Nada Mudou

Acordou sobressaltado na madrugada do dia 22 de dezembro. O relógio apontava 04h20. Um estranho silêncio pelo ambiente daquele apartamento de metrópole. Foi beber um copo d´água e não sentiu sequer o barulho de seus passos. Como se flutuasse. Quando abriu a janela buscando uma lufada de vento, a surpresa: breu.

“Não era para estar tão escuro”. Afinal, é mais uma peça avulsa no quebra-cabeças de concreto armado, onde as luzes e o trânsito podem até diminuir, mas nunca param. Naquele momento, a cidade havia deixado de pulsar. Não mais que de repente, tem um estalo na memória. Dia 22 de dezembro. “Porra, será que o mundo acabou mesmo?”. Volta a olhar para o relógio, 04h20.

Tenta ligar para alguém, o telefone está fora de área. Sem sinal. Abre a porta do apartamento e o breu se confirma. Fica indignado. “Hoje é, ou seria, sábado. Como é que o mundo vai acabar no fim de semana?! Por que não acabar na segunda-feira?”. É o primeiro infantil e mesquinho pensamento articulado que tem.

Após o raciocínio, o pavor. E agora? Acabou mesmo? Sempre se disse agnóstico, começou a rezar para Deus. “Se Ele existe, que apareça agora, que me explique algo”. Silêncio. Começa a blasfemar. Silêncio. Anda e xinga quase na mesma velocidade e proporção, até que dá uma topada na cama e solta um palavrão – ainda mais – eloquente. Os olhos enchem d´água. O medo de não ter tempo. Ou estar preso no tempo. Ou ter tempo demais.

Começa a pensar nas viagens que não fez, nos filhos que não teve, nos perdões que não recebeu, nas mulheres que não namorou e nos amigos que deixou de dar atenção. Num misto de arrependimento e dor, caminhava em círculos, líder de nada, buscando respostas para as perguntas mais simples. Não conseguia.

A angústia virou sua acompanhante naqueles minutos inexistentes, já que o tempo teimava em não passar. A respiração ficou ofegante, os olhos esbugalhados, a certeza do fim próximo e um turbilhão de emoções que queria desaguar, mas não poderia. Mais do que medo, covardia. Passou a negar esta possibilidade, ferrenhamente. Depois de algumas horas, também inexistentes, se cansou. E se resignou.

Sentou na cama, respirou. Ligou a TV. Nada. Em vez de se apavorar, respirou fundo. Começou a repassar mentalmente sua vida. Observar cada detalhe do que tinha se tornado até aquele dia de dezembro. Num filme repleto de flashbacks, começou a se tranquilizar ainda mais.

Afinal, sempre pensou em si, individualmente. Humano e moderno. “Humano”. “Moderno”. Sempre foi egoísta em não fazer as viagens em prol de ganhar mais dinheiro. Sempre evitou os filhos para que tivesse mais tempo para seus egoísmos, evitou relacionamentos longos e, complementando, não encontrava os amigos porque queria. E sempre que podia se relacionar com o mundo, fez questão de se isolar.

Olhou para o telefone celular de novo, continuava fora de área. Já estava acostumado. Quem não está? Ao repassar cada momento de sua vida, apenas se assegurou de que nada, absolutamente nada, tinha se modificado. Passou até a admirar o silêncio que se avizinhou.

O relógio ainda marcava 04h20. Nada mudou. Resolveu deitar e voltar a dormir. Afinal, o mundo continuava individual, pequeno e simples. Mesquinho. Ainda mais numa véspera de fim de semana.

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Este texto é parte da coletânea de textos “O Último Livro do Fim”, com diversos autores, entre eles este contador de causos. O link para adquirir o livro está aqui: http://www.livrariareliquia.com.br/o-ultimo-livro-do-fim.html