Venha Junto

“He say one and one and one is three,
Got to be good looking
‘Cause he’s so hard to see
Come together right now
Over me”
[Beatles – Come Together]

A última das batalhas. O Flamengo não era favorito, mas o sopro dos bons ventos parecia estar a favor. Afinal, como explicar que o voluntarioso Amaral, cão de guarda, exímio destruidor, não tão exímio construidor, tinha acertado aquele petardo em Curitiba, empatando um jogo na terra onde tradicionalmente o rubro-negro é surrado? Era ótimo presságio.

É sabido que o Flamengo tem uma religião chamada deixouchegaísmo, que insurge em decisões. Ela tem um antídoto, o oba-oba. Quando time entra com salto alto, não chega a lugar nenhum. Mas o Flamengo operário de Pep Jaymiola foi curtido na surra e no descrédito, culminando com uma humilhação para este mesmo Atlético, no dia 19.09.2013. Já estava vacinado contra seu maior demônio. E já conhecia o demônio
alheio.

O Atlético estava em melhor fase, com um técnico que já tinha ganho o torneio, um maestro em sua melhor fase e um, vá lá, favoritismo. Entretanto, quando entrou em campo, o time esqueceu disso tudo e estava mais desorientado do que virgem na orgia. 60.000 flamenguistas ensandecidos, cantando o jogo todo, transformaram o Furacão numa brisa de verão inocente, num time juvenil, numa música de Luan e Vanessa.

A verdade é que o jogo, em grande parte de seu andamento, foi feio. Houve um momento que estava mais horroroso que bater na mãe. Felipe ainda tentou dar alguma emoção ao jogo, catando alguns lepidópteros, mas logo se recompôs. Contou com a segurança dos soberbos Wallace e Samir, de um recuperado Léo Moura – bote fé no velhinho, que o velhinho é demais – e de um indecifrável André Santos – quanto mais você espera dele, nada acontece. E no meio de um xingamento, ele te surpreende.

No meio-campo, Amaral, com sua regularidade absurda. Um metrônomo, um papparazzo da volância, grudado sempre na maior estrela adversária. O interminável Paulo Baier, ao encarar Amaral, sentiu como se seu facão não estivesse mais fincado no pé de jequitibá. Virou apenas um idoso comum, em alguns momentos sequer caminhava em campo, disparando bolas alçadas a esmo, sem direção.

Luis Antônio, com altos e baixos, viveu sua partida mais esplendorosa na categoria profissional. bateu uma falta com tanta maestria que acertou a varanda de onde a coruja dorme e por pouco não se consagrou. Sua consagração viria um pouco mais tarde. Elias, tinha começado a partida de forma tímida. Já Carlos Eduardo, finalmente apoiado, acertava muitos passes, embora se movimentando na velocidade Matrix – sem o mesmo efeito prático.

No ataque, Chicharito Hernane voltava para ajudar e Paulinho ciscava mais do que galinha d´angola, sem muitos resultados auspiciosos. Este pas de deux durou 80 minutos, até que…

… o Atlético se abriu. Como um kamikaze desmiolado, partiu pra cima do Flamengo, na base da empolgação, do abafa, do vamo que vamo, do bumba meu boi. Entretanto, nada funcionava, e o Flamengo começou a usar de contra-ataques malignos. A torcida, uma massa uniforme que urrava os cantos do time, empurrava ainda mais o elenco. Não era oba-oba, era certeza. E quando a massa rubro-negra tem certeza, sai de baixo.

Chicharito Hernane perdeu um gol que seria consagrador, uma reedição do voleio de Bebeto em 1989, só que na outra barra. O goleiraço do Atlético salvou miraculosamente, como depois salvou de novo um chute do mesmo Hernane, que nesta jogada conseguiu cruzar a bola para Paulinho…

… que mais uma vez na competição incorporou o espírito de Uri Geller e entortou o marcador atleticano com um drible de quinta série, daqueles que a gente gritava “moral”, “esculacho” e “eu não deixava”. Depois, generoso, serviu Elias e merecia até 10% de taxa de serviço. O volante do Mengão bateu seco, rascante, no contrapé do goleiro do Furacão, que se contorceu mais do que epilético em crise mas não chegou nem perto da bola. 1-0.

Ali, o Atlético estava entregue. Ainda houve uma confusão, uma cena quase lamentável entre André Santos e Ciro – convenhamos, estes dois não são capazes de dar a um furdunço o teor violento que ele merece. Após a expulsão, o Atlético ainda tentou se debater, num último suspiro, até que cedeu mais um contra-ataque a bola caiu nos pés de Luis Antonio.

Ele, que fazia sua melhor partida pelo Flamengo, encontrou Pedro Botelho pela frente. O jogador atleticano fazia uma partida extremamente regular – errou tudo que tentou. Luiz Antônio, sem piedade nem misericórdia, tacou uma caneta quilométrica entre as pernas do pobre defensor, e cruzou por um preço milimétrico, pois sabia que o matador estava na área.

A bola encontrou Chicharito Hernane, que dominou com a classe de um boneco de Olinda e na tentativa de bicicleta, encaixou um velotrol. Irrelevante, posto que fez o que sempre fez. Gol. Gol que simbolizou e resumiu a campanha flamenguista. Gol daquele que foi ridicularizado no começo do ano e terminou a temporada como ídolo. 2-0. Festa na favela.

Fatura liquidada, título para um Flamengo improvável. Aliás, o Flamengo só ganha títulos quando é ungido pelo descrédito – a época de Zico é a exceção que confirma a regra. Levado nos braços pela torcida, o time demoliu na Copa do Brasil quatro dos cinco melhores times brasileiros no ano.

Mano Menezes, que foi contratado a peso de ouro e depois largou o time ao deus dará, dizendo que ia comprar um cigarro, sem voltar, cunhou uma frase profética depois da vitória contra o Cruzeiro: “O Flamengo é copeiro.” Onze em campo, Pep Jaymiola, milhões de torcedores. A equação foi irresistível. Copeiro, peleador.

O Flamengo conhece o torcedor, o torcedor conhece o Flamengo. Juntos, alcançaram a liberdade. Ao contrário de todo e qualquer prognóstico, são campeões. Quando deixa chegar, sem oba-oba, é uma força da natureza. E foram juntos. Intransponíveis. A alma do Maracanã se reacende com este título. E repousa feliz.

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A crônica de Flamengo x Cruzeiro, pelas oitavas de final, está aqui

A crônica de Flamengo x Botafogo, pelas quartas de final, está aqui

A crônica de Flamengo x Goiás, pelas semifinais, está aqui

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Viajantes na Tempestade

“Into this house we’re born
Into this world we’re thrown
Like a dog without a bone
An actor out alone
Riders on the storm”

The Doors – Riders on the Storm

19 de setembro de 2013. Ao fim daquele dia, onde o Metallica fecharia a noite do Rock in Rio, o Flamengo tomava uma traulitada do Atlético-PR, em pleno Maracanã. Um pesadelo. Enter Sandman. Depois de sair ganhando por 2-0, tomou uma virada inapelável que contou com requintes de crueldade – leia-se gols de Fran Mérida e Roger.

Naquele dia, Brother Menezes se imbuiu do espírito de Raul Gil, pegou seu banquinho e saiu de mansinho. Disse que os jogadores não entendiam seu mirabolante esquema tático que precisava ser selado, registrado, carimbado, avaliado e rotulado se quisesse voar. Era um time em frangalhos, na tempestade de críticas da rua da amargura e ainda por cima chamado de burro. O Flamengo estava na lama, nas palavras caetânicas e metafóricas de seu ex-técnico.

Eis que Jayme de Almeida entrou numa cabine telefônica, aceitou o desafio e se transformou em Pep Jaymiola. As palavras ruins de Mano Menezes não deixaram de ecoar, mas uma frase que ele disse também pairou no ar: O Flamengo é copeiro. O Flamengo virou copeiro. Copero y peleador, diz o brocardo platino.

Liderado pela habilidade de Pep Jaymiola, o Flamengo começou a respirar no Brasileiro, passou o carro no Botafogo na Copa do Brasil e chegou as semifinais no sapatinho. O próximo adversário? O Goiás, liderado por Walter, o Stay Puft do cerrado. Só que o monstro de marshmallow verde deitou e rolou na maca, acometido por uma contusão na coxa. Um desfalque de peso – sem trocadilhos.

No primeiro jogo, no Serra Dourada, o Flamengo jogou com a astúcia de uma onça e a velocidade de uma seriema. Antes que tocasse o tema do Globo Rural, fez dois gols nos verdes, que amanheceram, pegaram a viola, botaram na sacola e foram viajar – pro Rio.

Ontem, no Maracanã, o Flamengo estava diante de sua torcida. Uma tempestade caiu no Rio de Janeiro, mas ele estava pintado de vermelho e preto. E ninguém arredou pé. O décimo-segundo jogador. O time outrora abandonado na rua da amargura se sentiu acarinhado. Os jogadores, antes chamados de burros, tinham respaldo. O time é limitado, mas não está morto quem peleia. Desacreditado, o Flamengo é mais forte.

Eduardo Sasha, entretanto, aos quatro minutos, aproveitando uma cobrança de falta, subiu na área, quis ver, tindolelê, nheco-nheco, xique-xique, balancê. Balançou a rede de Paulo Victor, que só deu aquele pulo cenográfico. 0-1.

Mas o Flamengo estava calmo. Nada dói mais do que a humilhação. Ter passado por aquilo dá uma grande força ao time. O time começou a tocar a bola, retomou o controle das ações e passou a espremer o Goiás como se fosse um limão, verde que é. De Paulinho para Elias, bate, rebate, de Elias para Chicharito Hernane, o rei do camarote do Maracanã. ¡Un, dos trés, hay gol de Chicharito, Maria! Agregou status. 1-1.

Ainda não era suficiente. O Flamengo continuava a encurralar o Goiás, que estava sem respirar. Acossado, o time esmeraldino perdeu mais uma bola que foi rolada para Elias. Elias, o profeta black, motor king combo do Flamengo…

… e Elias lembrou de Davi, seu filho, que estava com pneumonia e tinha finalmente saído do hospital. Elias jogou as últimas partidas com a cabeça no gramado e o coração em Davi. Partidas abaixo da média, até falhando no primeiro jogo desta semifinal. A torcida sempre o apoiou, inclusive fazendo corrente de orações para o guri…

… e Elias não esqueceu. Pela massa e por Davi, deu um tirambaço com a força de Golias. Renan, o goleiro verde, sequer viu a bola, tomando o terceiro gol de fora da área em três jogos contra o Flamengo. Já pode pedir música de tristeza, goleiro. Goiás em desvantagem. 2-1.

O segundo tempo foi equilibrado, com o Goiás tendo chances e o Flamengo também. Paulinho, o rabiscador, inclusive quebrou a ponta da chuteira e mandou uma bola lá no Morro da Providência, perdendo um daqueles gols mais feitos do que miojo em república de estudante. Não fez falta, Flamengo na final.

Agora o Flamengo vai encarar o Atlético-PR. Futebol não é feito de nome, futebol é feito de momento. O Atlético é favorito, mas o Flamengo, tão desprezado e solto pela estrada do esporte, está na ativa. Os viajantes largados na tempestade da amargura, 2 meses depois, estão na final.

Tentando chegar à bonança, na humildade e disciplina, como tem de ser, sem deixouchegaísmo, como azarões. Mas não se enganem nem se iludam, somos humildes, mas não baixamos a cabeça. O Matador está na estrada.

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A crônica entre Flamengo x Cruzeiro, pelas oitavas de final, está aqui

A crônica entre Flamengo x Botafogo, pelas quartas de final, está aqui

Estrada das Estrelas

“I love it and I need it I bleed it
Yeah it’s a wild hurricane
Alright, hold tight, I’m a highway star”
[Deep Purple, “Highway Star”]

Botafogo. Na trilogia das rivalidades regionais, o Botafogo é o clube de onde se espera o imprevisível, o imponderável, o ilegal, o imoral e o que engorda. As alternativas são infinitas, tão infinitas que o símbolo do tudo se resume ao equilíbrio. E isso, entre Flamengo e Botafogo, significa o empate.

Há poucos dias, Flamengo e Botafogo já tinham subvertido a lógica. Em um jogo no qual o rubro-negro dominou e abriu o marcador, tendo inúmeras oportunidades de matar o rival. Não o fez, e o clube da estrela solitária ressurgiu e atropelou o Flamengo, com um show de Seedorf e Gegê.
[pausa: em um mundo de jogadores com sobrenome e pasteurizados, alguém de alcunha Gegê é um bálsamo. Fim da pausa]

Mas esta quarta-feira seria diferente. O Botafogo, a maior representação da classe média no futebol brasileiro [influente, tradicional, trabalhadora, reclamona, chorosa e sem dinheiro] era favorito. Como se fosse finalmente esmagar o Flamengo, relembrando os anos 50 e 60.

Entretanto, o Flamengo não é mais aquele. É um gigante. Um colosso que ultimamente vem na contramão atrapalhando o tráfego, mas ainda assim enorme. E não se subestima um gigante. Depois que Pep Jaymiola, o filósofo cabeçudo da simplicidade, assumiu o time, a máquina engrenou. O subúrbio tem uma sigla que define isso: HD. Humildade e disciplina. O Flamengo de hoje é embebido em HD.

O jogo começa com aquele equilíbrio tradicional, que não pende para lado algum. Até que Paulinho sofre uma falta. Na cobrança, Marcelo Mattos tenta afastar, a bola bate em Rafael Marques e sobra para Chicharito Hernane. Tem coisas que só acontecem ao Botafogo.

[pausa: Chicharito Hernane é um raro espécime no futebol de hoje. Centroavante de ofício, trombador. A centroavância não exige nível superior futebolístico, é uma profissão de caráter técnico e extremamente definidora. Hernane é um ator importantíssimo no Flamengo de hoje. Um Charles Bronson extremamente eficiente, que só não funciona quando pensa ser Daniel Day-Lewis. Cada um atua conforme sua capacidade. Um toque, é o que Chicha precisa. Fim da pausa.]

A bola encontra Hernane. É uma paixão violenta, um sexo selvagem, camisa nove. Nove e meia semanas de amor. O chute sai bonito e a bola beija a rede. 1-0. Que já poderiam ser dois, se Carlos Eduardo não sofresse de narcolepsia e tivesse perdido gol incrível instantes antes.

Paulinho estava em noite infernal. Enquanto Carlos Eduardo parecia estar possuído pelo espírito de Morpheu com tylenol, Pequeno Paulo era o Uri Geller redivivo. Rabisca, Paulinho. E lá ia ele, humilhando Gilberto, que hoje certamente acordou com lordose e escoliose de tanto ter sua coluna revirada. Rabisca, Paulinho. Dando um corte em Rafael Marques que deixou o jogador do Botafogo em Lins de Vasconcelos. Rabisca, Paulinho.

Ele não chuta bem, mas chuta com vontade. Paulinho merecia ser craque só pela vontade. Como diria a botafoguense Elza Soares, Paulinho veio do planeta fome. Fome de vencer. O chute dá rebote e a bola encontra ele, Hernane. Que bate do jeito que ela vem. Como assassino de ofício, um toque, o gol. 2-0.

O Botafogo já foi para o intervalo derrotado. A estrela solitária entrou em depressão, como se fosse um poeta bêbado ou músico dos Loser Manos. Na volta, o time ainda ensaiou uma pressão. 8 minutos…

… tempo suficiente para o contestado André Santos acertar – numa folha qualquer, onde se desenha um sol amarelo – um cruzamento milimétrico, que encontrou a cabeça de quem? Ele. Chicharito Hernane. Barba, cabelo, bigode. Jefferson, o melhor goleiro do Brasil, só pôde fazer cara de choro. E buscar a bola no fundo da rede. 3-0.

Estava fácil. Extremamente fácil. Pra você, eu e todo mundo cantar junto. Tão fácil que até Carlos Eduardo finalmente acordou do seu sono de beleza e enfiou uma bola de sinuca, um passe de triângulo, com açúcar e afeto para Chicharito Hernane. Iluminado, adentrou a área e foi derrubado por Dória. Pênalti.

Dória, que estava tomando um baile no jogo, já tinha perguntado “Do You Wanna Dance?” e te abraçado “Do You Wanna Dance?”, estava expulso. Um sonho a menos não faz mal. Botafogo na lona. Quem iria bater o pênalti? Ele, o aniversariante. Léo Moura.

O cara que ganhou todos os títulos possíveis em âmbitos nacionais com o Flamengo, tão cornetado quanto uma banda de jazz, mas jogador histórico. Bateu com simplicidade e perfeição. Gol. Ele merece. Parabéns pra você, nesta data querida. 4-0.

Alguns torcedores fanáticos – eu incluso – queriam mais. Queríamos seis, o número definitivo da cabala humilhante entre Flamengo e Botafogo. Mas estava bom. Na estrada da Copa do Brasil, as estrelas sem brilho do Flamengo seguem, amparadas pelo cometa da torcida. A estrela solitária do Botafogo é cadente. Que venham as semifinais.

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A Canção Continua a Mesma

“I had a dream, crazy dream
anything I wanted to know,
any place I needed to go, hear my song…”

[Led Zeppelin – The Song Remains the Same]

Fazia tempo que eles não se encontravam nesta intensidade. Como um caixeiro viajante, o Flamengo exilado pelo Brasil retomando o Maracanã. Se reencontraram – torcida e time – numa noite de vento gelado de quarta-feira, contra o Cruzeiro.

Contra o Cruzeiro, o corvo azul dos mata-matas contra o rubro-negro. Amplamente favoritos, Golias em forma de raposa. Ao Flamengo, restava a posição esquisita de ser Davi, de ser azarão, algo que a arrogância inata da Nação não permite constantemente, mas os choques de realidade têm feito perceber.

Mas estávamos lá. E aqui. E por aí. Lá, estava aquele time latino-americano apoiado por mais de 50.000 manos. Manos do Mano. Brothers do brother, em bom carioquês. Não sabiam se iam ser felizes, mas não tinham medo. E medo de amar impede o amor. Bares, casas, por todo o Brasil, tudo parado. Quem vestia rubro-negro sequer respirava.

E o time ia, do jeito que dava. Como diz um amigo, consagrando o esquema tático em voga desde 1912, o “Vamo lá, porra!” que sempre incendeia o Maracanã. O Flamengo joga melhor sob o signo da dúvida, o Flamengo joga melhor quando não é o favorito.

No primeiro tempo, o time começou a cercar o Cruzeiro. A China Azul virava Taiwan, isolada e recolhida ao seu campo de defesa. O Flamengo, entretanto, era um arame liso, cercava, apertava, mas não feria ninguém. Foram 45 minutos de flerte sem colocar a bola pra dentro. O Ira! diria que este flerte é um flerte fatal. Não foi. Ainda bem.

Não sei o que foi dito no intervalo. Mas certamente os jogadores ouviram os gritos da arquibancada. O Maracanã, muitas vezes destruído e reconstruído, como um Coliseu moderno, tem alma. Ela está ali, debaixo das cadeiras e da iluminação ultramoderna. A alma não morre, mesmo que o corpo padeça. Eles sabiam disso. Nós sabíamos disso. A torcida fez o ritual que lhe cabe.

Voltaram pro jogo. Não havia Zico. E daí? Zico é nosso deus, mas o período com ele foi uma época de sonhos. O Flamengo sempre se consagrou por times guerreiros, que ralam a cara no chão. O Mais Querido é feito de gente como a gente que faz a gente feliz. E assim foi. Sem craques, com operários. A revolução em campo.

O time amassava o Cruzeiro, que não respirava. Entretanto, em dois contra-ataques mercuriais, os azuis quase deixaram as coisas negras. Mas o negro estava ao lado do vermelho. Negro como eu, como tu, como todos os brasileiros mestiços.

Negro como Elias. Aos 43 do segundo tempo, número sagrado da Cabala rubro-negra, o lépido e fagueiro Rafinha, que estava sumido no jogo – a ponto de ser quase anunciado nos alto-falantes do Maracanã, como criança em shopping – dá uma bola com açúcar e afeto para Paulinho, o Boi Bumbá de Piracicaba. Ele é irregular, mas nunca se omite. O passe rasteiro sai milimétrico, com trena para a entrada da área…

… e encontra Elias. O negro Elias. Como eu. Como tu. Com sangue nas veias. Sangue rubro. O vermelho e o negro. O chute certeiro. “A imensidão da dificuldade a vencer, a  incerteza do êxito.” Stendhal. Erudito. Popular. Místico. 43. Gol. Porra. Gol.

Grita a torcida. Gritam as casas. Grita o Brasil. Elias, com sua coxa avariada, impulsionada por milhões, estufa a rede azul. Cala o líder do Brasileiro, corta as asas do corvo de sempre. Elias, chuta como um black, dança como um black, usa o cumprimento black. Rei. Combo. King Combo do Mengão.

A alma – a minha, a sua, a do Maracanã – incendeia. Os gritos saem descompassados. Crianças sorriem, adultos choram. Todos fomos Zico, todos fomos Rondinelli, todos fomos Angelim. Todos fomos Elias. Gente como a gente fazendo a gente sorrir. Em casa. No Maracanã. Nosso lar. A música dos gritos da torcida volta a ecoar. Dormimos felizes, no mesmo tom. Que venha o Botafogo. A canção continua a mesma.

Ziriguidópolis

O Atlético Ziriguidópolis terminou o ano passado como quinto colocado no campeonato de Roraima. Quando todos os atletas já estavam de férias, chegou a notícia que o campeão e os outros times mais bem colocados tinham desistido de participar da Taça São Paulo, e o “Ziriga” foi convidado. O presidente aceitou o convite, e o time teria de se apresentar imediatamente.

Agripino Augusto da Silva Santos, o Fuinha, era o presidente do Clube Atlético Ziriguidópolis. Um dos fundadores do time, que nasceu num bairro da periferia da Boa Vista, através de imigrantes de Minas Gerais apaixonados por samba, em 1971.

O nome Atlético veio por causa do Galo campeão brasileiro; as cores azul e verde, por causa de Cruzeiro e América; o nome Ziriguidópolis é em homenagem a Sargentelli, e o mascote, uma mulata passista, também remete ao samba.

Depois do convite inesperado, Fuinha chamou seu treinador e braço-direito, Melão, para traçarem os planos para o torneio. Cláudio da Silva foi apelidado assim porque tem a boca torta, lembrando a personagem de Don Lázaro Venturini em uma novela global dos anos 80 – “Eu prefiro Melão”, dizia Lima Duarte, vestindo o papel.

Melão era muito querido pelo grupo de jogadores, todos eles muito simples, assim como o próprio treinador e o dirigente Fuinha. O time caiu no grupo 25 do torneio, ao lado de Flamengo, Goiás e Jacareí. A missão era não passar vergonha e, se desse, arrancar um pontinho. Os convocados eram velhos conhecidos.

No gol, Peneira, de defesas espalhafatosas e técnica limitada; na lateral-direita, Juruna, de ascendência silvícola, com velocidade da flecha e a precisão do arco, ambos manuseados por alguém com Mal de Parkinson. Na zaga, a dupla de armários formada por Pico da Neblina e Airton Duplex, cheia de talento – tá lento na cobertura, tá lento na antecipação, tá lento na marcação. Na lateral-esquerda, Viagra, famoso na região por sempre levantar bolas na área – sem direção.

No meio-campo, a cancha formada por Negralha, Cotonete, Tião Macalé – que não tinha os dentes da frente – e Giocondo – que com um nome desse não precisa de apelido. Negralha, aliás, foi responsável por um momento tenso antes da inscrição do time.

O volante chegou ao presidente e ao treinador e disse: “Professores, a Copa SP é vitrine, ultimamente não existem muitos jogadores com apelido, eu quero usar meu nome de batismo na competição. Duplo”. Melão e Fuinha se entreolharam, ainda tentaram argumentar que existiam jogadores como Negueba, Muralha, Micróbio e Bactéria, mas o jovem estava irredutível…

…até que o presidente, exasperado, perguntou: “E qual é seu nome duplo, meu filho?”.   Ao que o jogador respondeu: “Ademilson Catarino”. Depois de muita conversa, chegaram em um consenso. Negralha estava rebatizado de Nego Ralha, nome duplo, e assim seria inscrito no torneio.

Na dupla de ataque, as duas maiores revelações do Mulatão – apelido do time – em sua história. Caganeira, jogador insinuante, envolvente, famoso por marcar um gol em uma partida que tinha sofrido de diarréia e não pôde se limpar; e Mentira, jogador valente e baixinho,conhecido por suas pernas curtas.

Esse seria o 11 inicial do Atlético Ziriguidópolis, que contava com mais jogadores entre seus inscritos, como Buiú, Ben 18 – que se chamava Ben 10, mas perdeu a vaga no time titular e mudou o apelido – Jurubeba, Jaguatirica – goleiro ágil e veloz, mas que na hora do sufoco some, entre outros. Todos se apresentaram no embarque com esperanças e sonhos.

Viajaram 4.708 quilômetros com uma garra fora do comum. Praticamente uma semana de viagem. Viraram matéria dos programas esportivos, sempre muito criativos, que escolhem um time durante a competição para mostrar os “sacrifícios” e “lutas”.

O Ziriguidópolis não tem dinheiro, mas Fuinha tentou limar o time das privações. Garantiu a grana da viagem enchendo a camisa de patrocinadores variados, que incluíam desde a Igreja Universal até o Terreiro de Pai Sandu, um paraense do candomblé e louco pelo Papão, que gostava do Mulatão e fixou terreiro bem próximo ao clube. Era comum ver o pastor obreiro da igreja e Pai Sandu torcendo juntos em dia de jogo.

O ônibus da viagem não era lá essas coisas, mas tinha conforto e ar condicionado, prontamente desligado depois que Caganeira justificou seu apelido na metade de viagem. Uma arejada se fez necessária para que os passageiros não morressem asfixiados.

Chegaram ao destino um dia antes do jogo. Ficaram no alojamento, comeram bastante e foram dormir. Estavam nervosos, a estréia seria contra o Flamengo, time do coração da maioria dos jogadores. Na preleção, Melão disse que eles já eram vitoriosos de estar lá, tinham de levar o nome de Roraima para o alto e não podiam passar vergonha.

O jogo começou frenético. Logo aos trinta e sete segundos, um cruzamento na área e Nego Ralha dá uma testada e marca um lindo gol – contra. Além do nome duplo não usual, o volante passava a ser conhecido pelo primeiro gol contra na Copinha daquele ano. E mais sete gols surgiram depois, uma goleada histórica, que poderia deixar os jogadores abatidos…

… se não fosse aquela jogada aos 43 do segundo tempo. Peneira passou pra Juruna, que tratou a bola como um ritual; virou o jogo para Pico da Neblina, que passou para Airton Duplex, e dali para Nego Ralha; do Nego para Cotonete, que tabelou com Giocondo e Macalé. Bola esticada na ponta-esquerda para Mentira, que visualiza Viagra, que levanta mais uma vez a bola na área…

… e encontra Caganeira bem marcado. Só que desta vez o atacante solta um pum muito fedorento e desconcentra o marcador rubro-negro. Sobe sozinho e cabeceia pro gol. E é gol do Ziriguidópolis! O gol de honra, de pé em pé, 1 x 8, chamada em todos os jornais. Uma jogada simples que encheu o time de esperança.

Contra o Goiás, o time jogou muito e só perdeu de 0x5. E contra o Jacareí, com gols de Mentira e Caganeira, de pênalti, conseguiu empatar em 2 x 2, levando o primeiro ponto da história do torneio para Roraima. As façanhas do Ziriguidópolis foram cantadas em verso e prosa. O Mulatão era o time mais famoso do estado, a partir daquele dia.

O time virou manchete por todo o Brasil. O presidente Fuinha ganhou uma medalha do Presidente da CBF, pela bravura e espírito de luta do time, mas não consegue encontrá-la para mostrar a quem pergunta. De vez em quando, tem a impressão de que o mandatário da Confederação pegou a medalha de volta, mas acha que é desfeita comentar algo do tipo.

Caganeira conseguiu uma vaga no Botafogo de Ribeirão Preto e mudou seu nome para Marcio Augusto – embora os companheiros de equipe o chamem de “Fezes” de vez em quando. Nego Ralha voltou a ser Negralha e está em testes no Olaria. A maioria dos jogadores está tentando ganhar a vida pela Região Norte. Mas nunca será esquecida a campanha do Atlético Ziriguidópolis na Copinha de 2013…

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Este texto é uma obra de ficção baseada em fatos surreais. Qualquer semelhança é mera coincidência.

No Corredor da Arquibancada

[Chega ao bar, encontra o amigo chorando. Chorando é eufemismo. Soluçando]

– E aí, rapaz?

– [soluça]

– O que houve?

[funga, cafunga e soluça de novo]

– Quer conversar? Desembucha, o que houve? Estou preocupado com você.

[Enxuga as lágrimas] Ela estava ali. O que mais doeu não foi a derrota, não foi tomar aquele gol, foi o que rolou com ela.

– Mas quem é ela? O que rolou com ela, me conte?

– Eram 32 minutos do 2º tempo, o nosso time era pior que o time deles. Estávamos no abafa, no vamo que vamo, no cutuca que dá.  Eu sempre fico no 2º degrau da arquibancada,  o 1º fica longe da grade, sempre dá pra comemorar gol ali.

– Certo. E o que houve?

– Naquele momento, nosso zagueiro, Ébano, foi para a área adversária. Não sei porque o deixaram tão livre, tão sozinho, tão imponente, parecia um tuiuiu voando na abertura do Globo Rural. E subiu consciente para testar a bola. Eu já sabia que era gol. E foi. E eu saí correndo para comemorar.

[olha incrédulo] E?

– E aí que ela também sabia que seria. E ela desceu para comemorar também. O estádio estava lotado, e só nós dois descemos, insanos. Com a trilha sonora da massa, aquela onda vocal de “GOL” pipocando atrás de nós.

[olha com atenção]

– E corremos em direção ao outro, estávamos com o mesmo uniforme, nos olhamos, nos abraçamos, ela tem um cabelo longo, um óculos quadrado na cara, um perfume doce como a vitória do time até aquele momento.

[olha espantado] E aí? Você se apaixonou?

– Claro. Que não. Sabe quando alguém de quem você está com muita saudade volta de viagem? Você está no aeroporto esperando a saída da sala de desembarque, e quando isso ocorre, a pessoa deixa as malas cairem e vem correndo te abraçar? Quando você passa no vestibular e precisa, eu disse precisa, ver seu pai, sua mãe ou seu melhor amigo, ou todos juntos, vai correndo desorientadamente e os abraça? Bem desse tipo. Só que eu nunca tinha visto aquela pessoa.

– Que surreal.

– Pois é. Surreal. O êxtase do futebol colocou a gente ali, nos braços do outro, depois de um corredor inteiro livre de gente, comemorando um gol que valia a classificação. Eu não sei quantas pessoas na minha vida eu abracei com tanta alegria quanto eu abracei aquela garota.

– E aí, cadê ela? Pegou o telefone? Se interessou por ela? Beijou? Pegou? Ou fez só amizade?

– Eu nem pensei nisso, cara. Ela era mais do que uma garota, era uma companheira de infortúnio. Um anjo guardião. Talvez eu tivesse pensado nisso se a zaga tivesse um pouco pra frente, se o Morales Bolívia chutasse na trave, se o juiz achasse que tava impedido, se alguém desse um bico na bola 10 segundos antes. Mas ninguém fez isso. E no último minuto de jogo, último minuto, Morales Bolívia empatou o jogo e tirou nossa classificação. [chora]

[olhos enchem de lágrimas]

– E eu não sei onde está aquela garota. Porque ela sumiu depois desse gol, como se tivesse sido um sonho bom interrompido por uma sirene de tristeza. Não consegui sequer vê-la de relance, no meio da massa de tristeza com as cores do nosso time. Eu queria dizer a ela: Escute, garota, se você estiver tão triste quanto eu estou, vem cá e me dá um abraço.

– Garçom, traz dois whiskies. Duplos. [E abraça o amigo]

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Baseado em uma conversa com grande amigo e ombudsman de vida Gito Salvador.

Fel

Derrota. A sonoridade da palavra já deprime. Acorde em tom menor. O filósofo Luis Carlos do Raça Negra diria que é o gosto amargo da desilusão – e isso é mal. Fel. Perder. Nunca é bom perder algo. Os Jogos Olímpicos de Londres mostraram várias dimensões da palavra derrota.

Esqueçamos as derrotas vitoriosas, frutos da força monstruosa. Essas tem o gosto da superação. Servem para serem reverenciadas. Tratamos aqui das essencialmente dolorosas. Vejamos as cores das dores que pintam o painel de humanidade, as que trazem lições sem serem moralistas.

As perdas do vôlei masculino brasileiro – de quadra e de praia – subjugados por adversários que foram tatica e tecnicamente melhores. Derrotas do esporte, com contornos épicos que fazem parte do processo de paixão do ser humano pela competição. Derrotas na qual o antagonista perdedor valoriza a conquista do protagonista vencedor.

A desistência de Fabiana Murer no salto com vara, com receio de fazer seu último salto por causa do vento, enquanto nenhuma das outras competidoras recuou. Um ciclo de quatro anos de trabalho travado pela valorização da integridade física em detrimento à possibilidade de glória. Sensatez para uns, covardia para outros.

A dor de Asafa Powell, se contundindo na final dos 100 metros rasos, estancando sua corrida e se tornando um privilegiado espectador de outros sete fenômenos na pista. A dor de se ver como o passado, enquanto o presente – Bolt – e o futuro – Blake – passam como foguetes, sem arrependimentos.

O choro soluçante da esgrimista Shin, mais cortante que a espada que carregava, ao esperar sentada, sozinha, duelando contra os monstros da expectativa, o recurso para sanar o erro da prova. O resultado – errado – foi mantido e a ansiedade virou frustração.

A tristeza pulsante da inexperiência do basquete masculino e do handebol feminino brasileiro, ambos no caminho da redenção, que perderam para dois timaços – Argentina e Noruega – sabendo que poderiam ter feito mais e melhor. A falta de cancha em decisões pesou no momento mais agudo da competição, virando lição.

O olhar incrédulo das equipes de badminton expulsas da competição por entregarem resultados, prática que vem se alastrando, mas que pela primeira vez foi frontalmente combatida em algum esporte.

Além destas derrotas, houve muitas outras aqui não citadas, mas que merecem ser  – e serão – lembradas por quem as viu e ficou marcado por elas. Os Jogos são o microcosmo da vida, onde poucos chegam ao alto do pódio, e muitos perdem – e se perdem no caminho.

Nada mais natural. Não se trata de “amarelar”, de “entregar”. A derrota, a perda, traz menos fama, menos dinheiro, menos reconhecimento. Ninguém quer ficar por baixo, ninguém quer ser menor do que poderia ser. Estas coisas apenas são as nuances que vemos em cada esquina da vida. Além do mel dos sonhos e das realizações, o fel. Muito fel.

Ébano, Marfim, Ouro

22 de novembro de 1986. Na África do Sul, em uma Johanesburgo tomada pelo Apartheid, o menino Oscar Pistorius nasceu, e aos onze meses teve parte de suas pernas amputadas devido a uma doença chamada “hemimelia fibular”, a ausência congênita da fíbula.

1º de setembro de 1992. Nascia em Granada Kirani James. Saudável e forte. Mal sabiam os pais que o menino se tornaria a mais explosiva revelação dos 400 metros, o homem no qual a lenda Michael Johnson aposta que irá pulverizar todos os seus recordes.

O menino sul-africano cresceu, o apartheid caiu e a criança branca virou esportista em uma categoria dominada pelos negros. Mesmo com limitações, queria ser um corredor de velocidade. Conseguiu. Com suas próteses, se tornou um grande velocista paraolímpico. Não tardou para se tornar recordista mundial paraolímpico dos 100, 200 e 400 metros. Seus tempos chamaram a atenção do mundo.

O menino granadino acumulou título atrás de título nas categorias juvenis, até chegar em Daegu, Coréia do Sul, e se tornar o mais jovem campeão mundial dos 400 metros na história. Kirani vinha sendo olhado com uma certa desconfiança por causa de sua performance ruim no mundial indoor de 2012, se tornando uma incógnita para Londres. Conseguiria retomar o nível de 2011 – e de toda sua carreira?

Oscar achou que deveria competir entre pessoas ditas normais. A IAAF tentou impedi-lo, alegando que suas próteses lhe dariam vantagem. Na mesquinhez da teia de regulamentos, queriam barrar o sonho de um atleta que já é campeão por não se entregar às dificuldades. Pistorius recorreu e venceu. Não conseguiu se classificar para Pequim-2008, mas garantiu índice para Londres-2012. E se classificou para a semifinal.

Na semifinal dos 400 metros, Kirani James e Oscar Pistorius se encontram na pista do Estádio Olímpico. Pistorius corre; James voa. O granadino ganha a série, enquanto o sul-africano é eliminado. Entretanto,muito maior do que a prova é o que ocorre quando a corrida acaba. O espírito humano dá a prova de sua grandeza.

Em vez de comemorar loucamente, Kirani James pára e se vira para Oscar Pistorius. Pede para trocar sua placa de identificação com a do sul-africano e a anexa, com um orgulho enorme. O estádio vem abaixo. Ao ser entrevistado posteriormente, James diz – com razão – que Pistorius significa um ganho de superação inacreditável ao esporte, além de ser uma grande pessoa fora dele. E garante que vai enquadrar a placa de identificação do amigo. Comovente.

“Ébano e marfim vivem em perfeita harmonia, lado a lado no piano […] nós aprendemos a viver e a dar um ao outro o que precisamos para sobreviver juntos[…]”. “Ebony & Ivory”, interpretada por Paul McCartney e por Stevie Wonder, é a natural trilha sonora de um dos grandes momentos das Olimpíadas de Londres, mesclando igualdade, humildade, respeito e amizade.

Não bastasse Kirani James ter um coração de ouro, daqueles que é descrito na música de Neil Young – embora eu prefira a versão com Johnny Cash cantando – ele ainda coroa o enredo com seu melhor tempo pessoal e a medalha de ouro em Londres. James foi bafejado com o sopro do vento dos Deuses do esporte. Vento tão forte que afetou até outros atletas no Estádio Olímpico, de diversas maneiras – mas isso é assunto para outros textos.

Gabrielle Andersen

Os primeiros Jogos Olímpicos que acompanhei na íntegra foram os de Seul, 1988. Eu tinha 10 anos e conseguia criar um esquema em casa com despertador e a ajuda inestimável da minha avó, companheira de traquinagens, para assistir os jogos na madrugada. A paixão pelos esportes em geral, herdada do velho, cada vez aflorava mais. Mas meu primeiro e marcante encontro com a competição veio em 1984, Los Angeles, e mudou a minha vida.

Com 6 anos eu era uma criança como a maioria: cruel, egoísta, abusada. Sempre queria competir e ganhar, e não sabia perder. Meus pais enfrentavam a crise no relacionamento, que culminou no divórcio. Isso me deixou ainda mais bravo e arredio.

Daqueles tempos, talvez pelo divórcio dos meus pais, não lembro de quase nada. E os Jogos Olímpicos de Los Angeles não seriam diferentes. Guardo pouca coisa na memória. Lembro da corrida do Joaquim Cruz, ganhando do Sebastian Coe e batendo o recorde olímpico [1:43, nunca esqueci disso, vai saber o porquê]. Lembro do Brasil jogando no futebol contra algum time vermelho – Canadá, acho – e mais uma ou outra competição. Entretanto, há uma lembrança nítida e absurda na minha mente: Gabrielle Andersen.

Não lembro da prova da maratona feminina. Não lembro nem quem foi a medalhista de ouro. Mas a imagem da suiça Gabrielle Andersen, chegando ao fim da prova mais retorcida do que tronco de aroeira, me impactou à época. Eu, moleque, primeiramente me horrorizei com aquilo. Depois, vi as pessoas ajudando a moça e comecei a perceber que vencer não era o mais importante. A partir disso, a competição com meus amiguinhos ficou em segundo plano. E passei a me divertir em vez de tentar simplesmente ganhar. E passei a saber perder. Gabrielle Andersen moldou meu caráter.

A partir daquele dia, o mais importante não era o primeiro lugar, era dar o máximo sempre. Era se divertir e ter a consciência que o meu melhor foi alcançado. Os Jogos Olímpicos são sensacionais porque mostram Moussambanis e Phelps sob a mesma perspectiva e brilho. Como a humanidade deve ser. E isso não é faz de conta. É simplesmente como a vida deveria ser.

Em um mundo corporativo, yuppie, injusto, idiota, é bom ter a semente da justiça e da competição saudável brotando e florescendo, nem que seja de quatro em quatro anos. No meu caso, ela só foi plantada graças a Gabrielle Andersen e seu esforço em honrar o espírito olímpico. E mesmo admirando e batendo palmas para os gênios do esporte, meu olhar sempre terá ternura e carinho reservados a quem honra a grandeza dos Jogos.

Orgulho e amor?

Nos idos dos anos 70, Gérson, um dos melhores meio-campistas da história do futebol brasileiro, das almas mais fantásticas que passaram pelo meio, fumante inveterado à época, fez um comercial que marcou: o dos cigarros Vila Rica. Menos pelo produto, consumido pelo tempo e pela falência sem filtro; mais pelo texto, no qual o Canhota de Ouro dizia que “brasileiro gosta de levar vantagem em tudo”.

Ainda que posteriormente se tenha tentado amaciar o impacto inicial da declaração, a mesma foi utilizada fora de contexto e a expressão “Lei de Gérson” ganhou lugar cativo no glossário brasileiro, como símbolo do jeitinho. Observando a questão pelo ângulo da atuação do Brasil no esporte em competições internacionais e dos torcedores, o Canhotinha foi um visionário.

O brasileiro médio não gosta mais de esporte. É um fato. Impulsionado pela TV aberta, o brasileiro ultimamente gosta de ver compatriotas vencendo. Um costume que se inicou com a Galvanização da Fórmula 1 nos anos 80 através de Senna, cuja aura messiânica fazia questão de alimentar, encontrando em Galvão Bueno um porta-voz perfeito para seus feitos.

Com a morte e conseqüente mitificação de Ayrton – brasileiro adora transformar morto em santo, impressionante – a mídia de massa passou a buscar um substituto iminente, como se fosse escolha de um novo Dalai Lama esportivo e espiritual. Adicione à receita o fato de que, meses após a morte de Senna, o Brasil voltava a ganhar uma Copa do Mundo após 24 anos. O cenário de país campeão de tudo estava montado.

O Brasil foi vice-campeão do futebol em 1998 e ganhou novamente em 2002. Surgiram alguns talentos únicos como Guga Kuerten, entre outros. E a TV se apressando em enaltecer os feitos brazucas e deixar o esporte em segundo plano, como se o nacionalismo fosse mais importante que a beleza e o sentimento que envolvem o jogo.

A partir daí, houve um declínio do esporte brasileiro, natural em esportes individuais que não tem uma política própria de longo prazo definida e incomum no futebol, mas compreensível pela globalização das escolas de jogo. Ganha quem se organiza mais, e organizar não é um esporte praticado pelas federações brasileiras, de quaisquer esportes, exceção ao vôlei e à natação, mesmo com comandos ditatoriais.

Hoje, tirando os já citados natação e vôlei, e um ou outro brilhareco individual, o esporte do Brasil fica refém de competições inventadas como “Jogos Mundiais de Verão”, ou à espera de que talentos inatos resolvam o problema. O resultado disso, como a Lei de Newton – não o Santos, Enciclopédia, mas o cara da maçã – ensina, toda ação gera uma reação de igual força e proporção.

È comum ver nas gerações mais novas a torcida pelos times fortes da Europa – “Meu” Barcelona, “Meu” Real Madrid, “Meu” Manchester United – sem torcer pelos times locais. A molecada acostumada ao ufanismo, ao orgulho e amor propagados pelas TVs abertas, cansou de perder. Esquece que a paixão nasce não só do amor, mas da dor. Como diz o proverbial samba, a dor que dói é a dor de amar.

No consumo fast food da mídia de massa, amor não é suficiente, nem em novela. E a própria mídia começa a amargar baixas audiências em virtude de sua campanha estúpida do passado, a qual tenta reverberar até hoje. O quarto poder da imprensa maniqueísta, quando reinava soberana nas TVs abertas, fez um estrago que a imprensa especializada de internet e TVs fechadas tenta reparar.

O tempo para tal conserto será longo. E talvez o Brasil volte a ganhar em esportes mais midiáticos como futebol, basquete e automobilismo, fazendo com que o ufanismo volte com ainda mais força. E o ciclo vicioso torne a começar.

Gérson, nos anos 70, não sabia que uma simples frase, distorcida e levada a cunho pejorativo, fosse tão profética e milimétrica como os lançamentos que fez em campo. O importante para o brasileiro não é admirar o esporte. O brasileiro quer ganhar, quer que o compatriota vença, e o estrangeiro que atrapalha estes planos é um mero vilão, sem qualquer qualificação e mérito. Afinal, de acordo com a mídia de massa, somos o país do orgulho e do amor – a qualquer coisa, menos ao esporte.