O Quarto Árbitro

Ele havia tentado ser jogador de futebol, mas não conseguiu. Tentou a peneira do Flamengo, mas como jogador era um pato. Não aquele Pato, mas a ave. Passava, corria, cruzava, cabeçeava, marcava e chutava, mas não fazia nada direito. Assim, depois de três reprovações, decidiu abreviar sua inexistente carreira.

Mas o gosto pelos esportes nunca se esvaiu. Entrou em um curso de arbitragem. Aluno aplicado, ia bem, sendo aprovado com louvor. Começou a apitar partidas da terceira divisão do Campeonato Carioca, até que subiu para a Segunda Divisão. Em um desses sorteios da vida, foi escalado como quarto árbitro em uma partida do Flamengo, no Maracanã.

Naquela quarta-feira à noite, realizaria seu sonho. Estrear na primeirona, justamente em um jogo do Fla. O adversário era um time pequeno, certamente seria uma goleada, tudo daria certo. Seu time do coração entrou em campo com a terceira camisa. “Puta que pariu, terceira camisa, isso nunca dá certo!”. Entrou em campo antes do jogo, fez o reconhecimento do gramado, a oração com o trio de arbitragem. As equipes subiram ao gramado, o árbitro trilou o apito.

Com menos de dez minutos de jogo, o Flamengo já perdia por dois a zero. “Maldita terceira camisa!”. Ele estava indignado. Não acreditava naquilo. Era seu momento e o Mais Querido estava cagando tudo. Queria fazer algo, mas não sabia o que. Vinte minutos de jogo e o técnico chama para o aquecimento o Camisa 23.

“Porra, o 23? O professor está de sacanagem!”

Mais uns dois minutos e o treinador manda o recado para ele subir a plaquinha:

“Entra o 23, sai o 9!”

“Porra, tirar o 9?! Assim não vamos ganhar nunca!”

Ele teve uma idéia. Estava ali com a placa. Poderia mudar o destino. Se virou para o treinador e balbuciou:

“Não vou subir a plaquinha. Tu tá maluco, o 9 é o cara dos gols, tira o 11 que tá morto em campo!”

“Vai tomar no cu, moleque. Quem é o técnico aqui sou eu!”

“Mas eu tenho a plaquinha, tiro quem eu quiser…”

“Não fode!”

Ato contínuo, chamou o juiz pelo rádio. O apitador chegou à beira do campo:

“O treinador me xingou!”

O juizão não teve dúvidas e expulsou o técnico, que saiu desesperado, chutando tudo. O treinador do time adversário gargalhava. Ele chamou o árbitro de novo e informou da situação. Mais um expulso. Enquanto o outro professor saía indignado, ele chamou o número 23.

“Cara, você vai entrar no lugar do 11.”

“Ahn?!”

“É, porra! No lugar do 11. Vai lá!”

Subiu a plaquinha. Entra o 23, sai o 11. No primeiro curzamento do número 23, gol do número 9. Esboçou comemorar, mas guardou para si a vibração. Mais cinco minutos, chamou o número 17:

“Garoto, você é bom de bola, vão entrar você e o número 26, agora!”

Dito e feito: entraram os números 17 e 26 e saíram os números 8 e 6. Uma alteração ousada, mas no fim do primeiro tempo, numa tabelinha entre os dois, o Flamengo empatou o jogo. A torcida começou a cantar junto, já não era mais inacreditável, era possível vencer. No intervalo, antes de descer, o número 23 veio agradecê-lo e ele mandou um recado:

“Avisa ao professor que é pra trocar essa maldita terceira camisa!”

Na volta para o segundo tempo, com o uniforme titular, o Flamengo amassou o adversário. Envolvente, malemolente, mas a bola teimava em não entrar. Até que, faltando cinco minutos para o fim da partida, um cruzamento do número 17 encontrou o número 9, que finalizou sem chances para o goleiro. 3-2. Festa nas arquibancadas. Ele queria, mas não podia comemorar. O juiz apitou o fim do jogo.

Na saída para o vestiário, olhares gratos dos jogadores que entraram em campo. Ele já imaginava o escândalo nas entrevistas coletivas. O treinador do Flamengo, entretanto, disse que eram coisas de jogo, que a arbitragem é assim mesmo, enquanto o outro técnico não entendia sua expulsão e achava que tinha influído no resultado. “Culpa da Federação”, esbravejou.

Naquele dia, ao chegar em casa, ele decidiu não seguir carreira na arbitragem, por não saber controlar seus impulsos. Tempos depois, o treinador do Flamengo lhe procurou e ofereceu uma vaga como auxiliar do seu clube de coração, pois tinha lugar para ele no projeto. E até hoje ele é consultado na hora das substituições.

Venha Junto

“He say one and one and one is three,
Got to be good looking
‘Cause he’s so hard to see
Come together right now
Over me”
[Beatles – Come Together]

A última das batalhas. O Flamengo não era favorito, mas o sopro dos bons ventos parecia estar a favor. Afinal, como explicar que o voluntarioso Amaral, cão de guarda, exímio destruidor, não tão exímio construidor, tinha acertado aquele petardo em Curitiba, empatando um jogo na terra onde tradicionalmente o rubro-negro é surrado? Era ótimo presságio.

É sabido que o Flamengo tem uma religião chamada deixouchegaísmo, que insurge em decisões. Ela tem um antídoto, o oba-oba. Quando time entra com salto alto, não chega a lugar nenhum. Mas o Flamengo operário de Pep Jaymiola foi curtido na surra e no descrédito, culminando com uma humilhação para este mesmo Atlético, no dia 19.09.2013. Já estava vacinado contra seu maior demônio. E já conhecia o demônio
alheio.

O Atlético estava em melhor fase, com um técnico que já tinha ganho o torneio, um maestro em sua melhor fase e um, vá lá, favoritismo. Entretanto, quando entrou em campo, o time esqueceu disso tudo e estava mais desorientado do que virgem na orgia. 60.000 flamenguistas ensandecidos, cantando o jogo todo, transformaram o Furacão numa brisa de verão inocente, num time juvenil, numa música de Luan e Vanessa.

A verdade é que o jogo, em grande parte de seu andamento, foi feio. Houve um momento que estava mais horroroso que bater na mãe. Felipe ainda tentou dar alguma emoção ao jogo, catando alguns lepidópteros, mas logo se recompôs. Contou com a segurança dos soberbos Wallace e Samir, de um recuperado Léo Moura – bote fé no velhinho, que o velhinho é demais – e de um indecifrável André Santos – quanto mais você espera dele, nada acontece. E no meio de um xingamento, ele te surpreende.

No meio-campo, Amaral, com sua regularidade absurda. Um metrônomo, um papparazzo da volância, grudado sempre na maior estrela adversária. O interminável Paulo Baier, ao encarar Amaral, sentiu como se seu facão não estivesse mais fincado no pé de jequitibá. Virou apenas um idoso comum, em alguns momentos sequer caminhava em campo, disparando bolas alçadas a esmo, sem direção.

Luis Antônio, com altos e baixos, viveu sua partida mais esplendorosa na categoria profissional. bateu uma falta com tanta maestria que acertou a varanda de onde a coruja dorme e por pouco não se consagrou. Sua consagração viria um pouco mais tarde. Elias, tinha começado a partida de forma tímida. Já Carlos Eduardo, finalmente apoiado, acertava muitos passes, embora se movimentando na velocidade Matrix – sem o mesmo efeito prático.

No ataque, Chicharito Hernane voltava para ajudar e Paulinho ciscava mais do que galinha d´angola, sem muitos resultados auspiciosos. Este pas de deux durou 80 minutos, até que…

… o Atlético se abriu. Como um kamikaze desmiolado, partiu pra cima do Flamengo, na base da empolgação, do abafa, do vamo que vamo, do bumba meu boi. Entretanto, nada funcionava, e o Flamengo começou a usar de contra-ataques malignos. A torcida, uma massa uniforme que urrava os cantos do time, empurrava ainda mais o elenco. Não era oba-oba, era certeza. E quando a massa rubro-negra tem certeza, sai de baixo.

Chicharito Hernane perdeu um gol que seria consagrador, uma reedição do voleio de Bebeto em 1989, só que na outra barra. O goleiraço do Atlético salvou miraculosamente, como depois salvou de novo um chute do mesmo Hernane, que nesta jogada conseguiu cruzar a bola para Paulinho…

… que mais uma vez na competição incorporou o espírito de Uri Geller e entortou o marcador atleticano com um drible de quinta série, daqueles que a gente gritava “moral”, “esculacho” e “eu não deixava”. Depois, generoso, serviu Elias e merecia até 10% de taxa de serviço. O volante do Mengão bateu seco, rascante, no contrapé do goleiro do Furacão, que se contorceu mais do que epilético em crise mas não chegou nem perto da bola. 1-0.

Ali, o Atlético estava entregue. Ainda houve uma confusão, uma cena quase lamentável entre André Santos e Ciro – convenhamos, estes dois não são capazes de dar a um furdunço o teor violento que ele merece. Após a expulsão, o Atlético ainda tentou se debater, num último suspiro, até que cedeu mais um contra-ataque a bola caiu nos pés de Luis Antonio.

Ele, que fazia sua melhor partida pelo Flamengo, encontrou Pedro Botelho pela frente. O jogador atleticano fazia uma partida extremamente regular – errou tudo que tentou. Luiz Antônio, sem piedade nem misericórdia, tacou uma caneta quilométrica entre as pernas do pobre defensor, e cruzou por um preço milimétrico, pois sabia que o matador estava na área.

A bola encontrou Chicharito Hernane, que dominou com a classe de um boneco de Olinda e na tentativa de bicicleta, encaixou um velotrol. Irrelevante, posto que fez o que sempre fez. Gol. Gol que simbolizou e resumiu a campanha flamenguista. Gol daquele que foi ridicularizado no começo do ano e terminou a temporada como ídolo. 2-0. Festa na favela.

Fatura liquidada, título para um Flamengo improvável. Aliás, o Flamengo só ganha títulos quando é ungido pelo descrédito – a época de Zico é a exceção que confirma a regra. Levado nos braços pela torcida, o time demoliu na Copa do Brasil quatro dos cinco melhores times brasileiros no ano.

Mano Menezes, que foi contratado a peso de ouro e depois largou o time ao deus dará, dizendo que ia comprar um cigarro, sem voltar, cunhou uma frase profética depois da vitória contra o Cruzeiro: “O Flamengo é copeiro.” Onze em campo, Pep Jaymiola, milhões de torcedores. A equação foi irresistível. Copeiro, peleador.

O Flamengo conhece o torcedor, o torcedor conhece o Flamengo. Juntos, alcançaram a liberdade. Ao contrário de todo e qualquer prognóstico, são campeões. Quando deixa chegar, sem oba-oba, é uma força da natureza. E foram juntos. Intransponíveis. A alma do Maracanã se reacende com este título. E repousa feliz.

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A crônica de Flamengo x Cruzeiro, pelas oitavas de final, está aqui

A crônica de Flamengo x Botafogo, pelas quartas de final, está aqui

A crônica de Flamengo x Goiás, pelas semifinais, está aqui

Viajantes na Tempestade

“Into this house we’re born
Into this world we’re thrown
Like a dog without a bone
An actor out alone
Riders on the storm”

The Doors – Riders on the Storm

19 de setembro de 2013. Ao fim daquele dia, onde o Metallica fecharia a noite do Rock in Rio, o Flamengo tomava uma traulitada do Atlético-PR, em pleno Maracanã. Um pesadelo. Enter Sandman. Depois de sair ganhando por 2-0, tomou uma virada inapelável que contou com requintes de crueldade – leia-se gols de Fran Mérida e Roger.

Naquele dia, Brother Menezes se imbuiu do espírito de Raul Gil, pegou seu banquinho e saiu de mansinho. Disse que os jogadores não entendiam seu mirabolante esquema tático que precisava ser selado, registrado, carimbado, avaliado e rotulado se quisesse voar. Era um time em frangalhos, na tempestade de críticas da rua da amargura e ainda por cima chamado de burro. O Flamengo estava na lama, nas palavras caetânicas e metafóricas de seu ex-técnico.

Eis que Jayme de Almeida entrou numa cabine telefônica, aceitou o desafio e se transformou em Pep Jaymiola. As palavras ruins de Mano Menezes não deixaram de ecoar, mas uma frase que ele disse também pairou no ar: O Flamengo é copeiro. O Flamengo virou copeiro. Copero y peleador, diz o brocardo platino.

Liderado pela habilidade de Pep Jaymiola, o Flamengo começou a respirar no Brasileiro, passou o carro no Botafogo na Copa do Brasil e chegou as semifinais no sapatinho. O próximo adversário? O Goiás, liderado por Walter, o Stay Puft do cerrado. Só que o monstro de marshmallow verde deitou e rolou na maca, acometido por uma contusão na coxa. Um desfalque de peso – sem trocadilhos.

No primeiro jogo, no Serra Dourada, o Flamengo jogou com a astúcia de uma onça e a velocidade de uma seriema. Antes que tocasse o tema do Globo Rural, fez dois gols nos verdes, que amanheceram, pegaram a viola, botaram na sacola e foram viajar – pro Rio.

Ontem, no Maracanã, o Flamengo estava diante de sua torcida. Uma tempestade caiu no Rio de Janeiro, mas ele estava pintado de vermelho e preto. E ninguém arredou pé. O décimo-segundo jogador. O time outrora abandonado na rua da amargura se sentiu acarinhado. Os jogadores, antes chamados de burros, tinham respaldo. O time é limitado, mas não está morto quem peleia. Desacreditado, o Flamengo é mais forte.

Eduardo Sasha, entretanto, aos quatro minutos, aproveitando uma cobrança de falta, subiu na área, quis ver, tindolelê, nheco-nheco, xique-xique, balancê. Balançou a rede de Paulo Victor, que só deu aquele pulo cenográfico. 0-1.

Mas o Flamengo estava calmo. Nada dói mais do que a humilhação. Ter passado por aquilo dá uma grande força ao time. O time começou a tocar a bola, retomou o controle das ações e passou a espremer o Goiás como se fosse um limão, verde que é. De Paulinho para Elias, bate, rebate, de Elias para Chicharito Hernane, o rei do camarote do Maracanã. ¡Un, dos trés, hay gol de Chicharito, Maria! Agregou status. 1-1.

Ainda não era suficiente. O Flamengo continuava a encurralar o Goiás, que estava sem respirar. Acossado, o time esmeraldino perdeu mais uma bola que foi rolada para Elias. Elias, o profeta black, motor king combo do Flamengo…

… e Elias lembrou de Davi, seu filho, que estava com pneumonia e tinha finalmente saído do hospital. Elias jogou as últimas partidas com a cabeça no gramado e o coração em Davi. Partidas abaixo da média, até falhando no primeiro jogo desta semifinal. A torcida sempre o apoiou, inclusive fazendo corrente de orações para o guri…

… e Elias não esqueceu. Pela massa e por Davi, deu um tirambaço com a força de Golias. Renan, o goleiro verde, sequer viu a bola, tomando o terceiro gol de fora da área em três jogos contra o Flamengo. Já pode pedir música de tristeza, goleiro. Goiás em desvantagem. 2-1.

O segundo tempo foi equilibrado, com o Goiás tendo chances e o Flamengo também. Paulinho, o rabiscador, inclusive quebrou a ponta da chuteira e mandou uma bola lá no Morro da Providência, perdendo um daqueles gols mais feitos do que miojo em república de estudante. Não fez falta, Flamengo na final.

Agora o Flamengo vai encarar o Atlético-PR. Futebol não é feito de nome, futebol é feito de momento. O Atlético é favorito, mas o Flamengo, tão desprezado e solto pela estrada do esporte, está na ativa. Os viajantes largados na tempestade da amargura, 2 meses depois, estão na final.

Tentando chegar à bonança, na humildade e disciplina, como tem de ser, sem deixouchegaísmo, como azarões. Mas não se enganem nem se iludam, somos humildes, mas não baixamos a cabeça. O Matador está na estrada.

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A crônica entre Flamengo x Cruzeiro, pelas oitavas de final, está aqui

A crônica entre Flamengo x Botafogo, pelas quartas de final, está aqui

Estrada das Estrelas

“I love it and I need it I bleed it
Yeah it’s a wild hurricane
Alright, hold tight, I’m a highway star”
[Deep Purple, “Highway Star”]

Botafogo. Na trilogia das rivalidades regionais, o Botafogo é o clube de onde se espera o imprevisível, o imponderável, o ilegal, o imoral e o que engorda. As alternativas são infinitas, tão infinitas que o símbolo do tudo se resume ao equilíbrio. E isso, entre Flamengo e Botafogo, significa o empate.

Há poucos dias, Flamengo e Botafogo já tinham subvertido a lógica. Em um jogo no qual o rubro-negro dominou e abriu o marcador, tendo inúmeras oportunidades de matar o rival. Não o fez, e o clube da estrela solitária ressurgiu e atropelou o Flamengo, com um show de Seedorf e Gegê.
[pausa: em um mundo de jogadores com sobrenome e pasteurizados, alguém de alcunha Gegê é um bálsamo. Fim da pausa]

Mas esta quarta-feira seria diferente. O Botafogo, a maior representação da classe média no futebol brasileiro [influente, tradicional, trabalhadora, reclamona, chorosa e sem dinheiro] era favorito. Como se fosse finalmente esmagar o Flamengo, relembrando os anos 50 e 60.

Entretanto, o Flamengo não é mais aquele. É um gigante. Um colosso que ultimamente vem na contramão atrapalhando o tráfego, mas ainda assim enorme. E não se subestima um gigante. Depois que Pep Jaymiola, o filósofo cabeçudo da simplicidade, assumiu o time, a máquina engrenou. O subúrbio tem uma sigla que define isso: HD. Humildade e disciplina. O Flamengo de hoje é embebido em HD.

O jogo começa com aquele equilíbrio tradicional, que não pende para lado algum. Até que Paulinho sofre uma falta. Na cobrança, Marcelo Mattos tenta afastar, a bola bate em Rafael Marques e sobra para Chicharito Hernane. Tem coisas que só acontecem ao Botafogo.

[pausa: Chicharito Hernane é um raro espécime no futebol de hoje. Centroavante de ofício, trombador. A centroavância não exige nível superior futebolístico, é uma profissão de caráter técnico e extremamente definidora. Hernane é um ator importantíssimo no Flamengo de hoje. Um Charles Bronson extremamente eficiente, que só não funciona quando pensa ser Daniel Day-Lewis. Cada um atua conforme sua capacidade. Um toque, é o que Chicha precisa. Fim da pausa.]

A bola encontra Hernane. É uma paixão violenta, um sexo selvagem, camisa nove. Nove e meia semanas de amor. O chute sai bonito e a bola beija a rede. 1-0. Que já poderiam ser dois, se Carlos Eduardo não sofresse de narcolepsia e tivesse perdido gol incrível instantes antes.

Paulinho estava em noite infernal. Enquanto Carlos Eduardo parecia estar possuído pelo espírito de Morpheu com tylenol, Pequeno Paulo era o Uri Geller redivivo. Rabisca, Paulinho. E lá ia ele, humilhando Gilberto, que hoje certamente acordou com lordose e escoliose de tanto ter sua coluna revirada. Rabisca, Paulinho. Dando um corte em Rafael Marques que deixou o jogador do Botafogo em Lins de Vasconcelos. Rabisca, Paulinho.

Ele não chuta bem, mas chuta com vontade. Paulinho merecia ser craque só pela vontade. Como diria a botafoguense Elza Soares, Paulinho veio do planeta fome. Fome de vencer. O chute dá rebote e a bola encontra ele, Hernane. Que bate do jeito que ela vem. Como assassino de ofício, um toque, o gol. 2-0.

O Botafogo já foi para o intervalo derrotado. A estrela solitária entrou em depressão, como se fosse um poeta bêbado ou músico dos Loser Manos. Na volta, o time ainda ensaiou uma pressão. 8 minutos…

… tempo suficiente para o contestado André Santos acertar – numa folha qualquer, onde se desenha um sol amarelo – um cruzamento milimétrico, que encontrou a cabeça de quem? Ele. Chicharito Hernane. Barba, cabelo, bigode. Jefferson, o melhor goleiro do Brasil, só pôde fazer cara de choro. E buscar a bola no fundo da rede. 3-0.

Estava fácil. Extremamente fácil. Pra você, eu e todo mundo cantar junto. Tão fácil que até Carlos Eduardo finalmente acordou do seu sono de beleza e enfiou uma bola de sinuca, um passe de triângulo, com açúcar e afeto para Chicharito Hernane. Iluminado, adentrou a área e foi derrubado por Dória. Pênalti.

Dória, que estava tomando um baile no jogo, já tinha perguntado “Do You Wanna Dance?” e te abraçado “Do You Wanna Dance?”, estava expulso. Um sonho a menos não faz mal. Botafogo na lona. Quem iria bater o pênalti? Ele, o aniversariante. Léo Moura.

O cara que ganhou todos os títulos possíveis em âmbitos nacionais com o Flamengo, tão cornetado quanto uma banda de jazz, mas jogador histórico. Bateu com simplicidade e perfeição. Gol. Ele merece. Parabéns pra você, nesta data querida. 4-0.

Alguns torcedores fanáticos – eu incluso – queriam mais. Queríamos seis, o número definitivo da cabala humilhante entre Flamengo e Botafogo. Mas estava bom. Na estrada da Copa do Brasil, as estrelas sem brilho do Flamengo seguem, amparadas pelo cometa da torcida. A estrela solitária do Botafogo é cadente. Que venham as semifinais.

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A Canção Continua a Mesma

“I had a dream, crazy dream
anything I wanted to know,
any place I needed to go, hear my song…”

[Led Zeppelin – The Song Remains the Same]

Fazia tempo que eles não se encontravam nesta intensidade. Como um caixeiro viajante, o Flamengo exilado pelo Brasil retomando o Maracanã. Se reencontraram – torcida e time – numa noite de vento gelado de quarta-feira, contra o Cruzeiro.

Contra o Cruzeiro, o corvo azul dos mata-matas contra o rubro-negro. Amplamente favoritos, Golias em forma de raposa. Ao Flamengo, restava a posição esquisita de ser Davi, de ser azarão, algo que a arrogância inata da Nação não permite constantemente, mas os choques de realidade têm feito perceber.

Mas estávamos lá. E aqui. E por aí. Lá, estava aquele time latino-americano apoiado por mais de 50.000 manos. Manos do Mano. Brothers do brother, em bom carioquês. Não sabiam se iam ser felizes, mas não tinham medo. E medo de amar impede o amor. Bares, casas, por todo o Brasil, tudo parado. Quem vestia rubro-negro sequer respirava.

E o time ia, do jeito que dava. Como diz um amigo, consagrando o esquema tático em voga desde 1912, o “Vamo lá, porra!” que sempre incendeia o Maracanã. O Flamengo joga melhor sob o signo da dúvida, o Flamengo joga melhor quando não é o favorito.

No primeiro tempo, o time começou a cercar o Cruzeiro. A China Azul virava Taiwan, isolada e recolhida ao seu campo de defesa. O Flamengo, entretanto, era um arame liso, cercava, apertava, mas não feria ninguém. Foram 45 minutos de flerte sem colocar a bola pra dentro. O Ira! diria que este flerte é um flerte fatal. Não foi. Ainda bem.

Não sei o que foi dito no intervalo. Mas certamente os jogadores ouviram os gritos da arquibancada. O Maracanã, muitas vezes destruído e reconstruído, como um Coliseu moderno, tem alma. Ela está ali, debaixo das cadeiras e da iluminação ultramoderna. A alma não morre, mesmo que o corpo padeça. Eles sabiam disso. Nós sabíamos disso. A torcida fez o ritual que lhe cabe.

Voltaram pro jogo. Não havia Zico. E daí? Zico é nosso deus, mas o período com ele foi uma época de sonhos. O Flamengo sempre se consagrou por times guerreiros, que ralam a cara no chão. O Mais Querido é feito de gente como a gente que faz a gente feliz. E assim foi. Sem craques, com operários. A revolução em campo.

O time amassava o Cruzeiro, que não respirava. Entretanto, em dois contra-ataques mercuriais, os azuis quase deixaram as coisas negras. Mas o negro estava ao lado do vermelho. Negro como eu, como tu, como todos os brasileiros mestiços.

Negro como Elias. Aos 43 do segundo tempo, número sagrado da Cabala rubro-negra, o lépido e fagueiro Rafinha, que estava sumido no jogo – a ponto de ser quase anunciado nos alto-falantes do Maracanã, como criança em shopping – dá uma bola com açúcar e afeto para Paulinho, o Boi Bumbá de Piracicaba. Ele é irregular, mas nunca se omite. O passe rasteiro sai milimétrico, com trena para a entrada da área…

… e encontra Elias. O negro Elias. Como eu. Como tu. Com sangue nas veias. Sangue rubro. O vermelho e o negro. O chute certeiro. “A imensidão da dificuldade a vencer, a  incerteza do êxito.” Stendhal. Erudito. Popular. Místico. 43. Gol. Porra. Gol.

Grita a torcida. Gritam as casas. Grita o Brasil. Elias, com sua coxa avariada, impulsionada por milhões, estufa a rede azul. Cala o líder do Brasileiro, corta as asas do corvo de sempre. Elias, chuta como um black, dança como um black, usa o cumprimento black. Rei. Combo. King Combo do Mengão.

A alma – a minha, a sua, a do Maracanã – incendeia. Os gritos saem descompassados. Crianças sorriem, adultos choram. Todos fomos Zico, todos fomos Rondinelli, todos fomos Angelim. Todos fomos Elias. Gente como a gente fazendo a gente sorrir. Em casa. No Maracanã. Nosso lar. A música dos gritos da torcida volta a ecoar. Dormimos felizes, no mesmo tom. Que venha o Botafogo. A canção continua a mesma.

Carta ao Ídolo

Zico,

Eu não sei como começar a escrever uma carta pra você. Eu tenho meu nome por sua causa, em uma história até engraçada por parte dos meus pais. Mas isso não me garantiria como flamenguista, claro. Só que – ainda bem – enveredei pelo lado rubro-negro da força.

Graças a você. Não só o nome, como meu companheiro mais antigo – o Flamengo – eu devo a você. Na primeira Copa do Mundo que acompanhei em detalhes, a de 1986, você foi o responsável direto pela derrota, afinal bateu o pênalti.

Mesmo lascado, com o joelho parecendo uma bola de rugby, você foi lá e bateu o pênalti. Não se omitiu em nenhum momento. Naquela seleção, você era um coadjuvante estrela, algo como o Sean Connery em “Os Intocáveis”. E como tal, foi sujeito homem, teve culhões, como se diz no subúrbio. E isso te fez mais ídolo.

E foi você quem eu fui ver na primeira vez lá no Maraca. Na sua casa, fui como convidado. E vi você acabar com o jogo contra o Santa Cruz de Birigüi. Barba, cabelo e bigode, Zicão. Três gols, inclusive um de falta que raros jogadores fariam. Você? Você fez aquele e muitos outros. Parecia colocar a bola com uma pena onde muitos tentam empurrá-la a fórceps.

Quando eu voltei pra casa, no campinho de areia lá em Ramos, treinei várias faltas para bater igual àquela que vi no Maracanã. Meu sonho era ser o camisa 10 da Gávea, aquela coisa de fama, talento e fortuna.

Nunca consegui bater uma falta igual a você, tampouco ser o maestro rubro-negro, mas não me frustrei. 14 é meu número de sorte e sou um bom zagueiro de peladas. Não tinha talento pra vestir a 10, muito menos a do Mengão. Já me contemplava torcer pelo Flamengo e por você, Zicão.

E isso tudo quando era criança, vendo você jogar. Em 1989, num sábado à tarde, do alto dos meus 11 anos estava de olhos vidrados na TV, vendo você humilhar mais uma vez o Fluminense, lá em Juiz de Fora, que parecia muito longe. Nem o Maracanã queria ver você se despedir, por ser doloroso demais.

Aquele gol de falta no ângulo do Ricardo Pinto, que se declarou honrado de ter tomado aquele gol – indefensável, aliás. Mais um rival que se dobrava a você, como tantos outros, muitos que depois de rivais, viraram grandes amigos, como Sócrates, Rivelino, Roberto Dinamite. Mais uma coisa rara que agiganta sua história.

E naquele dia, depois do apito final, eu desci pro campinho de areia, meio chorando, meio com raiva, querendo me vingar por você do tempo, esse inimigo implacável que tirou você do Flamengo.

Bola na entrada da área, adivinha quem vai bater? Adivinhei. Não era você. E eu chorei de novo. E tomei o seu lugar. Desta vez, pelo menos, acertei o gol. No ângulo. Sorte e homenagem, acredito. Parabéns pelos 60 anos, Zicão. Parabéns por me ter feito flamenguista e, mais que isso, feliz.

 

O Que Será? [A Cor da Pele Flamenguista]

O que será, que será?
Que anda renovando nossa esperança
Que anda reluzindo nossa alegria
Que anda nos transformando em criança
Que anda enchendo a alma dessa massa
Que deixa a maior torcida com esperança
Que estão comemorando pelos botecos
E gritam aos quatro cantos que,com firmeza
Estamos renascendo, é da natureza

Será, que será?
O que não tem certeza nem nunca terá
O que é do destino e sempre será
O que é felicidade, é incomparável

O que será, que será?
Que vive na fantasia desses torcedores
Que querem dirigentes competentes
Que querem jogadores comprometidos
Que respeitem a romaria e suas dores
Que os tornem uma massa de sorrisos felizes
Que nos lembrem a cada dia das nossas raízes
Que deixem o clube na mão dos mocinhos
Em todos os sentidos…

Será, que será?
Que eles tenham decência, sonhamos que terão
Que eles sejam democráticos, aguardamos que serão
Que eles tenham caráter, esperamos que terão
Que façam sempre sentido…

O que será, que será?
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todas as crises vão desafiar
Porque todas as dívidas vão equacionar
Porque todos os gritos irão consagrar
E todos os ídolos vão voltar e formar
E o destino sorridente irá se encontrar
E São Judas como sempre vai abençoar
E o inferno será céu e vai se transformar
Pois o Flamengo é imortal e sempre será
O Flamengo é uma entidade e sempre será
O Flamengo é esperança e sempre será.
Nós não temos juízo.

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Homenagem aos novos tempos do Clube de Regatas do Flamengo.

Baseado em O Que Será? [A cor/flor da pele] de Chico Buarque.

O contraponto a este texto, O Que Será [À Flor da Pele Flamenguista], está aqui.

A Metamorfose

“Em suma, se eu tivesse agido com sensatez, então nada mais teria acontecido, tudo o que ainda estava para acontecer teria sido logo sufocado. Mas estamos tão pouco preparados!” [Trecho de “O Processo”, de Kafka]

As coisas podem sempre mudar na vida. Às vezes, mudanças são radicais. No mundo do futebol, nenhuma reviravolta foi tão brutal quanto a que ocorreu com Bruno. De ídolo da maior torcida do Brasil a presidiário, o mineiro polêmico hoje é figura esquecida do mundo do futebol e enfrenta um inferno astral atrás das grades da penitenciária de Contagem.

Escrever sobre ele hoje parece inoportuno, visto o tempo de sua prisão e conseqüente afastamento. Mas com o julgamento se aproximando, avaliar sua trajetória é traçar um retrato do que muitos jogadores de futebol estão sujeitos com o deslumbramento e despreparo. Uma metamorfose digna da personagem do livro de Franz Kafka.

Bruno Souza se destacou no Atlético-MG rebaixado no Brasileiro. Posteriormente, foi contratado pelo Corinthians como vaso decorativo, figurante de novela e dublê de corpo, não tendo entrado em campo sequer uma vez. De lá, desembarcou no Flamengo, onde rapidamente tornou-se titular e se destacou ao defender dois pênaltis contra o Botafogo na decisão do Carioca de 2007, tornando-se ídolo.

Quanto mais o tempo passava, mais Bruno tornava-se ídolo da torcida. Foi pilar na milagrosa retomada do brasileiro de 2007, da Zona de Rebaixamento ao 3º lugar; na Libertadores de 2008, consolidou sua idolatria ao marcar um gol importantíssimo de falta contra o Coronel Bolognesi no Maraca lotado; e em 2009, foi um dos heróis do título brasileiro, peça importantíssima na conquista, cujo auge pessoal ocorreu em um jogo contra o Santos, quando defendeu dois pênaltis do jovem Paulo Henrique, então com joelhos, hoje conhecido como Ganso.

Com a fama, as polêmicas. Primeiro, as declarações esdrúxulas defendendo agressões à mulher e questionando quem nunca bateu em uma mulher na vida. Depois, crises de relacionamento no grupo. E após várias noitadas, bebedeiras e, certamente, infidelidades, Bruno se envolveu em um caso de desaparecimento – hoje presumido em morte – de Eliza Samudio.

Bruno misturou o romance – que é romance – com um lance – que é um lance – e foi acusado, junto com sua trupe de amigos, de ser autor de um crime que, se confirmado, é dos mais bárbaros ocorridos envolvendo pessoas públicas no país.

Um ótimo jogador de futebol, famoso, com dinheiro e uma vida inteira pela frente. Bruno se envolveu em uma trama policial cuja teia complexa o aprisionou. O homem acostumado a guardar a meta se envolveu e emaranhou na rede de intrigas que ele próprio criou.

Não se trata de julgá-lo aqui, posto que não temos conhecimento técnico dos autos nem elementos para isso. Entretanto, é nítido que a esta altura do campeonato mais importante da sua vida, Bruno, embora possa ser absolvido, já perdeu a inocência.

Não tem mais a visão do gol e enfrenta a amargura das grades. A pequena área na qual reina hoje é o cubículo da cela. A falta de direção e orientação o levou a onde está hoje, defenestrado do Flamengo, embora ainda seja jogador do clube – com contrato suspenso. Da glória à lama.

E assim, treinando na Penitenciária, aguardando com ansiedade uma sentença favorável, sem saber se voltará ao Flamengo, Bruno vai sobrevivendo. Do goleiro polêmico, sobrou o homem, já condenado e execrado pela mídia. Os amigos sumiram, exceto os também presos com ele.Das mulheres, sobraram apenas as fiéis – porque Bruno tem mais esposa e noiva do que Fabio Junior, com o agravante de ser tudo ao mesmo tempo agora.

Ele é a perfeita caracterização da personagem de Franz Kafka, em edição revista e ampliada. Quando Bruno Souza despertou, certa manhã, de um sonho agitado, viu que se transformara, durante o sono, numa espécie monstruosa de inseto.

Dante Redivivo

                                                                “A contradição não consente/o arrependimento e o pecado ao mesmo tempo.”

(ALIGHIERI, Dante in A Divina Comédia: Inferno, Canto  XXVII)

Adriano mais uma vez buscará sair do inferno para o qual ele mesmo se encaminhou. Não cabe reescrever sobre os fatores que o fizeram ir para lá. Mais uma vez, assinou com o Flamengo. Novamente, diz que quer reencontrar a felicidade. Com o descrédito de todos, o maior talento desperdiçado pós-Garrincha busca redenção. Conseguirá?

O camisa 10 já caminha pelo primeiro círculo do inferno há tempos. O Limbo jocoso do descaso, dos sabidamente culpados e não-condenados. Ninguém acredita mais no Imperador, que virou escravo dos próprios devaneios. Enfrentar seus demônios é necessário para que volte a ser mais do que a pálida sombra dos tempos antigos.

O menino da Vila Cruzeiro não poderá mais cair na tentação do Vale dos Ventos da esbórnia. A luxúria de piriguetes, jegues, anões terá de ficar para trás. Para uma torcida traumatizada com as estripulias do último “herói” que vestiu seu uniforme, fatos como esse farão com que a reputação de Adriano arda no mármore branco do inferno.

Terá de sair do Lago da Lama da gula e baixar seu peso indecente. Ronaldo Fenômeno deu a falsa impressão de que qualquer barrigudo pode jogar muita bola. E mesmo ele não conseguiu fazer mais nada quando atingiu o status de Rei Momo corinthiano. Adriano é menos técnico e mais físico do que R9. A barriga não ajuda a sua explosão, só implode as expectativas de boas apresentações. Menos cerveja, mais milk shakes dietéticos. Se quiser voltar a ser respeitado, tem de ter fome.

O Imperador tem a obrigação de escalar e se esquivar das Colinas de Rochas da ganância rubro-negra. Escudo de projeto político, arma da oposição. Nada em sua contratação pode ser interpretado como gratuito. De sua performance dependerá o destino de todas as correntes políticas do clube, empurrando umas contra as outras. Se quiser se destacar neste semestre, Adriano terá de ficar indiferente a isso.

Há de se ter cuidado com o Rio Estiges da ira flamenguista. O torcedor está impaciente. Já foi maltratado demais este ano. Não há espaço para erros nem perdões. Esta cota já foi gasta. Torturar a massa rubro-negra é temeroso e impensável, caso Adriano queira se reencontrar com o céu da idolatria.

Não pode também ser vítima de sua vaidade. Na Cidade de Dis de sua própria cabeça, não pode cometer a heresia de se portar como um ídolo e craque que já não é mais. Suas passagens por Roma e Corinthians foram fiascos monumentais. Adriano deve se afastar dos tapinhas nas costas e encarar a dura realidade, se um dia quiser voltar a jogar em alto nível, ou ao menos em nível aceitável.

Recomenda-se ainda evitar os escândalos nas páginas policiais de jornais. No Vale do Flagetonte da violência cotidiana, amarrar namoradas em árvores, brigar em baile funk, andar com armas por aí e queimar o pé no cano de escape de moto – dizendo que pisou em lâmpada – não são desculpas aceitáveis. Adriano foi ídolo, hoje é caricatura. Sua reputação escorreu no ralo comum das confusões em que se meteu. Só uma parte da torcida do Flamengo ainda acredita nele. Pode ser muito, por ora é pouco.

Depois disso tudo, caberá uma pergunta sobre Adriano e sua volta ao Flamengo: “É uma fraude?” Hoje, o Imperador é apenas súdito de noitadas e desencontros, ex-jogador em – rara – atividade. Provar a si mesmo e aos outros que é eficiente em vez de deficiente, no seu próprio Maleboge, é a grande missão…

… e mesmo assim, se tudo der certo, ainda haverá o medo do Lago Cocite da traição. Se ele for bem, será que vai virar as costas e ir embora, como fez indo para a Roma e deixando o Flamengo na mão? Ou como fez quando “abandonou a carreira”, rescindindo com a Inter e assinado com o Flamengo breve período depois? Na hipótese de tudo dar certo, ainda haverá esta dúvida.

Adriano, como um Dante Redivivo, precisará caminhar muito para provar que ainda tem valor. Escapar do inferno que ele próprio criou e cujas chamas alimentou tantas vezes. Ao seu lado, o Flamengo, a mulher de malandro do futebol brasileiro, seu Virgílio particular. Já foi salvo do inferno por esse mesmo Virgílio duas vezes. A terceira vez terá o mesmo final?

O Que Será? [À Flor da Pele Flamenguista]

O que será, que será?
Que andam derrubando treinadores
Que andam sussurrando em bastidores
Que andam combinando nos vestiários
Que anda nas cabeças ainda vazias
Que andam machucando a maior torcida
Que estão enchendo a cara pelos botecos
E gritam nos mercados que, com certeza
Não vão pagar salários, está na natureza

Será, que será?
O que não tem certeza nem nunca terá
O que não tem conserto nem nunca terá
O que não tem vergonha, nem tem tamanho…

O que será, que será?
Que vive nas fantasias desses dirigentes
Que se acham competentes, mas são delirantes
Que protegem jogadores embriagados
Que não respeitam a romaria dos torcedores
Que os tornam uma massa de infelizes
Que transformam as mães do elenco em meretrizes
Que deixam o clube na mão dos bandidos
Em todos os sentidos…

Será, que será?
Eles não têm decência nem nunca terão
Eles não têm censura nem nunca terão
Eles não têm caráter nem nunca terão
Eles não fazem sentido…

O que será, que será?
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todas as crises vão desafiar
Porque todas as dívidas irão repicar
Porque todos os gritos irão consagrar
E todos os ídolos vão desembestar
E o triste destino irá se encontrar
E mesmo o São Judas que sempre foi lá
E mesmo naquele inferno foi abençoar
Pois o Fla não tem governo nem nunca terá
O Fla não tem vergonha nem nunca terá
O Fla não tem juízo.

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Inspirado em “O Que Será [À Flor da Pele]”, de Chico Buarque.