Infantas

Quando ela chegou à festinha, tinha a nítida sensação de estar abafando. Estava de salto alto, de saia, tinha passado o batom. Andava com insegurança, ainda não estava acostumada àquele padrão. Mesmo assim, se sentia importante. Diferente.

Adulta. Se sentia adulta. Do alto dos seus pouco menos de 10 anos, estava um retrato fiel de sua mãe, adornada ainda com bijuterias e demais badulaques. Enquanto sua genitora desfiava o rosário de elogios às marcas que compunham seu vestuário, ela estava ali, parada, se sentindo na vitrine, mas isolada.

Não pode deixar de reparar quando viu aquela garotinha de vestido floral, chinelo de dedo, sem nenhuma maquiagem que chegava de mãos dadas com a mãe, vestida de forma igualmente simples. A sua própria mãe falou entre os dentes algo como “pessoas hippies”. A ela não parecia isso. E não era, na verdade. Eram elegantes. Elegância nada tem a ver com ostentação.

A menininha estava com algumas bonecas de pano e a ela logo se juntaram outros coleguinhas da mesma idade, alguns já sem camisa, outros sem chinelo. Outros com aquela coriza característica que escorre pelo nariz impúbere, enquanto eram cornetados pelas mães por limparem a secreção na roupa [quem nunca?].

Aquela pequena massa de crianças já tinha suas regras e suas brincadeiras, correndo soltas no meio da festa, como cavalos selvagens ou uma revoada de maritacas, fazendo algazarra, sem saber pra onde ir, mas sabendo rir.

A menina que se sentia adulta primeiro esquadrinhou todos eles com o olhar. Aparentemente, sentiu repulsa. A repulsa se tornou curiosidade. A curiosidade se tornou inveja. Não queria mais estar com seu soutien de bojo, o seu salto alto, sua bijuteria. Olhou pra mãe e se sentiu estranha.

A bola caiu perto dela, correu pra pegar. Não tinha o costume de andar de salto, tomou um tombo daqueles. Abriu o berreiro. A mãe foi calmamente ao encontro dela, resmungando sobre a falta de traquejo para andar de salto, ainda mais para pegar uma bola, onde já se viu? Antes dela chegar, a menina descalça de vestido floral estendeu a mão a ela.

A mãe não entendeu nada, mas ela entendeu. Tirou o sapato alto, ficou descalça e foi chutar a bola. Rolou pelo chão, brincou de pique pega, correu, suou. A maquiagem escorreu, o sorriso se fixou. Trocou de telefone com aquela menina que tanto lhe despertou estranheza. Voltou pra casa feliz.

No caminho de volta, escutou uma bronca da mãe, não deu ouvidos. No dia seguinte, calçou um chinelo de dedo e foi brincar no playground. À mãe, só restou respeitar – não sem antes dar sempre uma alfinetada. Na tarde do dia anterior, aquela criança tinha perdido a pose e ganho a infância de volta.

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