Orca

Muito já foi dito pelo jornalismo especializado sobre a seleção espanhola de futebol. Alguns defendendo, outros criticando, mas todos com os olhos bem abertos ao novo jeito que a seleção espanhola imprimiu ao futebol. Para analisar a Fúria, não recorreremos ao esporte, e sim à biologia.

Não é possível dizer que um time que conta com Casillas, Xavi, Iniesta, David Silva, Jordi Alba e Cesc Fábregas é ruim. Não é ruim. Em hipótese alguma. Aliás, muito se espera de um time desse. Se espera ofensividade, abuso, beleza, lirismo. Não se espera burocracia.

Muitas das críticas à Espanha – com as quais eu particularmente concordava – vem do fato que um time com tamanho potencial não pode se render à burocracia. Tem de ser mágico? Não. Tem de ganhar sempre de 9×0? Não. Mas tem de ser objetivo, buscar o gol. A paciência que eles têm em tocar a bola não se reflete necessariamente na paciência dos amantes do futebol assistindo ao jogo.

[Pausa: Não é prudente vestir personagem julgando espectador de futebol. Assim como há apreciadores de gêneros específicos de cinema, há apreciadores de gêneros específicos de futebol. Ou você vai me dizer que todo mundo gosta de filme iraniano?]

E é aí que a explicação sobre a Espanha deixa de ser esportiva e passa a ser biológica. Ela nem sempre é garota, marota, travessa. Muitas vezes ela é “burocrática”, “enfadonha”, “enjoada”. Era uma opinião que eu tinha até refletir sobre o tema. Eu estava errado. Não é burocrática, enfadonha, enjoada. A Fúria é sádica. Como uma orca.

A orca é um dos mamíferos mais inteligentes do planeta. Da família dos golfinhos – e você achando que era uma baleia, hein? – é um animal que vive em bandos e é conhecido pela extrema capacidade de organização e, principalmente, pelo jeito interessantíssimo com o qual caça.

Geralmente caçam em grupos, e tem o prazer sádico de brincar com sua presa até matá-la. Cansam o objeto de alimentação, exaurem suas defesas, destroem sua moral e, aí sim, fazem a demolição. Há uma explicação biológica para tal, aproveitem o momento National Geographic.

A crueldade brincalhona e sádica da orca é ocasionada, principalmente, pelo fato da mordedura não possuir característica de impacto suficiente para provocar a morte da presa. Apesar da presença de dentes, estes não são suficientemente grandes para isso.

Voltemos ao futebol. A Espanha não tem um ataque poderoso que inflija danos ao adversário sem o domínio constante da bola. Mesmo com David Villa em condições de jogo ou Fernando Torres em ótima fase, o ataque desta geração da Fúria sempre foi o ponto mais claudicante do elenco. Daí que, como uma orca, sadicamente, o toque de bola cansa o adversário, até o extremo.

Mas a Espanha, como uma orca do Sea World, pode dar espetáculo às vezes. Como se viu ontem, dando um banho na Itália, que ficou mais assustada do que criança em montanha-russa. O chocolate espanhol foi doce para os espectadores, mas muito amargo para os italianos. Um, dois, três, quatro. Rápido, objetivo, simples, clássico. Punk. Não tem cinco, não tem seis, parou no quatro. 1,2,3,4.

Quando sai o gol da Espanha, o time adversário muitas vezes não tem força para reagir. Não é ofensivo, não é defensivo, às vezes não é objetivo e por momentos nem subjetivo é. Mas é dominante. Este século futebolístico, até o momento, é espanhol. Como na época das Grandes Navegações, cabe aos rivais descobrir uma tática para impedir que o império hispânico se alastre por mais tempo.

Enquanto as equipes adversárias tramam um plano infalível para recuperar terreno no esporte, a Espanha continua seu jogo. Defensores e detratores continuarão se digladiando enquanto a Fúria sorri. Sadicamente. Dentro e fora de campo. Até que alguém reinvente o jogo mais uma vez. O futebol – e o amante do esporte – aguarda esta oposição. Por ora, a orca vermelha vai brincando de jogar bola.

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