Enquanto Vocês Dormem

Enquanto vocês dormem, eu penso. Penso no futuro de vocês. Qual caminho vão seguir? Uma quase entrando na vida adulta, outro começando a dar os primeiros passos. Onde o destino vai lhes levar? E como vocês vão moldar o destino?

Enquanto vocês dormem, tenho dúvidas, me arrependo, renovo as certezas, ergo a cabeça, choro e sorrio. Ser por vocês é ser por mim, e nunca é obrigação, apenas prazer e aprendizado. Aprender com prazer é uma dádiva, basta humildade, discernimento e boa vontade.

Enquanto vocês dormem, aprendo receitas de papinhas nutritivas, leio sobre equações de segundo grau ou funções, atualizo a conta do Netflix – “pô, não tá rodando” – e faço planos mais ou menos mirabolantes para realizá-los quando vocês acordarem.

Enquanto vocês dormem, me sinto protegido, os dois se combinam em uma defesa inexpugnável: capa e espada, tática e estratégia, amor e cuidado, sorriso e abraço. É o que move, onde posso tirar a armadura e descansar com serenidade.

Enquanto vocês dormem, o presente e o futuro se entrelaçam. Ser mais eu, para ser vocês. E eu fico divagando sobre inúmeras coisas que só fazem sentido pra mim, porque vocês descansam, me dando uma imensa sensação de missão cumprida em mais um dia nesta indústria vital. E nesse semblante terno e plácido, encontro meu repouso. Shhhh, vocês dormem.

Enquanto vocês dormem, eu sou paz. E quando vocês acordam, sou também. Com vocês, tudo é pleno.

Gabo – Ano Um

[música incidental – “Gabriel”, de Beto Guedes]

“É só de ninar
E de desejar que a luz do nosso amor
Matéria-prima dessa canção
Fique a brilhar…”

Oi, filho. Doze meses. Muito tempo se passou desde a primeira vez que peguei você nos braços, meu amor. Você nasceu grande, mas pra mim era muito miudinho. Eu, ogro e estabanado, morrendo de medo de quebrar você, enquanto a pediatra te pegava com a desenvoltura típica de especialista. “Corta o cordão, pai!” E eu lá, com aquela tesoura cega, querendo romper aquele vínculo físico e ao mesmo tempo morrendo de medo de te machucar. E agora você taí, andando…

Você é muito amado meu filho. Amado pelos seus tios, e, acredite, você tem tios pelo mundo inteiro. Tios de sangue, tios de alma, tios de afeto, tios transbordando carinho; muito amado pelos seus padrinhos, que são pessoas fabulosas, almas boas; muito amado pela sua Tia Nanda, que é um capítulo à parte, porque é sua caçamba, escudeira, guardiã, quase anjo da guarda; muito amado pela sua irmã, esse arco multicolorido que te protege como se você fosse extensão dela – e talvez seja mesmo – e ainda te presenteou com um bicho de estimação que fica montado em cima do seu carrinho fazendo vigília [isso enquanto não dorme, claro].

“E é pra você
E pra todo mundo que quer trazer assim
A paz no coração
Meu pequeno amor…”

Pela sua mãe, o amor nem conta, filho. Ele transcende. Você, que é ruivo como ela, tem muito dos trejeitos. Quando você nasceu, eu disse que éramos imbatíveis. E continuamos sendo imbatíveis. Hoje, eu e sua mãe não estamos mais juntos, mas por você e sua irmã sempre seremos família, um só, inquebrantáveis. O tempo assenta as coisas, ameniza as mágoas e faz com que boas lembranças retornem e surjam. Hoje, tudo é muito recente, mas há de melhorar. Você deve ter orgulho da pessoa espetacular e incrível que é sua mãe, alma boníssima, desprovida de qualquer paranóia ou maldade. Não poderia ter mãe melhor, guri. Vá por mim.

“E de você me lembrar
Toda vez que a vida mandar olhar pro céu
Estrela da manhã…”

Por você e por sua irmã, muitas vezes eu abri os olhos e levantei, carinha. Porque às vezes morremos de medo, mas lembramos que, por sobrar medo, não falta coragem. Não adianta fugir, filho, nem falar e resmungar aos cantos, soltando ao vento nossas tristezas e temores, como moleque covarde. A gente é sujeito homem, lembra? A gente encara de frente. Às vezes passam um monte de besteiras na cabeça, a tempestade é enorme, o afogamento é quase certo, mas o amor como o de vocês são as bóias que fazem flutuar. E eu, filhote, só tenho a agradecer a ti e tua irmã.

“Meu pequeno grande amor
Que é você, Gabriel
Pra poder ser livre como a gente quis
Quero te ver feliz”

Neste primeiro aniversário, Gabriel, parabéns. E que seja sempre suave, mesmo nos momentos duros, que virão, porque eles é que te forjam o caráter. Sempre sereno. Com amor, saúde, alegria e felicidade. Meu Gabriel, Gabo, Gabão, Gabiroba, Ziriguidum, Ziriga, Riga [lembra do grito, filho? Aquele que só papai faz, e que te faz sorrir quando você tá com febre?] e tantos apelidos que virão. Sua mãe, seus tios, sua irmã sempre estarão ao seu lado. Papai também. Você tem pai. E um pai que te ama muito. E que estará ao seu lado em todos os bons momentos, até a hora de seguir em frente e você continuar seu legado, voando só. Que Deus te abençoe. Nós somos de infantaria e mar. Não esqueça. Quero te ver feliz. Sempre feliz. Nesta semana, Feliz Aniversário, o seu primeiro. Neste e em todos os outros momentos, eu amo você.

Infantaria e Mar

Filho, hoje você conheceu a praia. Parece algo comum e corriqueiro, mas pra nós não é assim. As pessoas talvez nos olhem estranho, porque pra elas praia é diversão. Elas se sentem bem na praia, elas gostam de estar ali, naquele ambiente, respirando aquele ar da maresia, por recreação. Nós, não. Ali, pra nós, é sempre um ritual.

Hoje, você é muito novo pra entender isso, guri, mas um dia, você, quando estiver saturado, carregado e cansado do cotidiano, irá à praia. Porque é da sua natureza, assim como da minha. Nosso sangue é de água salgada, ali é nosso habitat natural. Não é aquela balela de ser peixe, ou algo do tipo, é algo que transcende isso. É espiritual.

Ao ver você dar passos, amparados, para ir ao encontro do mar, eu reparei no seu rosto. Normalmente bebês choram, mas você não fez isso. Primeiro reconheceu o piso fofo da areia, depois, calmamente, foi se encaminhando pro mar. Quando tocou na água, resmungou – acredite, isso é uma característica genética, bem mais minha do que da sua mãe, não se assuste – mas logo se adaptou.

A água do Nordeste é morna, mas não pense que a vida será sempre mansa assim. Há lugares que a água será geladíssima. É uma metáfora pra vida, filhote: mesmo que a água pareça desafiadora, não se furte a mergulhar.

Aliás, falando em água, e falando em mar, nunca se esqueça: gente como a gente nunca sai de costas pro mar. A gente sai e olha pra ele, em reverência. E agradece. Porque o mar é acolhedor, mas não tolera desaforo. Só morre no mar quem sabe nadar. A arrogância no oceano é imperdoável. Na vida, se demora mais pra cobrar a conta, mas ali, na imensidão azul, ela vem rápido com direito a gorjeta. Convém nunca abusar.

E você saberá disso, no devido tempo. Como hoje, depois de ter receio, soube onde estava pisando, depois reconheceu onde estava nadando e abriu um sorriso abusado. Se divertiu nos braços dos seus, tomou uma água de coco e voltou pra casa feliz.

Porque gente como nós, meu filho, não trata a praia como diversão ou como um ambiente diferente. Gente como nós é a praia e faz parte dela, assim como ela mora na gente. Porque nós, guri, somos feitos de infantaria e mar.

Álbum de Figurinhas

“Eu não vou colecionar isso não”.

Mesmo com inúmeros pedidos da Ruiva, era uma decisão tecnicamente inegociável. Fazia anos que não colecionava álbum de figurinhas. Desde que descobri os guias, com as fotos dos jogadores, não tinha o mínimo interesse nos cromos que já tinham virado febre entre meus amigos.

Admito que isso tem a ver com uma certa frustração dos tempos de guri. Quando moleque, não tinha grana pra comprar figurinhas em grande quantidade. Todos os álbuns que completei foram graças ao porquinho e uma estrondosa habilidade no bafo [bafo, bolinha de gude, corrida de tampinhas, pipa e futebol de botão, não fazia feio. Era um grande atleta do decatlo de esportes de subúrbio].

Mas o número de álbuns incompletos sempre foi maior que o número de completos. No do Roque Santeiro, por exemplo, faltou o Beato Salu. Já no da Fórmula 1, faltou o carrinho da Coloni. Cara, o carrinho da Coloni era uma figurinha dificílima. Nem nas partidas de bafo ela aparecia. Era o Santo Graal das figurinhas. Um inferno. A Coloni não andava na pista e a figurinha não rodava no pacote. Eu, sinceramente, não queria que meu guri passasse por isso.

“Mas, nego, você tem de ver que é a primeira copa dele, mesmo com ele não lembrando de nada. E vai ser muito legal daqui a quatro anos, vocês dois folheando o álbum e você mostrando pra ele quem eram os jogadores. O Drogba, o Xavi, o Pirlo, esses caras não vão estar jogando em 2018. Ele precisa saber quem são”.

Tá, esse argumento me deu um wazari. Difícil sair dessa imobilização moral. Aí o Dindo Cadu, muito Dindo, deu aquela moral lá do Rio de Janeiro. Contra a mãe e o Dindo, fica difícil. A Tia Kaká, o Tio Thiago e a Tia Nanda se mobilizaram também. Aí complica mesmo. Estava difícil resistir, mas eu ainda tentava, rumo ao nada, como se fosse Hiroo Onoda nas selvas filipinas. Até que um álbum brotou em minha residência.

Fiquei puto, confesso. Me senti traído, apunhalado moralmente. Estava sendo compelido a fazer algo que não queria, sem nenhum convencimento – não foi por falta de tentativa, admito. Sou teimoso como um hipopótamo, não por acaso é meu bicho preferido. A Ruiva ainda soltou, carinhosa: “Seu pai deve ter feito o mesmo com você”. Eu não tinha essa resposta.

Minha infância é um vazio na cabeça. Lembro de muito pouca coisa. Me recordo de ter visto “O Império Contra-Ataca” no cinema, aos 4 anos. [Valeu, pai, você mandou bem demais nessa]. Tenho memórias de uma coleção imensa de carrinhos de ferro [algo que até hoje não compro, me dá uma melancolia danada. Meus carrinhos, assim como um pedaço das minhas lembranças, se perderam no labirinto do tempo]. Sem lamentos,  sem lamúrias, sem pena. Apenas não estão lá.

E lá estava ele, o álbum, imponente, vazio, como três pacotes de figurinhas. Olhei pra ele, ele olhou pra mim. Antes que tocassem os primeiros acordes de “Adelaide” [minha anã paraguaia], lá estava eu colando um cromo. A Ruiva me interpelou, provocadora: “Ué, e vai colar agora?”. Olhei com meu olhar fuzilador de príncipe George e desci para o jornaleiro. Quando era moleque eu não tinha grana. Agora não sobra, mas faltar, não falta. Trinta pacotes. Assim, de supetão.

TRINTA pacotes? Mas trinta pacotes dá meio pacote de fraldas!” Ué, não era pra levar a sério a brincadeira? Tem coisas que um pai precisa lidar, porque não dá pra proteger o filho do mundo e de todos os desafios que virão. Mas certas coisas um pai não pode deixar acontecer. Este álbum deveria ser completo. Ele seria completo. A missão estava em curso.

Na pelada de segunda-feira? Troca de figurinhas. No trabalho? Troca de figurinhas. Mas isso não era suficiente. Aí surge um fiel escudeiro: Tio Washington. Wash é amigo de longos e bons anos. Carioca de Duque de Caxias, morando em Recife há mais de uma década, é dos melhores amigos que tenho na vida, um dos dois melhores desta terra. Companheiro da pelada de segunda-feira, amigo da vez das cervejas de sexta – já que não bebe – e parceiro de arquibancada dos jogos do Flamengo em cada canto do Nordeste. Apaixonado pelo sobrinho, já tinha decidido: Ele iria completar o álbum e em grande estilo.

Primeiro, arranjou um álbum de capa dura. Aí lá foi a Ruiva descolar as figurinhas coladas no álbum de capa mole e recolocá-las no de luxo. O que seria um suplício para alguém com duas mãos esquerdas, como eu, pra ela foi sopa no mel. Artista é artista. Uma troca de mensagens durante vários fins de semana:

– Cara, tô aqui em Olinda, tem troca de figurinhas, tá faltando o que no álbum?
– Faltam 37, inclusive o Robinho.

Confesso que pensei em colar outra figurinha no lugar do Robinho. Pensei em fazer a figurinha do Brocador, pra subverter a história, como um norte-coreano em 2010, e explicar como Felipão barrou a grande estrela do Flamengo na Copa [observe que a grande estrela do Flamengo é um cara que não jogaria nem no time de 1992. Que fase.]. Pensei também em colocar a figurinha do Caça-Rato na Copa do Nordeste, como protesto, mas desisti a tempo. Robinho, ao menos no álbum, seria escalado. Depois de tanta troca de mensagem, as faltantes foram devidamente conseguidas.

Numa segunda-feira de temporal, na pelada, jogando no estilo Libertadores, só faltavam duas figurinhas: Eduardo Vargas, do Chile, e Omar Rodriguez, dos EUA. E elas surgiram ali, no meio do dilúvio, das mãos do Tio Washington, completando o álbum do moleque.

Confesso que, voltando de carro em meio àquele temporal, me emocionei. Pensei nos álbuns que deixei de completar; pensei também nos que talvez eu tenha feito com meu pai e não lembro sequer quais foram; e me peguei fantasiando daqui a quatro anos, folheando este, tendo que explicar ao guri quem eram Pirlo, Xavi e Drogba, o quanto jogaram, as histórias, e tudo mais. Terei de explicar também porque Robinho não foi ao torneio, mas isso é fácil.

Ao chegar em casa, de forma cerimoniosa, as duas últimas figurinhas foram coladas. O álbum repousa ao lado do Fuleco que a Tia Di, babona, deu de presente. Ali, pertinho do berço, onde ele está sonhando e crescendo. Toda vez que acordo, ao nascer do sol, passo lá, faço um cafuné, dou um beijo na testa dele e agradeço, por através de mais uma coisa, tão singela, mas tão importante, recuperar minha infância. E saio do quarto, na ponta dos pés, pensando: Vai ter Copa sim. Vai ter Copa pra caralho.

P.S.: Estou aqui me perguntando se papai colecionou o álbum da Copa de 1978 pra mim. Vou ligar pra ele.

O Evento

– Oi, filha, boa noite, como foi na sua avó?
– Tudo certo, tranquilidade.
– E no dentista?
– Tudo em paz.
– Hum.

[toca um rock no carro, balançam a cabeça no ritmo do som]

– Ó, vai ter um evento naquela casa de shows.
– Um evento?
– É. Um evento.
– Hum. Conte-me mais.
– É um evento de animes, com a apresentação de uma das grandes bandas de K-Pop do mundo.
– K-Pop?
– É. K-Pop. Você não conhece?
– Deveria?
– Deveria. Você está ficando obsoleto.
– Obsoleto. Hum. Entendo.
– Dizem que esse evento pode ser maior que a Comic Con.
– Claro, claro.
– É o que dizem.
– Ei, esse é meu bordão.
– Tal pai, tal filha. Posso usar.
– Você é muito palhaça.
– Nunca neguei.
– Ei, esse também é meu bordão.
[…]
– Então, você compra meu ingresso?
– Vai depender de suas notas. Como estamos este ano, na zona do rebaixamento?
– Não, tô estudando, juro.
– Sério mesmo?
– Sério.
– Tenho observado. É uma leitura muito dinâmica. É um estudo enquanto dorme, algo do tipo? Sabe como é, estou ficando obsoleto, preciso aprender essas coisas.
[faz cara feia]. – Tô falando sério. Inclusive vai ter essa banda que falei.
– Hum, que banda é essa?
[pega um papel na mochila, mostra o logo da banda]– É a フロウ.
– Cuma?
– フロウ [se fala “Flow”]
“Flow”, do inglês?
– É.
– E por que você não fala logo “Flow” em vez de mostrar esse logo フロウ?!
– Porque perde a graça. Assim, além de eu rir, dá pra ver que você está obsoleto.
– Hum. Entendo.
– Mas e aí? Você vai comprar o ingresso pra mim?
– Você vai fantasiada?
– Não é fantasia, é cosplay.
– Claro, tinha esquecido dessa diferença. Mas vai fantasiada?
– Vou.
– De que?
– Jack Frost.
– Hum. Sua galera vai?
– Vai! Vão fulano, sicrano, beltrano… [mais de 289 nomes em pouco mais de 4 minutos…]
– Certo, conheço alguns.
– Então, você deixa?
– É possível, mas preciso ver suas notas antes.
– Tá. Tô tranquila, tá no começo do ano ainda.
– Tem poucas notas pra análise. Garota esperta.
[sorri encabulada]
– Vou falar com sua mãe e ela te dá o dinheiro.
– Beleza.
– Filha, só um pedido.
– O que?
– Além de juízo, vê se não me arranja mais um namorado de cabelo azul, pelo amor dos céus.
– Para com isso, pô.

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Cabelo Rosa

– Oi. Tudo bem?
– Tudo ótimo. [beija]
– Como foi seu dia? Como está o Miúdo?
– Tudo corrido, mas todos bem. Miúdo está meio molengotengo por causa vacina, mas bem.
– Cadê ele.
– Está dormindo e vai continuar assim.
– Gosto dessas sugestões sutis e delicadas, como se fossem um comercial de sabonete.
– Apenas a verdade.
– Cadê a Pequena?
– Tá no quarto.
– Tudo bem com ela?
– Tudo ótimo, incl…

[Pequena chega na cozinha]

– Mãe, aqui está a tintura pra descolorir a ponta dos cabelos. Vamos fazer agora que Miúdo está dormindo?
– Desc… desc… como é que é?
– Então, era o que eu estava tentando dizer [olha pra Pequena com aquela cara de “porra, cê fez cagada”], nós fizemos um pequeno trato e eu a deixei pintar as pontas do cabelo de rosa.
– Hum. Entendo. Conte-me mais sobre este “trato”.
– Eu e mam…
– É melhor eu falar, minha filha. [aquele olhar de “agora o bicho vai pegar”]
– Tá, vou ali descolorir o cabelo.
– Ei, ei, ei
– Deixa a menina ir. Escuta.
[olha com aquela cara de “véi, você traiu o movimento”]
– Eu fiz um trato com ela, naquele momento em que ela estava no pau da goiabeira pra passar de ano.
– Veja bem, estar no pau da goiabeira pra passar de ano ocorre desde o Jardim III. Isso não é desculpa. Mas qual foi o trato?
– Se ela passasse sem conselho de classe, apenas no estudo, eu a deixaria pintar os cabelos de rosa.
– Hum.
– Mas só as pontas, porque se ficar horroroso podemos cortar.
– Sabe o que é isso? É influência daquele ex-namorado de cabelo azul, figurante de desenho do Smurf.
– Inclusive ela já está com um novo pretendente, oriental.
– Pinta o cabelo?
– Não, acho que não.
[Pequena lá do quarto: “descolore de vez em quando pra fazer cosplay”]
– Um japonês com cabelo de Ivo Meirelles? É o Nakata?
– Que Nakata?
– O jogador de futebol.
– Sei lá quem é Nakata. Filha, pesquisa o Nakata no google.
– Nakata é feio que dói, mãe. Ele tá me sacaneando. De novo.
– Pare de sacanear sua filha, ela está de férias.
– Tá. E esse cabelo aí?
– Ué, ela vai pintar.
– Podia ter me avisado.
– Nessa correria, a gente acaba esquecendo.
– Hum…
– Veja só, ela tem 15 anos, adolescente, a hora dela fazer essas cagadas no cabelo é agora. Depois de velha é que não dá pra fazer. Veja você, que usava mais brinco do que vitrine de loja de bijuteria e mais anel do que puxador de escola de samba, quando era moleque?
– Olha a palhaçadinha…
– É sério. Eu também tive meus arroubos na juventude.
– Seu cabelo parecia o da Elba Ramalho.
– Você quer apanhar?
– Opa, já não está mais aqui quem falou.
– Aproveite que não está mais aqui e leve o lixo lá fora. E passe o café também.
– Parece justo. Filha?
[ela vem do quarto, com a ponta dos cabelos em processo de descoloração]
– Você vai ficar parecendo uma personagem de Zillion.
– ?!
– Pesquise, jovem. Pesquise.
– Tá.
– E, ó. Mesmo de cabelo rosa, eu te amo.
– Eu também te amo.
– Depois você me conta quem é o Jiraya que está querendo te namorar.
– Essa é uma outra história…

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Gabo

Férias. Naquele dia, entre churros e café, em algum lugar do Bairro Gótico, decidimos não ter mais filhos. A Pequena faria 15 anos, a gente já havia tentado tantas vezes e não vinha. Estávamos começando a viajar e conhecer o mundo, fora da janela. Ali, em lugar tão sonhado, foi tomada a decisão.

Claro, você deve ter ouvido e colocou o pé na porta, furando a fila. Sem sabermos, naquelas férias, você foi gerado, pra subverter a ordem das coisas pela primeira vez. Voltamos de viagem muito felizes por ela, mas não tínhamos a mínima idéia do tamanho do presente que trazíamos.

Sua mãe, no início de abril, teve um pequeno sangramento que se tornaria a emulação de Moisés abrindo o Mar Vermelho. Ali, atendida na urgência, por um desses médicos jovens e apressados que sabem muito de não saber nada, escutou que “provavelmente era um aborto”. Ficamos arrasados, mas não seria a primeira vez. Fomos em frente.

E em frente sua mãe continuou sentindo dores. Dores que uma médica jovem que tinha “uns oito partos pra fazer no dia” afirmou categoricamente ser um mioma. Pelo menos essa pediu um exame detalhado. Neste exame, entre gargalhadas, o médico que nos atendeu disse que mioma era um nome muito feio pra uma criança. Aí, finalmente, no dia de São Jorge – carregado de simbolismo – soubemos que você viria. E nossa vida mudou.

Não vou contar aqui sobre os preparativos para sua chegada porque isso daria um livro do tamanho daquele “A Vida do Bebê”. Falaremos muito sobre cada detalhe durante sua vida, seja pra você conhecer, seja pra arengarmos contigo. Não se preocupe.

Você vai conhecer pessoas fantásticas na sua vida, Gabo. Sua mãe é fabulosa. Ruiva, zen e braba ao mesmo tempo, com um tempo só dela, que aos olhos dos outros – inclusive eu – parece caos, mas sempre dá certo. Dona de talentos com artes que pouca gente tem, se você for bafejado por este dom estará em ótimo caminho.

Além disso, ela é generosa, dona de uma risada cativante, amorosa e leal, pronta pra ensinar um monte de coisas e valores. Aliás, é o tipo de coisa que ela vai te ensinar enquanto você estiver fazendo trelas ou no cantinho do castigo [essa parte eu não vou te contar, você descobrirá por si só].

Você tem uma irmã, a Pequena, a Bubby, que não é mais tão pequena assim, mas é um primor de generosidade. Nos seus 15 anos, ela, multicolorida, tem uma índole que poucos seres humanos têm. Vai cuidar de você como irmã mais velha e te aperrear [e ser aperreada] bastante.

Além disso, ela tem um senso de humor peculiar e sensacional, e um dom artístico que é coisa raríssima por aí. Desenha como gente grande. Vai te ensinar muito a rabiscar quando você ficar maior. E provavelmente vai te dar uns cascudos se você desenhar as paredes do quarto dela. E serão grandes amigos, como os irmãos devem ser.

Quanto a mim, meu filho, vou fazer o máximo para ser bom pai, te aconselhar e ensinar as coisas nessa estrada que se avizinha. Este não é um texto memorial, porque isso é coisa de filme da Sessão da Tarde [que não sei se existirá no seu tempo] e eu pretendo e vou viver muitos anos. Mas alguns toques são necessários.

Aqui fora, as pessoas buscam muitos rótulos. Quem usa rótulo é remédio, e essa é uma lição importante. Você nasce de uma mistura imensa. Seu sangue é austríaco, caboverdiano, nordestino, gaúcho, carioca e brasileiro, acima de tudo. Você é fruto da tolerância e da relação entre os povos, guri. E isso estará sempre marcado em você.

E em casa, isso se aprofunda mais. Eu sou ligado a religiões africanas, sua mãe é “atéia bundona” [porque ateu que diz “se Deus quiser”, tem medo de espírito e manda um famoso “reza aí” quando está angustiado é muito do cara de pau, né?] e sua irmã é católica. E você vai ser o que você quiser, na hora em que se sentir pronto pra isso.

[Pausa: Aliás, sua mãe um dia vai te contar o causo do seu bisavô – grandíssimo homem – ateu convicto, que com seu sarcasmo peculiar, deixou o bigode crescer no fim da vida. “Se Deus existir, pelo menos chego disfarçado”. Fim da pausa]

Você terá a liberdade de fazer suas escolhas, meu filho. Caberá a nós te educar – exceto seus avós, figuras geniais e de excelente índole, com salvo conduto de amor pra te deseducar – para que você faça as melhores escolhas, mesmo que no primeiro momento não compreendamos e você tenha de nos explicar.

A nós, pouco vai importar se você será hétero ou homo, branco ou negro, de esquerda ou de direita, do mar ou da montanha. Se for o que te faz feliz, desde que não intervenha na liberdade de ninguém, nem seja por meios escusos, será sempre respeitada sua vontade.

[Pausa 2: Inclusive, meu filho, você é livre para escolher seu time de futebol também. Entretanto, sem hipocrisias, é preciso que você saiba que o Flamengo é o time mais legal do mundo, que você ganhou 3 uniformes do Flamengo antes de nascer e que você nasceu aos 43 minutos das 9 horas. Em se tratando de Flamengo, 43 é um número cabalístico, tão cabalístico quanto o 10, quase um indicativo Dalai Lama de rubronegrismo [sic]. Portanto, meu filho, pense com carinho sobre sua opção clubística. Levarei você em centenas de jogos – do Flamengo – até você tomar uma decisão isenta e equilibrada. Fim da pausa]

Meu filho, você só tem um ponto sob o qual não tem a mínima opção. Você tem de ser um cara decente. Sujeito homem, ponta firme, daquele que olha nos olhos, daquele que aperta a mão com firmeza. Que respeita e é respeitado. E que lida com elegância com as adversidades e os adversários, em quaisquer circunstâncias.

Vai andar pelos caminhos que a gente passou, pelos subúrbios, pelas vielas, pelos lugares que hoje você não precisa passar, mas vai, pra saber de onde veio e saber respeitar cada conquista e cada pedaço. Nada vem de mão beijada, tudo é fruto de esforço e sabedoria.

Não vai baixar a cabeça pra ninguém, não vai ser submisso nunca. E ganhando ou perdendo, vai fazer o seu melhor, sempre. Saber lidar com os imprevistos pra surpreender e se surpreender. Buscar acertar sempre, mas reconhecer o erro, porque todos somos humanos. E a partir daí, trilhar o melhor caminho.

Isso, meu filho, também é coisa de família. Passada de geração pra geração. E espero que quando seu herdeiro chegar, da forma que vier, você faça o mesmo. Pois você veio com muita saúde, pra ser muito amado. Pra ser feliz. Temos um ditado em família que diz: “Juntos somos imbatíveis.” Agora a gangue está completa. Seja bem-vindo, amamos muito você.

A Viagem

– Filha, vamos. Você está atrasada.
– Bora. [vai calçando o tênis, penteando o cabelo, escovando os dentes e rezando antes de sair de casa, tudo ao mesmo tempo]
[no carro]
– E aí, como está, tudo beleza?
– Tudo. O colégio mandou uma carta, vai ter uma viagem de fim de ano.
– Sério? Que bacana! Essas viagens de fim de ano são muito legais, meio que marcam a passagem do ensino fundamental pro médio, no meu tempo do ginásio pro científico.
“ginásio pro científico”?! É a velhice, hein?
– Me respeite, figurinha. Pra onde é a viagem?
– Fortaleza.
– Fortaleza é bem bacana, hein? Tá cheia de moral. Quanto custa?
[diz o preço]
– Hum. Vamos proporcionar.
– Sério?!
– Sim, sério.
– Que legal. Você e mamãe são demais mesmo! Que felicidade, vou viajar com a galera.
– Sim, vai.
[dá um beijo e um abraço]

* * *

– Filha?
– Oi.
– Juízo nessa viagem.
– Tá. Será massa.
“massa”. Hum.
– Que foi?
– Nada. Ah, esqueci de falar algo importante.
– O que?
– E o boletim? Vou receber o boletim antes dessa viagem?
– Ahn…
– Ué, você achou que eu não ia querer ver o boletim?
– Eu acho que o boletim só sai depois da viagem.
– Você “acha”. Hum. Entendo.
– Sério, só deve sair depois da viagem.
– Filha, aqui é tática Papai Joel. Primeiro a gente se livra do rebaixamento, depois ganha prêmio.
– Mas eu tô bem no colégio, juro!
– Olha, o último boletim que eu vi tinha um foco de revolução comunista em matemática, cheio de vermelhos reunidos.
– Eu tô melhorando.
– Sei.
– Alivia aí, pô
– Você tem quinze anos criada na classe média pernambucana e quer dar migué em um suburbano, de onde você tirou isso?!
– Aprendi com você?
– Comigo?!
– É. [gargalha]
– Essas balbúrdias você aprende rápido, mas matemática que é bom, necas, né?
– Sério, vou passar de ano. Deixa eu viajar, vai…
– Vou falar com sua mãe.
– Deixa que eu falo com ela.
– Hum. Veremos.

* * *

– Olha, vou liberar a viagem dela. É a primeira viagem dela sozinha, faz bem. É um passo importante.
– Concordo contigo, mas…
– Eu sei, você vai falar do boletim. É só uma exceção. Depois a gente endurece, mesmo que ela esteja um pouco embolada em matemática.
– Mas ela estar embolada em matemática não é exceção, é regra, pô. Vai aliviar mesmo?
– É verdade, mas vamos liberar. Só dessa vez. Vou aliviar.
– Hum. “Só dessa vez”. Entendo. Ah lá ela olhando da porta, abrindo o sorriso marto depois desse “só dessa vez”.

* * *

– Filha, vamos comprar sua viagem, mas estaremos atentos ao seu boletim.
– Oba! Tudo vai dar certo. Eu quero passar de ano, também estou preocupada com isso.
– Vamos ver. Espero que você não me desaponte.
– Pode deixar.
– Outra coisa, filha. Traz um pacote de castanhas de caju pra mim?
– Trago.
– Paga com o dinheiro da sua mesada, ok?
– Mas aí você tá gastando minhas economias.
– É pra você ver como a matemática é importante na vida. Só dessa vez.
“Só dessa vez”. Entendo.

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Bicicleta

– Eu não sei andar de bicicleta.
– Tá na hora de aprender, uai.
– Tenho receio.
– Medo?
– É. Medo.
– Mas por que? Você tem muito pouca idade pra ter medo.
– Nem tanto. Mas realmente é um medo infundado.
– Então, vamos seguir em frente. Vou te ensinar a andar de bicicleta.
– Hum. Vamos ver.
– A gente não pode ter medo do bicho até enxergar o tamanho dele, certo? Não é uma das grandes lições da vida?
– Sim. É. Essa é inesquecível, hein?
– Ô.
– Mas eu topo o desafio.
– Oba. Vamos nessa! Esse papo me deixou com uma dúvida.
– Fala.
– Você, com essa idade, tem medo de morrer?
– Sim. Tenho.
– Por que?
– Porque não é minha hora, porque tenho muito a fazer por aqui.
– Você acha que existe céu, inferno, essas coisas?
– Eu acho que deve ter um lugar muito legal, com uma praia muito bonita, onde não exista hora de acordar.
– Nem de dormir.
– Nem de dormir.
– Gostei dessa visão, vou pensar por esse lado, que deve ser um lugar muito legal onde as pessoas ficam bem e não sentem dor.
– Isso.
– Mas as pessoas envelhecem, como deve ser lá? Que cara elas vão ter?
– O rosto que você quiser que elas tenham. Afinal, a gente enxerga as pessoas do jeito que quisermos.
– É verdade…

* * *

– Será que a gente vai encontrar as pessoas que se foram um dia?
– Talvez, quem garante?
– Lembra que o bisavô deixou crescer o bigode antes de morrer?
– Lembro. Ele era ateu, caso encontrasse Jesus, queria estar disfarçado. É uma boa tática, convenhamos.
– É.
– E vovó que morreu com sorriso no rosto, querendo descansar e encontrar vovô.
– É. Essa te doeu, né?
– Ô…
– Dói até hoje.
– A dor vira saudade. A maior forma de homenagear quem já foi é seguir em frente.
– Seguir em frente é sempre importante.
– Bicicleta é bom pra seguir em frente… [ri]
– É mesmo. [ri junto]

* * *

– E a bicicleta,cadê?
– Tá ali. Vamos, pai, vou te ensinar a andar de bicicleta. Enquanto isso, você me ensina outras coisas.
– No fim das contas, filha, os tombos são os mesmos. Alguns doem mais do que outros, mas todos saram. Vamos andar de bicicleta.

Caleidoscópio

                                                       “Yo no hablo de venganzas ni perdones; el olvido es la única venganza y el único perdón” [Jorge Luis Borges]

Ele não lembrava. Quando ele se deparou com fotos da sua infância, não reconheceu nenhum daqueles momentos. Como poeira no vento, sua memória daqueles tempos se dissipou. Não sabia quando, mas sabia o porquê.

Quando pequeno, viu seus pais se separarem. Não lembra do que houve. Em brigas de casais que se rompem, há sempre três versões: a de um lado, a do outro e a verdade. Não se acorda de nenhuma delas. Apenas sabe dos fatos. Se separaram, a vida seguiu.

Ama ambos, conversa e se dá bem com eles. Recuperou o tempo perdido construindo o presente, visualiza o futuro com pai e mãe ao lado, aconselhando e debatendo, mas do passado não tem nenhum resquício. Começa a folhear as fotos, repetidamente.

É bem verdade que ultimamente tem flashes. Corta. Lembra do quarto com a coleção de carrinhos. Corta. Lembra de ter ido assistir ao “Retorno de Jedi” na carcunda do pai. Corta. Lembra de jogar bola na sala e tomar uma bronca da mãe. Corta. Lembra de chegar no aeroporto de uma nova cidade e de dormir no chão. Corta.

Não lembra mais de nada. Se esforça. Torce e retorce as memórias para achar mais algo importante. Não consegue. Tenta de novo. Não dá. Vai tomar uma ducha. Gelada. Abre uma cerveja. Bebe. Pensa em não pensar. Difícil. Os olhos enchem de lágrima, até embaçar. Queria lembrar, se sente sem identidade.

7 anos sem lembranças. 2.555 dias. Como um filme mofado, como um segredo de Fátima, perdido nos corredores da memória. Se sente desgostoso ao fazer essas cálculos inúteis. Pensa que é melhor seguir em frente. Pergunta sobre as fotos. As olha de novo. Reconstrói caminhos. Tem mais algumas lembranças.

Guarda as fotos, carinhosamente. Decide seguir. Não adianta buscar o que está empoeirado e bem guardado no fundo d´alma. O esquecimento perdoa, o esquecimento vinga. O esquecimento deve ter seus motivos. Borges sabiamente dizia, quem é ele pra duvidar?

Melhor deixar o passado guardado como está, lembrando e acariciando os poucos retalhos. Continuará com sua memória remota assim, como um caleidoscópio. Ao menos, poderá contemplar o mosaico de lembranças da forma que quiser.