O Quarto Árbitro

Ele havia tentado ser jogador de futebol, mas não conseguiu. Tentou a peneira do Flamengo, mas como jogador era um pato. Não aquele Pato, mas a ave. Passava, corria, cruzava, cabeçeava, marcava e chutava, mas não fazia nada direito. Assim, depois de três reprovações, decidiu abreviar sua inexistente carreira.

Mas o gosto pelos esportes nunca se esvaiu. Entrou em um curso de arbitragem. Aluno aplicado, ia bem, sendo aprovado com louvor. Começou a apitar partidas da terceira divisão do Campeonato Carioca, até que subiu para a Segunda Divisão. Em um desses sorteios da vida, foi escalado como quarto árbitro em uma partida do Flamengo, no Maracanã.

Naquela quarta-feira à noite, realizaria seu sonho. Estrear na primeirona, justamente em um jogo do Fla. O adversário era um time pequeno, certamente seria uma goleada, tudo daria certo. Seu time do coração entrou em campo com a terceira camisa. “Puta que pariu, terceira camisa, isso nunca dá certo!”. Entrou em campo antes do jogo, fez o reconhecimento do gramado, a oração com o trio de arbitragem. As equipes subiram ao gramado, o árbitro trilou o apito.

Com menos de dez minutos de jogo, o Flamengo já perdia por dois a zero. “Maldita terceira camisa!”. Ele estava indignado. Não acreditava naquilo. Era seu momento e o Mais Querido estava cagando tudo. Queria fazer algo, mas não sabia o que. Vinte minutos de jogo e o técnico chama para o aquecimento o Camisa 23.

“Porra, o 23? O professor está de sacanagem!”

Mais uns dois minutos e o treinador manda o recado para ele subir a plaquinha:

“Entra o 23, sai o 9!”

“Porra, tirar o 9?! Assim não vamos ganhar nunca!”

Ele teve uma idéia. Estava ali com a placa. Poderia mudar o destino. Se virou para o treinador e balbuciou:

“Não vou subir a plaquinha. Tu tá maluco, o 9 é o cara dos gols, tira o 11 que tá morto em campo!”

“Vai tomar no cu, moleque. Quem é o técnico aqui sou eu!”

“Mas eu tenho a plaquinha, tiro quem eu quiser…”

“Não fode!”

Ato contínuo, chamou o juiz pelo rádio. O apitador chegou à beira do campo:

“O treinador me xingou!”

O juizão não teve dúvidas e expulsou o técnico, que saiu desesperado, chutando tudo. O treinador do time adversário gargalhava. Ele chamou o árbitro de novo e informou da situação. Mais um expulso. Enquanto o outro professor saía indignado, ele chamou o número 23.

“Cara, você vai entrar no lugar do 11.”

“Ahn?!”

“É, porra! No lugar do 11. Vai lá!”

Subiu a plaquinha. Entra o 23, sai o 11. No primeiro curzamento do número 23, gol do número 9. Esboçou comemorar, mas guardou para si a vibração. Mais cinco minutos, chamou o número 17:

“Garoto, você é bom de bola, vão entrar você e o número 26, agora!”

Dito e feito: entraram os números 17 e 26 e saíram os números 8 e 6. Uma alteração ousada, mas no fim do primeiro tempo, numa tabelinha entre os dois, o Flamengo empatou o jogo. A torcida começou a cantar junto, já não era mais inacreditável, era possível vencer. No intervalo, antes de descer, o número 23 veio agradecê-lo e ele mandou um recado:

“Avisa ao professor que é pra trocar essa maldita terceira camisa!”

Na volta para o segundo tempo, com o uniforme titular, o Flamengo amassou o adversário. Envolvente, malemolente, mas a bola teimava em não entrar. Até que, faltando cinco minutos para o fim da partida, um cruzamento do número 17 encontrou o número 9, que finalizou sem chances para o goleiro. 3-2. Festa nas arquibancadas. Ele queria, mas não podia comemorar. O juiz apitou o fim do jogo.

Na saída para o vestiário, olhares gratos dos jogadores que entraram em campo. Ele já imaginava o escândalo nas entrevistas coletivas. O treinador do Flamengo, entretanto, disse que eram coisas de jogo, que a arbitragem é assim mesmo, enquanto o outro técnico não entendia sua expulsão e achava que tinha influído no resultado. “Culpa da Federação”, esbravejou.

Naquele dia, ao chegar em casa, ele decidiu não seguir carreira na arbitragem, por não saber controlar seus impulsos. Tempos depois, o treinador do Flamengo lhe procurou e ofereceu uma vaga como auxiliar do seu clube de coração, pois tinha lugar para ele no projeto. E até hoje ele é consultado na hora das substituições.

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Jurubeba

Mirrado, franzino e com a voz que parecia um fiapo, ninguém acreditou quando Luiz Abelardo perguntou se poderia jogar na pelada da Rua Roberto Silva. Os moleques olharam desconfiados aquele garoto que mais parecia uma armação de pipa, de tão magro. Perguntaram a ele em que posição jogava e ele praticamente sussurrou: “no gol”.

Pois deixaram Luis Abelardo na de fora. Quando ele entrou, com o time mais fraco possível, simplesmente fechou o gol. Os guris tentaram vazá-lo de tudo quanto era jeito. De esquerda, de direita, de cabeça, e nada. O garoto magrinho parecia um exu tranca-rua debaixo dos três paus, transformando as redes em sua oferenda.

Depois daquela pelada de fim de tarde, P3, Pedro Paulo Pedreira, o técnico do time da Roberto Silva, que estava sendo em um bar na esquina, chamou o guri. Perguntou se ele queria jogar no Campeonato de Ramos pelo time da rua. Os olhos de Luiz Abelardo brilharam e ele já acenava a cabeça positivamente quando escutou uma voz de trovão.

“Moleque, qual é teu nome?”
“Luis Abelardo”, respondeu, com sua voz suave e pequena.
“Porra, isso nunca vai dar certo!”

O menino se assustou e o técnico da Roberto Silva se irritou com aquele velho barrigudo e intrometido. Salvador era o nome dele. Com aquele sotaque esquisito de quem comia pinhão, dizia que tinha sido zagueiro do Coritiba ao lado do Fedato, e que tinha jogado mais que ele. Todo mundo levava isso como bravata, mas era inegável que, entre uma cachaça e outra, o araucária parecia conhecer de futebol.

P3, já irritado, emendou:

“Ô Salvador, por que você acha que isso vai dar errado?”
“Porra, P3, o moleque tem nome de funcionário público de livro do Nelson Rodrigues. “Luiz Abelardo”. Onde isso vai dar certo. Não tem sonoridade de nome de goleiro!”

P3 ficou olhando incrédulo para o barrigudo curitibano, que arrematou:

“Veja só, presta atenção: quem era o goleiro do Flamengo campeão do mundo?”
“Raul”
“Raul, não. Rauuuuuuuuuuuuuuuuuuuul”
“E o do Vasco campeão carioca de 1982?”
“Acácio”
“Não, porra. Acáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaacio”
“E o do Fluminense?”
“Paulo Victor”
“Não, cacete. Tudo junto! Pauloviiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiictor”

Depois de entender o raciocínio, P3 emendou:

“E o do Botafogo era o…”
“Cara, o Botafogo ganhou algo?”
“Não”
“Também, com goleiro sem sonoridade fica difícil. Com esse nome, o moleque não vai longe. Temos de mudar o batismo dele”

Luiz Abelardo olhava incrédulo para a discussão entre os velhos. P3 tentava argumentar e Salvador tomava mais um quartinho de sua cachaça, quando olhou para o rótulo da garrafa e definiu:

“Meu filho, tu, a partir de agora, vai se chamar Jurubeba nas peladas. Tudo bem assim?”

Luiz Abelardo apenas assentiu com a cabeça.

“Veja a diferença, P3: Luiz Abelaaaaaaaaardo, olha que porcaria”
“E agora… Jurubeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeba, como um gato! Tá vendo?!”

Ambos gargalharam e até o franzino moleque riu. A partir daquele momento, Jurubeba era o camisa 1 do time da Rua Roberto Silva.

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Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, algumas personagens e jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “1986” “Regulamento”“Superstição”, “O Pênalti”“O Professor”“Arena”“O Protesto”“Maldição” “Po锓Cabaço” , “O Amor na Marca da Cal” e “O Clássico”

1986

21 de junho de 1986. As ruas de Ramos estavam vazias naquele sábado à tarde. E silenciosas. Se caísse uma agulha em qualquer lugar do bairro, seria prontamente escutado. A última frase que havia sido proferida, em altos brados, foi um “puta que pariu, não!” a plenos pulmões.

Na Rua da Feira, silenciosamente, Zabelê, Zumbi e Besouro, irmãos e companheiros de ataque no Cimão, saíram com a bola debaixo do braço. Encontraram Comunista e Munha, rivais do time da rua de baixo, mas naquele momento não havia clima para guerra. No meio da tristeza, havia um inimigo em comum e ele haveria de ser enfrentado.

Encontraram Girino chorando abraçado a Cecê. Logo eles que se digladiavam tanto e sempre nos clássicos do campeonato do bairro estavam ali, transtornados. Bobby chegou por perto, se comunicou com os irmãos hippies apenas com um olhar e disse aos galalaus emotivos: “Não acabou!”.

Ali, na rua, montaram as traves. Onze contra onze. Seriam eles que iriam enfrentar Platini, Bats, Giresse, Tigana, Amoros, entre outros. O apito imaginário tocou e eles começaram a jogar contra o mais envolvente e poderoso dos adversários: a imaginação.

Munha tabela com Zabelê, sabendo que Girino e Cecê estariam segurando a defesa. Passaram de passagem por Tigana e Amoros. Se livraram de Fernandez, que não sabia marcar. Um passe estilingado para Cabaço, que com um drible de corpo deixou Battiston na saudade. Ao cruzar, encontrou Comunista, livre, que só tocou para as redes. 1-0.

O time não se furtava ao ataque, embora os adversários fossem perigosos. Mas ali era uma revanche, uma vendetta, uma vingança, e eles não seriam intimidados. Mesmo assim Stopyra passou para Platini, que arriscou um chute. A bola desviou em Girino e enganou Bobby. 1-1.

A equipe poderia ter se abalado com o empate, mas não se assustou. Em uma tabela envolvente, Cabaço deixou Munha livre na área, e ele foi derrubado. Ainda houve a impressão de que ele teria caído sozinho, mas a arbitragem apontou para a marca de cal. Pênalti.

Um princípio de discussão se formou. Normalmente, Besouro bateria o pênalti, mas Zumbi tomou a bola do irmão. Um quiprocó se formou. Besouro queria efetuar a cobrança, mas Zumbi apresentou um argumento irrefutável:

– Não cara, tu não vai bater essa porra. O último flamenguista que bateu pênalti contra a França durante o jogo não funcionou. Deixa eu cobrar, eu sou América.
– Porra…

Não dava para contra-argumentar. Assim, Zumbi ajeitou a bola, respirou fundo e partiu pra cobrança. Bats ainda resvalou na bola, que caprichosamente tocou na trave antes de morrer no fundo das redes. 2-1. Com uma maturidade fora do normal, eles tocaram a bola, cansando o adversário, que era mais experiente, mas não podia contra o sol forte de Ramos e uma equipe determinada.

O apito trilou indicando o fim do jogo. Eles estavam vingados. Até hoje, os jogadores de Ramos juram de pés juntos que derrotaram a temível França de Platini. Não houve testemunhas no bairro vazio, mas ninguém ousa discordar. Naquela sepulcral tarde de sábado, o bairro virou Guadalajara.

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Para conhecer melhor as personagens citadas neste conto, leia  “O Clássico”.

Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, algumas personagens e jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “Regulamento”“Superstição”, “O Pênalti”“O Professor”“Arena”“O Protesto”“Maldição” “Po锓Cabaço” e  “O Amor na Marca da Cal” 

Sete

Sete é conta de mentiroso. Se eu contar, ninguém acredita. Em 1986, quando eu era menino pequeno, bati setenta e oito pênaltis contra um Joel Bats imaginário. Eu sou Arthur, usava a camisa 10 e estava no meu direito. Não errei nenhum e não tenho culpa se o goleiro era imaginário, isso é problema dele. Moleque, estava com vergonha daquela derrota.

Vergonha besta, aliás. Perder de cabeça erguida dói mais do que estar entregue, mas é muito mais valoroso. E aprender a saber perder é lição de vida, da vida e para a vida. Depois vi coisas piores, como o trem fantasma de 1990, o time mais feio do que o Russo do Chacrinha – e olha que tinha bons jogadores.

Vi finalmente o Brasil ser campeão duas vezes – sem pedir “joga pra mim” – e ainda vi a seleção perder uma final com um vareio de bola que, se vocês soubessem a verdade ficariam enojados. [A verdade: Zidane comeu a bola, humilhou o Brasil e a França deu um chocolate. Foi um nojo de atuação]

Depois veio a fase dancing days. Eu torço para um time cujo oba-oba é o segundo santo padroeiro, atrás apenas de São Judas Tadeu. De fuzarca, flamenguista entende. Mas a seleção foi insuperável. Em 2006, o Brasil fez de Weggis uma micareta, tratou a Copa com uma soberba medonha, jogou com um ataque de reis momos [craques, mas reis momos], foi passando dos adversários com uma burocracia digna de inspeção do Detran e parou na França, que tinha um time envelhecido, mas atropelou o Brasil com igualdade, liberdade e fraternidade [do Roberto Carlos, que bobeou na marcação do Henry].

Aí, em 2010, veio a fase dos super-heróis, dos justiceiros, da raiva contra o sistema. O Brasil três acordes de Dunga queria soar como um punk furioso, desafiando a poderosa mídia e o establishment. Foi enfileirando vitórias com um futebol eficiente e até melódico, como se Bad Religion fosse. Jogava bem, no feijão com arroz e fazia sucesso, como um som dos Ramones. Até que contra a Holanda pareceu o Sid Vicious tocando baixo e, bem, desafinou. Amanheceu, pegou a viola, botou na sacola e foi viajar. Mais uma eliminação.

Em 2014 tudo estava a contento. Copa em casa, clima de festa, gigante pela própria natureza, o hino à capella. Coisa linda. [Pausa: aliás, o hino à capella é algo lindo mesmo]. No comando, Felipão, o técnico tão moderno quanto vinil e fusca [Pausa nº 2: muita gente gosta de vinil e fusca, mas a verdade é que em termos de praticidade, são ultrapassados e muito pouco funcionais. É. Pois é.] e Parreira, o maior Forrest Gump da história do futebol brasileiro, enganando todo mundo com seu linguajar castiço e suas aparições na TV. Mesmo assim, a gente acreditava. A mística. Essa muleta que, como a fé, move mundos e montanhas. A danada da mística.

E a mística fez o juizão dar aquela mãozinha no jogo contra a Croácia. Ochoa, no entanto, defendeu a mística e tudo mais que foi pro gol contra o México. Contra Camarões, a mística foi poupada e, jogando bola, uma sacolada no pior time da Copa. Mata-mata, chi-chi-chi, le-le-le, cha-cha-cha, e tome pressão, bumba meu boi, gol de lá, gol de cá, prorrogação dramática, bola na trave, Julio César e passou.

E avançou para as quartas contra a Colômbia, e ganhou, e tudo dava certo quando a mística chamada Neymar se quebrou. E sem o craque, sem o lampejo, sem o capitão chorão que joga bola pra cacete, o time de bons jogadores, mas sem esquema, ficou à imagem e semelhança dos seus comandantes. Tinha como dar certo?

Não. Não tinha. Mas a gente acreditou. A gente sempre acredita. Torcedor e a mística, esse caso de amor impossível. Futebol é como suruba: se você não faz, toma. E o Brasil tomou um gang bang, com direito a bukkake. Uma sevícia, uma humilhação, um esculacho, um esmerilho. A Alemanha desfilou no gramado enquanto o Brasil encolheu.

A torcida nem desesperada ficou. Eu mesmo só fui acreditar nos sete gols no dia seguinte, dirigindo. Uma quase morte. Tomar sete gols porque jogamos no esquema tático “vamo que vamo” é de lascar. A gente sempre acredita, até que uma vez na vida é feito de trouxa. Se eu contar pra quem não viu, ninguém crê. Se um dia disserem que sete é conta de mentiroso, eu vou negar. Gol da Alemanha.

Ney

Oi, Ney. Falo com essa intimidade porque você está muitas vezes em minha casa nos fins de semana, pela TV. Então me dou a esse direito. Obviamente você não vai ler essa carta. Eu mesmo não leria, se fosse você. Muitos afazeres, publicidade, coisas mais importantes. Mas mesmo assim eu vou escrever, Ney. Porque há coisas que a gente faz na vida sem pensar no outro. Talvez esta seja uma dessas coisas, embora não muito relevantes.

Sabe, Ney, sempre curti seu futebol. Curti até odiar você quando deixou o meu herói sem pai nem mãe na Vila Belmiro em 2011, mais perdido do que virgem na orgia, antes de fazer um dos gols mais bonitos do século XXI em um dos jogos mais espetaculares desta época, contra meu time. Te xinguei, com muito mais admiração do que raiva.

Não sou afeito a julgamentos, Ney. Gosto dos tons de cinza entre o preto e branco que habitam a vida. Pouco me importam as dancinhas, o penteado, o “toiss”, essas mungangas da idade. É até mesmo natural. Também não me preocupo com os valores astronômicos da sua transferência pro Barcelona, atribuído à conta do seu pai, porque isso não me diz respeito. Quem tem de se preocupar com isso é a Receita Federal, e apenas se houver algo errado.

Também nunca exigi de nenhum ator futebolístico presença social. Ninguém é obrigado a ser ativista, embora seja sempre muito bom defender uma causa com afinco e dedicação. Melhor ainda que seja como fim, e não como um meio de aceitação entre os pares ou para fazer claque. Seu posicionamento foi ainda mais legal por isso. Acredite, Ney, isso acontece em qualquer setor da sociedade. Alienação, voluntária ou não, também é um movimento político, embora muitos discordem, mas isso não é papo pra esta cartinha.

Fiquei muito surpreso e feliz quando Daniel Alves esmerilhou o racismo com um gesto simples, eficiente e de muita altivez. E fiquei muito feliz – como cidadão, como fã, como negro – quando você, Ney, puxou um protesto pela rede social, instrumento que você tinha, para dizer que “somos todos macacos”. Muita gente gostou, muita gente não gostou – e inclusive ativistas cotidianos, de todos os dias, que entendem toda a situação e sofrem na pele os mais diversos preconceitos, se dividiram sobre o fato – mas o debate se instalou.

E, no fim das contas, Ney, o mais importante nestes casos é o debate. Inclusive achei que você tivesse esquecido as declarações de 2010, quando você alegava não ter sofrido racismo por não ser preto, renegando sua cor. Ninguém pode ser refém de opinião errada, as pessoas têm o direito de mudar. E este tipo de coisas acontece com educação, vivência e evolução. Quatro anos é muito tempo, Ney. E você pode – e deve – ter mudado, evoluído e crescido.

Eu gostei da sua atitude, tenho amigos fantásticos que não gostaram e entendo e respeito as razões – coerentes – deles. Mas o debate estava lá, inteiro. Muitos dos seus amigos, “parças”, reforçaram a campanha. Alguns muito babacas, admito. Mas estavam lá reforçando a campanha, de forma espontânea, como sua atitude também havia sido.

Mas aí, Ney – e, impressionante, cara, sempre tem um “mas” nas coisas extracampo que envolvem você atualmente – se descobriu que a campanha era um mote publicitário. A esponanteidade foi pro ralo. Invalida a campanha? Não. Mas a falta de transparência é péssima, Ney. Não é uma falta de transparência como a de sua transferência para o Barcelona, que só diz respeito em primeiro momento a você e ao clube. Você lidou com o
apoio e o sentimento de pessoas. Isso é feio, Ney.

Pra completar, Ney, um de seus amigos aproveitou o momento para vender camisetas do “protesto”. Enquanto uns choram, outros vendem lenços, a vida sempre teve este gancho, o subúrbio ensina. Aí, meu amigo, o que já estava feio virou boné. A atitude brilhante de Daniel Alves continua de pé, a campanha continua de pé, mas e você, Ney? Como fica? Mais uma vez no chão, como se estivesse tomando uma pancada nos gramados, mas dessa vez com certa razão.

Ney, seja mais claro com quem é seu fã. Ídolos não precisam ter caráter ilibado, mas pelo menos precisam ter diretrizes. Os meus ídolos mesmo têm uma série de restrições, mas com certas coisas não se deve brincar. Todos somos macacos, mas por causa da sua falta de transparência, por um momento, todos fomos bananas.

Porra, Ney.

Amor Bandido

Futebol é amor bandido. Daqueles que entorpece, engana, magoa, humilha e dá raros e inesquecíveis momentos de prazer. De todos os amores que o ser humano pode ter na sua vida, o futebol é mais que eterno, pois começa antes de nascer. Entretanto, é dos sentimentos mais ingratos e nefastos que habita a alma, porque usa o hospedeiro sem a mínima piedade.

Em nome do futebol, um ser humano comum acha que pode legitimar o preconceito, a violência, a corrupção. E embora o futebol seja causador disso, ele, esperto, ensaboado, sorrateiro, sai da frente e desnuda o torcedor, mostrando sua face mais obscura e indomada. Quando o adepto cai em si, está lá, envergonhado e só, pois o futebol, nesses momentos, larga quem o ama à própria sorte.

Por ele, se tenta justificar os fins, os meios, os inícios, quase uma música do Raul Seixas com Paulo Coelho, por mais indefensáveis que sejam os argumentos – ou até o Raul Seixas com Paulo Coelho, dependendo do gosto musical. O futebol é como uma droga que, se consumida sem moderação, dopa, vicia, cega e prostitui os valores.

Famílias brigam, amigos discutem, conceitos caem, preconceitos sobem, muitas vezes pelo futebol. Que une com freqüência muito menor que desune. E são minimizados com o prosaico argumento de que “é futebol”. Mas na hora de arcar com as conseqüências, ele, o futebol, mentor intelectual do delito, sai de fininho, rumo à glória, deixando a vergonha com seu interlocutor.

E o torcedor vai tentar defender o indefensável, justificar o injustificável, até perder o fio de esperança e a razão, respirar e ver o tamanho da bobagem que defendeu. Como todo vício, futebol dá ressaca, muitas vezes moral.

Ao término da crise de euforia e depressão, sempre haverá uma reclamação e um julgamento no espelho, no qual o torcedor, eterna mulher de malandro, vai reconhecer os abusos, a pancada que tomou e se sentir só. Mas, tal e qual um abstinente, vai tremer, relutar, se enervar e vai voltar ao vício. E vai perceber que nunca teve razão. E continuar, em sua esmagadora maioria, cometendo o mesmo erro. Porque, infelizmente, no fim das contas, futebol é amor bandido.

Pelada

Naquele retângulo, campo de futebol, há uma máquina do tempo, onde homens se transformam. Muitos dos sonhos de infância voltam à flor da pele. Não há diferença de idade, credo, etnia, muito menos de talento e técnica. A pelada é a instituição mais democrática que a sociedade pode criar.

Disse um técnico campeão do mundo de futebol, certa vez, que, em uma peneira de qualquer esporte, se um técnico recusa um anão, um aleijado e um gordão, terá feito a coisa certa. Mas, se for no futebol, poderá ter recusado Maradona, Garrincha e Puskas. Essa é a mística, embora na pelada não haja nem Caça-Ratos, quanto mais um dos antes citados.

Naqueles minutos intermináveis pra quem joga, onde se mata a saudade e o fôlego, não existem nomes nem sobrenomes. Não há Saldanhas, Almeidas, Silvas. Há “toca”, “passa” e, com o passar da intimidade, “puta que pariu”, “filho da puta” e “vai tomar no cu”. O palavrão da pelada não é ofensivo, é solidário. É o passaporte da amizade que depois vira cerveja, abraço e sorriso.

Tem aquela contagem benevolente de gols e assistências, esquecendo convenientemente das patacoadas e dos erros crassos. Aquela galhofa providencial e a sensação de redescobrir músculos antes esquecidos. E, claro, sempre, um sorriso prosaico e singelo, por isso tão bonito, de reviver momentos que estavam largados dentro da selva de pedra que se transforma a alma de adultos.

Até porque, na pelada, jogam pessoas de todas as idades e classes sociais. É uma grande massa uniforme de alegria. O drible é a maior das justiças, humilha indistintamente. O erro também não perdoa ninguém. O sambista diria que todo menino é um rei. Na pelada, amigo, todos viram reis de novo.

Regulamento

Seria um grande domingo em Ramos. O time da Rua da Feira de Cima decidiria o título contra a surpreendente Travessa, que jamais havia sido campeã do torneio. O destaque do time era um atacante magrinho cuja alcunha era Kanu. Forte, ajeitado e filho de mãe solteira, Kanu era o vice-artilheiro do torneio e poderia se consagrar naquela decisão.

Entretanto, no domingo ao amanhecer, antes da festa e do jogo começar, Coronel Wilson apareceu. Dizia ele que o filho dele conhecia Kanu de muito tempo e que Kanu não tinha mais idade para jogar o torneio. “Kanu só teria idade se tivesse nascido em 29 de fevereiro“, assim disse o Coronel. Estava formado o buruçu.

O ex-militar dizia que segundo o artigo 4, parágrafo 18, inciso XIII, do regulamento do campeonato, a Travessa tinha de ser eliminada e a Cabo Reis teria de jogar a final. Os técnicos dos times não lembravam nem quem tinha feito o regulamento, pois o jogo em Ramos sempre se baseou nos resultados do asfalto. “Que porra é essa?“, bradou Bigode, treinador da Travessa, sendo seguido pelos seus pares.

Mais estranho nisso tudo é que o Coronel não gostava de futebol. Mas gostava de leis, de poder. Aproveitou uma conversa durante o dominó no bar da esquina para esmiuçar o regulamento e atuar com um procurador geral soberano, voltando aos tempos de farda.

O Coronel não se abalou, explicou o regulamento e exigiu que a Cabo Reis fosse classificada para a final. Todos olharam para o técnico da Cabo Reis, que envergonhado, disse que não tinha nada a ver com isso. Wilson então disse que deveria ser cumprida a lei, nada menos que a lei, custe o que custar. “Sabe quem dizia isso? Ele mesmo, o Garrastazu“, disse Pink Floyd, técnico da Rua da Feira de Cima, homem de paz, já emputecido com a situação.

A confusão só se alastrava e nada parecia mudar aquilo. Kanu se defendia dizendo que tinha a idade pra jogar o torneio, uma vez que fez aniversário durante o campeonato e ninguém avisou que não podia. Wilson falou que aquilo era uma irresponsabilidade e o técnico Bigode, já emputecido, bradou colocando o dedo em riste: “ô Coronel, pelo artigo 5º, ele pode jogar“. “Que artigo 5º, que não estou vendo?“, replicou o coronel. “Artigo dos meus 5 dedos na sua cara“, disse Bigode, já dando um tapão na cara do idoso coronel e transformando o que já era um inferno numa zona digna de “Feirinha da Pavuna”.

Até as velhinhas da igreja pararam pra ver o entrevero. Separa daqui, puxa de lá, “me segura” de acolá, e cada vez mais não se sabia em que resultaria aquilo. A situação estava fora de controle, até que o técnico dos Marajás, Marcelo Monstro, decidiu usar a solução mais drástica. “Vamos chamar o Supremo“. Todo mundo se calou, até o Coronel Wilson perguntar: “Quem ou o que é o Supremo?

Chama o Djavan.

Djavan chegou com aquela sua malemolência habitual. Não importava se era 0x0 ou 1×1, uma solução teria de ser buscada, naquele momento. O Coronel Wilson lembrou de seu último encontro com Djavan e já não parecia mais tão senhor das leis. O técnico da Cabo Reis, que já achava aquilo tudo surreal, nem quis se meter. Pink Floyd, técnico da Rua da Feira de Cima, habitualmente paz e amor, se recolheu. Bigode e o ex-militar apenas escutaram atentamente.

Vocês sabem que eu tenho muitas discordâncias com a lei“, disse Djavan. Senhor Wilson resmungou que não poderia ser diferente, pois fosse o contrário a sina de Djavan seria treinar e jogar no time de Bangu, não o proletário, mas o do presídio. Djavan ainda perguntou se alguém tinha dito algo, mas o Coronel negou. Continuou Djavan. “Acho que todos os aspectos devem ser contemplados e o que é legal, nem sempre é legítimo ou justo“.

O Coronel Wilson ainda tentou argumentar, lembrando que Djavan era uma autoridade do “comércio” informal. Mas aí Djavan lembrou ao ex-militar: “Por exemplo, Coronel. Muita gente morreu neste país porque o exército estava amparado numa lei pra torturar os outros. Isso é legal? Isso é bacana?“. Coronel estava estupefato com Djavan e seu conhecimento de história. Mesmo assim insistiu em chamar golpe de revolução e Djavan não quis discutir, mas lembrou que o legalismo estrito nunca é um bom caminho, embora ele mesmo fosse suspeito de afirmar tal coisa. “Pelo menos é coerente“, afirmou o milico.

E qual é a solução então, Seu Djavan?“, perguntou o árbitro da partida. Djavan decidiu que o resultado em campo devia prevalecer, pelo bem do futebol. Em primeiro lugar, suspendeu o Coronel Wilson de todas as suas funções desportivas, até porque ele nunca teve nenhuma mesmo. “Coronel, vai cuidar do seu cachorro novo, o Garrastazu“. Em segundo lugar, decidiu que o resultado de campo continuaria o mesmo, e que Kanu poderia fazer sua despedida do torneio, já que até ali, ninguém tinha dado por conta e a culpa não era do guri.

O pessoal da Cabo Reis ainda tentou chiar, mas Djavan lembrou que eles eram “terceiros interessados e nada tinham a ver com aquilo” “Se não interessa, mando eu“, disse o cartola meliante, ausente de bem-querer e de encanto. Após o burburinho, acharam melhor não recorrer. A última sentença de Djavan foi que o regulamento deveria ser refeito, porque zona só é boa na Vila Mimosa e aquilo ali era uma bagunça. O árbitro do último jogo então seria ele, auxiliado por Marilu, sua Magnum .40 de estimação, para evitar quaisquer discussões.

E assim, em Ramos, os times voltaram a decidir o torneio em campo, enquanto os técnicos firmaram um acordo de escrever um novo regulamento tão logo este campeonato acabasse. E todos eles concordaram em escrever expressamente que o Coronel Wilson não poderia representar nenhum time ou discutir nada do papel. E Djavan trilou o apito, para que o jogo fosse como deveria ser: jogado.

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Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, alguns personagens e jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “Superstição”, “O Pênalti”“O Professor”“Arena”“O Protesto”“Maldição” “Po锓Cabaço”,  “O Amor na Marca da Cal” e “O Clássico”

Superstição

Ramos em setembro tem festa da igreja. A Igreja de Nossa Senhora das Mercês, que fica ali, na Roberto Silva, perto do supermercado. Igreja famosa por ter sido protagonista de um acidente entre aviões, nos anos 50. Triste coincidência. A igreja é linda. Nome de santa, nome de avó. Santo é quem acalenta, não é mesmo?

Pois bem, devido à quermesse, o jogo entre a Roberto Silva – onde ficava a igreja – e a Rua da Feira de Cima teria de ser disputado na sexta- feira. Nada demais, não fosse o fato de ser uma sexta 13, e o técnico do Cimão, Pink Floyd, ser absurdamente supersticioso.

Pink Floyd, em que pese seu passado militar, virou hippie, daqueles bem atuantes. Entre a paz, o amor, as flores e o poder, a era de Aquário não resistia a um gato preto, a uma escada mal colocada e coisas do tipo.

Ramos, embora seja de alma enorme, é um bairro pequeno. Existe o lado de lá, da Avenida Brasil, do Piscinão e dessas coisas que chamam atenção no noticiário, e o lado de cá, do campeonato de ruas, das festas juninas, do fuzuê, da Imperatriz, do Cacique de Ramos, do Morro do Adeus e do Complexo do Alemão.

Sendo um bairro pequeno, todo mundo sabia o quanto Pink Floyd era supersticioso, inclusive P3, Pedro Paulo Pedreira, o técnico da Roberto Silva. O treinador, além de amigo próximo de Pink Floyd, era gaiato. Muito gaiato. Aquela sexta seria inesquecível.

Pink Floyd detestava sair na sexta-feira 13. Viagens, nem pensar. Ele até pensou em não comparecer ao jogo, mas seria uma desfeita com a equipe, que ia bem no campeonato. Seus filhos – Zabelê, Zumbi e Besouro – imploraram ao pai que ele fosse.

E ele decidiu ir. Todo de branco. Colocou seu patuá. Rezou três vezes. Confiava num sinal dos céus. E foi. Assim que chegou na esquina da Roberto Silva, P3 jogou um gato preto no caminho. Quem se arrepiou todo foi o velho hippie. Seu lado escuro da lua, seu coração atômico, todos os seus ecos ressoaram. Dureza.

O time da Roberto Silva entrou todo de preto, mudando o uniforme tradicional. “Mau presságio”, pensou Pink Floyd. O jogo começou e o time da Rua da Feira de Cima parecia tão amedrontado quanto seu técnico. Tungstênio estava endiabrado e explosivo – sem trocadilhos – e marcou duas vezes no primeiro tempo. 2×0 para os corvos da Roberto Silva.

O intervalo chegou e P3 colocou uma escada no caminho de Pink Floyd. Enquanto um se arrepiava todo, o outro gargalhava. Na preleção, apenas o muxoxo do treinador borocoxô. Um hippie borocoxô não era lá algo comum, mas o que fazer? Do outro lado, Tucano, Tungstênio e Alcione – um moleque que ganhou o apelido por ser marrom, garoto, maroto e travesso – tinham jogado o fino da bola no primeiro tempo.

Até que o padre da igreja foi fazer os testes pra quermesse. O sacristão dizia que era melhor ser prudente e ver se estava tudo nos conformes. O padre, então, mandou o sacristão tocar o sino. E o sino ecoou, o gato preto se assustou e a escada caiu – sabe-se lá porque. Pink Floyd achou que aquilo era o sinal dos céus. No final do intervalo, reuniu o time, mudou o astral e apresentou as armas. A preleção se resumiu num “agora vai! vamo virar essa merda.”

E o time que parecia um trem fantasma voltou um carrossel de emoções. Oh, yes. Zabelê, para Zumbi, para Besouro. Todos voando. Um 14-Bis. Besouro diminuiu o placar logo no primeiro lance pós-intervalo. P3 não acreditava no que via. Pink Floyd brilhava. O sino da divisão tinha começado a tocar.

Os meninos da Roberto Silva não sabiam o que fazer com a bola. Era um exorcismo futebolístico. Girino, o zagueiro pura disposição, aproveita um escanteio e sobe. Por quem os sinos dobram: Não sei, mas Girino, ele sabe. E testa a bola como se fosse um Tomahawk, um Patriot, um Exocet [calcinha]. Míssil. É o gol de empate.

O gato preto se aninha perto do lugar onde está P3. Ele olha com aquela cara de “sai pra lá, sai pra lá”, característica de quem deve e teme. Pink Floyd está em estado de êxtase. Altas expectativas. A chuva desaba, limpando as mazelas. Bobby, o goleiro cabeçudo, passou a fechar o gol. O Cimão dominava.

E assim veio um ataque do Cimão, mais potente que simpatia de São Cipriano. Girino tocou para Afonso Perereca, que tinha essa alcunha por ser dançarino de charme e pular mais do que pogobol descontrolado.

A tabela anfíbia deu certo e encontrou o ataque hippie. De Zumbi, para Besouro; de Besouro, para Zabelê, que observou o goleiro saindo e deu um toque caprichado, encobrindo o camisa 1 com requintes de crueldade. Gol da vitória.

P3 não acreditava, Pink Floyd não acreditava. Uma vitória histórica, que entraria para o anedotário de Ramos. Após os cumprimentos, Pink Floyd decidiu ir pra casa, não era bom ficar no bar numa sexta-feira à noite.

Ainda assim, P3 perguntou o que ele tinha feito pra vencer a superstição. Pink Floyd disse que falou com uns amigos do além e usou uns galhos de arruda. Os amigos do além pediram pra ele esperar um sinal do céu. A chuva veio, os sinos ecoaram. P3 ficou atônito e incrédulo com a resposta.

No dia seguinte, na quermesse, por curiosidade, perguntou quem era o sacristão. O zelador da paróquia era o Seu Malaquias, ex-jogador do Cimão em tempos antigos e que conhecia bem as manias de Pink Floyd. O sino tocou pela influência dele. O deus do hippie era a mão parceira. P3 ficou com o gosto amargo da derrota. E o gato preto no seu pé.

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Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, alguns personagens e jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “O Pênalti”“O Professor”“Arena”“O Protesto”“Maldição” “Po锓Cabaço”,  “O Amor na Marca da Cal” e “O Clássico”

O Pênalti

Mais um domingo animado no campeonato de Ramos. O Flamenguinho da Aracati enfrentaria a Doutor Noguchi. Embora não fosse tão grandioso quanto o “Xepão”, também era um clássico do torneio.

Muitas caras conhecidas em ambos os times. Chamou a atenção o novo reforço que Diplomata, passista da Imperatriz e técnico nas horas vagas, assimilou para o time: Montanha.

Vinícius era um garoto incomum para sua idade. Aos 16 anos, tinha quase 100 quilos e era mais forte do que um touro nelore e já ajudava empurrando os carros alegóricos da Imperatriz. Seu apelido, “Montanha”, por pouco não era literal. Entretanto, o negócio do galalau não era futebol. Ele chamava a bola por Vossa Excelência, num tratamento desprovido de intimidade.

Diplomata, mesmo assim, inscreveu Montanha como camisa 12, goleiro reserva. Era muito raro ter goleiro reserva em Ramos. Se já era difícil encontrar um titular, imagine banco. Ninguém entendeu o que o treinador malemolente queria. Ele apenas respondia: “Deixa que eu sei o que estou fazendo.”

O trilador de apito da contenda seria “Figurante”. Arnaldo Romualdo Coelho, formado em arbitragem, que apitava jogos do campeonato carioca – da Série C – e ainda por cima aparecia como ator em novelas da Globo, fazendo sempre pontas menores do que guimba de cigarro, daí o apelido. Se houvesse arbitragem “FIFA” em Ramos, Figurante seria o mais importante.

Ele era temperamental, era estrela e, às vezes – quase todas – gostava de tomar o show pra si. Já tinha discutido e brigado com Diplomata diversas vezes, o que o deixava como persona non grata na quadra da Imperatriz. Por este motivo, Figurante não podia sambar em casa, o que o deixava mais raivoso contra o passista treinador. Havia uma rixa, de fato.

O jogo começou pegado. Como a Dr.Noguchi jogava sempre na Aracati, era o único que não sentia os efeitos da “altitude”, da rua inclinada. era um jogo tradicionalmente de poucos gols e, neste dia, o time estava melhor em campo.

Mas o Flamenguinho da Aracati – chamado assim pelo uniforme rubro-negro – tinha seu ataque demolidor de sempre. Cabaço e Paulinho Rolimã sempre trocando passes, de forma envolvente. Era osso duro jogar bola ali. No intervalo, 0-0. No segundo tempo, a Noguchi tomou um bombardeio, mas segurava o resultado com galhardia…

… até que o tempo regulamentar acabou, ficando por conta dos acréscimos do juiz Figurante. E regra de acréscimos, em Ramos, é simples: saiu, acaba. Lateral e cruzamento de Polenguinho, buscando o centroavante Paulinho Rolimã, bem marcado pelo zagueiro Iba.

[pausa: Iba tinha esse apelido porque jogava com seu irmão gêmeo no time. Ambos eram filhos do borracheiro da rua, um paraibano arretado. O irmão lateral ficou com o apelido de “Pará” e o irmão zagueiro ficou conhecido como “Iba”. Fim da pausa]

Pois Rolimã enganchou-se com Iba e se jogou na área. Nada. Mas o apito trilou. Figurante apontou e gritou: “É pênalti”. Confusão, buruçu, furdunço. Diplomata invadiu o campo, com dedo em riste: “Pênalti é o caralho, seu ator de novela da CNT”. Figurante empurrou o passista, os jogadores dos times começaram a se empurrar também.

Figurante perdeu a cabeça e tentou bater no treinador que era lendário na rua. Montanha entrou em ação: deu dois sopapos no juiz. Todo mundo lembrou da regra básica da pelada dos adultos de Ramos: goleiro reserva serve pra bater e apanhar na confusão.  Diplomata instituiu pela primeira vez esse mote nas categorias de base.

Nesse caso, Montanha bateu. Figurante ficou sem som e sem imagem, mais fora do ar que TV em dia de chuva.  Com o árbitro nocauteado, os técnicos tentavam uma solução pacífica em um ambiente beligerante: “Foi”, “Não foi”. “Foi” “Não foi”. Uma confusão dos diabos, mais de duas horas de discussão e o por-do-sol prenunciava o fim daquele domingo, antes da depressão que a musiquinha do “Fantástico” causava.

Sem nenhuma concordância, alguém foi ao orelhão, fez uma ligação e disse: “Chamei o Djavan”. Djavan, eminência não-oficial da região, traficante destemido e temido das bandas de Ramos, estava meio sumido, com medo de ser guardado, mas mexer com o futebol de ruas era mexer com ele.

Quando ele chegou, no meio do buxixo, escutou da arbitragem que ali quem decidia era o juiz, que Djavan era só espectador. Figurante foi enérgico, disse que era árbitro pro-fis-sio-nal, assim mesmo, fazendo questão de separar as sílabas. A noite já caía e o soprador de apito falou que o jogo só acabaria quando o pênalti fosse batido. Tensão no ar.

Djavan se irritou. Sacou a arma. Muitos correram. Figurante ficou paralisado pelo medo. O traficante/cartola mirou e atirou perfeitamente com sua pistola. No alvo. O transformador da rua explodiu. Toda a Aracati ficou sem luz. E então perguntou: “O que diz a regra de jogos sem luz?”. Os técnicos responderam: “Jogo sem luz por fator externo é adiado e deve ser remarcado e jogado depois, com a luz do sol”. Djavan olhou para o árbitro, que estava extremamente assustado, e disse: “Prazer, fator externo.”

Figurante então pegou a bola, apitou e apontou pro alto. O jogo tinha acabado e deveria ser remarcado. Djavan mandou um de seus asseclas ligar pra Light, com o recado de que era ele que estava pedindo. Antes do fim do “Fantástico”, a luz tinha voltado. Os técnicos decidiram aceitar o 0x0 pelo aperto no calendário. E Figurante pediu “afastamento” do Campeonato de Ruas de Ramos, nunca mais voltando a apitar.

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Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, alguns personagens e jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “O Professor”“Arena”“O Protesto”“Maldição” “Po锓Cabaço”,  “O Amor na Marca da Cal” e “O Clássico”

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