Retrovisor

Mais uma vez o assunto do momento são fotos que vazaram na internet. E, claro, o assunto é seguido por uma série de opiniões da massa que crucifica a menina. Já sabem nome, sobrenome, CPF e identidade da moça. O babaca que publicou as fotos? A única coisa que se sabe  sobre ele é que – além de ser idiota – tem pau pequeno.

Neste momento, a menina, despedaçada, deve estar pensando em mil e uma formas diferentes de sumir do mundo, enquanto o seu ex-parceiro, apenas uma pessoa mesquinha e frustrada, deve estar sorrindo com o intuito alcançado. Entre eles, milhares de pessoas apedrejando a vítima como se fosse culpada, revivendo e aprimorando a cena bíblica de Maria Madalena, com a diferença de que falta um Jesus para enfrentá-los.

Porque, atualmente, muitos se reservam ao direito do pré-julgamento alheio sem defesa. Agora é moda. Opinião é imposição. A discordância gera inimizade e a crítica é ofensa. A imensa maioria não se dá ao trabalho de olhar para o teto e ver o telhado de vidro, ou de olhar no retrovisor da vida e ver o tamanho do rabo que se deixa de fora quando se critica alguém assim.

As soluções oferecidas são sempre defensivas, como se o bandido, o cretino, tivesse razão. “Não pode dar mole”, “Não pode fazer”, “É um absurdo”. Infelizmente, esta é a realidade, mas está errado, não deveria nem poderia ser. Claro que deve haver precaução, mas a maioria dos psicopatas não se revela facilmente, e ninguém tem uma placa escrito “idiota” na testa. [alguns até têm, mas vocês entenderam]. Está tudo errado. Compreensão, discernimento, análise e dignidade fariam bem a todos, sempre.

Nelson Rodrigues está com a razão mais uma vez. “Tarado é a pessoa comum pega em flagrante”. Não é o mundo que está em falência, é a sociedade, somos nós. É preciso uma reestruturação social e comportamental urgente. Menos leis, mais bom senso. Muito mais bom senso.

Há muito mais pecados dentro de nós do que nos outros. Escolher o caminho fácil do escárnio alheio é questão de – mau – caráter. Acusar demanda muito menos esforço do que admitir, defender ou mudar. Antes de acelerar rumo à humilhação dos outros, convém observar o retrovisor moral de cada um de nós.

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Reencontrando os Gigantes

Eu nunca fui um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones. Gosto demais das duas bandas – a segunda bem mais que a primeira – mas minha banda preferida sempre foi outra. Desde moleque, influência direta da minha mãe, meu som preferido é o Led Zeppelin.

Mesmo hoje em dia, em que tenho mais uma ou duas bandas no panteão das preferidas além deles – uma delas é o Dredg, a outra varia conforme o humor – o zeppelin de chumbo é um som que me encanta e sempre me faz parar e escutar com atenção, na busca de uma textura sonora diferente ou algum detalhe anteriormente desapercebido.

Conversando com amigos, me indicaram a biografia do Metallica, do Mick Wall. Não tinha na livraria, mas durante a procura, observei uma jóia em capa dura. Um exemplar do livro não-autorizado do Led, do mesmo autor, calhamaço, coisa linda. Caro, mas eu sabia cada centavo seria bem gasto. Comprei sem medo de ser feliz.

Correr os olhos pelas letras do livro foi um reencontro com os gigantes. Com os velhos tempos, onde pegava os discos de vinil antigos na sala em Ramos, onde aprendi a ouvir música. E depois, quando ganhei minha própria vitrola, fiz grandes shows para cem mil ácaros com direito a bis – aliás, até hoje sou um grande band leader de engarrafamento, comandando verdadeiras platéias formadas por mim mesmo de dentro do carro.

Além disso, a história do Led é mágica. É muito raro ver quatro caras que tocam de forma tão esplendorosa juntos, se mantendo unidos no decorrer dos anos e fazendo petardos atrás de petardos. Mesmo com os “empréstimos” alegados no livro, a força motriz e criativa da banda era absurda e incontrolável, transformando trechos de obras alheias em novas e inesquecíveis músicas.

[pausa – fazia tempo que eu não usava isso: Embora haja furtos de pedaços de canções observados de forma incontestável, o livro traz algumas forçadas de barras. “Taurus” do Spirit tem um ou outro harpejo parecido com “Stairway to Heaven”, mas a diferença de qualidade das músicas é abissal e gritante, por exemplo. Fim da pausa]

Mick Wall se esmerou e fez um livro absurdo. Cobre os aspectos profissionais e as peculiaridades com o mesmo talento. Aliás, expõe o Led de forma tão minuciosa que os integrantes remanescentes o odeiam pela biografia. No caso desse gênero literário, isso é ótimo sinal.

Ao fim das mais de 500 páginas, deu vontade de voltar a ser criança em Ramos e fazer um show para ninguém. Conhecer mais da história dos gigantes me fez lembrar meus próprios momentos. A música continua a mesma.

P.S.: Bonzo, por que morrer tão cedo?

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Sobre o amor por vinis, leia aqui

Dor

Um pai deixa sua filha, um bebê, no carro. Na correria insana do dia-a- dia, a esquece lá por quatro horas e só lembra quando a esposa o alerta. Quando volta, desesperado, ao veículo, a criança já não respira mais. A leva para o hospital, mas já não adianta mais nada.

É difícil imaginar algo mais doloroso. Todos erram na vida. Todos. Eu, você, qualquer um. Na maioria dos casos, os erros são reparáveis e até os que não tem reparo, em grande parte permitem uma convivência relativamente pacífica com a consciência. Este tipo de falha, não.

No momento em que se dá conta do que ocorreu, este pai se julgou e se condenou inapelavelmente. Quando se olhar no espelho, sempre estará corroído de um dos maiores demônios: o remorso. Não é preciso que alguém aponte o erro, ou o recrimine. A autopunição é sempre a pior das penitências.

Eu confesso, não consegui ler a carta até o final. A dor desse pai é minha dor. Porque todos somos passíveis de erro, mas sempre há esperança de que possam ser consertados. Este, infelizmente, não pode.

E, ao chegar em casa, abraçarei forte a minha filha, rezando para que, a cada erro que eu cometa com ela, tenha a chance de corrigir. Uma forma de redenção, por mim e por aquele pai. Porque assumir a culpa e o erro com essa sinceridade também é uma forma de amor, das mais belas, mesmo na pior dor.

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A carta que eu não tive coragem de ler até o final, mas ele teve a coragem de escrever e assumir a culpa, está aqui

Adeus, Emanuelle

“Aos 60 anos, morre Sylvia Kristel”. A notícia chega assim, seca, sem preparo, nem eufemismos. Não sou daquelas pessoas que se enviúva da morte de famosos e a dama Krystel nem era tão famosa assim. Mas para minha geração ela era semideusa. A morte  comove e dói. E há muitos motivos para tal.

Ela era a protagonista de Emanuelle. Uma obra não tão prima assim do cinema erótico dos anos 70, que teve mais ou menos umas 478 continuações e vertentes. Praticamente um “Sexta-Feira 13” da putaria. Para quem foi adolescente no fim dos anos 80 e início dos anos 90, esta película representou ainda mais: foi sinônimo de libertação de uma geração e seus hormônios.

Era com Emanuelle que ficávamos acordados até mais tarde, esperando o “Cine Privê” da TV Bandeirantes, nas noites de sábado, para ver os peitinhos e, quiçá, pentelhinhos, de Sylvia Kristel.

Quando a pornografia era de raro acesso e os jornaleiros ainda eram fiscais do pudor e diziam “você é muito menino pra comprar essa revista”, a atriz holandesa foi a mãe de todas as fantasias. As revistas “eróticas” de mais fácil acesso na época eram os catálogos de “grifes” como De Millus e Avon e suas modelos de lingerie transparente.

Hoje pode parecer banal, e talvez seja mesmo, mas Sylvia Kristel foi a cafetina virtual de uma geração. Nos tempos sem internet e pornografia fácil, Emanuelle foi o iluminismo da putaria e picardia adolescente, deixando milhares de jovens insones e felizes. Com a morte da holandesa, grande parte da inocência lúdica daqueles meninos – eu incluso – se enterra também. Façamos a última homenagem.

Setembro Negro

Um final de semana que deixou gosto amargo em quem ama o futebol. Onde todos os motivos para se amar o esporte foram subvertidos. Onde a fé na humanidade e o amor pelo esporte sofreram mais um abalo.

Começou com a postura tenebrosa do árbitro Vuaden no Recife, nos Aflitos. Na terra onde Frei Caneca criou o Typhis pernambucano, foi ícone da Confederação do Equador e foi morto pelos anseios de liberdade. Onde nasceu a república brasileira, através da batalha dos Montes Guararapes. A Veneza brasileira presenciou um atentado contra a liberdade e a favor da vergonha.

Um bando de policiais pernambucanos, sempre truculentos no dia-a-dia, como cachorros vadios e submissos, obrigou dois torcedores a tirarem uma faixa que não dizia nada mais que a verdade, por puro capricho de um juiz medroso, medonho e autoritário. Talvez não  derrubem os amantes do esporte no apito, mas tentam cercear nosso direito e derrubar nossa liberdade.

[Aliás, parêntese: Nunca antes na história desse país se deu tanta importância ao árbitro. Um monte de comentaristas péssimos de arbitragem pagos para comentar o replay, reforçando o corporativismo e dando sempre razão ao apitador – exceto quando ele apita contra a seleção, curiosamente. Fecha parêntese.]

Do sábado no Recife, para os arredores do Engenhão domingo, estádio encravado entre diversas ruas estreitas, perfeitas para um arranca-rabo entre torcedores. Mas sobre torcidas organizadas, a síntese de um domingo de pancadaria é esta. Com sorte, o final – como neste domingo – não é escrito com tinta vermelha

Das ruas do subúrbio carioca para as arquibancadas do Couto Pereira, onde marginais frustrados, travestidos de torcedores do Coxa, quase espancam uma menina que queria a camisa de um ídolo do time rival, como se isso fosse motivo para linchamento. Talvez ela torcesse pro São Paulo, mas e daí?

Com base num fanatismo ridículo, esses mesmos caras fatalmente apoiaram a barbárie de 2009. E com toda certeza, esses mesmos caras, no mano a mano, um contra um, tremem, se borram. Só são valentes em grupo, o que diz muito sobre este tipo de gente, que existe em todas as torcidas, de todos os times…

… e nem sempre está travestida de torcedor, pode estar vestida com aparato oficial, como os brigadianos gaúchos que estavam abusando do seu poder, foram filmados e reagiram com violência, coagindo e humilhando o torcedor que presenciava e filmava a cena.

Falando em cena, houve ainda o caso do escocês ameaçado e achincalhado por usar uma camisa do Celtic no Pacaembu, porque ela é verde. E o escocês, que já viu rivalidade extrema no Old Firm, por uma questão religiosa, não deve ter entendido nada. Afinal, rivalidade cromática pura e simples é algo esquisito.

[Mais um parêntese – está virando moda esse negócio de parêntese: Claro que certas situações podem ser evitadas nesta transição com um mínimo de bom senso, mas este bom senso tem de vir do poder público preparado para isso, enquanto medidas educativas são tomadas para civilizar o torcedor. Ou, melhor dizendo, civilizar o cidadão.]

Todos estes fatos são assustadores e deveriam ser combatidos, modificados e – pela educação – banidos frontalmente. Mas como pedir ajuda da Confederação, se esta é comandada por José Marin, filhote da ditadura, que começou a vida política em um partido fascista – o PRP de Plínio Salgado – foi governador biônico e andou sempre de braços dados com o poder da repressão?

[Vamos abrir outro parêntese aqui – mais um parêntese? É, mais um: É muito interessante – para não dizer decepcionante – que redes de imprensa que foram tão combativas – com razão, diga-se – para pedir a queda de Ricardo Terra Teixeira se mostrem tão silentes e complacentes com o atual status da Confederação Brasileira de Futebol. Fecha parêntese.]

Neste fim de semana, o Brasil encontrou seus maiores demônios em estádios de futebol. Os capirotos que andavam soltos e impunes nos anos 60, 70 e 80. Censura, agressão, intolerância, subserviência. Mais uma vez, o demônio sapateou em cima da nação.

Um misto dos nossos anos de chumbo, onde todos os meses eram escuros e opacos, com o Setembro Negro, que entre muitos atentados fez o mais mirabolante deles com terrorismo esportivo, em Munique. Estamos sofrendo constantemente cortes na alma, no futebol e fora dele, dia após dia. Nossa inocência, indignação e inconformismo estão se afogando no mar de hipocrisia da sociedade em que vivemos.

No nosso setembro negro, não morreu ninguém, a não ser a nossa dignidade e nossa liberdade. A frase está mal escrita: Neste fim de semana, no nosso setembro negro, todos, que gostamos de futebol, sofremos um atentado terrorista. Todos nós morremos um pouco mais.

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Para ler os assuntos acima de forma detalhada, seguem os brilhantes textos
abaixo:

De Bruno Bonsanti: http://bonsanti.blog.uol.com.br/arch2012-09-30_2012-10-06.html

De Felipe Lobo: http://trivela.uol.com.br/colunas/nao-matem-o-futebol

De Thiago Arantes, com participação de Rodrigo Salvador: http://espn.estadao.com.br/post/284549_cusparada-agressao-choro-e-a-policia-imovel-o-absurdo-no-couto-por-quem-estava-la?timestamp=1349067221022

De Fabio Chiorino: http://www.esportefino.net/a-falencia-moral-do-futebol-brasileiro/

E no twitter @finomaravilha, o relato sobre a confusão do RS em detalhes.

O Direito a Ter Direitos

A greve é um direito constitucional. Cláusula pétrea, aliás. Traduzindo, aquilo que não pode ser mexido. A paralisação de um serviço de alta relevância  mexe com os ânimos e anseios de grande parte da população. O que suscita uma série de discussões. A maioria delas é válida. O tratamento dado a isso e a maneira de expressão é um ponto a ser observado.

Importante ressaltar: Sou a favor da greve. Acho que é um direito cujo alicerce foi batalhado durante muito tempo para que não seja respeitado. Além do mais, é fascista o ato de impedir de greve. E considero alienado alguém que se utilize de interesse pessoal para tentar impor uma vontade sobre questão pública.

Isto posto, adiciono que por mim se liberavam as catracas e todos entrariam sem pagar. Há um justo temor de que seja dada demissão por justa causa e há uma lei que configura tal prática como dano patrimonial. Alguns classificariam até como subversão, mas a defesa das liberdades sempre partiu de atos subversivos, contra o status vigente.

No meio desta greve, que a justiça avaliará como sendo legal ou não, dentro de um estado de direito, começam a se ouvir alguns pronunciamentos como “a greve tem motivação política”. Tudo na vida é política, até os atos pretensamente apolíticos.

Óbvio que a greve – qualquer uma delas – tem como conotação pressionar interesses públicos, de forma política. É nítido ainda que isso ocorre com mais vigor em ano eleitoral, porque o medo da perda de votos se transforma em trunfo na mesa de negociações.

O Governo, como todo e qualquer governo, tem que buscar a melhor solução para que o problema não perdure. No dito popular, cada um com seus problemas. O Poder Público que se vire para sanar os seus.

As pessoas acusam os grevistas, porque estão atrapalhando um direito individual. Mas não vislumbram o todo da sociedade. Alguns se aproveitam do movimento e fazem atos de vandalismo, visando interesses individuais também. A ironia humana do individualismo falando mais alto em uma paralisação de interesses coletivos, de um serviço público e coletivo.

No meio de um monte de opiniões soltas ao relento, as pessoas clamam e gritam pelo seu direito, mas não são capazes de enxergar e observar o direito dos outros. Qualificam a greve como se fora um crime, se esquecendo do quanto escorreu sangue – literalmente – para que direitos como este pudessem existir. Em um país na qual a comissão da verdade está em voga, muitas verdades soam inconvenientes.

Aristóteles, o Telê Santana da Grécia Antiga – bom treinador e mentor, foi inclusive tutor de Alexandre – sabiamente dizia que a escravidão é a apropriação dos homens vencidos na guerra, por meio de força e violência, para submeter os vencidos ao seus desejos e caprichos de modo coercitivo. Não se pode deixar que na guerra cotidiana, caprichos de poucos subjuguem os direitos de todos, garantidos pela Constituição. É preciso garantir o direito a ter direitos.