O Quarto Árbitro

Ele havia tentado ser jogador de futebol, mas não conseguiu. Tentou a peneira do Flamengo, mas como jogador era um pato. Não aquele Pato, mas a ave. Passava, corria, cruzava, cabeçeava, marcava e chutava, mas não fazia nada direito. Assim, depois de três reprovações, decidiu abreviar sua inexistente carreira.

Mas o gosto pelos esportes nunca se esvaiu. Entrou em um curso de arbitragem. Aluno aplicado, ia bem, sendo aprovado com louvor. Começou a apitar partidas da terceira divisão do Campeonato Carioca, até que subiu para a Segunda Divisão. Em um desses sorteios da vida, foi escalado como quarto árbitro em uma partida do Flamengo, no Maracanã.

Naquela quarta-feira à noite, realizaria seu sonho. Estrear na primeirona, justamente em um jogo do Fla. O adversário era um time pequeno, certamente seria uma goleada, tudo daria certo. Seu time do coração entrou em campo com a terceira camisa. “Puta que pariu, terceira camisa, isso nunca dá certo!”. Entrou em campo antes do jogo, fez o reconhecimento do gramado, a oração com o trio de arbitragem. As equipes subiram ao gramado, o árbitro trilou o apito.

Com menos de dez minutos de jogo, o Flamengo já perdia por dois a zero. “Maldita terceira camisa!”. Ele estava indignado. Não acreditava naquilo. Era seu momento e o Mais Querido estava cagando tudo. Queria fazer algo, mas não sabia o que. Vinte minutos de jogo e o técnico chama para o aquecimento o Camisa 23.

“Porra, o 23? O professor está de sacanagem!”

Mais uns dois minutos e o treinador manda o recado para ele subir a plaquinha:

“Entra o 23, sai o 9!”

“Porra, tirar o 9?! Assim não vamos ganhar nunca!”

Ele teve uma idéia. Estava ali com a placa. Poderia mudar o destino. Se virou para o treinador e balbuciou:

“Não vou subir a plaquinha. Tu tá maluco, o 9 é o cara dos gols, tira o 11 que tá morto em campo!”

“Vai tomar no cu, moleque. Quem é o técnico aqui sou eu!”

“Mas eu tenho a plaquinha, tiro quem eu quiser…”

“Não fode!”

Ato contínuo, chamou o juiz pelo rádio. O apitador chegou à beira do campo:

“O treinador me xingou!”

O juizão não teve dúvidas e expulsou o técnico, que saiu desesperado, chutando tudo. O treinador do time adversário gargalhava. Ele chamou o árbitro de novo e informou da situação. Mais um expulso. Enquanto o outro professor saía indignado, ele chamou o número 23.

“Cara, você vai entrar no lugar do 11.”

“Ahn?!”

“É, porra! No lugar do 11. Vai lá!”

Subiu a plaquinha. Entra o 23, sai o 11. No primeiro curzamento do número 23, gol do número 9. Esboçou comemorar, mas guardou para si a vibração. Mais cinco minutos, chamou o número 17:

“Garoto, você é bom de bola, vão entrar você e o número 26, agora!”

Dito e feito: entraram os números 17 e 26 e saíram os números 8 e 6. Uma alteração ousada, mas no fim do primeiro tempo, numa tabelinha entre os dois, o Flamengo empatou o jogo. A torcida começou a cantar junto, já não era mais inacreditável, era possível vencer. No intervalo, antes de descer, o número 23 veio agradecê-lo e ele mandou um recado:

“Avisa ao professor que é pra trocar essa maldita terceira camisa!”

Na volta para o segundo tempo, com o uniforme titular, o Flamengo amassou o adversário. Envolvente, malemolente, mas a bola teimava em não entrar. Até que, faltando cinco minutos para o fim da partida, um cruzamento do número 17 encontrou o número 9, que finalizou sem chances para o goleiro. 3-2. Festa nas arquibancadas. Ele queria, mas não podia comemorar. O juiz apitou o fim do jogo.

Na saída para o vestiário, olhares gratos dos jogadores que entraram em campo. Ele já imaginava o escândalo nas entrevistas coletivas. O treinador do Flamengo, entretanto, disse que eram coisas de jogo, que a arbitragem é assim mesmo, enquanto o outro técnico não entendia sua expulsão e achava que tinha influído no resultado. “Culpa da Federação”, esbravejou.

Naquele dia, ao chegar em casa, ele decidiu não seguir carreira na arbitragem, por não saber controlar seus impulsos. Tempos depois, o treinador do Flamengo lhe procurou e ofereceu uma vaga como auxiliar do seu clube de coração, pois tinha lugar para ele no projeto. E até hoje ele é consultado na hora das substituições.

Danse Macabre

Não existe nada mais efêmero que a eternidade. A alegoria e o adereço de estar sempre buscando um caminho eterno de glória e felicidade, visando o melhor para si e outrem é apenas uma maneira de imaginar rosas entre os espinhos.

Mas não que isso traga um tom de desesperança ou amargura, longe disso. O caminho, por si só, é tão divertido quanto difícil. As decisões que separam crianças de adultos devem ser tomadas com toda a carga que possuem. A alquimia que transforma medo em coragem é um segredo tão bem guardado quando fazer chumbo virar ouro, mas ocorre involuntariamente, quando a necessidade se faz presente.

Na busca silenciosa por um trajeto menos sinuoso e tortuoso, tudo influi, como um efeito borboleta. Muitas vezes, entretanto, mariposas se mostram borboletas no caminho, teimando em rodear a luz alheia, se alimentando da sinalização, para se manter em evidência e fatalmente queimando as asas e caindo sós ao tempo da queimadura. Não há vôo que se sustente sem brilho próprio.

Mesmo com as intempéries e as tormentas silenciosas, internas e externas, desfilando pelo tribunal social que julga e muitas vezes não tem coragem de sentenciar cara a cara, preferindo proferir despachos em forma de murmúrios, há sempre a certeza de que na próxima curva haverá novas possibilidades e essa expectativa alimenta a alma.

Se vive sempre em uma dança macabra rumo aos próprios túmulos. E são muitas sepulturas na vida, enterrando momentos, destinos, sonhos, convicções. Refazendo caminhos, ressuscitando esperanças. No baralho do destino, há sempre espaço para renovação. A carta é XIII.

Jurubeba

Mirrado, franzino e com a voz que parecia um fiapo, ninguém acreditou quando Luiz Abelardo perguntou se poderia jogar na pelada da Rua Roberto Silva. Os moleques olharam desconfiados aquele garoto que mais parecia uma armação de pipa, de tão magro. Perguntaram a ele em que posição jogava e ele praticamente sussurrou: “no gol”.

Pois deixaram Luis Abelardo na de fora. Quando ele entrou, com o time mais fraco possível, simplesmente fechou o gol. Os guris tentaram vazá-lo de tudo quanto era jeito. De esquerda, de direita, de cabeça, e nada. O garoto magrinho parecia um exu tranca-rua debaixo dos três paus, transformando as redes em sua oferenda.

Depois daquela pelada de fim de tarde, P3, Pedro Paulo Pedreira, o técnico do time da Roberto Silva, que estava sendo em um bar na esquina, chamou o guri. Perguntou se ele queria jogar no Campeonato de Ramos pelo time da rua. Os olhos de Luiz Abelardo brilharam e ele já acenava a cabeça positivamente quando escutou uma voz de trovão.

“Moleque, qual é teu nome?”
“Luis Abelardo”, respondeu, com sua voz suave e pequena.
“Porra, isso nunca vai dar certo!”

O menino se assustou e o técnico da Roberto Silva se irritou com aquele velho barrigudo e intrometido. Salvador era o nome dele. Com aquele sotaque esquisito de quem comia pinhão, dizia que tinha sido zagueiro do Coritiba ao lado do Fedato, e que tinha jogado mais que ele. Todo mundo levava isso como bravata, mas era inegável que, entre uma cachaça e outra, o araucária parecia conhecer de futebol.

P3, já irritado, emendou:

“Ô Salvador, por que você acha que isso vai dar errado?”
“Porra, P3, o moleque tem nome de funcionário público de livro do Nelson Rodrigues. “Luiz Abelardo”. Onde isso vai dar certo. Não tem sonoridade de nome de goleiro!”

P3 ficou olhando incrédulo para o barrigudo curitibano, que arrematou:

“Veja só, presta atenção: quem era o goleiro do Flamengo campeão do mundo?”
“Raul”
“Raul, não. Rauuuuuuuuuuuuuuuuuuuul”
“E o do Vasco campeão carioca de 1982?”
“Acácio”
“Não, porra. Acáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaacio”
“E o do Fluminense?”
“Paulo Victor”
“Não, cacete. Tudo junto! Pauloviiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiictor”

Depois de entender o raciocínio, P3 emendou:

“E o do Botafogo era o…”
“Cara, o Botafogo ganhou algo?”
“Não”
“Também, com goleiro sem sonoridade fica difícil. Com esse nome, o moleque não vai longe. Temos de mudar o batismo dele”

Luiz Abelardo olhava incrédulo para a discussão entre os velhos. P3 tentava argumentar e Salvador tomava mais um quartinho de sua cachaça, quando olhou para o rótulo da garrafa e definiu:

“Meu filho, tu, a partir de agora, vai se chamar Jurubeba nas peladas. Tudo bem assim?”

Luiz Abelardo apenas assentiu com a cabeça.

“Veja a diferença, P3: Luiz Abelaaaaaaaaardo, olha que porcaria”
“E agora… Jurubeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeba, como um gato! Tá vendo?!”

Ambos gargalharam e até o franzino moleque riu. A partir daquele momento, Jurubeba era o camisa 1 do time da Rua Roberto Silva.

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Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, algumas personagens e jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “1986” “Regulamento”“Superstição”, “O Pênalti”“O Professor”“Arena”“O Protesto”“Maldição” “Po锓Cabaço” , “O Amor na Marca da Cal” e “O Clássico”

1986

21 de junho de 1986. As ruas de Ramos estavam vazias naquele sábado à tarde. E silenciosas. Se caísse uma agulha em qualquer lugar do bairro, seria prontamente escutado. A última frase que havia sido proferida, em altos brados, foi um “puta que pariu, não!” a plenos pulmões.

Na Rua da Feira, silenciosamente, Zabelê, Zumbi e Besouro, irmãos e companheiros de ataque no Cimão, saíram com a bola debaixo do braço. Encontraram Comunista e Munha, rivais do time da rua de baixo, mas naquele momento não havia clima para guerra. No meio da tristeza, havia um inimigo em comum e ele haveria de ser enfrentado.

Encontraram Girino chorando abraçado a Cecê. Logo eles que se digladiavam tanto e sempre nos clássicos do campeonato do bairro estavam ali, transtornados. Bobby chegou por perto, se comunicou com os irmãos hippies apenas com um olhar e disse aos galalaus emotivos: “Não acabou!”.

Ali, na rua, montaram as traves. Onze contra onze. Seriam eles que iriam enfrentar Platini, Bats, Giresse, Tigana, Amoros, entre outros. O apito imaginário tocou e eles começaram a jogar contra o mais envolvente e poderoso dos adversários: a imaginação.

Munha tabela com Zabelê, sabendo que Girino e Cecê estariam segurando a defesa. Passaram de passagem por Tigana e Amoros. Se livraram de Fernandez, que não sabia marcar. Um passe estilingado para Cabaço, que com um drible de corpo deixou Battiston na saudade. Ao cruzar, encontrou Comunista, livre, que só tocou para as redes. 1-0.

O time não se furtava ao ataque, embora os adversários fossem perigosos. Mas ali era uma revanche, uma vendetta, uma vingança, e eles não seriam intimidados. Mesmo assim Stopyra passou para Platini, que arriscou um chute. A bola desviou em Girino e enganou Bobby. 1-1.

A equipe poderia ter se abalado com o empate, mas não se assustou. Em uma tabela envolvente, Cabaço deixou Munha livre na área, e ele foi derrubado. Ainda houve a impressão de que ele teria caído sozinho, mas a arbitragem apontou para a marca de cal. Pênalti.

Um princípio de discussão se formou. Normalmente, Besouro bateria o pênalti, mas Zumbi tomou a bola do irmão. Um quiprocó se formou. Besouro queria efetuar a cobrança, mas Zumbi apresentou um argumento irrefutável:

– Não cara, tu não vai bater essa porra. O último flamenguista que bateu pênalti contra a França durante o jogo não funcionou. Deixa eu cobrar, eu sou América.
– Porra…

Não dava para contra-argumentar. Assim, Zumbi ajeitou a bola, respirou fundo e partiu pra cobrança. Bats ainda resvalou na bola, que caprichosamente tocou na trave antes de morrer no fundo das redes. 2-1. Com uma maturidade fora do normal, eles tocaram a bola, cansando o adversário, que era mais experiente, mas não podia contra o sol forte de Ramos e uma equipe determinada.

O apito trilou indicando o fim do jogo. Eles estavam vingados. Até hoje, os jogadores de Ramos juram de pés juntos que derrotaram a temível França de Platini. Não houve testemunhas no bairro vazio, mas ninguém ousa discordar. Naquela sepulcral tarde de sábado, o bairro virou Guadalajara.

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Para conhecer melhor as personagens citadas neste conto, leia  “O Clássico”.

Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, algumas personagens e jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “Regulamento”“Superstição”, “O Pênalti”“O Professor”“Arena”“O Protesto”“Maldição” “Po锓Cabaço” e  “O Amor na Marca da Cal” 

Carrinho

Houve algum momento em sua tenra idade que ele passou a não gostar de carrinhos. Nas lembranças esmaecidas da memória, às vezes vinham flashes de uma estante cheia deles, em modelos de ferro, todos organizados, que depois desmoronava. Não eram pensamentos nostálgicos, eram pesadelos que o atropelavam e o faziam marejar os olhos.

Como tudo que é ruim e não merece ser enfrentado, essa antipatia foi empurrada para debaixo do tapete da alma. Ali, não incomodava a si mesmo. Sem ter de encarar esta dor, vivia bem. Até que teve um filho. Guri, piá, moleque, garoto, maroto, travesso. Conforme chegava a hora de nascer, os presentes se amontoavam, nenhum carrinho.

Até que um grande amigo deu um carro enorme de presente. Uma Ferrari daquelas. Agradeceu imensamente. Guardou com carinho. Era do filho. Se fosse uma bola, já estaria fazendo embaixadinhas, emulando som de torcidas, realizando o voleio de Bebeto e saindo pra comemorar com embala-nenem. Mas o carrinho? Não o tocava, porque evocava aquela estante e logo em seguida, na mente desmoronava.

Seu filho foi crescendo, começou a engatinhar e depois a fincar os pés no chão. Toda vez que o pimpolho olhava um carrinho, brilhava os olhos. Ele percebeu isso. Não há medo que mereça eterna fuga, hora de resolver este problema e tirar a sujeira debaixo do tapete.

Em um sinal vermelho, parou o vendedor. Perguntou quanto era aquele carrinho. “Cinco reais”. Tirou o dinheiro do bolso. “Fica com o troco”. Chegou em casa com o moleque, o colocou no chão e enquanto ele ainda se ajeitava para dar seus pequenos grandes passos, soltou o carrinho também. Ganhou um sorriso em retribuição. E uma língua sapeca no rosto.

E o menino pegou o carrinho e meio desajeitado o mandou de volta para o outro menino, que fez movimento similar. Ali, na linguagem universal da alegria, um acertava contas com o passado, o outro apenas vivia seu presente. Agora, no quarto do guri, há vários carrinhos. E muitas vezes, o menino maior vai lá brincar com eles.

Esponja

Ele se acostumou a entender o lado de todos. Conselheiro, guru, ombro amigo. Era o primeiro a ser procurado quando as coisas ficavam enegrecidas. O esteio de muitos, cansou de ser padrinho de casamentos e batizados. O braço forte e a mão amiga, mas uma pergunta o atormentava: “e quem cuida de mim?”. Absorvia o problema de todos a quem queria bem, como filtro, ficando alerta e insone inúmeras vezes. Esponja.

Muitas vezes queria explodir e implodia. Não conseguia enxergar no espelho o conselheiro que todos viam. Além disso, sempre achava que perdia o timing das suas próprias coisas. A ansiedade de acertar o consumia. Ele queria mais do que ser o ouvido, queria ser ouvido. Queria ser coração, estar em paz, ser feliz. Sofrer pelo presente, não pelo futuro do pretérito.

Guardava seus anseios para si, como uma caixa de pandora. Muitas vezes via o dia anoitecer na esperança de se reencontrar e saber onde tinha se perdido. Precisava dialogar consigo mesmo. Se apaixonou tantas vezes quanto desapaixonou, por perder o bonde do tempo, ou simplesmente por temê-lo. Decidiu, entre copos de chopp, que não seria mais assim.

E passou a viver mais leve, a não temer a solidão, embora não a valorizasse como inimiga. Decidiu aguçar o olhar. Não deixou de aconselhar aos amigos, mas passou a se aconselhar com frequência. Com paciência e serenidades budistas, buscou alternativas. Do desencanto, passou a se encantar e encantar aos outros.

Decidiu absorver a coisa boa da vida e se permitir sonhar, não só ser esponja de outrem, mas de si mesmo. Ele, que sempre foi ateu, fez do amor próprio e da compaixão sua meta, religião. E finalmente conseguiu torcer a esponja, ficar leve, viver livre. E voltou a dormir bem.

Suco de Tangerina

Ele sempre teve a contradição como seu ombro amigo. A segurança de saber o que era andava de mãos dadas com a insegurança de não saber o que esperar – de si, de outrem, do mundo. Muitas vezes usava uma máscara de arrogância para se proteger daquilo que não conhecia ou temia conhecer, mesmo que fosse do espelho.

Sempre traçava seus planos e seus sonhos como se fosse uma obra de vida. Detestava os imprevistos, embora adorasse os improvisos. O romance com a idiossincrasia era um dos amores mais duradouros que tinha, e tinha se conformado com essa rotina de mudar opiniões mesmo se aferrando a princípios.

Perdido e absorto em seus próprios pensamentos, muitas vezes demorava a tomar decisões. Não só por receio, mas por tentar compreender o que cada uma delas significava em toda a sua essência. Nos contratos e distratos feitos com a vida, gostava de ler as letras miúdas.

Entretanto, há uma hora que os caminhos se tornam inevitáveis e que é preciso tomar atitudes. A contradição deixa de ser poltrona e vira espada, perigo iminente, como na parábola de Dâmocles. Nesses momentos, não há como não fazer. Apenas assumir as negligências e responsabilidades. As opiniões e princípios estão lá, mas asfixiam mais do que fazem respirar.

A cada passo, uma nova sensação. Dor, tristeza, serenidade, esperança, paz. Sem perder a alteridade, palavra da moda, espírito necessário. É preciso entender e compreender o que se passa, e deixar de se irmanar com a contradição. Para poder andar em frente, é preciso olhar para trás e, principalmente, ao redor. É preciso se despir da roupa antiga e sentir o vento da esperança.

E deixar de se importar com as coisas dramaticamente grandes e importantes da vida e do mundo. Esquecer um pouco dos anseios e ardores da alma, deixar as feridas respirarem, buscando a cura por si só, mesmo que as cicatrizes deixem quelóides. Desarmar o espírito e relembrar que mais relevante que saber bater, é aprender a apanhar.

Sem sonhos, nem pesadelos, reaprender a caminhar, relembrar as coisas simples, saber que tudo pode e vai se assentar. E que a contradição gerada pela ânsia de entender o mundo perde seu lugar pra simplicidade. Que, às vezes, opinião, princípio, compreensão devem ser colocadas em repouso. Apenas sentir, buscar a calmaria. Em vez de se embriagar de dúvidas e necessidades, algo prosaico, como suco de tangerina. Assim, simples. Intransitivo. Um brinde.

Enfrentando Demônios, II

– Oi.
– Você? Aqui? É pesadelo?
– Não. Ausência de sonhos. Não é inventivo? Por que você acha que não consegue dormir?
– Não sei. Por sua causa?
– Exatamente.
– Vaidoso.
– Eu falei que voltaria pra te questionar. Voltei.
– É. Não foi convidado.
– Nunca sou convidado, não faz meu perfil.
– É verdade.
– É bonito te ver definhar.
– Gosto do fato de você ser lúdico.
– E você continua debochado.
– É importante manter a verve.
– Até quando você vai resistir?
– Até o momento em que me sentir só. Você, por exemplo, está me acompanhando.
– O que?
– É. Enquanto você se importa em me questionar, eu sirvo pra algo.
– Mas eu sou seu demônio.
– Você existe por minha causa, não o contrário.
– Faz sentido. Mesmo assim, não pense que sou seu amigo.
– Não é. Mas de você eu sei o que esperar. Pra mim você é previsível. E não é meu inimigo.
– Não?
– Não. Meu inimigo sou eu, muito mais contundente e imprevisível que você.
– E você acha que aguenta?
– Mesmo com gente por perto, há lutas que se lutam só.
– Muitas frases de efeito. Você já foi melhor nisso.
– Ultimamente a excelência não é meta; sobreviver é.
– Dramático.
– Realista.
– Já disse que uma hora o temporal te consome.
– Chuva só vem quando tem de molhar, não me assusta.
– O mais irritante em você é essa falsa consciência sobre si.
– Quem atormenta quem aqui?
– Vai pro inferno.
– Já tenho visto no passaporte. Está amanhecendo, quem não gosta de sol é você.
– Eu volto…
– Você já não tem a mesma segurança na voz…
– Mas…
– Bom dia pra você.

Saturno

Quando criança ele gostava de olhar o céu. E dos livros que falavam do céu. Astronomia. Nunca quis decorar o nome das estrelas. Aliás, só sabia reconhecer o Cruzeiro do Sul. O seu negócio era ver os planetas. Júpiter, Marte, Netuno, Urano, Mercúrio e, principalmente, Saturno.

Ele gostava deles, tinha fascínio. Ficou um tanto quanto frustrado quando descobriu que eram necessários milhares de anos para se chegar a um deles. E que não havia tecnologia que fizesse um ser humano chegar lá, quanto mais sobreviver. A tristeza aumentou quando viu na TV que Vênus estaria visível a olho nu. Quando finalmente o localizou, parecia uma estrelinha. “Estrelinha”, bufou, antes de fechar a cara.

Envelhecendo, quis comprar uma luneta, mas o dinheiro nunca dava. A vida sempre o atropelava com prioridades. A demência do cotidiano e seus arroubos, que impedem coisas aparentemente simples. Nunca é fácil viver, e às vezes é muito difícil sonhar. Sonho não é pra qualquer um, ainda mais quando diz respeito a algo importante, mesmo que pareça bobo. Muitas vezes, sonhar é um ato de coragem. Ele não desistia, queria ver Saturno.

Certa vez, houve um evento no planetário. Pra ver Saturno, só de madrugada. Mesmo assim, foi uma festa. Muita gente. Com telescópio bom. Coisa fina. Ele foi, enfrentou fila, e quando finalmente chegou sua hora, pra lá das três da manhã, o tempo ficou encoberto. E não conseguiu ver o planeta. Cabisbaixo, foi embora mais uma vez frustrado.

Ainda hoje ele se pega pensando em Saturno. Nos anéis. Essas coisas de criança. Por mais que, às vezes, o entristeça, ele não desiste de sonhar. Poderia se conformar, deixar pra lá, afinal o planeta está tão longe do seu alcance… mas, sempre se lembra dos tempos de guri, do sorriso solto, do peito aberto. Afinal, muitas vezes, sonhar é um ato de coragem.

Cheiro de Café

O mais complexo na vida é enxergar a simplicidade. O mais prazeroso, também. Nada mais natural do que uma contradição para guiar o caminho. Tatear no escuro é a única maneira de seguir em frente. Um dia de cada vez, sempre em passos pequenos, seja pra que lado for. Tempo ao tempo, é o que diz a sabedoria.

Ali, nas pequenas e delicadas coisas, como trabalho de ourives, se talha o destino. A 18 quilates, maleável ao extremo, mas com certa dose de sujeira, não para macular a pureza, mas para dar alicerce, cicatriz, dureza necessária para entender e compreender a beleza dos momentos, inclusive os duros.

“Se lágrima fosse de pedra, eu choraria”. Assim diz o poeta citado por outro poeta e replicado por quem não entende de poesia. É mentira, claro. Não há pedras no peito, no máximo nos rins. A roda da fortuna às vezes se traveste de infortúnio, entrelinhas tortuosas que revelam bem mais que bem traçadas linhas. Há sempre a necessidade do pé no chão, embora sonhos sejam combustível e se incendiar seja bem mais atraente e gratificante. A vontade de se afogar às vezes é maior que a de nadar.

Entretanto, mesmo que o mar grande chame, buscando arrebentar na arrebentação, ninguém vira as costas para a paz. A brisa serena, não fazer nada, sentir apenas os raios de sol ou o brilho do luar que caminham preguiçosos pelo rosto, dando novo gosto e levando desgostos.

E aí, nestes caminhos e descaminhos, futuros do préterito mais que imperfeito, a vida passa. Repassa. Trespassa. Espaça. E alma, sequestrada pela angústia e melancolia, foge, desiste de ser refém da tristeza, para não ser assassinada pela amargura e sorri, desafiadora. Para flanar, sentir a brisa ou incendiar. Trivial, vaporoso e inebriante, como cheiro de café. Assim, simples, fazendo sem saber. Apenas sendo. Afinal, o mais complexo na vida é enxergar a simplicidade.