Em Três Partes

I

Você tem esperança de que?

Que o mal não tivesse existido.
Que a dor não tivesse prosperado
Que não houvesse nódulo nem arrogância
Que tivesse a liberdade de escolher o caminho
Que pudesse voar de olhos abertos
Que aparecesse mais amor em vez de dificuldade
Que florescessem mais rosas sem espinhos
Que não dependesse de ninguém
Que ontem não fosse tão duro
Que amanhã não fosse tão raro

Você tem esperança de?

[pois]

Cada passo é um jogo de xadrez
Cada esforço é uma vitória, um xeque-mate
Cada dificuldade põe em xeque todo o planejado
Cada módulo de luta é um móbile de sonho
Cada um tem seu caminho, a vida é sempre assim
Cada passo, cadafalso, calabouço, cala a boca, eu te ouço
Cada hora passa rápido nos ponteiros lentos
Cada volta do relógio é um detonador de ansiedade

Você tem esperança?

Pausa. Respira.

II

Você sonha com que?

Com o bem que surge através do raio de sol
Com o sorriso de uma viagem sem rumo
Com o prazer de ter o vento roçando a face
Com o combate de desinchar a maldade
Com o caminho sem ponto final, só travessões travessos
Com o carinho de domar as letras
Com o papo despretensioso de uma vida com pretensões
Com o momento de não ter momentos
Com o ontem, que seja inesquecível
Com o amanhã, que seja memorável

Com o hoje.

Você sonha com?

O perfume do jardim da vida
O silêncio que precede o sorriso
O acorde que anuncia a canção
O olho que brilha sem aviso
O dia sim, outro não
O dia sim, outro também
O momento em que as três partes são uma
O momento em que as três partes descansam
O momento em que tudo é paz.
O momento em que tudo é sorriso.

Você sonha?

III

Suspira.
Descansa.
Até Breve.

Oublier

Ela juntou cuidadosamente toda e qualquer lembrança que remetia àquele tempo. Ainda fez questão de dar uma última olhada e chorar mais uma vez. Guardou no baú coisas que tinham acontecido naqueles últimos anos. Cada papel, cada recordação, cuidadosamente dobrada e guardada.

Não havia porque continuar com aquele suplício. Era preferível enfrentar os seus demônios do que ser amiga de fantasmas. Havia muita coisa que deveria ser deixada para trás em prol da sua felicidade, que andava negligenciada. Era hora dela se reconstruir. Seguir em frente.

Respirou fundo, como se se despregasse de amarras que atrapalhavam sua vida. Naquele baú, entre sentimentos e lembranças, havia um fardo que ela não queria – nem precisava – mais levar. O que parecia uma derrota era uma vitória, uma alforria. Haveria algum lugar, que só ela soubesse, onde essas coisas seriam devidamente guarnecidas e enterradas. Nesta pequena morte, reencontrava sua vida.

Fechou as coisas no baú, deu um giro na chave, a jogou pela janela. Colocou o baú na dependência de empregada, onde não o veria até o momento em que nostalgia virasse saudade, em que a dor virasse um leve sorriso. E que talvez tivesse vontade de refazer uma chave. Tomou uma ducha, se arrumou foi viver a vida.

Antes de sair, ainda com os olhos vermelhos, mas um tanto quanto aliviada, encontrou um papel amassado no chão do quarto. Algumas palavras e fragmentos soltos, em diversos idiomas. Entre eles, “n´oubliez jamais”. Não era hora de lembrar. Rasgou o papel. Seguiu em frente.

O Céu Responde

– Oi. [assustado]
– Oi.
– A Benção.
– Deus te abençoe. Você está bem?
– Tô sim, as coisas vão se ajeitando, a alegria chega também. Sorrio. Sinto sua falta. Como você está?
– Estou bem, estou ótima. Precisava descansar, estou fazendo isso.
– Tentei chegar, não deu.
– Eu sei, mas a distância entre nós nunca significou falta de amor. Pelo contrário.
– É verdade. Mas queria dar o último beijo, dizer que te amava mais uma vez.
– Você nunca deixou de dizer que me amava, esse arrependimento você não deve ter. E, de mais a mais, eu estava feia, pelo menos você fica com a última imagem boa. Como estão todos?
– Estão bem. E ainda vai melhorar. É o ciclo da vida, né?
– Sim, é. Uns vão, outros vem. Eu fui, você fica e continua o legado. Faz parte do show. Lembra da história do barquinho?
– Sim, lembro.
– Então, há muitos mares para seu barquinho navegar, muitas coisas para ele ver e viver. E no estaleiro da sua vida, você tem marinheiros para ensinar a navegar ainda.
– E o seu barquinho?
– O meu atracou, depois de grandes aventuras. Estava na hora.
– É. Temos tendência a ser egoístas com quem amamos.
– Sim, mas você tem lidado bem com isso.
– Ainda não consegui chorar sua perda.
– Não chore, sorria. Você tem um sorriso muito bonito. Eu sempre te disse isso.
– Eu sei, mas parece que falta algo.
– Quando o choro vier, será de alegria, por outras coisas importantes. Acredite em mim.
– Eu acredito.
– Cuide das coisas por aí, tenho confiança que você pode manter as coisas equilibradas.
– Você vai sempre me visitar?
– Não, só quando for necessário.
– Por que?
– Porque seu barquinho continua navegando. Minha missão é outra. Você não precisa mais de mim como timoneira.
– Vou sentir saudade.
– Isso não é ruim. Ruim é sentir dor. E já está cicatrizando.
– Vamos em frente. Sempre em frente.
– Isso.
– Tenho sentido medo de morrer, às vezes. Sua partida me deu sensação de mortalidade. Tenho questionado alguns dogmas que sempre tive.
– Não sinta. Todos somos mortais. A experiência nos mostra que isso é algo presente. Mas seja sereno. E não questione seus dogmas, apenas viva. Eu estou aqui. Lembre daquela música que escutávamos quando você era pequeno.
– Qual?
“É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”
[silêncio] É verdade…
– Não tema, você ainda tem uma longa história pela frente.
– Te amo.
– Eu também te amo. Que Deus te faça feliz.
– Vai, descansa em paz, seja feliz, onde estiver.
– Estou sendo. Agora descanse, daqui a pouco você vai acordar e colocar o barco pra navegar de novo.
– Um beijo.
– Outro.

[E acorda, com sorriso no rosto. E lágrimas descendo]

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Esse texto é a continuação de “Carta ao Céu”, com citações a “Vidas e Veleiros” e “A Feiticeira e o Cavaleiro”

Carta ao Céu

Não tenho lamentações. Essa é uma das coisas que você me ensinou. Colocar o veleiro no mar da vida e não olhar para trás. Enfrentar tempestades e calmaria com a mesma altivez e sobriedade. Talvez a lição maior de todas.

E foram muitas lições. De sempre oferecer um sorriso, mesmo quando se está esfacelado. De ser educado, polido e gentil, porque mesmo que não se tenha beleza e riqueza, a educação abre portas, e ajuda a forjar grandes e perenes amizades.

O ensinamento de ser sempre leal. Aos princípios, às pessoas queridas. Ser tolerante. Ser pacífico e evitar atacar, mas contra-atacar para se defender, de preferência para resolver a questão. Sempre olhar nos olhos, nunca baixar a cabeça.

Sempre debater sem ofender. Respeitar a discordância e aprender com ela, seja para reforçar convicções, seja para mudar de opinião. Ler. De bula de remédio a calhamaços de papel. De histórias em quadrinhos a livros acadêmicos. Ler sempre, porque cultura e conhecimento ninguém pode tirar.

Nunca desistir. Mesmo nas situações mais difíceis. O problema sempre pode ser superado ou contornado. Basta botar a bola no chão. Nunca negar quem se é. A submissão é o pior pecado que se pode ter. Submeter é um pecado tão grande quanto.

Respeito é bom e se gosta. A si e aos outros. Rir com, nunca rir de. Mesmo nos piores momentos. Sempre enfrentar os demônios. O pior inimigo somos nós mesmos, você dizia. E o maior barato de ser humano é a lucidez, em qualquer situação.

Tudo isso, tantas vezes, desde pequeno. Compartilhando histórias, o amor pelo mesmo time de futebol, sorrisos e causos. Se preparar para os imprevistos, dos piores aos melhores. Saber lidar com eles para poder surpreender e sempre se surpreender.

Ter orgulho de quem nos quer bem, ignorar quem não nos quer bem, sabendo que a vida é feita de opções, nossas e dos outros. Seguir em frente, porque o futuro é sempre um mundo novo e a novidade nos mantém vivos.

Valorizar o trabalho, sempre, porque o ganha-pão é nobre e, principalmente, mantém a sanidade, mesmo que seja insano. Caminhar com passos firmes mesmo quando se anda no escuro.

Obviamente escorrego em todas estas lições, mas tento utilizá-las sempre e as uso como bússola a cada erro que cometo. Sem me penitenciar, mas evitando repetir besteiras. Porque errar a mesma coisa várias vezes e dar murro em ponta de faca é falta de inteligência.

Você já sabia que o destino infalível se aproximava. A idade é implacável e sua inteligência já estava aprisionada em um corpo físico que não aguentava mais seu brilho. O último telefonema, com tom de despedida, até não ouvir sua voz, já debilitada.

Seguindo outra das grandes lições que você me ensinou, nunca me privei de dizer o quanto te amava e quanto era grato. Então, não tenho o gosto amargo de ter esquecido de falar algo. Tenho apenas a tristeza de estar longe quando da sua passagem. Queria ter dado mais um beijo, mais um abraço e feito mais um cafuné.

Vai, descansa em paz, seja feliz, onde estiver. Quando você me ensinou a lidar com a morte, disse que o vô era uma estrela no céu. Agora, vó, escrevo ao céu, porque verei duas estrelas em todos os momentos.

Por aqui não estou bem, mas vou ficar. Porque sei que o veleiro do mar da vida tem de navegar e superar esta pequena tempestade causada pelo meu egoísmo de lhe querer por perto, mesmo sabendo que você descansou. E voltarei a brilhar os olhos em breve. Afinal, nem você, nem eu, temos lamentações. Entre nós, só amor.

E Agora, José? [remix 12 polegadas]

Ao fim do apito dos dramáticos 120 minutos no Santiago Bernabeu, Real Madrid e Bayern Munchen se entregaram à travosa e amarga dança da solidão dos pênaltis. O batedor e o goleiro, num tango cujo passo final determina quem estará com a cabeça a prêmio. No caso de ontem, após a derrota do Real Madrid nos pênaltis, a noite esfriou, o povo sumiu, a luz apagou. E agora, José?

O Real Madrid conseguiu marcar os dois gols que lhe dariam a classificação. O Bayern buscou o gol redentor que arrastaria o jogo para a prorrogação. Ao fim dos noventa minutos, faltaram pernas, sobrou coração. Os trinta minutos extras foram disputados com uma paixão incomum para quem ganha tanto dinheiro. A essência da várzea aflorou em cada tufo de grama do lindo Bernabeu.

O sonho do Real chegar à final da Champions League estava ali, nítido, evidente. Não veio a utopia. E tudo acabou. E tudo fugiu. E tudo mofou. E o treinador que é o mago, um dos donos do espetáculo, que zomba dos outros, que ama e protesta, ficou sem o riso. Ajoelhou no campo. O riso não veio. E agora, José?

Quando o Barcelona foi eliminado na noite anterior, a segunda parte do pesadelo merengue foi sepultada. Sábado passado, a primeira parte já tinha sido devidamente exorcizada com uma convincente vitória no Camp Nou, na casa do rival, que nos últimos tempos se tornou especialista em tripudiar sobre a cor branca.

Barcelona fora, o título perto, só faltava fazer a sua parte, Real Madrid. Faltava ganhar – e levar – do Bayern. Com a chave na mão, quer abrir a porta. Não existe porta. Nadou e morreu na praia. Quer morrer no mar, e o mar não secou. E o Bayern, que nada tinha a ver com isso, jogou como o gigante que é e decidirá o título em sua Platz particular. E agora, José?

Na hora dos pênaltis, um dos melhores do mundo e dois campeões do mundo falharam. Cristiano Ronaldo, Kaká, Sergio Ramos. Se eles gritassem, se eles tocassem, se eles chutassem, se Neuer não fosse uma muralha. Mas Neuer não morre,  Neuer não desiste, Neuer voa e busca a bola, é duro esse Neuer!

E o sonho acabou. Sozinho no escuro, qual bicho do mato, restando o Espanhol, o Real Madrid marcha. Mas marcha para onde? Sem o sonho da orelhuda, que escorreu pelas mãos, ao Real resta ganhar o campeonato doméstico como obrigação, enquanto toda sua torcida, todos os seus jogadores e o próprio Mourinho perguntam: E agora, José?

[Homenagem a Carlos Drummond de Andrade, com sampler e incidentais de seu poema famoso]