Correnteza

Nada.

Ele nada naquele mar que muda de cor conforme o reflexo do céu e o fundo de areia. Do mais límpido azul ao chumbo mais turvo. A sabedoria ensina que não se deve enfrentar as ondas. Os arrogantes têm a sentença decretada pela imensidão líquida e ela não costuma dar segundas chances.

Respira.

Prudência é mais do que necessário quando se está nas águas. Em tempos de marola ou em ondas tormentosas, é preciso nadar. “Continue a nadar”. A frase é simples e prosaica, mas faz bastante sentido, principalmente no momento e movimento das marés. Cheias ou baixas, ao capricho da lua, indicam os caminhos ou a falta deles.

Cansa.

Muitas vezes o mar puxa para um caminho completamente diferente. Não se deve enfrentar as ondas, a lição é navegar com elas – ou apesar delas. O confronto só desgasta e desperdiça energia. Paciência é necessária para sair das ressacas, mesmo quando parecem intransponíveis.

Bóia

Quando os braços extenuam e nada mais parece funcionar, é necessário boiar. Recobrar um mínimo de forças para não perder o prumo. O corpo é barco, vela e vento, é o que se tem e o que se pode contar. A correnteza é um inimigo tão poderoso quanto pode ser aliado. É preciso decifrar suas entrelinhas.

Mergulha

Mergulha e volta, aproveita a corrente, pega o jacaré. De peito aberto, sem se afogar. A distância da terra firme é uma variável que depende muito do fôlego e da vontade de sair do mar. Respira, cansa, bóia e mergulha.

E nada.

Por tudo. E por nada.

Cenas de um Supermercado na Madrugada

Onze e meia da noite. O silêncio é entrecortado por uma música que pretensamente deveria ser lounge mas na verdade varia entre um som muito ruim ou muito bom, com toques de Phil Collins pelo meio. Afinal, Phil Collins é incontestável. Uma noite a mais, outro dia no paraíso. Mentira, é só o supermercado no início da madrugada.

Todos ali são cúmplices. Porque buscam a calmaria e colocam todo o cansaço e frustração de um dia de trabalho no liquidificador daquela terapia que é fazer compras na madrugada. Todos se entreolham complacentes, pois cada um com seu motivo, se sentem protegidos da vida trituradora ali. O esporro que precedeu o silêncio.

Tem aquele que compra as coisas da casa com sua calculadora inseparável, companheira também daquela moça que trabalha checando e comparando preços, como se fosse uma fiscal do Sarney em versão pós-punk. Tem aquela que saiu da ginástica e foi direto pro setor de laticínios e posteriormente vai disputar lugar na fila com a executiva que foi comprar um travesseiro da Nasa, pra ver se cura sua insônia, causada pelo stress e pelas injustiças dos dias das horas justas.

A mãe que aproveita os corredores vazios para ninar seu bebê recém-nascido divide seu espaço com dois faxineiros que lavam o setor de carnes e aproveitam para deslizar pelo piso, emulando o Holiday on Ice e abrindo um sorriso gostoso e sincero. Os casais proibidos, com ou sem aspas, escolhem este horário para andar de mãos dadas sem medo de preconceito ou de serem descobertos. O sorriso sincero de quem ama, seja como for, já diria a elegância de Paulinho.

A indignação do protesto mudo contra o preço do limão, do damasco e do mel, contrastando com a comemoração em aviãozinho daquele que vai comprar a maminha numa promoção daquelas. Ali, naquele microcosmo gelado, oásis no meio da madrugada sem estrelas, um grupo seleto tão díspar quanto cheio de afinidades se encontra.

E como toda regra tem sua exceção, há os insatisfeitos: os caixas, querendo ir para casa, servindo bem para servir sempre, ou melhor, nem sempre, porque é preciso uma folga e madrugada – onde já se viu? – não é lugar para trabalho, ao menos aquele dia, porque eles queriam estar ali, invertidos com aqueles que buscam a terapia das compras, cujo preço é caro, mas pode ser pago à vista, no débito ou crédito.

Duas da manhã. Na fila, aquele momento de redenção, libertação e prisão. Redenção porque a missão finalmente foi cumprida; libertação porque enfim as coisas voltam a seu rumo normal e cotidiano; e, justamente por isso, é uma volta à prisão aberta da vida real. Naqueles minutos que viram horas, a terapia do dia a dia deixa o ser humano mais leve. Talvez a leveza seja uma metáfora para o dinheiro que sai do bolso também. São as cenas de uma madrugada no supermercado. Boa noite. E boa sorte na volta pra casa.

Freundschaften

Não há regra escrita ou verbal sobre como nascem as amizades. Na verdade, pela raridade da situação, nem deve existir qualquer regulamento mesmo. Amigo é algo raro, que merece liturgia e deferência, mesmo sendo informal. É motivo de celebração e brinde, na boa e na ruim, porque não existe meio-amigo.

Normalmente é algo tão intenso que não lembra como se começa uma amizade. Não há aquele momento-chave, ignição, coisa do tipo. Há, sim, a lembrança da data, mas não de quando os laços se estreitam a ponto de construir uma relação de confiança. Brodagem, parceria, camaradagem, companheirismo. Das poucas coisas da vida tão boas quanto sexo, carnaval e água gelada.

Embora algumas pessoas, por tristeza, opção ou paranoia, prefiram os imaginários, fazer amigos é algo muito bom e saudável. Não há medidor de quantidade, mas de qualidade; ter muitos amigos, de diferentes níveis, ter poucos, ter um. Cada um sabe o que basta e o que serve na sua trajetória de vida, mas, como diz o pianista gênio praiano, é impossível ser feliz sozinho.

É sentimento correspondido e correspondência que parte de qualquer lugar. Pina, Pompéia, Laranjeiras, Olinda, na Santa Cecília, em São Bernardo, no Santo Amaro, em Ramos, Casa Verde, Barcelona, Lisboa, Montevidéu, Madalena, nas Vilas Leopoldina, Velha, Mariana, Kosmos, do Alto de Pinheiros ou da Cidade Baixa, de Paris – tuba ou não – e de onde mais vier; que senta e toma parte em mesa de bar, seja baran, real, pavão azul, batidão, tribunal. Que se entende nas palavras cantadas e faladas alto, ou que gritam em silêncio. Porque é assim que é. Sem explicar.

No sorriso de uma criança que acabou de nascer ou na lágrima de um caixão que acaba de fechar, na ampulheta que se move ao sabor do tempo, nos grãos de areia, nossa vida ao sabor do vento. Nas tristezas e alegrias. Na boa e na ruim. Porque não existe meio-amigo.

Coxinha

O Brasil é pródigo em injustiças. Uma delas, das mais flagrantes, vitimiza a coxinha. Não falaremos aqui do cabuloso e pejorativo adjetivo que qualifica pessoas xexelentas, porque blogs diversos já opinaram sobre isso, inclusive determinando os tipos de coxinha. O que está em pauta é o salgado mais nobre entre os salgados, o mais saboroso, o que merece mais respeito.

A massa crocante baseada em farinha de trigo, juntamente com o recheio malemolente de galinha, é das combinações mais matadoras da baixa gastronomia. Algo como Lennon/McCartney, Jagger/Richards, Sullivan/Massadas, Claudinho/Buchecha. A coxinha-arte, coxinha moleque, coxinha frita na hora e me voy hoje é artigo raro no mercado, mas ainda é possível se encontrar exemplares crocantes e saborosos por aí, nas andanças da vida. O aumento de lanchonetes gourmets e a invasão de pastelarias que desvalorizam o salgado nobre, faz com que a coxinha de raiz esteja ameaçada de extinção, mais ou menos o que o pardal fez com o tico-tico.

Pra piorar a situação, ultimamente a coxinha vem sendo seviciada por empresários inescrupulosos do ramo de alimentos da baixa gastronomia, que preparam o salgado antes e depois querem esquentá-lo no micro-ondas. Por muito menos do que isso Jesus foi crucificado, por exemplo. É das coisas mais deprimentes ver um salgadinho rançoso, dormido, moribundo, ser requentado. Deveria ser crime de falsificação ideológica.

Jamie Oliver que me desculpe – aliás, tem que desculpar porra nenhuma não. O cara não gosta de quindim, não dá pra respeitar quem não gosta de quindim – mas a coxinha deveria estar no cardápio escolar pelo menos uma vez por semana. E deveria ser acompanhada com uma cartilha para ensinar a comer o alimento. Afinal, como diz o grande filósofo Mr. Catra, bumbum não se pede, bumbum se conquista. A coxinha deve ser comida pelo bico, não pela bunda.

A língua portuguesa tem um sem número de xingamentos. Em vez de ofender aquele cara mané e babaca de coxinha, respeite a iguaria nobre da baixa gastronomia. E não deixe a coxinha morrer, não deixe a coxinha acabar. Muitas barrigas adolescentes foram esculpidas por causa do salgadinho. É necessária a resistência.

Ney

Oi, Ney. Falo com essa intimidade porque você está muitas vezes em minha casa nos fins de semana, pela TV. Então me dou a esse direito. Obviamente você não vai ler essa carta. Eu mesmo não leria, se fosse você. Muitos afazeres, publicidade, coisas mais importantes. Mas mesmo assim eu vou escrever, Ney. Porque há coisas que a gente faz na vida sem pensar no outro. Talvez esta seja uma dessas coisas, embora não muito relevantes.

Sabe, Ney, sempre curti seu futebol. Curti até odiar você quando deixou o meu herói sem pai nem mãe na Vila Belmiro em 2011, mais perdido do que virgem na orgia, antes de fazer um dos gols mais bonitos do século XXI em um dos jogos mais espetaculares desta época, contra meu time. Te xinguei, com muito mais admiração do que raiva.

Não sou afeito a julgamentos, Ney. Gosto dos tons de cinza entre o preto e branco que habitam a vida. Pouco me importam as dancinhas, o penteado, o “toiss”, essas mungangas da idade. É até mesmo natural. Também não me preocupo com os valores astronômicos da sua transferência pro Barcelona, atribuído à conta do seu pai, porque isso não me diz respeito. Quem tem de se preocupar com isso é a Receita Federal, e apenas se houver algo errado.

Também nunca exigi de nenhum ator futebolístico presença social. Ninguém é obrigado a ser ativista, embora seja sempre muito bom defender uma causa com afinco e dedicação. Melhor ainda que seja como fim, e não como um meio de aceitação entre os pares ou para fazer claque. Seu posicionamento foi ainda mais legal por isso. Acredite, Ney, isso acontece em qualquer setor da sociedade. Alienação, voluntária ou não, também é um movimento político, embora muitos discordem, mas isso não é papo pra esta cartinha.

Fiquei muito surpreso e feliz quando Daniel Alves esmerilhou o racismo com um gesto simples, eficiente e de muita altivez. E fiquei muito feliz – como cidadão, como fã, como negro – quando você, Ney, puxou um protesto pela rede social, instrumento que você tinha, para dizer que “somos todos macacos”. Muita gente gostou, muita gente não gostou – e inclusive ativistas cotidianos, de todos os dias, que entendem toda a situação e sofrem na pele os mais diversos preconceitos, se dividiram sobre o fato – mas o debate se instalou.

E, no fim das contas, Ney, o mais importante nestes casos é o debate. Inclusive achei que você tivesse esquecido as declarações de 2010, quando você alegava não ter sofrido racismo por não ser preto, renegando sua cor. Ninguém pode ser refém de opinião errada, as pessoas têm o direito de mudar. E este tipo de coisas acontece com educação, vivência e evolução. Quatro anos é muito tempo, Ney. E você pode – e deve – ter mudado, evoluído e crescido.

Eu gostei da sua atitude, tenho amigos fantásticos que não gostaram e entendo e respeito as razões – coerentes – deles. Mas o debate estava lá, inteiro. Muitos dos seus amigos, “parças”, reforçaram a campanha. Alguns muito babacas, admito. Mas estavam lá reforçando a campanha, de forma espontânea, como sua atitude também havia sido.

Mas aí, Ney – e, impressionante, cara, sempre tem um “mas” nas coisas extracampo que envolvem você atualmente – se descobriu que a campanha era um mote publicitário. A esponanteidade foi pro ralo. Invalida a campanha? Não. Mas a falta de transparência é péssima, Ney. Não é uma falta de transparência como a de sua transferência para o Barcelona, que só diz respeito em primeiro momento a você e ao clube. Você lidou com o
apoio e o sentimento de pessoas. Isso é feio, Ney.

Pra completar, Ney, um de seus amigos aproveitou o momento para vender camisetas do “protesto”. Enquanto uns choram, outros vendem lenços, a vida sempre teve este gancho, o subúrbio ensina. Aí, meu amigo, o que já estava feio virou boné. A atitude brilhante de Daniel Alves continua de pé, a campanha continua de pé, mas e você, Ney? Como fica? Mais uma vez no chão, como se estivesse tomando uma pancada nos gramados, mas dessa vez com certa razão.

Ney, seja mais claro com quem é seu fã. Ídolos não precisam ter caráter ilibado, mas pelo menos precisam ter diretrizes. Os meus ídolos mesmo têm uma série de restrições, mas com certas coisas não se deve brincar. Todos somos macacos, mas por causa da sua falta de transparência, por um momento, todos fomos bananas.

Porra, Ney.

O Evento

– Oi, filha, boa noite, como foi na sua avó?
– Tudo certo, tranquilidade.
– E no dentista?
– Tudo em paz.
– Hum.

[toca um rock no carro, balançam a cabeça no ritmo do som]

– Ó, vai ter um evento naquela casa de shows.
– Um evento?
– É. Um evento.
– Hum. Conte-me mais.
– É um evento de animes, com a apresentação de uma das grandes bandas de K-Pop do mundo.
– K-Pop?
– É. K-Pop. Você não conhece?
– Deveria?
– Deveria. Você está ficando obsoleto.
– Obsoleto. Hum. Entendo.
– Dizem que esse evento pode ser maior que a Comic Con.
– Claro, claro.
– É o que dizem.
– Ei, esse é meu bordão.
– Tal pai, tal filha. Posso usar.
– Você é muito palhaça.
– Nunca neguei.
– Ei, esse também é meu bordão.
[…]
– Então, você compra meu ingresso?
– Vai depender de suas notas. Como estamos este ano, na zona do rebaixamento?
– Não, tô estudando, juro.
– Sério mesmo?
– Sério.
– Tenho observado. É uma leitura muito dinâmica. É um estudo enquanto dorme, algo do tipo? Sabe como é, estou ficando obsoleto, preciso aprender essas coisas.
[faz cara feia]. – Tô falando sério. Inclusive vai ter essa banda que falei.
– Hum, que banda é essa?
[pega um papel na mochila, mostra o logo da banda]– É a フロウ.
– Cuma?
– フロウ [se fala “Flow”]
“Flow”, do inglês?
– É.
– E por que você não fala logo “Flow” em vez de mostrar esse logo フロウ?!
– Porque perde a graça. Assim, além de eu rir, dá pra ver que você está obsoleto.
– Hum. Entendo.
– Mas e aí? Você vai comprar o ingresso pra mim?
– Você vai fantasiada?
– Não é fantasia, é cosplay.
– Claro, tinha esquecido dessa diferença. Mas vai fantasiada?
– Vou.
– De que?
– Jack Frost.
– Hum. Sua galera vai?
– Vai! Vão fulano, sicrano, beltrano… [mais de 289 nomes em pouco mais de 4 minutos…]
– Certo, conheço alguns.
– Então, você deixa?
– É possível, mas preciso ver suas notas antes.
– Tá. Tô tranquila, tá no começo do ano ainda.
– Tem poucas notas pra análise. Garota esperta.
[sorri encabulada]
– Vou falar com sua mãe e ela te dá o dinheiro.
– Beleza.
– Filha, só um pedido.
– O que?
– Além de juízo, vê se não me arranja mais um namorado de cabelo azul, pelo amor dos céus.
– Para com isso, pô.

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Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XV – Cachê

Eles sempre tinham um ponto de encontro pós-noitadas, bebedeiras e, certamente, cafajestagens. Aquele bar à beira-mar, na altura do Lido, tinha chopp gelado e havia sido testemunha ocular de grandes romances, quebra-paus e gargalhadas. Nada mais natural de ter se tornado o quartel-general de um bando de canalhas.

Ademais, aquele mesmo bar tinha a característica de ser o local da happy after hour das moças pós-trabalho na Help, na rua, nas boates da Prado Junior e localidades afins. Ao fim do expediente, elas iam pra lá relaxar, partilhar experiências, beber um chopp gelado e paquerar.

Sim. Paquerar. Porque trabalho é trabalho, romance é romance, amor é amor e um lance é um lance. Ali era campo neutro, fora do horário de expediente. Um xamego e um xodó valiam tanto quanto algumas notas de dólar amassadas. Unindo o útil ao agradável com o chopp gelado, muitos casais fugazes de apenas uma noite se formaram naquelas mesas e balcões.

Muitas vezes nem se viam mais. Em algumas viravam casais eternos, leais, ciumentos e confidentes com a duração de poucas horas. Ninguém esperava nada daquele fim de noite, que poderia se tornar a parte mais interessante da saída. Certa vez, eles estavam no bar e já começavam aqueles movimentos típicos do xadrez entre os possíveis casais. Um deles, observando – e bebendo – fixamente seu sexto chopp, viu adentrar uma mulher estonteante.

Com sorriso de comercial de pasta de dente, simpatia de comercial (011) 1406 e uma malemolência que faria Michael Jackson ter uma ponta de inveja, ela pediu um chopp como se estivesse em um filme francês, tamanho charme. Ele a observava e já tinha engatilhado todo seu estoque de cantadas para que pudesse observá-la. Ela o fitou nos olhos e naquele momento tudo parou, virou clichê, tocou música de Julio Iglesias e filme de John Woo, com todos os presentes em câmera lenta.

E ele gastou sua saliva, seu repertório, seu latim e ela se mostrou muito acessível. Ela sapecou-lhe um beijo na boca, tão inesperado quanto correspondido. Galvão e seu “É tetra!” já ecoavam em sua mente. A vitória estava quase garantida. Tomou coragem e a chamou para da um passeio.

Era a senha para ser feliz. Se levantou, os amigos bateram palmas. Era o gol do fantástico, o assunto que permearia a mesa de bar por dias, semanas e seria lembrado nas próximas gerações. De mãos dadas, na porta do bar, começam a travar um singelo diálogo.

– Meu amor, você vai me levar pra onde?
– Naquele motelzinho ali, é simples, mas gostoso. Vamos curtir o momento e depois ver o amanhecer no
Arpoador.
– Tá. Mas olha, meu cachê é de R$ 250,00

Cachê?! Cachê?!?!?! Havia uma regra não-escrita na qual não se cobrava cachê ali. Ela estava ferindo a regra. Mas naquela hora, não poderia recuar. Não havia dinheiro suficiente para o cachê, apenas malemolência para curtir a situação. Tinha de pensar rápido. E pensou.

– R$ 250,00?! Tá bom.
[ela o beija demoradamente]
– Minha gata, vamos nessa, mas você está me devendo R$ 50,00.
– R$ 50,00?! De que?!
– Meu cachê é de R$ 300,00. Já que você faz por R$ 250,00, te dou um abatimento e você só me deve R$ 50,00.

O estampido do tapa na cara foi ouvido no bar inteiro. Enquanto ele era xingado, as amigas explicavam que naquele bar não era hora de trabalho, mas sim de descanso. Até os mal-entendidos serem desfeitos, foram alguns minutos.

Ela decidiu ir pra casa, não sem antes se desculpar e dar o telefone a ele, caso ele precisasse de um relax depois. Ele foi consolado por uma amiga dela, que se sentiu compelida a reverter o quadro. E os amigos gargalham e contam essa história até hoje.

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O capítulo I dos Diários Secretos da Cafajestagem, “La Bombonera”, está aqui

O capítulo II dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Reveillón”, está aqui

O capítulo III dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Falha”, está aqui

O capítulo IV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Evidências”, está aqui

O capítulo V dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Impedimento”, está aqui

O capítulo VI dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Urucubaca e Pênalti”, está aqui

O capítulo VII dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Cultura da Sacanagem”, está aqui

O capítulo VIII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Nome Artístico”, está aqui

O capítulo IX dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Churrasco”, está aqui

O capítulo X dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Aniversário”, está aqui

O capítulo XI dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Consórcio”, está aqui

O capítulo XII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Toalha”, está aqui

O capítulo XIII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Miscelânea”, está aqui

O capítulo XIV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Putão”, está aqui

 

18:34

– Fala, meu irmão.
– Fala!
– Diz aí, tudo bem?
– Mais ou menos.
– O que houve, cara?
– Ah, preocupações.
– Que foi? O que a vida te apronta?
– Eu estou chateado com algumas pessoas, que falam que não gostam de mim; com o mundo, que não é um lugar agradável pra se viver, com essa injustiça que anda a cada esquina. E pra completar, eu bati meu carro.
– Vamos começar do final. Eu também bati meu carro. Mas você taí, vivo bem e com seguro. No fim das contas é o que importa.
– É verdade. Carro a gente compra outro.
– Então isso não é um problema. Vamos aos outros. Me conte esse negócio das pessoas não gostarem de você.
– Ah, cara, é assim: [e conta detalhadamente sobre os casos]
– Cara, quer uma cerveja? Até pra molhar a boca seca e tirar o gosto amargo da desilusão – e isso é mal?
– Sim.
– Olha, o tempo ensina muitas coisas. A principal delas é deixar de se importar com o que os outros pensam de você e começar a se importar com o que interessa, quem você gosta.
– Hum.
– Prosaico, né?
– É.
– Por isso mesmo, algo complexo. Quanto mais simples algo é, mais a gente tende a complicar.
– Faz sentido.
– Pare de se preocupar com esse tipo de coisa. Dá azia.
– É. Vou pedir mais uma cerveja. Quer?
– Quero. E sobre o mundo, cara…
– O mundo tá um lugar muito chato, as pessoas estão muito grosseiras, muita violência, muita gente querendo impor opinião.
– Hum. Entendo.
– E isso me incomoda profundamente.
– A única coisa que mudou no mundo foi a informação, cara. Ela voa. E isso revela mais gente grosseira, mais violência, mais imposição. É apenas a amplificação de algo que antigamente era acústico.
– Mesmo assim é chato pra caralho.
– É. Mas a gente também não pode se colocar como Messias de uma situação de mundo ideal. O mundo é formado por pequenos mundos de individualidades. As pessoas têm de saber, por si só, discernir o que é certo e o que é errado. Tentar intervir neste caminho, além de dar úlcera. Faz com que a gente pareça chato. E talvez a gente seja mesmo.
– Pois é. Mas eu tenho um ponto.
– Pois diga.
– Não dá pra viver sendo tão leve sempre, a gente tem que ser inconformado.
– Sim e sim. Entretanto, não dá pra ser um zeppelin de chumbo, é preciso flutuar, senão nos estabacamos no chão. Ver as coisas por uma perspectiva menos sombria torna a úlcera evitável.
– Hum.
– E inconformismo é mola do mundo. O fato de sermos leves não significa sermos resignados. Esse é um dos pressupostos da velhice, aliás.
– Você tá ficando um velho relaxado.
– E você um velho chato. Prefiro ficar na minha, poupa stress e infarto.
[gargalham]
– Um dia vamos acabar com a injustiça no mundo?
– Não. Mas podemos tomar muita cerveja ainda. Você pode tentar ser Pelé ou Garrincha nessas coisas de utopia.
– Como assim?
– Pelé foi o melhor do mundo, fez coisas inimagináveis, mas no fim das contas, fala um monte de bobagem e sempre tem um Maradona pra incomodar.
– E Garrincha?
– Garrincha jogava pra cacete, era cheio de idiossincrasias, viveu como quis viver, não fez mal a ninguém além de si mesmo e é lembrado com carinho por alguns e tristeza por outros.
– E daí?
– Pelé é o ideário de perfeição, Garrincha tirou muita onda.
– Você quer ser perfeito ou quer viver como acha certo?
-…
– Cada dia é um dia, cara. E o mundo é aquele pedaço em que vivemos. Se mudarmos isso, o nosso pedaço, o resto vai mudando junto.
– Você está muito filósofo.
– Deve ser a cerveja.
– Gostei desse negócio de Pelé e Garrincha.
– Sabia que faria efeito.
– Palhaço.
– Aproveite este conselho e pague a conta. Já que você quer mudar o mundo, pelo menos me deixe com dinheiro.
– Filho da puta.
[gargalham]

Cabelo Rosa

– Oi. Tudo bem?
– Tudo ótimo. [beija]
– Como foi seu dia? Como está o Miúdo?
– Tudo corrido, mas todos bem. Miúdo está meio molengotengo por causa vacina, mas bem.
– Cadê ele.
– Está dormindo e vai continuar assim.
– Gosto dessas sugestões sutis e delicadas, como se fossem um comercial de sabonete.
– Apenas a verdade.
– Cadê a Pequena?
– Tá no quarto.
– Tudo bem com ela?
– Tudo ótimo, incl…

[Pequena chega na cozinha]

– Mãe, aqui está a tintura pra descolorir a ponta dos cabelos. Vamos fazer agora que Miúdo está dormindo?
– Desc… desc… como é que é?
– Então, era o que eu estava tentando dizer [olha pra Pequena com aquela cara de “porra, cê fez cagada”], nós fizemos um pequeno trato e eu a deixei pintar as pontas do cabelo de rosa.
– Hum. Entendo. Conte-me mais sobre este “trato”.
– Eu e mam…
– É melhor eu falar, minha filha. [aquele olhar de “agora o bicho vai pegar”]
– Tá, vou ali descolorir o cabelo.
– Ei, ei, ei
– Deixa a menina ir. Escuta.
[olha com aquela cara de “véi, você traiu o movimento”]
– Eu fiz um trato com ela, naquele momento em que ela estava no pau da goiabeira pra passar de ano.
– Veja bem, estar no pau da goiabeira pra passar de ano ocorre desde o Jardim III. Isso não é desculpa. Mas qual foi o trato?
– Se ela passasse sem conselho de classe, apenas no estudo, eu a deixaria pintar os cabelos de rosa.
– Hum.
– Mas só as pontas, porque se ficar horroroso podemos cortar.
– Sabe o que é isso? É influência daquele ex-namorado de cabelo azul, figurante de desenho do Smurf.
– Inclusive ela já está com um novo pretendente, oriental.
– Pinta o cabelo?
– Não, acho que não.
[Pequena lá do quarto: “descolore de vez em quando pra fazer cosplay”]
– Um japonês com cabelo de Ivo Meirelles? É o Nakata?
– Que Nakata?
– O jogador de futebol.
– Sei lá quem é Nakata. Filha, pesquisa o Nakata no google.
– Nakata é feio que dói, mãe. Ele tá me sacaneando. De novo.
– Pare de sacanear sua filha, ela está de férias.
– Tá. E esse cabelo aí?
– Ué, ela vai pintar.
– Podia ter me avisado.
– Nessa correria, a gente acaba esquecendo.
– Hum…
– Veja só, ela tem 15 anos, adolescente, a hora dela fazer essas cagadas no cabelo é agora. Depois de velha é que não dá pra fazer. Veja você, que usava mais brinco do que vitrine de loja de bijuteria e mais anel do que puxador de escola de samba, quando era moleque?
– Olha a palhaçadinha…
– É sério. Eu também tive meus arroubos na juventude.
– Seu cabelo parecia o da Elba Ramalho.
– Você quer apanhar?
– Opa, já não está mais aqui quem falou.
– Aproveite que não está mais aqui e leve o lixo lá fora. E passe o café também.
– Parece justo. Filha?
[ela vem do quarto, com a ponta dos cabelos em processo de descoloração]
– Você vai ficar parecendo uma personagem de Zillion.
– ?!
– Pesquise, jovem. Pesquise.
– Tá.
– E, ó. Mesmo de cabelo rosa, eu te amo.
– Eu também te amo.
– Depois você me conta quem é o Jiraya que está querendo te namorar.
– Essa é uma outra história…

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Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XIII – Miscelânea

[Nada escrito neste texto é inverídico. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. São depoimentos reais de cafajestes atuantes, em remissão, aposentados, mas sempre, sempre com o gene da cafajestagem como dominante]

– E aí, galera? Tudo beleza? Desce uma cerveja aí, camarada. O que me contam?
– Estamos aqui conversando sobre essas modernidades de avaliação de homens e mulheres.
– Cara, besteira. Alguém se importa?
– Não, nem um pouco.
– Embora eu seja adepto do “Teorema da Tailândia”.
– ?
– O que acontece na Tailândia, fica na Tailândia. E o mundo, caras, o mundo é uma imensa Tailândia.
– E quando você comenta com a gente sobre as queridas?
– Vocês estão retirando do contexto.
– Hum. Entendo. Conte-me mais.
– Eu sou o protagonista da minha vida. Vocês são os coadjuvantes que alegram, como se fossem uns Morgan Freeman. Então, o protagonista sempre conversa com o Morgan Freeman. Apenas isso. Sem segunda intenção.
– Sei. Faz sentido, mas você deveria parar de beber.
[gargalham]

* * *

– Já eu prefiro o “Teorema de Alexandre Pires”.
– Cuma?
– Mineiramente a gente come quieto, come mais e come duas vezes.
– Claro. Danado.
– É sério.
– Tô quase acreditando.
– Pois acredite. Cunhado.
– Cunhado?
– Eu não te contei, você não sabia. Tá vendo como o teorema funciona?
– Mas que filho da puta.

* * *

– Mas, então, lembram daquela guria?
– Putz, ela é muito gata.
– Me mandou umas fotos.
– Fotos?
– Sim, fotos.
– Porra, compartilha com a gente.
– Não.
– Sou contra também. E se fosse pra ver fotos e imagens, prefiro ver filme pornô. Esse negócio de fotos amadoras é complicado. Tem de saber proteger quem confiou.
– Justo.
– Mas nem uma espiadela?
– Também acho que não tem que mostrar foto não. Foto de mulher nua é que nem maconha: Se for pra consumo próprio, é sossegado, se for pra distribuir, é criminoso.
– Vocês são cheios das expressões de efeito.
– Claro.
– Então vou soltar uma expressão de efeito: “Vão à merda”.
– Você está muito beligerante. Sossega o facho. Agora paga a cerveja.

* * *

– E ela, o que você acha?
– Charmosa. Eu pegaria.
– Eu também.
– Eu também.
– Eu não, não faz meu estilo.
– Hum. Estilo. Sei.
– É. Estilo. Você vai querer regular meu estilo.
– A verdade é que há homens na vida que se aproximam do camisa 10 clássico, sempre com estilo, assinatura, buscando a plasticidade do lance.
– …
– Outros são como camisas 9, matadores, trombadores, limpra-trilhos, feio é não fazer o gol, DNA de Charles Miller, o que importa é a bola rolar.
– Isso está interessante.
– Alguns jogam na cabeça de área ou na zaga, são mais contidos, tímidos, defendem o amor de toda a vida, vestem a mesma camisa sempre.
– Faz todo sentido.
– Vocês se encaixam em algum desses arquétipos.
– Eu não.
– Não?
– De jeito nenhum.
– Porra, claro que se encaixa. Qual é sua teoria?
– Nenhuma teoria, neste time aí eu jogo de libero.
– ?!
– Amigo, eu sou feio, desprovido de charme e chato. Enquanto vocês debatem se são 9 clássicos, 10 matadores e vice-versa, eu fico de libero. Saio jogando na sobra, sempre.
– Ah, deixa de história.
– Sério. Faço meu papel de líbero com perfeição. Enquanto vocês disputam o papel de bola de ouro, eu fico lá, dizendo que o defeito é lindo, que a calcinha de algodão é bela, que o sorriso desdentado tem o vácuo do amor. Sou uma fraude, mas a canalhice colarinho branco tem valor.
– Mas que filho da puta.
[gargalham]

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O capítulo IV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Evidências”, está aqui

O capítulo V dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Impedimento”, está aqui

O capítulo VI dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Urucubaca e Pênalti”, está aqui

O capítulo VII dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Cultura da Sacanagem”, está aqui

O capítulo VIII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Nome Artístico”, está aqui

O capítulo IX dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Churrasco”, está aqui

O capítulo X dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Aniversário”, está aqui

O capítulo XI dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Consórcio”, está aqui

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