Goleiros

Embora todo mundo queira fazer gols como atacantes, distribuir o jogo como meio-campistas e, nos momentos mais libertadores, dar um bico para o alto, como um zagueiro-zagueiro, a verdade inexorável é que todos somos goleiros. Sim, todos somos solitários como o guarda-redes.

Na pequena área de nossa própria consciência, onde a grama não nasce, estamos isolados, vendo o jogo se desenrolar. Naqueles minutos onde se joga a partida do destino, muitas vezes somos acionados. E fazemos defesas espetaculares, salvamos bolas impossíveis, somos lembrados como craques, reverenciados como estrelas, até que falhamos.

Falhamos miseravelmente. Aquela bola entre as pernas, o montinho artilheiro, o golpe de vista mal dado, que nos fazem sentir vergonha de nós mesmos. Já não bastavam aqueles chutes onde a coruja dorme, indefensáveis, que temos de engolir e aceitar. Os piores momentos são aqueles defensáveis. E aí toda aquela mística cai por terra.

Naqueles momentos onde a solidão se acentua e nós estamos ali, estirados, olhando para a rede. Levantamos e todo o time balança a cabeça negativamente. Quer dizer, todos, não. Ainda há os mais desesperados, que colocam a mão na cabeça. E uns poucos dão aquele tapa nas costas, dizem “levanta!”. E nós, goleiros de nosso próprio jogo, levantamos. Não há outro jeito

A verdade é que poucos nesta vida serão chamados de mito, com aquela moral toda e os defeitos sendo travestidos de perfeccionismo. Outros tantos terão um apelido pomposo juntando substantivo e adjetivo, como “tanque malaio”, “danúbio  azul”, “aranha negra” ou algo do tipo. Surgirão aqueles que terão seu nome gritado com um apelido não-pejorativo, como “puta que pariu”. Ainda haverá uns escolhidos entre nós que terão nome de santo – e querem o nome mais bonito. Talvez seja preciso amar os goleiros como se não houvesse amanhã.

Há aqueles que pegam todas as bolas impossíveis, mas deixam passar as possíveis. Clemência. Alguns não aguentam encarar o problema, qualquer que seja ele e preferem se atirar nos trilhos de trem da vida; outros preferem matar e enterrar o que julgam ser dificuldade, para depois enfrentar as graves conseqüências. Cada um com sua escolha, sua trilha, seu caminho, seu vaticínio.

Quando o cronômetro começa a correr, a verdade é que é preciso evitar todos os gols possíveis, assimilar os impossíveis e saber se perdoar quando falhar. A falha, assim como a morte, é inevitável. Então, embora seja necessário lamentar, não se pode transformar o lamúrio em canção de uma nota só. È preciso seguir até o apito final, porque de onde surge o vacilo também brota a redenção. O jogo é jogado. E todos somos goleiros em nossa vida.

O Povoado

Aquele barulho diferente e um sacolejo mais insinuante que a nova passista globeleza. O pneu furou. O pneu, no caso, era de uma caminhonete. Furou, no caso, na margem da BR-116, a poucas horas do pôr-do-sol. Ao olhar para o lado esquerdo, apenas o horizonte. Ao olhar para o lado direito, um povoado simples.

Simples, mas prestativo. Encostando o veículo à procura de um borracheiro. Para um sujeito, cara de camponês, gente da pele curtida pelo sol. Eloquente, se dispõe a ajudar e chama o borracheiro, “o melhor da região”, ele diz. E o profissional chega lá e analisa o que houve. E era um furo grande, e precisava vulcanizar, e demoraria uma hora, talvez duas. Preço combinado, tudo certo. Um vai, outro fica ao lado do veículo.

Carro fechado, naquele pequeno povoado, hora de observar ao redor. Uma parada de ônibus com um pequeno logotipo onde se lia “Beberibe, eu te amo”, para proteger do sol os que precisam se locomover. Ao fim da tarde, ali, isolado, aparentemente não há muito o que fazer. Sinal de telefone, inclusive, não há.

Sem internet ou dados, a sensação é de solidão? Ledo engano. O camponês que buscou o borracheiro se apresenta, conta da formação técnica em mecânica, e que gosta de se embrenhar naquele local que mistura caatinga com litoral com pouquíssimos quilômetros de distância.

Logo chega mais um habitante, que conta que nos tempos dos avós tinha muita onça parda por ali. Sim, suçuaranas. E que hoje sumiram, mas ainda tem um tipo de cervo, algumas jararacas, as cascavéis já estão quase extintas.

E ali, atrás do povoado, tem um açude, onde implantaram tilápias e tucunarés, que se adaptaram bem, mas brigam muito, porque tucunarés são territorialistas e matam as tilápias. E ainda dificultam a pescaria, porque são inteligentes ao extremo.

Há uma igreja no meio da praça. Talvez seja uma capela. A falta de catolicismo impede saber a diferença entre uma e outra, mas é uma construção linda, parece uma casa de bonecas, com um santo em sua entrada. E um espaço para os guris, aproveitando que o sol está terminando o expediente, começarem a armar o futebol.

E um deles, o mais loquaz, olha e diz: “moço, vamos jogar bola?”, tirando um sorriso daqueles do fundo da alma e dando uma vontade quase incontrolável de dobrar as calças, tirar o sapato social e assumir uma das posições daquela pelada.

Ao mesmo tempo, jovens se reúnem na frente do povoado, mas não é nenhum motivo religioso ou festa na cidade. Estão esperando o ônibus para estudar. E não, não é colégio ou supletivo. É faculdade, na cidade ali perto. Alguns fazem direito, outros pedagogia e ali falam dos sonhos e contam que criaram um grupo de whats app. Mas como, se não há sinal telefônico? Rádio, wi-fi, modernidades.

E oferecem a senha da rede para ver os emails e passar recados. Mas não, não é preciso. Estar desconectado naquela hora é excelente. Esquecer o mundo para lembrar de si. E informam que naquela casinha azul vende sorvete artesanal. E o preço é baratinho. E tem de nata goiaba, uma combinação tão deliciosa e improvável quanto caatinga e litoral, com nacos de goiabada em meio à nata. Sabor que fica na memória.

O por do sol se aproxima pelas margens da BR-116, preguiçosamente, mesclando-se com a luz dos faróis dos veículos que rasgam aquela estrada. O tempo passa rápido e já vem o borracheiro com o pneu consertado – “muito trabalho, teve que vulcanizar” .

Enquanto ele coloca o pneu de volta, as despedidas, como se fossem velhos conhecidos. Promessas de um dia passar por lá de novo e comer um tucunaré no restaurante da moça, que por sinal é irmã do borracheiro, que namora com o cara que falou das suçuaranas, e ali todo mundo se conhece.

E naquele momento, conhecer aos outros é reconhecer a si mesmo. Agora entendo a mensagem da parada de ônibus.

Trânsito

O trânsito é a maior prova de paciência do mundo. É por isso que eu tenho sérias dúvidas sobre a capacidade serena do Dalai Lama. Porque ser sereno no meio do nada lá na Índia é uma coisa, mesmo com os chineses enchendo o saco. Quero ver ser sereno montado num iaque e engarrafado na cordilheira do Himalaia.

Voltemos ao problema da mobilidade urbana. Sim, o trânsito. Esse mal cotidiano que, na verdade, é a grande antítese social. Se compra um carro ou moto para ir mais rápido para algum lugar. Mas, como pediriam Jane e Herondy, não se vai. Não se vai a canto nenhum. Se fica ali, mais engarrafado do que azeite ruim, esperando a morte chegar ou o tráfego fluir, o que vier primeiro.

E isso só não basta, é possível piorar. Há de se lidar com os arquétipos do trânsito. Tem aquele motoqueiro que corta todo mundo sem ligar seta, se achando o Randy Mamola urbano até sofrer um acidente grave e aparecer sem perna em uma campanha do governo, qualquer governo, com aquela cara de quenga nova em puteiro.

Há o típico barbeiro gospel, aquele cara que não sabe dirigir, que corta os outros, que retarda a esquerda, que não liga a seta e ostenta aquele adesivo gigante com cunho religioso: “Foi Deus quem me deu”, “Dirigido por mim, guiado por Deus”, “Sou irmão de Jesus, será que sou fraco?” e demais congêneres, o que dá uma vontade gigantesca de exercer o ateísmo e, por outro lado, faz pensar que Deus é um péssimo motorista, dono de frota e instrutor.

Se o Todo Poderoso exercesse o lado Deustran, estilo Antigo Testamento, já teria desintegrado metade dos condutores, jogado uma chuva de gafanhotos em mais alguns e teríamos um tráfego mais calmo e sem congestionamentos – e constrangimentos.

Não podemos esquecer do motorista malandrão, que é Ayrton Senna na hora de avançar o sinal vermelho, Nelson Piquet na hora de xingar o coleguinha no trânsito, Penélope Charmosa na hora discutir cara a cara, Rubens Barrichello na hora de pagar as multas e Dick Vigarista quando tenta subornar o guarda. Sim, claro, a vida como ela é. Tem suborno e marmelada, sim senhor.

Temos também aquele condutor cujo carro tem o adesivo da família feliz e ele, além de três filhos e dois cachorros, tem síndrome de Tourette e sai xingando todo mundo, até um carro ofendido emparelhar com ele e o mesmo subir o vidro e colocar Haddaway bem alto pra tocar. Baby, don´t hurt me. No more.

Este é apenas o reflexo de um mundo onde catamos migalhas e comemoramos como Galvão Bueno quando a gasolina abaixa dez centavos, porque está muito cara – e está mesmo. Desviando de buracos em estradas municipais, estaduais e federais, como se fosse um carrinho de Moon Patrol, ou pagando aquele pedágio maroto e travesso quando a estrada é lisinha [mas sinceramente prefiro pagar o pedágio do que trocar os pneus e rodas detonados pelos buracos].

Esperando o trânsito andar, naquele congestionamento sensual, depois de pensar em inúmeras maneiras de matar o coleguinha que fechou seu carro, é necessário se dar conta que ser serial killer não seria suficiente, apenas o genocídio resolveria. E aí, em vez de continuar com estes pensamentos teratológicos, se liga o rádio para escutar uma música que transforma o motorista outrora raivoso em cantor de engarrafamento.

Agora, depois de relaxar e berrar aquele refrão que veio do âmago do ser, o trânsito parece fluir. Façamos como Raimundo Fagner, deixemos de coisa e cuidemos da vida. O desabafo dessas mal traçadas linhas parece surtir efeito e tudo volta ao seu norm… olha aquele filho da puta cortando sem ligar a seta, cara. Ele não merece uma morte dolorosa?

Gatilho

Não se sabe muito bem como ocorre, mas ocorre. Sem mais nem menos, uma frase perdida no meio de pensamentos, dita com a melhor das intenções – ou não – dispara o gatilho. Na roleta russa emocional, é apenas uma questão de sorte incontrolável saber se há uma bala ali. Clec.

E quando ele é disparado, os pensamentos que estão ali presos, domados e represados se soltam, insolentes, passeando pela alma como se fossem donos e senhores da razão. Dominam todos os movimentos e as reações se tornam imprevisíveis. Uns se flagelam e machucam os seus; outros se calam e sofrem sós; alguns tentam buscar ajuda, mas não conseguem se expressar, e quem consegue se expressar normalmente encontra um muro com uma piada na hora errada em vez de um singelo e simples abraço. Clec.

O pior de tudo é saber que não há culpados nisso. Normalmente é bala perdida que atinge os medos de forma frontal e desperta aquele demônio mais escondido. O kraken que envolve e entristece como se fosse um tentáculo de melancolia sufocando a alma. Clec.

Tudo que se quer é um cafuné, um abraço, um colo, mas isso nunca é encontrado, porque normalmente um gatilho é tratado como besteira, bobagem, mimimi. É assim que funciona a vida cruel, porque o outro normalmente nunca reconhece uma dor, por não saber como o calo alheio aperta. Cada um só sabe de si. É natural que seja assim. Clec.

Assim como é natural que se julguem os sentimentos esparsos com uma ótica mais dura e viril do que seria o próprio autojulgamento. Poucos têm coragem, disponibilidade, indulgência e lealdade de estar ao lado quando se precisa. Há lutas que se lutam sós, mas nem todas são assim. Há aquelas nas quais se precisa de ajuda, e muitas vezes a sensibilidade para oferecê-la quando alguém não consegue pedi-la é tão importante quanto saber não oferecê-la quando não se precisa. Clec.

A verdade é que, quando um gatilho é disparado, não há muito o que ser feito. É uma pequena morte. Sujeita à ressurreições, solidões ou libertações. Quando se está no olho do furacão, tudo que se quer é calmaria. Toda tempestade cansa, às vezes é preciso apenas o nascer do sol. Bum.

Ilha

Caminhando entre as inseguranças e as impossibilidades, vislumbrando o futuro e escondendo as cicatrizes do passado, vivendo ou sobrevivendo o presente, a vida segue. Enquanto tenta se olhar no espelho e refletir-se o que é, o que gostaria que fosse, o que não foi. O ser humano é uma ilha cercada de dúvidas.

Oscilando entre mares tormentosos e calmarias momentâneas, se agarrando em postes ou ombros para se salvar dos furacões, consumido pelas perguntas sem respostas e respostas sem perguntas, alimentando a paranóia e a amargura ou simplesmente as descartando ou enfrentando, como um demônio de capa e espada, o ser humano é uma ilha cercada de medos.

Vivendo a melancolia como combustível, lembrando da frase que uma cronista escreveu, de que a tristeza é só um posto de gasolina na estrada da felicidade, tentando colocar o vagão da vida nos trilhos, ou descarrilando de vez em quando, porque o risco às vezes vale a pena, mesmo que ele seja apenas paz, e na busca pelo reencontro de si mesmo, o ser humano é uma ilha cercada de anseios.

Nas palavras truncadas que se enrolam nas cordas vocais, no disse que não se disse, no que queria se falar, mas se calou, do que não devia ter sido dito e jogou fora um brilho, no silêncio que diz tudo, no discurso que diz nada, na tentativa de se expressar – conseguindo ou não – o ser humano é uma ilha cercada de pontos, vírgulas e parágrafos.

No retrovisor que mostra o que ficou pra trás, no farol que ilumina o que vai na frente, nos amigos que viraram estrelas, nos amigos que amparam e escoram, na solidão acompanhada ou simplesmente na solidão que é só, na esperança do sorriso de criança, que faz lembrar que a alegria existe, basta saber procurar. O ser humano é uma ilha cercada de saudades.

Sete

Sete é conta de mentiroso. Se eu contar, ninguém acredita. Em 1986, quando eu era menino pequeno, bati setenta e oito pênaltis contra um Joel Bats imaginário. Eu sou Arthur, usava a camisa 10 e estava no meu direito. Não errei nenhum e não tenho culpa se o goleiro era imaginário, isso é problema dele. Moleque, estava com vergonha daquela derrota.

Vergonha besta, aliás. Perder de cabeça erguida dói mais do que estar entregue, mas é muito mais valoroso. E aprender a saber perder é lição de vida, da vida e para a vida. Depois vi coisas piores, como o trem fantasma de 1990, o time mais feio do que o Russo do Chacrinha – e olha que tinha bons jogadores.

Vi finalmente o Brasil ser campeão duas vezes – sem pedir “joga pra mim” – e ainda vi a seleção perder uma final com um vareio de bola que, se vocês soubessem a verdade ficariam enojados. [A verdade: Zidane comeu a bola, humilhou o Brasil e a França deu um chocolate. Foi um nojo de atuação]

Depois veio a fase dancing days. Eu torço para um time cujo oba-oba é o segundo santo padroeiro, atrás apenas de São Judas Tadeu. De fuzarca, flamenguista entende. Mas a seleção foi insuperável. Em 2006, o Brasil fez de Weggis uma micareta, tratou a Copa com uma soberba medonha, jogou com um ataque de reis momos [craques, mas reis momos], foi passando dos adversários com uma burocracia digna de inspeção do Detran e parou na França, que tinha um time envelhecido, mas atropelou o Brasil com igualdade, liberdade e fraternidade [do Roberto Carlos, que bobeou na marcação do Henry].

Aí, em 2010, veio a fase dos super-heróis, dos justiceiros, da raiva contra o sistema. O Brasil três acordes de Dunga queria soar como um punk furioso, desafiando a poderosa mídia e o establishment. Foi enfileirando vitórias com um futebol eficiente e até melódico, como se Bad Religion fosse. Jogava bem, no feijão com arroz e fazia sucesso, como um som dos Ramones. Até que contra a Holanda pareceu o Sid Vicious tocando baixo e, bem, desafinou. Amanheceu, pegou a viola, botou na sacola e foi viajar. Mais uma eliminação.

Em 2014 tudo estava a contento. Copa em casa, clima de festa, gigante pela própria natureza, o hino à capella. Coisa linda. [Pausa: aliás, o hino à capella é algo lindo mesmo]. No comando, Felipão, o técnico tão moderno quanto vinil e fusca [Pausa nº 2: muita gente gosta de vinil e fusca, mas a verdade é que em termos de praticidade, são ultrapassados e muito pouco funcionais. É. Pois é.] e Parreira, o maior Forrest Gump da história do futebol brasileiro, enganando todo mundo com seu linguajar castiço e suas aparições na TV. Mesmo assim, a gente acreditava. A mística. Essa muleta que, como a fé, move mundos e montanhas. A danada da mística.

E a mística fez o juizão dar aquela mãozinha no jogo contra a Croácia. Ochoa, no entanto, defendeu a mística e tudo mais que foi pro gol contra o México. Contra Camarões, a mística foi poupada e, jogando bola, uma sacolada no pior time da Copa. Mata-mata, chi-chi-chi, le-le-le, cha-cha-cha, e tome pressão, bumba meu boi, gol de lá, gol de cá, prorrogação dramática, bola na trave, Julio César e passou.

E avançou para as quartas contra a Colômbia, e ganhou, e tudo dava certo quando a mística chamada Neymar se quebrou. E sem o craque, sem o lampejo, sem o capitão chorão que joga bola pra cacete, o time de bons jogadores, mas sem esquema, ficou à imagem e semelhança dos seus comandantes. Tinha como dar certo?

Não. Não tinha. Mas a gente acreditou. A gente sempre acredita. Torcedor e a mística, esse caso de amor impossível. Futebol é como suruba: se você não faz, toma. E o Brasil tomou um gang bang, com direito a bukkake. Uma sevícia, uma humilhação, um esculacho, um esmerilho. A Alemanha desfilou no gramado enquanto o Brasil encolheu.

A torcida nem desesperada ficou. Eu mesmo só fui acreditar nos sete gols no dia seguinte, dirigindo. Uma quase morte. Tomar sete gols porque jogamos no esquema tático “vamo que vamo” é de lascar. A gente sempre acredita, até que uma vez na vida é feito de trouxa. Se eu contar pra quem não viu, ninguém crê. Se um dia disserem que sete é conta de mentiroso, eu vou negar. Gol da Alemanha.

Álbum de Figurinhas

“Eu não vou colecionar isso não”.

Mesmo com inúmeros pedidos da Ruiva, era uma decisão tecnicamente inegociável. Fazia anos que não colecionava álbum de figurinhas. Desde que descobri os guias, com as fotos dos jogadores, não tinha o mínimo interesse nos cromos que já tinham virado febre entre meus amigos.

Admito que isso tem a ver com uma certa frustração dos tempos de guri. Quando moleque, não tinha grana pra comprar figurinhas em grande quantidade. Todos os álbuns que completei foram graças ao porquinho e uma estrondosa habilidade no bafo [bafo, bolinha de gude, corrida de tampinhas, pipa e futebol de botão, não fazia feio. Era um grande atleta do decatlo de esportes de subúrbio].

Mas o número de álbuns incompletos sempre foi maior que o número de completos. No do Roque Santeiro, por exemplo, faltou o Beato Salu. Já no da Fórmula 1, faltou o carrinho da Coloni. Cara, o carrinho da Coloni era uma figurinha dificílima. Nem nas partidas de bafo ela aparecia. Era o Santo Graal das figurinhas. Um inferno. A Coloni não andava na pista e a figurinha não rodava no pacote. Eu, sinceramente, não queria que meu guri passasse por isso.

“Mas, nego, você tem de ver que é a primeira copa dele, mesmo com ele não lembrando de nada. E vai ser muito legal daqui a quatro anos, vocês dois folheando o álbum e você mostrando pra ele quem eram os jogadores. O Drogba, o Xavi, o Pirlo, esses caras não vão estar jogando em 2018. Ele precisa saber quem são”.

Tá, esse argumento me deu um wazari. Difícil sair dessa imobilização moral. Aí o Dindo Cadu, muito Dindo, deu aquela moral lá do Rio de Janeiro. Contra a mãe e o Dindo, fica difícil. A Tia Kaká, o Tio Thiago e a Tia Nanda se mobilizaram também. Aí complica mesmo. Estava difícil resistir, mas eu ainda tentava, rumo ao nada, como se fosse Hiroo Onoda nas selvas filipinas. Até que um álbum brotou em minha residência.

Fiquei puto, confesso. Me senti traído, apunhalado moralmente. Estava sendo compelido a fazer algo que não queria, sem nenhum convencimento – não foi por falta de tentativa, admito. Sou teimoso como um hipopótamo, não por acaso é meu bicho preferido. A Ruiva ainda soltou, carinhosa: “Seu pai deve ter feito o mesmo com você”. Eu não tinha essa resposta.

Minha infância é um vazio na cabeça. Lembro de muito pouca coisa. Me recordo de ter visto “O Império Contra-Ataca” no cinema, aos 4 anos. [Valeu, pai, você mandou bem demais nessa]. Tenho memórias de uma coleção imensa de carrinhos de ferro [algo que até hoje não compro, me dá uma melancolia danada. Meus carrinhos, assim como um pedaço das minhas lembranças, se perderam no labirinto do tempo]. Sem lamentos,  sem lamúrias, sem pena. Apenas não estão lá.

E lá estava ele, o álbum, imponente, vazio, como três pacotes de figurinhas. Olhei pra ele, ele olhou pra mim. Antes que tocassem os primeiros acordes de “Adelaide” [minha anã paraguaia], lá estava eu colando um cromo. A Ruiva me interpelou, provocadora: “Ué, e vai colar agora?”. Olhei com meu olhar fuzilador de príncipe George e desci para o jornaleiro. Quando era moleque eu não tinha grana. Agora não sobra, mas faltar, não falta. Trinta pacotes. Assim, de supetão.

TRINTA pacotes? Mas trinta pacotes dá meio pacote de fraldas!” Ué, não era pra levar a sério a brincadeira? Tem coisas que um pai precisa lidar, porque não dá pra proteger o filho do mundo e de todos os desafios que virão. Mas certas coisas um pai não pode deixar acontecer. Este álbum deveria ser completo. Ele seria completo. A missão estava em curso.

Na pelada de segunda-feira? Troca de figurinhas. No trabalho? Troca de figurinhas. Mas isso não era suficiente. Aí surge um fiel escudeiro: Tio Washington. Wash é amigo de longos e bons anos. Carioca de Duque de Caxias, morando em Recife há mais de uma década, é dos melhores amigos que tenho na vida, um dos dois melhores desta terra. Companheiro da pelada de segunda-feira, amigo da vez das cervejas de sexta – já que não bebe – e parceiro de arquibancada dos jogos do Flamengo em cada canto do Nordeste. Apaixonado pelo sobrinho, já tinha decidido: Ele iria completar o álbum e em grande estilo.

Primeiro, arranjou um álbum de capa dura. Aí lá foi a Ruiva descolar as figurinhas coladas no álbum de capa mole e recolocá-las no de luxo. O que seria um suplício para alguém com duas mãos esquerdas, como eu, pra ela foi sopa no mel. Artista é artista. Uma troca de mensagens durante vários fins de semana:

– Cara, tô aqui em Olinda, tem troca de figurinhas, tá faltando o que no álbum?
– Faltam 37, inclusive o Robinho.

Confesso que pensei em colar outra figurinha no lugar do Robinho. Pensei em fazer a figurinha do Brocador, pra subverter a história, como um norte-coreano em 2010, e explicar como Felipão barrou a grande estrela do Flamengo na Copa [observe que a grande estrela do Flamengo é um cara que não jogaria nem no time de 1992. Que fase.]. Pensei também em colocar a figurinha do Caça-Rato na Copa do Nordeste, como protesto, mas desisti a tempo. Robinho, ao menos no álbum, seria escalado. Depois de tanta troca de mensagem, as faltantes foram devidamente conseguidas.

Numa segunda-feira de temporal, na pelada, jogando no estilo Libertadores, só faltavam duas figurinhas: Eduardo Vargas, do Chile, e Omar Rodriguez, dos EUA. E elas surgiram ali, no meio do dilúvio, das mãos do Tio Washington, completando o álbum do moleque.

Confesso que, voltando de carro em meio àquele temporal, me emocionei. Pensei nos álbuns que deixei de completar; pensei também nos que talvez eu tenha feito com meu pai e não lembro sequer quais foram; e me peguei fantasiando daqui a quatro anos, folheando este, tendo que explicar ao guri quem eram Pirlo, Xavi e Drogba, o quanto jogaram, as histórias, e tudo mais. Terei de explicar também porque Robinho não foi ao torneio, mas isso é fácil.

Ao chegar em casa, de forma cerimoniosa, as duas últimas figurinhas foram coladas. O álbum repousa ao lado do Fuleco que a Tia Di, babona, deu de presente. Ali, pertinho do berço, onde ele está sonhando e crescendo. Toda vez que acordo, ao nascer do sol, passo lá, faço um cafuné, dou um beijo na testa dele e agradeço, por através de mais uma coisa, tão singela, mas tão importante, recuperar minha infância. E saio do quarto, na ponta dos pés, pensando: Vai ter Copa sim. Vai ter Copa pra caralho.

P.S.: Estou aqui me perguntando se papai colecionou o álbum da Copa de 1978 pra mim. Vou ligar pra ele.

Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XVI – Das Fraudes

[Nada escrito neste texto é inverídico. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. São depoimentos reais de cafajestes atuantes, em remissão, aposentados, mas sempre, sempre com o gene da cafajestagem como dominante]

Ser cafajeste demanda muito trabalho. É uma arte milenar, burilada e lapidada no âmago da malemolência. Como diria Baden e Vinicius – dois cafajestes notórios – no “Canto de Ossanha”, o homem que diz “vou”, não vai, porque quem vai mesmo não diz. O cafajeste até diz que é, mas nunca parece ser. A cafajestagem é um drink emocional com doses bem divididas de canalhice, cretinice, lealdade e quetais. Uma dose equivocada e dá uma dor de cabeça danada.

Certa vez, em uma mesa redonda formada por cafajestes em remissão – a cafajestagem é um comportamento autoimune, ela pode até estar adormecida, mas nunca sai do interior dos raros hospedeiros – se discutiu a tendência e necessidade atual deste arquétipo. Como é um tipo valorizado, estão tentando vendê-lo como moda, tendência, como se fosse um Nauru do início dos anos 90, uma calça de bali, uma tiara de flores, uma cerveja artesanal.

Portanto, você, leitor ou leitora que tem uma queda inexorável por cafajestes, tem de saber que há fraudes por aí. Em todos os lados, todos os setores. A verdade está lá fora. O cafajeste, tal e qual o papa, é pop. E, vocês sabem, o pop não poupa ninguém.

Hoje, os diários secretos da cafajestagem apresentam pequenos relatos feitos por experts na área, do sexo masculino e feminino, que não serão identificados pela preservação das identidades e da – má – reputação.

São 4 tipos comuns de fraude, que sempre, incontáveis vezes, conseguem engambelar o incauto. Observem essas dicas, pois podem ser muito úteis naqueles momentos garotos, marotos, travessos e podem evitar o gosto amargo da desilusão. [Aviso: Não se pode reclamar de cafajestagem no Procon. Você compra o que você acha que vê]

Importante ressaltar que até cafajestes experimentados já se utilizaram de movimentações fraudulentas. Ninguém é inocente neste mundo, jovens. Então, não é uma questão territorial. Às vezes, é até um mea culpa, ou culpa inteira, quiçá culpa e meia. Importante dizer que a fraude da cafajestagem pode até ser entendida como um tipo diferente de cafajestagem, vegetariana, digamos assim. Não há um julgamento sobre quem usa esta
artimanha. Cada um joga o jogo com a bola que tem.

O cara do violão: Normalmente, sempre há um cara do violão. Ele, nas festinhas, puxando um sucesso da época, para encantar inocentes que acabam caindo naquela ladainha cifrada. Entre lá, si, dó, uma pestana mal colocada, aquele olhar lânguido dizendo que é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, querendo demonstrar toda a habilidade musical que o levaria no máximo ao programa de Calouros do Raul Gil. Este é um tipo que hoje em dia normalmente usa barba e canta músicas de bandas pretensiosas, com temas sensíveis demais – pois ele é alguém que chora.

O poeta/escriba/cronista das belezas femininas: Esta é uma fraude refinada. Sempre com aqueles escritos sob medida, como se fosse um tailleur espiritual. Valoriza a imperfeição, a rejeição, o talento, com muita maestria. Como se fosse um disco do AC/DC, faz várias variações sobre o mesmo tema. Conta com a benevolência de quem ouve/lê, porque o discurso encaixa perfeitamente no desejo. E aí, como diria o filósofo moderno, créu. O alvo, inebriado, e já na querência, não tarda a cair. É um tipo mais raro, porque demanda habilidades de escrita, inclusive para fazer a tática Zinho em 94: rodar, rodar, rodar e parar no mesmo lugar – a cama.

O polêmico: Aquele que sempre entra na discussão com uma visão absolutamente diferente de tudo que se viu, imaginando fazer um voleio de Bebeto contra a Argentina em 1989, mas na maioria das vezes elaborando um cruzamento do André Santos. Mesmo assim, chama a atenção pela opinião firme e personalidade forte, dando um ar de sapiência naquele momento da conquista. É uma fraude que exige esforço porque é não é uma fraude-arte, uma fraude moleque, uma fraude toco y me voy. É uma fraude científica, que exige tática para saber o melhor momento para atacar. É a tentativa que a cafajestagem força tenha sucesso sobre a cafajestagem malemolência [no pasarán]

O ativista de ocasião: Essa é uma fraude nova, que veio com a evidência do terceiro setor, das ONGs, da consciência social, das manifestações. Sempre a favor de uma causa que mexa com o seu alvo. Com seu conhecimento tão profundo quanto a banheira do Gugu, vai desfiando palavras de ordem para deixar o coração em desordem. Quando consegue seu intuito, demonstra ser uma pessoa comum, até mesmo com vícios e preconceitos incomuns e aí, parte para um novo ativismo/alvo, com suas botas vermelhas, seu casaco de general, alguns broches e anéis. É um tipo de fraude polêmica – embora faça bastante sucesso, pois envolve um mosaico de personalidade que não nos cabe julgar aqui, nem em canto algum.

Esses tipos andam por aí, entre nós. Podem inclusive ser um de nós. Portanto, ao se encantar com um cafajeste por aí, leitor ou leitora, lembre-se que ele pode ser uma fraude, contra a qual você não pode pedir ressarcimento. Divirta-se, mas fique de olho. Boa noite. E boa sorte.

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O capítulo I dos Diários Secretos da Cafajestagem, “La Bombonera”, está aqui

O capítulo II dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Reveillón”, está aqui

O capítulo III dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Falha”, está aqui

O capítulo IV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Evidências”, está aqui

O capítulo V dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Impedimento”, está aqui

O capítulo VI dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Urucubaca e Pênalti”, está aqui

O capítulo VII dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Cultura da Sacanagem”, está aqui

O capítulo VIII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Nome Artístico”, está aqui

O capítulo IX dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Churrasco”, está aqui

O capítulo X dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Aniversário”, está aqui

O capítulo XI dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Consórcio”, está aqui

O capítulo XII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Toalha”, está aqui

O capítulo XIII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Miscelânea”, está aqui

O capítulo XIV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Putão”, está aqui

O capítulo XV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Cachê”, está aqui

 

 

Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XIV – Putão

[Nada escrito neste texto é inverídico. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. São depoimentos reais de cafajestes atuantes, em remissão, aposentados, mas sempre, sempre com o gene da cafajestagem como dominante]

Estava tudo certo para o churrasco que se avizinhava. Aniversário de um deles, comemoração grande, coisa de 100 pessoas. Carne comprada, cerveja também. Som garantido, um ziriguidum ali, um pancadão acolá, os amigos – e as amigas – convidados, tudo nos conformes, exceto pelo céu chumbo que se avizinhava.

– Ih, caralho, será que vai chover?
– Vai nada.
– Porra, tu é meteorologista?
– Não.
– Então como é que tu sabe que não vai chover?
– Eu tenho um pacto com o cara lá de cima.

Caiu um temporal durante a madrugada, mas o certo é que – com renegociação do pacto ou não – o dia amanheceu bem ensolarado. O churrasco começou sem grandes percalços, e com muita diversão.

Um deles não aguentava mais beber e decidiu ir pra casa descansar, enquanto os outros continuaram uma baratona que duraria a eternidade de uma madrugada, com direito a tombos escalafobéticos no gelo e no box blindex classic sesosbra realizados por uma mesma pessoa, que poderia ter virado dublê – fontes dizem que foi o narrador desta história, que desmente categoricamente tal fato, inclusive apagando essas linh… continuemos.

Entre 3 e 4 da manhã, pegam o telefone para ligar para o amigo desertor:

– Tuuuu.
– “Oi, você ligou para a casa da avó do amigo, deixe seu recado na caixa postal que retornaremos assim que pudermos”
– E aí, putããããããão, foi embora, né? Desertor. Sabe aquela menininha que você curte? Ela está aqui perguntando por você. Que vacilo, hein? Alô, putãããããããão, devia ter ficado com a gente. Da próxima vez fica com a gente, putão.
– Piiii.

O amigo já estava dormindo chapado em casa e não escutou a secretária eletrônica…

… entretanto, a avó dele acordou cedo para ir à missa. Antes disso, viu aquele pisca-pisca vermelho no aparelho telefônico e foi checar a mensagem. Nada disse.

Ao voltar pra casa da Missa, a avó o encontrou tomando café.

– Oi, Vó, bom dia.
– [ela olha e coloca a bolsa no apoio, antes de se sentar]
– Tudo bem vó? Como foi a missa?
– Foi tudo ótimo, putão. E o seu churrasco, foi bem?

Ele não sabia onde enfiar a cara…

– Seus amigos deixaram uma mensagem na secretária eletrônica pra você.

E enquanto ele ouvia a mensagem, apenas uma expressão passava pela sua cabeça: “filhos da puta”.

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O capítulo I dos Diários Secretos da Cafajestagem, “La Bombonera”, está aqui

O capítulo II dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Reveillón”, está aqui

O capítulo III dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Falha”, está aqui

O capítulo IV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Evidências”, está aqui

O capítulo V dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Impedimento”, está aqui

O capítulo VI dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Urucubaca e Pênalti”, está aqui

O capítulo VII dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Cultura da Sacanagem”, está aqui

O capítulo VIII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Nome Artístico”, está aqui

O capítulo IX dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Churrasco”, está aqui

O capítulo X dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Aniversário”, está aqui

O capítulo XI dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Consórcio”, está aqui

O capítulo XII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Toalha”, está aqui

O capítulo XIII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Miscelânea”, está aqui

O Namorado de Cabelo Azul – Parte 2: O “Inimigo” Agora é Outro

– Oi, filha.
– Oi, benção.
– Deus te abençoe. Tudo bem?
– Tudo.
– Filha, estava eu nas redes sociais e vi que seu status está “em relacionamento sério”. Isso é sério?!
– Claro que é sério. O jovem no Brasil não é levado a sério.
– Filha, você precisa melhorar seu gosto musical, mas isso é assunto pra depois. Por que você não me contou?
– Ué, mamãe sabia. Ela não te falou?
[grita pra cozinha] Você sabia?
[resposta do além] Siiiiiiiiiiim
[grita pra cozinha] E não me contou?
[resposta do além] Nããããããããããão
[grita pra cozinha] E isso é certo?
[resposta do além] Estou cozinhando, não tô ouvindo direito. O brownie está ficando ótimo.
– Mas, filha, me conte, como ele é.
– Gente boa, bonito, carinhoso [desfia um milhão de qualidades]
-…
[continua desfiando as qualidades]... e faz cosplay também. E tem
cabelo azul.
– Cabelo azul?
– É. Ele pinta o cabelo pra fazer as performances.
“Performances”?!. Hum. Entendo. Na verdade, não entendo. Conte-me mais.
– Então, eu tô feliz, tô gostando dele. Ele é bacana.
– Mas cabelo azul de novo, filha? Mais um desses e você pede música no filme dos smurfs.
– Mãe, estou sofrendo bullying.
[resposta do além] É bom que você ganha anticorpos.
– Mas continuando, filha. Esse daí é emo também?
– Não, ele curte rock. Pinta o cabelo só por pintar.
– Já é um bom começo, não chora no escuro. Quantos anos ele tem?
– 14, sou mais velha do que ele, mas não espalha.
– Isso é natural, ta no sangue da família da sua mãe ser todo mundo papa-anjo, também sou mais novo do que ela
[resposta do além] Eu tô escutando, hein? E você vai ficar sem brownie, tratante!
– Você sabe que gente de cabelo azul não dá certo na vida, eu já te disse isso.
– Qualquer coisa ele pinta o cabelo. Podia ser pior, ele podia ser careca.
– Opa, me senti ofendido! Vai ficar de castigo!
[gargalhada]
– Você está feliz?
– Tô. Tô me divertindo.
– È o que importa. Namoro é diversão. Pra se estressar, já basta a vida.
– Inclusive vou encontrar com ele hoje.
– Hum. Olha lá, hein?
– Pode deixar. Aprendi direitinho.
– Estou muito novo pra ser avô.
– Nem tô pensando nessas coisas.
[resposta do além] O problema é esse. [gargalhada]
– Sua mãe tem razão. [gargalhada]
– Vocês me sacaneiam mais do que meus amigos do colégio.
– É pra criar anticorpos, esqueceu?
[gargalham]

* * *

– E aí, amor, esse dura quanto tempo?
– Esse parece ser melhor, acho que vai durar bastante. Nossa filha está crescendo e está feliz.
– Engraçado. Quando você elogia, é “nossa” filha. Quando dá bronca, é só “minha” filha.
– Hum. Bom que você também cria anticorpos.
– Você é ridículo.
– Nunca neguei.
[gargalham]
– Ah, esqueci de perguntar uma coisa pra filhota…

[pega o telefone, liga]

– Filha? Tudo bem por aí?
– Esqueci de perguntar um negócio. Ele joga videogame?
– Hum. Ele joga FIFA?
– Com o Barcelona?
– Ah, não? Então tá. Um beijo.
– Ih, ele não joga com time forte no videogame, já tô gostando desse cara. Vou me apegar.

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Sobre as aventuras e desventuras da paternidade, 15 O Namorado de Cabelo Azul e O Beijo