O Embate

Aquele dia tinha sido um inferno. Um lamúrio, um lamento, uma tristeza, quase um samba daqueles que celebra o choro, a dor e a depressão. Certas tardes se trabalha em ambientes intranquilos. Pois bem, aquela tinha sido uma assim. Ele estava um caco.

Tudo que ele queria era relaxar, chegar em casa, abrir uma cerveja e se refastelar no sofá. Ao abrir a geladeira, percebeu que não havia mais cervejas. O fim do mês é sempre inclemente. Sem cerveja, restou passar um café. Colocou a água pra ferver. Acendeu um cigarro. Finalmente sentou no sofá e acendeu a luz.

Quando a sala ficou clara, de relance a viu correndo. Negra, imponente, forte, parecendo intransponível. Poderia ser uma pantera, era uma barata. Se escondeu naquele buraco negro que existe atrás da cômoda, onde moram criaturas fantásticas como o duende que esconde guarda-chuva ou o goblin que rouba chaveiros.

A partir daquele momento, ele ficou cabreiro. Cabreiro, não. Preocupado. Ou melhor: em pânico. Estava com a sensação angustiante de ser observado por aquele inseto que, de tão cascudo, parecia ser mitológico. Se entrincheirou em sua própria sala.

Lembrou dos tempos em que vivia em família, quando matar baratas era responsabilidade de quem via primeiro. Ele nunca – ou nunca fazia questão – de vê-la. Era o medo travestido de ecologia. Mas agora, morando só, o embate era iminente.

Ficou hesitante entre puxar ou não a cômoda. Não sabia ele quantos
perigos aquele movimento poderia revelar e isso lhe dava apreensão. Era inevitável, o momento havia chegado. Mexeu a cômoda.

Ela estava lá, altiva. As antenas malemolentes, como se desafiando a ele estivesse. Ele, com chinelo na mão, escutando a trilha sonora de Ennio Morricone ecoar em sua mente, no seu faroeste particular. Na primeira chinelada, surpresa, ela driblou. A barata era Garrincha, ele era João. A segunda chinelada também foi infrutífera, até que ele apelou.

A Convenção de Genebra diz que proibido o uso de armas químicas, mas ele não quis nem saber. Lembrou do inseticida outrora largado na dispensa e caprichou na dose. Aquela barata, que poderia resistir a bombas atômicas, ficou doidona, titubeou e caiu. Ele utilizou tanto que quase morreu solidariamente ao inseto.

Com um misto de medo e triunfo, viu o bicho agonizar na sua frente. Mesmo tendo trapaceado na batalha, manteve a honra de dar uma chinelada de misericórdia e abreviar o sofrimento da barata, que lutou o bom combate. Sem nenhuma condolência, a jogou na lata de lixo.

Sentou-se no sofá sem troféu, sem comemorações, apenas aliviado. E puto, porque lembrou que não tinha cerveja. E mais puto ainda, porque tinha esquecido a água fervendo pro café e a chaleira secou. Decidiu tomar uma ducha e dormir, pra que pelo menos na manhã seguinte não acordasse de sonhos intranquilos.

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Baseado em um pequeno post de Diego Salmen no Facebook, com um excerto sensacional de Rodrigo Macedo.

[Des]Poesias

Quando se conheceram, foi amor à primeira vista. Ele amava poesia e ela adorava ouvir a poesia que ele declamava. Depois do primeiro beijo, inesquecível, a olhou e declamou Drummond: “Leitura de relâmpago cifrado, que, decifrado nada mais existe”. Ela se apaixonou.

Subiram ao altar um ano depois, em cerimônia religiosa com direito a véu, grinalda, dama de honra e festa cheia de gente. Ao olhar para a noiva, deslumbrante, citou Cecília Meireles: “É difícil para os indecisos. É assustador para os medrosos, avassalador para os apaixonados!” E ela se derreteu ainda mais.

Tiveram filhos gêmeos, lindos. Uma família feliz, de comercial de margarina. Ao ver aquela foto belíssima, ele sorriu pra ela e cantarolou Vinícius: “Amo-te, enfim, com grande liberdade, dentro da eternidade e a cada instante.”. Naquele momento, ela tinha tudo que poderia querer na vida.

Durante a rotina, o amor foi amornando. Depois de quatro anos juntos, não era a mesma coisa. Ele se tornou peça nula, ausente, pálida. Ela se perguntava o porquê daquilo. Ele, pela primeira vez, não foi trovador, preferiu o silêncio. Viraram letra morta, desafinaram.

Ela não se conformou e resolveu investigar. Revirou coisas, viu bilhetes, contas telefônicas, virou uma paranóica, mas não foi em vão. Quem procura, acha, com ela não foi diferente: Descobriu que ele tinha uma amante fixa. Mais: tinha outra casa. Ainda mais: A manteúda  estava grávida. Se sentiu como personagem de Nelson Rodrigues, sem poesia alguma.

Quando chegou em casa, arrumou as malas, colocou os filhos embaixo do braço e lhe escreveu um bilhete…” a você que tanto me declamou poemas, me fez feliz e depois me iludiu, deixo Mario Quintana, pois dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei, e da minha boca fechada nasceram sussurros. Complemento com uma poesia da minha autoria, dizendo que os sussurros agora viram gritos e te mandam para a puta que pariu, seu miserável mentiroso.”

Hoje em dia ela seguiu a vida e quase não mantém contato com ele, que continua declamando poesias em qualquer lugar, inclusive no xilindró, para onde vai quando deixa de pagar a pensão dos gêmeos e do filho da amante.

Manual Noveleiro

Mais uma novela das oito vai acabar. Mais uma vez o Brasil vai parar. O mundo muda, até o horário do folhetim muda – o que era às oito hoje começa às nove – mas certos hábitos da sociedade brasileira permanecem inalterados.

O mais importante nisso tudo: Fazer novela dá grana. E não é pouca. Dramaturgo de folhetim é a profissão mais bem paga no Brasil. Sendo assim, vamos apresentar um manual para que você, leitor, se torne um autor cheio de dinheiro – e possa nos doar um l´argent futuramente. Acompanhe os estilos abaixo e escolha o que mais se adapta à sua escrita.

Para ser um autor estilo Benedito Ruy Barbosa: Escreva textos passados no Pantanal, na Amazônia, nos dois, na rua, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapê. Coloque algumas gostosas tomando banho de rio, tenha o Sergio Reis contracenando com o Almir Sater, coloque um diabo escondido em algum canto, como se fosse o Geninho da She-Ra, tenha duas famílias antagonistas e faça os filhos de cada uma delas se apaixonarem. Na trilha sonora um sertanejo clássico e você tem sua novela montada.

Para ser um autor estilo Manoel Carlos: Seu texto se passará no Rio de Janeiro. Sua trilha sonora terá bossa nova. Sua atriz principal sempre terá o mesmo nome em todas as novelas. Você terá um núcleo jovem, um núcleo de subúrbio e uma menina mimada fazendo maldades, provavelmente contra velhinhos. A Elisa Lucinda também será sua personagem, assim como alguém da moda, como modelo ou ex-BBB. Tentará ser um texto liberal, mas no fim das contas será apenas conservador. Ah, e sempre terá um parente seu como ator contratado.

Para ser um autor estilo Silvio de Abreu: Seu texto terá um núcleo cômico no nível histriônico. Uma personagem falando errado, bem bonitão, que cairá no gosto da galera. Um núcleo misterioso com personagens de hábitos esquisitos. Você escolherá entre um evento bombástico no primeiro capítulo ou várias mortes espalhadas durante a novela. No fim, gravará sete finais diferentes e escolherá a personagem mais xexelenta como o assassino. Seu folhetim terminará geralmente com alguém dado como morto, cheio de dinheiro, fugindo para o exterior.

Para ser um autor estilo João Emanuel Carneiro: Seu folhetim terá um vilão que se faz de mocinho e um mocinho que se faz de vilão. Você usará várias referências de suas obras passadas de formas bem delicadas e criará uma rede de vilões e mocinhos coadjuvantes que sempre se misturam. O cuidado começa na escolha das músicas até os traços de suas personagens. Geralmente você define todos os rumos da sua história no capítulo 100, enche mais uns 50 capítulos de linguiça e tem um final alucinante. Em todo fim de capítulo uma personagem é congelada numa foto preto e branco. Corta para os créditos.

Para ser um autor estilo Gilberto Braga: Seu drama terá um vilão antológico, que enche a boca para falar seu nome completo, ao estilo Odete Roitman ou Laura Prudente da Costa. Um casal romântico daqueles cheios de água com açúcar e um assassinato impactante, para que se estampem nas revistas de fofoca da semana seguinte: “QUEM MATOU FULANO?”. Provavelmente, este enigma será patrocinado por uma marca de temperos ou algo feminino e sorteará um prêmio para quem acertar o nome do assassino.

Para ser um autor estilo Aguinaldo Silva: Seu texto terá Susana Vieira como protagonista, provavelmente falando um sotaque nordestino que não existe. Você terá destaque nas redes sociais xingando todo mundo e criticando outras novelas. Divida a novela em duas fases, uma num passado relativamente distante e outra no presente. Crie uma personagem
coadjuvante fanfarrona que vai cair no gosto do público com bordões de impacto e um núcleo familiar com muitos irmãos e confusões.

Para ser um autor estilo Glória Perez: Você fará um texto com dois núcleos, um no estrangeiro e outro no subúrbio. Criara modas novas com danças que ninguém conhece, povos subestimados e coisas do tipo, além de cultivar um enredo social que envolva crianças, transplantes, tráfico, paz mundial ou Prêmio Nobel. Ou tudo junto. Mexerá com aspectos da ciência, religião e morte e criará fatos no limite do inacreditável, como três Murilos Benícios ao mesmo tempo.

Em todos os casos, tempere com um final feliz. Você ainda pode ter o dom de criar uma nova vertente e ganhar ainda mais dinheiro ou não ter o mínimo talento para dramaturgia. Neste caso, faça uma faculdade para ganhar dinheiro de forma convencional e lembre-se que o importante é ter saúde. Mas não esqueça que tentamos ajudar.

O Jornaleiro

Todo dia, durante trinta anos, a rotina era a mesma. Abrir a banca às 5 da manhã, esperar os jornais chegarem, ajustar as revistas, dar “bom dia” a todas as pessoas da vizinhança que passavam. Tradição de família, tinha herdado a banca e o gosto pela leitura do pai. O filho não quis seguir na profissão, e ele respeitou e apoiou. Mesmo assim, fez questão de transformar o rebento em ávido consumidor de informações.

Foi ali que viu a ditadura cair, como foi ali que seu pai tinha visto a ditadura nascer. Seu velho apoiou os militares, ele só queria a liberdade. Foi ali que conheceu o rock inglês, mas aprendeu a respeitar os seresteiros que seu pai tanto escutava – e cantava. Lia tudo. De tudo. Sem preconceitos. Só não gostava dos obituários de jornais, pois achava muito mórbido.

Naquela banca fez amizades para toda a vida. Pais, mães, filhos, agora até netos, todos compraram ali. Alguns se conheceram ali em frente. Médicos, engenheiros, advogados, músicos, pedreiros, jornalistas, desempregados, vagabundos, gente de todas as classes e todos os tipos. Que sempre retribuíram aquele “Bom dia” com um sincero e genuíno sorriso. Aquela alegria sempre foi combustível para continuar trabalhando, dia após dia.

O tempo passava para todos e passou para ele também. A velhice foi chegando, a modernidade veio de forma diretamente proporcional. A sociedade foi ficando mais carrancuda. Mas sempre haveria aqueles que respondiam ao “bom dia” com o sorriso reconfortante.

Um belo dia, todos notaram que a banca não abriu. No dia seguinte, também não. Ele tinha morrido. Todos sentiram sua falta. Muitos choraram. O seu nome não saiu no obituário. Ainda bem, ele ficaria ofendido, era a única leitura que dispensava. O bairro ficou mais sisudo.

Meses depois, a banca reabriu. O filho desistiu de desistir de ser jornaleiro. Um tanto como homenagem, um tanto como vocação, seguiu a linhagem da família, consumindo e distribuindo avidamente informação. “Bom dia”, disse ele para a senhora que passou. E ela, reconhecendo o timbre de voz, abriu um largo sorriso.

Modernidades

Eles se conheceram através de uma rede social. Curtiram, compartilharam, trocaram mensagem. Se encontraram. Ele com seu telefone moderno pra lá, ela com seu aparelho novíssimo pra cá. Se ligaram e se conectaram, instintivamente. Andróides.

Mesmo com tanta automação, se apaixonaram. Passaram a dividir os segredos, apelidos e o perfil na rede social. Já tinham emprego, vida encaminhada, então não tardaram a se declarar alma gêmea do outro. Um amor 2.0, diriam os antenados. Marcaram casamento e chamaram todos os amigos. Via internet, claro.

Dividiram além do perfil, as senhas. Tudo era único. Só que, com a convivência, vieram as arestas. As cenas de ciúmes. As indiretas no perfil em comum. Mas quem mandou o recado? E quem o recebeu? Os amigos ficavam confusos, mas não mais do que eles, que viam desaparecer a identidade de cada um.

Se desgastaram. Começaram a se falar mais por e-mail do que por telefone, quiçá pessoalmente. Era um tal de mensagem pra lá e mensagem pra cá, que quase não se ouvia voz naquele apartamento. Sem filhos, sem bichos de estimação, os únicos mascotes eram os laptops e os telefones.

Até que um dia, a mesma rede social que os conectou revelou, através de um defeito, mensagens privadas. Ela viu algumas mensagens e ficou com a pulga atrás da orelha. Viu comunidade onde achava que tinha exclusividade.

Sabia das senhas dele, tinham o mesmo modelo de aparelho telefônico, utilizou o aplicativo localizador. O encontrou num motel, com outra pessoa. Não curtiu, mas compartilhou. Resolveram se divorciar e deram entrada no processo. Digital.

Calçadão

O tempo voa. E quanto mais velho se fica, mais rápido ele corre. Encontrar o que nos deixa saudoso, passear onde se nasceu e criou, conhecer novos lugares, criar e relembrar bons momentos e vivenciar novas coisas. O que se leva da vida são sorrisos. Sorrisos, carinhos e respeitos.

Naquela caminhada pelo calçadão da vida, observar o molejo malemolente das garotas andando na direção contrária, quase dando um torcicolo no observador. Conversar sobre as memórias das mesas de estudante, dos porres inesquecíveis – menos para quem bebeu – do presente e dos planos pro futuro. Cultivar os amigos antigos, fazer novos e manter sempre o papo bom, o sorriso fácil, a solidariedade presente.

Entre aqueles milhares de metros, a vontade de dar um mergulho. Que é subjugada pelo sol gaiato, que teima em se esconder, apresentando um vento frio. A praia é trocada pelo chopp. E dentre as coisas inigualáveis da vida, o choppinho é das mais únicas.

Depois de algumas tulipas e análises pertinentes sobre o nada, muitos sorrisos, muitas saudades. No calçadão desta vida, vamos caminhando com quem nos ensina, nos faz bem, nos trata bem. E vamos deixando para trás, sem olhar no retrovisor, aquilo que não nos apetece. Só se tira da vida o que se investe nela. Vai mais um chopp aí?

Pílulas de Sabedoria

Acordou incomodado com sua barriga. Quando passou pela farmácia, o ponteiro marcava 112 kg. Se sentiu inferiorizado. Os amigos o chamavam de balofo, o argumento de que era um “calo sexual” não o servia mais. A esposa não se incomodava, porque na cama era tudo às mil maravilhas.

Um conhecido se solidarizou com o drama. O apresentou a outro conhecido que vendia umas pílulas. No rótulo estava escrito “Sibutramina”. O “vendedor” fez questão de dizer que o medicamento estava proibido, que não vendia nas farmácias. “A máfia dos remédios”, alegava. Gastou o que não tinha, comprou dois frascos.

Em duas semanas, o resultado apareceu. Perdeu um, dois, cinco, dez, quinze. Quinze quilos em um mês. Se sentiu mais bonito. O humor mudou. Incrivelmente, para pior. Estava impaciente, irritadiço. A mulher o achou diferente. Os amigos do trabalho pararam de sacanear, e elogiaram o progresso.

Entretanto, houve um problema: Em casa, não dava conta. À medida que a barriga sumia, o apetite sexual não aparecia. As pílulas moderaram tudo. Nem a azul deu jeito. A mulher chorava, achava que ele tinha conhecido um caso na rua. Confusão. Tristeza. Infelicidade. Brigaram como nunca tinham brigado. A barriga, a moral, a alegria, tudo diminuiu.

Um dia, chegou mais cedo em casa. A mulher apareceu logo depois, de cabelos molhados. Estranhou. Discutiu. Ela admitiu. Traiu. Com um cliente do salão de beleza onde trabalhava. Disse que, se ele tinha um caso na rua, ela podia ter também. Ele enlouqueceu. Gritou. Quase agrediu. Perdeu a barriga, mas ganhou um chifre. E nada da libido voltar. Tomou uma decisão. Parou com as pílulas.

Quarenta e cinco dias depois, recuperou não só os quinze quilos, como ganhou mais oito de bônus. Voltou a desejar a esposa, loucamente. Ela pediu desculpas, o marido estava de volta. Os amigos voltaram a sacanear. Ele perdeu a magreza, mas sua paz voltou. Na escolha das vaidades, optou pelo que o deixava – ironicamente – mais leve.

A Denver Nossa De Cada Dia

Mais uma vez uma chacina americana toma conta do noticiário. Desta vez, em Denver. Como sempre, o instante posterior é uma grita sobre questões armamentistas ou desarmamentistas, questões psicológicas e psiquiátricas e até sobre a influência dos quadrinhos/games/filmes na formação psíquica dos seres humanos. Um ciclo de infrmações, deformações, distorções e opiniões.

Foi em Denver. Poderia ter sido em Columbine. Em Oslo. Em Realengo. Num cinema em São Paulo. Em todos estes lugares, haviam armas e, principalmente, havia um ser humano lunático que estava pronto para disparar o gatilho em nome de uma ‘causa’, com uma justificativa das mais injustificáveis possíveis. Ultimamente ser humano e humanidade estão em rota de divergência cada vez maior.

É comum se confundir justiça com vingança. Isso é facilmente justificável sob o ponto de vista individual. Óbvio que quem sofre conseqüências diretas da dor e da violência tem – e é compreensível que se tenha – instintos vingativos. É natural. O que não é natural é que a sociedade como um todo adote chavões rasos como “direitos humanos para humanos direitos”, como se isso fosse a solução de todos os problemas. O buraco é – bem – mais embaixo.

Não cabe uma discussão sobre armamento e desarmamento baseada nestes fatos. Porque uma discussão dessa deve ser o fim, nunca o meio. Deve ser reflexo natural de uma política educacional, segurança e – por que não? – de saúde pública estruturada e geracional. Não é uma discussão ou um ato que deva ser feito de supetão. Mesmo que se tenha uma postura hoplófoba e desarmamentista – caso do escriba – não se pode deixar de levar estes fatores em consideração e tornar uma discussão de posturas em algo prosaico.

A influência de jogos eletrônicos, histórias em quadrinhos e cinema em surtos psicóticos é superestimada. Não existiam videogames no século XIX e os Irmãos Lumiére ainda não tinham feito suas peripécias quando Jack causava um show de horror na Londres Vitoriana. Charles Manson cometeu chacinas inspirado por “Helter Skelter”, dos Beatles. É possível que apareça alguém que faça chacinas inspiradas no som [?!] de My Chemical Romance um dia. Ou digam que “Resident Evil” transformou humanos realmente em zumbis.

“Inspirações” são coisas de difícil medida. Bonnie e Clyde são fontes inspiradoras hoje em dia, mas também vieram de uma época sem recursos audiovisuais e/ou eletrônicos. Colocar a culpa nestes fatores é minimizar que o problema são humanos doentes, que necessitavam de tratamento, mas foram tratados como normais. Ou alguns que até tem a mente normal, e são monstros. Simples – e cruel – assim.

Denver não foi a primeira chacina chocante. Não será a última. Sempre haverá notícias do tipo. O ser humano é capaz de fazer coisas horrendas, assim como é capaz de realizar coisas belíssimas. E continuará sendo assim, nos dois extremos. Feliz ou infelizmente, é parte da natureza humana, onde todas as faces residem em cada um de nós e algumas sobressaem mais que outras.

Como diria a personagem de Chistopher Walken em “Coisas Para Se Fazer Em Denver Quando Se Está Morto”, chamado de “Homem com um plano”, “É apenas ação. Não é parte do trabalho. Limpe a sujeira. Fora da curva, antes de ir beber, prepare-o”. Devemos estar sempre preparados. Há uma Denver sempre perto de nós, a cada esquina. A Denver nossa de cada dia.

Check-in

Quando eu era pequeno, um dos meus sonhos era andar de avião. Fui criado no subúrbio, de uma geração na qual ir ao aeroporto poderia se enquadrar perfeitamente na categoria “passeio”, com direito a entrar numa daquelas lojas pomposas e comprar biscoito dinamarquês em lata [acredite, isso já foi moda um dia]

O tempo passa, e um par de décadas – e mais um pouco – depois, andar em aeroportos é quase um acontecimento semanal. Aumentando um pouco mais a freqüência e eu já posso fazer remake de Tom Hanks em “O Terminal”. Não reclamo, gosto de viajar e são ossos do ofício, mas o fato de estar sempre em trânsito me faz observar o quanto nosso país mudou neste período.

Antigamente, aeroportos e companhias aéreas eram coisas elitizadas. Acho ótimo que tenham se tornado coisas democráticas e populares. O cavalo de aço merece ser montado por todos. Mas, voltando aos “antigamentes” [sic], havia uma reverência aos aeroportos, aviões e funcionários das companhias. Quase como se fossem diplomatas.

As aeromoças e comissários, com seu inglês impecável saído de livros de Sheakspeare, as boas comidas do serviço de bordo e aquelas peças, como escovas de dentes, que todos da classe média, ou afortunados que viajavam esporadicamente, furtavam e levavam para casa. Viajar de avião era sinônimo de status e tinha aspecto de adjetivo. “Oi, sou fulano, tantos anos e viajei de avião”.

No século XXI, viajar de avião se tornou popular. E ainda bem, porque não se deve negar este direito a ninguém. Tempo é precioso e poupá-lo sempre faz um bem danado. Ademais, a experiência de uma viagem longa de ônibus é antropológica e emocionante. Por si só, dá um bom relato.

Como se diz no jargão aéreo, um fato de grande influência na verdade é o conjunto de pequenos fatos que se tornam algo maior. A transição de transporte de elite para transporte popular foi um tanto quanto traumática para a aviação nacional, seja pela própria necessidade de adaptação, seja pelos acidentes de grandes proporções que ocorreram em curto espaço temporal. Lidar com estes fatores não foi – e continua não sendo – fácil.

Com a popularização das viagens, as companhias aéreas resolveram – pela concorrência – baratear o preço das passagens e – pela economia – parar de investir em serviços supérfluos. Com o aumento da demanda e oferta, houve um estrangulamento da malha, o conhecido e tão falado caos aéreo.

As comidas de bordo foram cortadas, porque além do preço elevado que impunham, o material para fazê-las tornava o avião mais pesado, impactando no combustível. Foram substituídas pelas barras de cereais e, caso recente, por comissários e aeromoças disfarçados de funcionários de fast food, vendendo de Cup Noodles e café solúvel em pleno vôo.

Ressalte-se que nada tenho contra venda de comida e serviços em pleno vôo, desde que esta manobra impacte de forma significativa o preço das passagens, o que ainda não ocorre.

Os funcionários, que antes tinham um idioma inglês impecável, hoje em dia falam um inglês da Pepê & Neném University of Embromation. É impressionante o quanto o nível de fluência decaiu. Como se aeromoças e comissários saíssem do modo legendado para o modo – mal – dublado.

As roupas antes engomadas e impecáveis deram lugar a camisas de malha, calças justas, uma coisa mais contemporânea. A redução dos custos que provavelmente desembocou na redução de salários e exigências e certamente na diminuição da aura que cercava a profissão.

Não deixa de ser muito interessante reparar que os aeroportos e seus modus operandi são um reflexo cristalino do Brasil de hoje. Mais popular, mais oportunidades, corte de custos e salários para aguentar a competitividade e o crescimento de demanda e manter a oprtunidade de oferta, sentindo os efeitos da crise quando algo sai errado.

Enquanto isso, vamos passeando pelos terminais de embarque e desembarque observando o aumento de passageiros e o sorriso daqueles que antes só podiam ir de ônibus – como eu, há tempos atrás. A democracia no transporte aéreo é um grande passo pra maturidade do país, esperemos que com pontualidade e qualidade do serviço. Mesmo que seja alimentado por Cup Noodles ou barras de cereal.

Eu Queria Ser Poeta [ou Pianista]

Eu queria ser poeta. Poeta ou pianista. A maior frustação destes meus anos de vida é não saber fazer uma poesia decente, nem tocar piano. O erudito sendo usado da forma mais democrática possível, tão democrática que há seculos o branco [do papel e do marfim] e o negro [da caneta e do ébano] andam lado a lado, sem preconceitos, se complementando.

Como eu disse, queria ser poeta. Admirava a beleza dos versos e estilos. Aprendia na escola sobre os escritores e cada vez mais os queria imitar criando peças que variavam entre o horrível e o ruim. A prática leva à evolução. E tudo que gostaria era evoluir.

Com a idade e o crescimento, os estilos passaram a influir na minha vida. Todos passam pela fase do romantismo com as moças da escola, o parnasianismo de ser estagiário, se preocupando com a forma, nem tanto com o conteúdo.

O simbolismo de acreditar em dogmas e muletas, o barroco de opiniões, pré-conceitos e preconceitos e o modernismo do amadurecimento imposto pela vida, que não perdoa, nem deixa barato.

Ou queria ser pianista, para me deliciar com os sons refinados a serviço de qualquer música, dando linhas e harmonias e contornos, flanando pelas oito oitavas com elegância, nas quais qualquer desafinamento é denunciado sem piedade. Piano é a tradução mais bela do silêncio em som.

A partir do momento em que este processo de amadurecimento começou, fui deixando a poesia e o piano de lado. A vida parecia um grande conto em preto e branco, muitas vezes noir. Esqueci da beleza de poesia, assim como dos sons do piano. Tudo parecia uma grande distorção de guitarras, na batida acelerada dos pedais humanos caminhando pela metrópole monocromática.

Ainda que haja beleza nisso, é impossível viver sempre assim. É necessário mudar, se adaptar, observar atentamente tudo o que pode ser oferecido pelo caminho. Redescobrir coisas ao redor e sobre si mesmo. Se reinventar para que sempre haja insatisfação e inconformismo. Sem estas duas coisas, se perde o tesão de seguir em frente.

Fui aprendendo a observar as coisas que me cercam, visualizar a beleza e a tristeza de cada uma delas, podendo respirar e enxergar mais do que as matizes que a vida aparentemente oferece e transformar tudo isso em cores e motivação para seguir sempre em frente. Nós somos apenas uma linha da grande poesia do cotidiano. Partitura em forma de gente.

Depois deste entendimento, eu não queria mais ser poeta, nem pianista. A poesia vive e respira por si só. Voltei a escutar o som do piano nas pequenas coisas cotidianas. No dia em que enxerguei as cores da vida, a poesia parou de escorrer pelas minhas mãos. E voltou a navegar pela minha alma, ao som das teclas que norteiam meu destino.