Diferenciado

Diferenciado. Por muitos anos esta palavra dominou o noticiário esportivo. Partia da boca de dirigentes são-paulinos, para tecer loas ao seu clube e diminuir os rivais. Ontem, no Major Antonio Couto Pereira, o São Paulo aprendeu algumas variações do termo.

Após um primeiro jogo surreal, onde o Coritiba mandou na partida, mas quem levou a dama pra dormir foi o São Paulo, com um gol tirado do fundo cartola pelo atual Lucas, ex-Marcelinho e talvez craque, a segunda partida era esperada com traços de incoógnita. Pela história recente, era um confronto sem favoritos.

Na fria noite curitibana, o São Paulo logo viu que estaria diante de um inferno verde, com mais de trinta mil coxas brancas ensandecidos. Mesmo assim, o tricolor começou até bem, dando a falsa impressão de que mandaria na partida. E dominou o início do jogo amassando o Coxa dentro de sua própria casa, como se fosse fazer uma cuca alviverde.

Futebol é a arte do engano. O São Paulo se empolgou com o domínio territorial e se descuidou. Em um escanteio cobrado rapidamente, a defesa tricolor se desnorteou. Enquanto olhavam araucárias e arapongas, não perceberam que Emerson, o zagueiro-artilheiro, voava mais alto que Santos Dumont em seu 14 Bis. A testada tinha endereço certo: Rua Canto Direito do Goleiro Denis, s/n. Coritiba 1 – 0 São Paulo.

Tudo igual no placar agregado. O São Paulo começava a perceber que transpiração e organização fazem a diferença. O tricolor paulista hoje é reflexo das bravatas e sandices de seu mandatário e com um tecnico que usa apenas o feijão com arroz e busca o salário no fim do mês em vez das glórias e ambições.

O São Paulo atual tem o controle emocional compatível com o de Heleninha Roitman. Após tomar o gol, ficou trôpego, pândego, como se fosse um pacote flácido ou música de Chico Buarque cantada no videokê. Lucas tentou fazer as vezes de amuleto com um chute perigoso, mas nem sempe funciona. O intervalo chegou com 1-0 no placar.

O Coxa recomeçou o jogo melhor, enquanto o Tricolor se apequenava. Aos 16 minutos, Ayrton cruzou para Everton Ribeiro, que entre as torres estáticas da defesa tricolor, cabeceou simpático: Coxa 2 – 0 São Paulo. A vaca em três cores do Morumbi começava a deitar na Regis Bittencourt.

Na tentativa de achar um gol e se classificar, Leão tentou rugir, mas mexeu mal – o que não foi propriamente uma novidade. Marcelo Oliveira, sereno, conhecedor de seu elenco, fruto de um trabalho de longo prazo, apenas trocou as peças que julgava necessário. Um ou outro drama aconteceu, mas o resultado do jogo estava sacramentado. Coritiba na final da Copa do Brasil pelo segundo ano consecutivo.

O Coritiba tantas vezes subestimado, campeão brasileiro de 1985, atual vice campeão da Copa do Brasil. Hoje é o verdadeiro time copeiro da competição. Enquanto muitos grandes já caíram pelas tabelas, o Coxa foi firme, forte e sereno, subindo à final como se caminhasse pelas ladeiras do Alto da Glória, sem cansaço.

Diferenciado. A palavra que abriu o texto foi o vocábulo da moda no futebol brasileiro até pouco tempo atrás. De certa forma, os defensores da palavra têm razão. Ser diferenciado
realmente dá resultado. Afinal, um time com o mesmo técnico há anos, que mantém sua base, que não extorque sua torcida, que lota seu estádio em uma noite fria e que não paga horrores ao seu elenco, mas respeita a todos, atualmente, é um time diferenciado. E este é o Coritiba, que como charme e o funk, andou bonito e elegante.