Meridional

Ele só queria caminhar. E queria caminhar rumo ao sul. O sul sempre foi seu norte, e não tinha nada de antítese nisso. Gostava da idéia de se sentar naquele banco para ver aquele pôr-do-sol que ninguém conhece. Aliás, acha até melhor assim, porque aquele momento, nos momentos difíceis, é só dele.

Em momentos esparsos, seu corpo e alma disparavam um estado de alerta, que sufocavam seu raciocínio. Brincadeira de tempos de guri, sabia que neste momento ou implodia ou voltava pro seu canto, seu recanto, seu refúgio. Ali, se sentia sempre protegido, com o vento batendo na cara e levando as mazelas pra longe. E ele precisava, como ele precisava.

Pensando nas rasteiras que a vida dá, dessa vez ele não queria levantar. Ficar deitado, respirando, talvez fosse mais útil. Naquele canto, que sempre foi berço das suas memórias, ele se sentia desabafando em silêncio. Ali, ele estava com os seus, mesmo que os seus não soubessem quem ele era. Mas em cada olhar, em cada rosto, havia um sorriso conciliador.

Às vezes é preciso terminar para voltar a começar. Viver é um círculo sem fim, cujo raio aumenta e diminui ao sabor do acaso. Acaso. Nunca gostou do acaso. Sempre gostou de desafiá-lo. Nem sempre ganhou, mas sempre saiu no lucro. Desta vez, não sabia o que pensar. Ele só queria buscar o ar. E ali, no seu abrigo, conseguia.

Sentado naquele banco, ao fim da tarde, repassou todo este momento difícil. Não sabia o que viria no futuro. Quem se importa? O pôr-do-sol já se apresentava, majestoso. Aquele pôr-do-sol que ninguém conhece. A cerveja estava quente. Quem se importa? O vento continuava levando as mazelas para noite. A tristeza, por hoje, no te la puedo dar. Abriu um sorriso.

Anúncios

Analgésico

Ela não sabia mais o que fazer. Ele estava em pedaços, há anos. A solidão pra ele era anestéstica. Ela queria juntar os cacos, ele estava moído. Ela queria olhar o futuro, ele só queria recontar o passado. O que ela enxergava de luz, ele via escuridão. Mesmo assim, algo não os separava.

Magnetos de si mesmos. O que os repelia era a dor; o que os atraía, o amor. Compaixão, amizade, paixão. Mesmo querendo sangrar até o final, ele queria estar perto dela. O brilho no olhar da moça o mostrava que havia luz no fim do túnel, mesmo que ele, por ora, quisesse estar atropelado ali.

Ela se sentia só, porque cuidar não basta. É preciso ser mulher, além de mãe. É preciso ser desejo, além de companheirismo. Várias vezes se sentia em dúvida se não deveria seguir para frente, mas relutava, porque quando estendia a mão sentia o sangue ferver. E eles, mesmo falando em linguagens incompreensíveis, não queriam se perder de si mesmos. Porque se acabasse aquele romance, o amor morreria um pouco.

Os dois muitas vezes eram um só. Fragmentos de si mesmos, misturados. Tentando se conhecer e reconhecer. E lutando. Querendo que a parceria brote em vida, não que um siga o caminho e deixe o outro. Nas feridas abertas da alma, eles são o analgésico do outro. O infinito, pra eles, é a medida de um abraço. No afogamento da incerteza, a esperança é a bóia.

A Poesia da Paz

Naquele horário, era invariável o mau humor dos passageiros do trem. Superlotado, lento, sem ventilação. A inconveniência sentava e não pedia licença. Aquele dia estava pior. Por algum dos inúmeros defeitos que sempre davam naquele ramal, o trem estava demorando o triplo do tempo para chegar às estações. A paciência, que ali era artigo raro, já tinha descido no primeiro ponto.

Ele estava quieto e reflexivo. Tinha comprado um livro de poesias e lido algumas. Gostava do autor. Inclusive, lembrou de um amigo ao ler a primeira delas. O amigo se emocionou quando ele declamou a poesia. Algo raro pessoas se emocionarem com poesia, pensou. E esboçou um sorriso. Contra seu riso, algumas caras feias, porque, naquele momento, até um segundo de felicidade tomava espaço.

O trem rateou e parou mais uma vez. Um burburinho tomou conta de todos os habitantes daquele vagão, espremidos como sardinhas em lata. Alguns falavam mais alto, outros balançavam a cabeça como se nada esperassem daquilo ali. Naquele horário, os últimos raios de sol banhavam as janelas do trem, se despedindo um tanto melancólicos. O seu poente, que estava tão bonito, passou despercebido.

Ele se ajeitou do jeito que deu. Consegui se escorar em uma das paredes do vagão. Abriu a mochila, não tinha muito para fazer naquele momento e protestar, sinceramente, não soava uma das melhores alternativas. Pegou o livreto, de poesias, com algumas daquelas que tinha lido pela manhã, inclusive a que mostrou o amigo. Resolveu abri-lo aleatoriamente.

Ao abrir, leu em voz não tão alta: “O infinito se faz em um minuto de paz”. A partir dali, foi lendo a poesia e abstraiu do que estava em volta. Ao terminar de ler, levantou os olhos por um instante. Observou que uma senhora ao lado passava uma mensagem por telefone com esta frase, acrescendo um “eu amo você”. E o rapaz do outro lado escrevia a mesma sentença no seu celular, para postar nas redes sociais.

Mais uma vez esboçou um sorriso, agora o firmou. Recebeu um sorriso de resposta. E mais um. Quis abraçar aquela senhora e também ao rapaz, mas decidiu curtir seu momento, assim como deixar que eles curtissem os deles. Não houve tempo de ninguém reparar no pôr-do-sol – ele já tinha se despedido – mas, enquanto o trem voltava a andar, observou uma mãe contando as estrelas no céu para sua filha.

__________

Baseado em uma conversa com o camarada Christopher Augusto.

18:34

– Fala, meu irmão.
– Fala!
– Diz aí, tudo bem?
– Mais ou menos.
– O que houve, cara?
– Ah, preocupações.
– Que foi? O que a vida te apronta?
– Eu estou chateado com algumas pessoas, que falam que não gostam de mim; com o mundo, que não é um lugar agradável pra se viver, com essa injustiça que anda a cada esquina. E pra completar, eu bati meu carro.
– Vamos começar do final. Eu também bati meu carro. Mas você taí, vivo bem e com seguro. No fim das contas é o que importa.
– É verdade. Carro a gente compra outro.
– Então isso não é um problema. Vamos aos outros. Me conte esse negócio das pessoas não gostarem de você.
– Ah, cara, é assim: [e conta detalhadamente sobre os casos]
– Cara, quer uma cerveja? Até pra molhar a boca seca e tirar o gosto amargo da desilusão – e isso é mal?
– Sim.
– Olha, o tempo ensina muitas coisas. A principal delas é deixar de se importar com o que os outros pensam de você e começar a se importar com o que interessa, quem você gosta.
– Hum.
– Prosaico, né?
– É.
– Por isso mesmo, algo complexo. Quanto mais simples algo é, mais a gente tende a complicar.
– Faz sentido.
– Pare de se preocupar com esse tipo de coisa. Dá azia.
– É. Vou pedir mais uma cerveja. Quer?
– Quero. E sobre o mundo, cara…
– O mundo tá um lugar muito chato, as pessoas estão muito grosseiras, muita violência, muita gente querendo impor opinião.
– Hum. Entendo.
– E isso me incomoda profundamente.
– A única coisa que mudou no mundo foi a informação, cara. Ela voa. E isso revela mais gente grosseira, mais violência, mais imposição. É apenas a amplificação de algo que antigamente era acústico.
– Mesmo assim é chato pra caralho.
– É. Mas a gente também não pode se colocar como Messias de uma situação de mundo ideal. O mundo é formado por pequenos mundos de individualidades. As pessoas têm de saber, por si só, discernir o que é certo e o que é errado. Tentar intervir neste caminho, além de dar úlcera. Faz com que a gente pareça chato. E talvez a gente seja mesmo.
– Pois é. Mas eu tenho um ponto.
– Pois diga.
– Não dá pra viver sendo tão leve sempre, a gente tem que ser inconformado.
– Sim e sim. Entretanto, não dá pra ser um zeppelin de chumbo, é preciso flutuar, senão nos estabacamos no chão. Ver as coisas por uma perspectiva menos sombria torna a úlcera evitável.
– Hum.
– E inconformismo é mola do mundo. O fato de sermos leves não significa sermos resignados. Esse é um dos pressupostos da velhice, aliás.
– Você tá ficando um velho relaxado.
– E você um velho chato. Prefiro ficar na minha, poupa stress e infarto.
[gargalham]
– Um dia vamos acabar com a injustiça no mundo?
– Não. Mas podemos tomar muita cerveja ainda. Você pode tentar ser Pelé ou Garrincha nessas coisas de utopia.
– Como assim?
– Pelé foi o melhor do mundo, fez coisas inimagináveis, mas no fim das contas, fala um monte de bobagem e sempre tem um Maradona pra incomodar.
– E Garrincha?
– Garrincha jogava pra cacete, era cheio de idiossincrasias, viveu como quis viver, não fez mal a ninguém além de si mesmo e é lembrado com carinho por alguns e tristeza por outros.
– E daí?
– Pelé é o ideário de perfeição, Garrincha tirou muita onda.
– Você quer ser perfeito ou quer viver como acha certo?
-…
– Cada dia é um dia, cara. E o mundo é aquele pedaço em que vivemos. Se mudarmos isso, o nosso pedaço, o resto vai mudando junto.
– Você está muito filósofo.
– Deve ser a cerveja.
– Gostei desse negócio de Pelé e Garrincha.
– Sabia que faria efeito.
– Palhaço.
– Aproveite este conselho e pague a conta. Já que você quer mudar o mundo, pelo menos me deixe com dinheiro.
– Filho da puta.
[gargalham]

Tribord

Pra onde os olhos dela apontam? Dentro de si mesma, ela costuma se perder. No labirinto do seu próprio pensamento, entre enigmas tão simples que se tornam pura complexidade, ela anda em círculos. Líder de si, pertencente a ninguém. E silencia.

Ela gosta do silêncio. A partir dele diz suas maiores sentenças, faz suas maiores declarações, abre seus maiores sorrisos e chora suas lágrimas mais sentidas. Assim, discreta, sem ninguém saber, apenas quem a observa atentamente. Ela gosta da sensação de pairar no ar, como se integrada na paisagem. É uma maneira de se proteger e proteger a quem preza.

Prezar. É uma palavra a qual ela valoriza. Assim como amar, navegar, voar. Ela é livre, gosta de ser livre. Desafia seus interlocutores sempre a decifrá-la, embora muitos percam o embate no primeiro impulso. Tentam discorrer relatórios e tratados sobre seus sentimentos quando bastaria uma aquarela de poucas matizes para desvendar todo o quadro. Ela ri, quase debochadamente. Sempre silenciosamente, como se estivesse nas pontas dos pés.

Pés. Ela anda, desanda, desmanda. Já correu o mundo inteiro e enfrentou suas próprias tormentas, muito mais poderosas que as marolas que a vida teima em empurrar. Aliás, as tormentas às vezes voltam, como temporais ou monções, mas ela não se abala. De pés descalços na alma, mira o olhar no horizonte, duas jabuticabas olhando para o futuro, diretamente do quintal da alma.

Alma. Parece estranho quando ela fala disso. Tão reservada quanto expansiva, guarda seus diamantes e sonhos no meio do carbono que todo mundo vê. E aproveita o grafite pra rabiscar o futuro que quer, um futuro de paz. Já perdeu tanta coisa escorrendo pelos dedos que vislumbra todo lucro com cuidado. Não comemora vitórias prematuramente, assim como não alardeia derrotas. Suas cicatrizes deram força e parcimônia. E ela só quer viver.

Viver em paz, buscando a paz. Por mais que pareça um livro denso, é apenas palavra cantada e coberta por véu. Basta ter a chave certa para abrir seu melhor sorriso e desvelar todos os véus. Enquanto isso não ocorre, ela navega, voa e rabisca. E sorri, quase debochadamente. Sempre silenciosamente.

Dedos e Anéis

Mais um dia daqueles infernais, onde o ar estava tão pesado que ela ofegava ao suspirar. Não encontrava ânimo sequer para comer. Não dormia bem há dias. Seus pensamentos a enredavam tanto que mal tinha tempo para sentir fome. Não eram dias fáceis. Definitivamente, nada era fácil.

Pensar. Tudo que ela não queria naqueles dias era pensar. Pois isso significava abrir um álbum de retratos dentro de sua alma e relembrar coisas tão coloridas quanto o cinza esmaecido da decisão que tinha de tomar. Bater o martelo muitas vezes é masoquista, principalmente quando implica em pregar sua alma em direção ao futuro. Sangra e ninguém vê. É hemorragia de lembrança.

Não existe gosto mais amargo que o da impotência. A sensação de ser atropelada pelo mundo e não poder fazer nada. Agora, sozinha, ela se permite chorar. De soluçar. De desidratar. Há certos momentos na vida que são como bater pênalti ou fazer xixi: Ninguém pode fazer isso por você. É estritamente individual. Como tomar decisões.

Num intervalo entre lágrimas, consegue ser racional. É preciso seguir em frente. Erguer a cabeça, meter o pé, ir na fé. Não dá pra voltar atrás. Mar calmo não faz bom marinheiro. Repassa toda a história na cabeça e mais uma lágrima marota cai. Ainda tem tempo de definir, mas já sabe qual caminho seguir. Define não mais se torturar.

Pega o telefone, faz uma ligação. Está feito. Decidido. Vai em frente. Passa o corretor, a base, limpa a cara inchada. Faz um café, não comeu nada o dia inteiro. Acende um cigarro. Entre tragadas e a fumaça, coloca um som. Daqueles despretensiosos. Pensa em frente. Sorri. Entre os anéis e os dedos, decide pela sua paz. E finalmente tem sono.

Domingos

Ela não gosta mais de domingos. Sempre foi o dia que ela mais adorava viver. Acordava com o sol, fazia muitas coisas e se deprimia quando escutava a musiquinha do Fantástico. Mas este romance dominical acabou.

Está longe de casa. Sente falta até das coisas que não gostava. Da missa. Como gostar de missa? Pois é, mas agora sente falta. E saudades dos doces, dos refrigerantes, dos sotaques. Das coisas mais simples e banais, às quais nunca deu muita atenção.

Queria passar os domingos vendo o time de coração ao lado do pai. De todas as faltas, talvez a mais sentida. Escutar futebol na rádio é uma suave vingança naquele lugar cinza e inóspito. Cada grito de gol é uma revolução pessoal, como se libertasse todos os demônios e aprisionasse a saudade que às vezes lateja de rasgar.

E corre. A vida virou uma eterna correria. Fugindo da tristeza e da melancolia, buscando decorar a solidão com a coroa dos sonhos e do futuro. Que há de chegar. Até por isso e também por isso, ela não gosta mais de domingos. Os domingos têm horário pecilotérmico. Passam rápidos demais quando se está feliz, passam lentos demais quando se está triste.

Ela, que acordava com o sol, hoje tem dificuldade em dormir. Não escuta mais a musiquinha do Fantástico, mas ainda assim tem a intuição do horário em que ela começa a tocar. E quando pressente este tempo, abre um sorriso. Porque a chegada da segunda é a trombeta de que o futuro está mais perto. E ela quer voltar a gostar dos domingos.

Prateleiras

Ela separa as pessoas em prateleiras. Em algumas ela deixa os amigos, em outras os amantes; há aquela em que ficam os conhecidos, mais uma para os desafetos, que são poucos, mas existem; há também uma para os que estão sob análise para uma melhor definição. E há uma prateleira para o amor – por ora, está vazia.

Há, em alguma gaveta empoeirada daquele coração, os amores que hoje restam esmaecidos na saudade. Em outra gaveta, com a chave jogada fora, os amores que viraram desamores e esquecimento, os quais o hoje é bem menos amargo do que o ontem. Na última das gavetas, esta aberta e remexida sempre, os desejos do amanhã, sempre mutantes.

Ela sempre disse que ir para a cama com alguém não significava nada além de sentir prazer. Prova de amor era andar de mão dada, dividir algodão doce e beijar o par na frente dos amigos. Naquele momento, tudo que ela queria era ter borboletas no estômago, mas estava com a solidão. Não que isso fosse uma coisa ruim, a companhia de si mesma sempre foi agradável. Mas era bom dividir momentos.

Pensava no dia em que alguém chegaria e a fizesse sorrir quando visse o retrato, ou uma mensagem, ou um número de telefone. Que a fizesse pensar em outras coisas além da sua própria companhia. Mas não tinha impaciência. Os ciclos da vida são esses, refletia.

Nunca teve medo de ficar só. Nunca teve medo de ser só. O único receio que ela tinha era o de colocar alguém em uma prateleira errada do seu coração. Até aquele momento, não sentia que tinha errado, mas pairava um quê de dúvida na cabeça por aqueles dias. Enquanto pensava e tomava o café, encerava aquela prateleira vazia, a prateleira reservada para o amor.

Pôr-do-Sol

– Ei, vem cá.
– Oi.
– Senta aqui comigo, vamos ver o pôr-do-sol na beira da praia.
– Ok, vamos.
– O que você tem?
– Estou preocupado.
– Com o que?
– Com muitas coisas, às vezes eu sinto o mundo desabando na minha cabeça.
– Natural, isso acontece. Pense pelo lado bom, você é cabeçudo, aguenta o
tranco.
[olhar reprovador] [sorriso em seguida] Espero que sim.
– Então abra o sorriso, seu sorriso é tão bonito.
– Hum. Vou sorrir só porque você está pedindo, hein?
– Agora sim, gosto de me sentir uma mulher poderosa.
[riem]

* * *

[olham o sol se pôr, sem dizer uma palavra]
[fazem cafuné]

– Vou sentir saudade.
– Eu também.
– quando você volta?
– Em breve.
“Em breve” demora pra cacete quando se gosta de alguém.
– É verdade.
– Espero que você venha mais breve do que “em breve”.
– Eu também espero. E você, quando vai?
– Eu não sei, mas quero ir logo.
“Ir logo” combinado com “não sei”, convenhamos, demora muito mais do que “em breve”.
– É, estou me esforçando. Quem sabe eu não tenha uma surpresa boa?
– Sério?
– Sim!
– É aquilo que talvez eu ache que é?
– Deixe de ser curiosa.
– Ah, me conta.
– Não, você terá de ser paciente.
– Ah, não faz isso, é sacanagem.
– Poxa…

[ri]
[ela faz olhar reprovador]
[ele faz cafuné]

* * *

– Você quer conversar sobre o que te aflige?
– Ah, não quero estragar este momento, está tão bonito, com o sol caindo na água, assim perto de você…
– Tem certeza? Estou aqui pro que der e vier, você sabe.
– Eu sei, obrigado por estar sempre ao meu lado.

[passa um vendedor de cerveja]
[ela chama o vendedor de cerveja]

– Ei, moço, me dá duas cervejas?
– Dou, claro.
– Quanto é?

[diz o valor]

– Obrigado, pode ficar com o troco.
– Deixa que eu pago.
– Fica quieto aí, é presente meu.
– Hum.
– Ei, moça?
– Oi.
– Cuide dele, porque ele também quer cuidar de você.
– Eu sei, ele é um cara bom.
– Tá vendo, até o vendedor de cerveja sabe que eu sou um cara legal.
– E você também é, moça. Você vale ouro. E tudo dará certo.
– É?
– É.
– Às vezes ele se preocupa de não dar certo.
– Eu sou assim, realista. E quero que dê certo.
– Cale a boca, escute o moço da cerveja.
– Não deveria. Já deu certo. Nem sempre o que está no papel é o que está
escrito, muitas coisas se escrevem no silêncio cúmplice.
– Hum. Tá vendo, paspalho?
[faz muxoxo]
– Então chegue perto dele, moça, e o faça se sentir feliz e querido.

* * *

– Psiu.

[ele olha]

– Eu amo você.
– O que?
– Eu amo você.
– Eu também amo você.
[sentam juntos, se beijam, abrem a cerveja, olham o pôr-do-sol]

Futuro do Pretérito

Ele recebeu a notícia de que as coisas não eram mais como antes. A fila tinha andado, a vida tinha corrido, ela tinha outro. Obviamente, comparou de cima a baixo aquele outro. Evidentemente, era muito melhor que o outro. Bem, ela não achava assim. Ou, se achava, debochadamente, fazia questão de mostrar o contrário. Essa faca do desprezo ele fez questão de puxar pra si.

Enquanto sangrava, pensava se teria alguma nova chance. Em como seria se estivessem juntos. O que a satisfaria hoje? O que a faria sorrir? Como seriam seus dias sem ele? Dúvidas, expectativas, frustrações. Futuro do pretérito.

“Se eu morresse amanhã, viria ao menos?”. Não, ele não era Álvares de Azevedo. Não, a situação não exigia este tipo de drama. Não havia razão nenhuma para sentir – mais – dor àquela altura do campeonato. O término tinha sido intransitivo, sem chances de reconciliações. Exumar este fantasma era uma forma de masoquismo que nem ele mesmo sabia explicar. E nem gostaria, naquele momento.

Um jogo sem vencedores, no qual jogava sozinho. Ele contra a expectativa. Invariavelmente saía derrotado. O demônio da ansiedade jogava xadrez; ele, damas. Era previsível a antevisão de movimentos. Quando o xeque-mate estava consumado, voltavam os verbos condicionais. Iria, voltaria, gostaria, seria, poderia. Não.

Naquele dia, decidiu tomar um porre. Daqueles de perder os sentidos. Com a visão turva, resolveu mudar a estratégia. Apenas largou. Largou a muleta do futuro do pretérito, seu purgatório em forma de expectativa. Era preferível enfrentar as alternativas de frente. O inferno do presente, o céu do futuro.

No dia seguinte, ao acordar, a ressaca não pesou. O álcool ainda corria nas veias e era muito mais leve que o peso moral que tinha levado em todo aquele tempo. Era hora de seguir em frente. Sem muletas. De forma perfeita ou imperfeita, não iria mais se alimentar do fel da frustração. De forma incondicional.