaram seus sucessos. Se houver alguém que tinha entre 13 e 20 anos na segunda metade da década de 90 e não fez a dancinha do Buchecha ou falou “Oh, Yes”, pergunte se ela se divertiu na época – a resposta provavelmente será negativa.

A filha de Claudinho iniciou carreira musical, apadrinhada pelo “tio” Buchecha, remoçando a própria carreira do atualmente sumido Claucirlei. Em tempos de hologramas, festivais nacionais como Rock in Rio deveriam fazer uma apresentação de Buchecha com o holograma de seu parceiro, cantando os sucessos da dupla. Não é exagero pensar que seria a atração brasileira mais procurada.

Há mais ou menos 15 anos atrás, ninguém levava fé na dupla. Hoje, não é mentira nem hipocrisia dizer que o som de Claudinho & Buchecha, ao menos para quem viveu aquela época, faz tudo ficar blue. Liberta, DJ.

Anúncios