O Direito a Ter Direitos

A greve é um direito constitucional. Cláusula pétrea, aliás. Traduzindo, aquilo que não pode ser mexido. A paralisação de um serviço de alta relevância  mexe com os ânimos e anseios de grande parte da população. O que suscita uma série de discussões. A maioria delas é válida. O tratamento dado a isso e a maneira de expressão é um ponto a ser observado.

Importante ressaltar: Sou a favor da greve. Acho que é um direito cujo alicerce foi batalhado durante muito tempo para que não seja respeitado. Além do mais, é fascista o ato de impedir de greve. E considero alienado alguém que se utilize de interesse pessoal para tentar impor uma vontade sobre questão pública.

Isto posto, adiciono que por mim se liberavam as catracas e todos entrariam sem pagar. Há um justo temor de que seja dada demissão por justa causa e há uma lei que configura tal prática como dano patrimonial. Alguns classificariam até como subversão, mas a defesa das liberdades sempre partiu de atos subversivos, contra o status vigente.

No meio desta greve, que a justiça avaliará como sendo legal ou não, dentro de um estado de direito, começam a se ouvir alguns pronunciamentos como “a greve tem motivação política”. Tudo na vida é política, até os atos pretensamente apolíticos.

Óbvio que a greve – qualquer uma delas – tem como conotação pressionar interesses públicos, de forma política. É nítido ainda que isso ocorre com mais vigor em ano eleitoral, porque o medo da perda de votos se transforma em trunfo na mesa de negociações.

O Governo, como todo e qualquer governo, tem que buscar a melhor solução para que o problema não perdure. No dito popular, cada um com seus problemas. O Poder Público que se vire para sanar os seus.

As pessoas acusam os grevistas, porque estão atrapalhando um direito individual. Mas não vislumbram o todo da sociedade. Alguns se aproveitam do movimento e fazem atos de vandalismo, visando interesses individuais também. A ironia humana do individualismo falando mais alto em uma paralisação de interesses coletivos, de um serviço público e coletivo.

No meio de um monte de opiniões soltas ao relento, as pessoas clamam e gritam pelo seu direito, mas não são capazes de enxergar e observar o direito dos outros. Qualificam a greve como se fora um crime, se esquecendo do quanto escorreu sangue – literalmente – para que direitos como este pudessem existir. Em um país na qual a comissão da verdade está em voga, muitas verdades soam inconvenientes.

Aristóteles, o Telê Santana da Grécia Antiga – bom treinador e mentor, foi inclusive tutor de Alexandre – sabiamente dizia que a escravidão é a apropriação dos homens vencidos na guerra, por meio de força e violência, para submeter os vencidos ao seus desejos e caprichos de modo coercitivo. Não se pode deixar que na guerra cotidiana, caprichos de poucos subjuguem os direitos de todos, garantidos pela Constituição. É preciso garantir o direito a ter direitos.

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