Contos Verdes

– Papai, por que você está chorando?
– Eu não estou chorando.
– Tá sim.
– Não tô, filha.
– Por que você está assim?
– Nada. [funga][passa a mão nos olhos]
– Papai, conta uma estória pra mim?
– Conto. Vamos pro seu quarto devagarinho pra não acordar seu irmãozinho.
– Tá.
– Pronto. Que estória você quer ouvir?
– Qualquer uma. Com o senhor contando fica tudo bom.
[sorri complacente]
– Vamos começar?
– Vamos. Era uma vez, um cavaleiro de armadura verde…
– Verde?! E existe cavaleiro de armadura verde?
– A estória é minha ou sua?
– É sua, uai. Mas eu nunca vi cavaleiro de armadura verde. O príncipe da Branca de Neve não tem armadura verde, nem o da Bela Adormecida, nem o…
– Mas esse é um cavaleiro diferente, imponente, que cavalga onde a luta o aguarda.
– Hum… deve ser bom mesmo, muitas palavras difíceis [sorri]
– Ahn, então… esse cavaleiro enfrentou vários cavaleiros e foi condecorado muitas vezes, tinha até fãs!
[arregala os olhos] sério?
– Sim… só que uma vez, inesperadamente, caiu. Se machucou, se feriu.
– Tadinho…
– Demorou, mas ele conseguiu se levantar. E voltou a ser aplaudido. Às vezes, seus fãs achavam que ele seria o mais querido cavaleiro do reino de novo, mas isso não acontecia. Mesmo assim, eles não desistiam.
– Nossa…
– E assim foi, por quase dez anos, até que o cavaleiro conseguiu chamar a atenção do Reino inteiro, ganhando mais uma condecoração.
– Eeeeee
– Só que aí…
– O que houve, Papai?
– Num torneio em que ele estava fraco, o cavaleiro foi derrubado de novo. Desta vez os fãs esperavam a queda, mas ela foi ainda mais dolorosa que a primeira. O cavaleiro de armadura verde estava muito machucado. Andava tropeçando, tentando lutar com o pouco de forças que tinha.
– Papai? [boceja]
– Oi, filha?
– Esse cavaleiro parece até nosso time de futebol, né?
– Ahn… [desconcertado] é…
– Mas não fica assim não, ele vai se levantar. E nosso time também.
[olhar enternecido]
– Eu, você e meu irmãozinho vamos comemorar muito.
[abraça a filha] Está na hora de você dormir
– Mas papai…
– Oi
– O cavaleiro do time da mamãe está muito melhor que o seu, mas eu prefiro
a armadura verde
– Hora de dormir…

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Livremente inspirado no camarada Fabio Chiorino, seus filhotes e seus textos, que você lê no Blog Esporte Fino

Filho Feio Tem Pai

O palmeirense é aquele torcedor que nasce calejado com o sofrimento. Nos períodos de seca ele tem imensa resistência a dor e decepção. Foi assim quando arrancaram seu nome Palestra à força e quando enfrentou períodos de jejum. Quando a vaca italiana da Parmalat deitou, deixando os bezerros oriundi desmamados, o Palmeiras perdeu força nacional, mas sempre foi grande. E nunca se deve menosprezar os grandes.

Nesta Copa do Brasil, o Palmeiras subverteu a máxima de que “filho feio não tem pai”. Um time limitado, com estrelas de brilho intermitente, que se notabilizou por jogar feio e buscar seu objetivo, o título.

O grande timoneiro da conquista é Luis Felipe Scolari. Tecnico campeão do mundo, estava na berlinda e sistematicamente questionado por frequentes fracassos. Dirigindo um Palmeiras que em 2011 passou por mais crises do que o casamento da Ana Maria Braga, o bigodudo treinador precisava de um título. E ele veio com requintes de raça e felicidade.

A campanha do Palmeiras começou devagar. Ganhou o Coruripe de Alagoas em dois jogos, o que gerou dúvidas sobre a real capacidade alviverde no torneio. Depois, chapuletou o Horizonte no Ceará, em um jogo só, e trucidou o Paraná Clube.

Nas quartas de final, derrubou mais um paranaense, o Atlético, que virou brisa. Até chegar o momento dos reencontros com o Grêmio, com Luxa, com Kléber Gladiador. O Palmeiras, subestimado até pelos seus torcedores, como se estivessem em autodefesa, ressurgiu em chamas. E se classificou para jogar a final com o Coritiba, o alviverde araucário que lhe havia sapecado uma sonora goleada, sem açúcar e sem afeto, na Copa do Brasil de 2011.

Don Filippo Scolari, abençoado por N.S do Caravaggio, decidiu matar o Coritiba com contornos corleonescos. “Deixe que seus amigos subestimem suas qualidades e que seus inimigos superestimem seus defeitos”. O Coxa cansou de perder gols no jogo de ida. O Palmeiras os achou. Valdívia, num pênalti garoto, maroto, travesso e Thiago Heleno, num gol a la Chaves, sem querer querendo, fizeram 2 – 0 no placar.

No jogo de volta, o capo de tutti capi e seus comandados mais uma vez aprontaram das suas. Suportou a pressão do time e da torcida do Coritiba, mesmo assim tomou o gol. “Nem todo o poder do mundo pode mudar o destino.” Bola parada. Mais uma entre tantas. Marcos Assunção, o sniper alviverde, o homem da precisão milimétrica, com um alcance quilométrico, alça a bola na área e…

[Pausa: Uma das coisas mais bonitas de finais de campeonato é quando um coadjuvante, ou um jogador muito subestimado, aparece para brilhar. Chamo este momento de “Efeito Belleti”, mas temos vários outros casos, como Burruchaga em 1986, Angelim em 2009, Mineiro em 2005. Quem gosta de futebol guarda estes momentos com carinho – Nota do escriba: Os – poucos – leitores deste espaço lembram ainda de Cocada em 1987 e Adriano Gabiru em 2006. O assunto rende um texto só pra ele. Um spin-off.]

… a bola caprichosamente encontra Betinho, o jogador achincalhado, o bonde simbólico do Palmeiras 2012. Betinho, o bonde chamado desejo. Desejo de taça. Gol do Palmeiras. Gol do título. O jejum, assim como Luca Brasi, dorme com os peixes. Vitória de um time feio, mas aguerrido, raçudo, que transformou sua limitação em combustível e fez brotar no sisudo rosto do seu treinador um sorriso.

A nação verde despertou de mais um ciclo de tristeza e dor. Voltam a ter orgulho de colocar seu uniforme, de sorrir nas ruas. O Palmeiras de 2012 devolveu alegria a quem estava acostumado com a perda. O time feioso tornou grande parte da cidade mais feliz e mais bonita. O time de Scolari, que prova que filho feio pode ser bem sucedido. E que filho feio tem pai.

Poncho Molhado

Velhos conhecidos se reencontrando em posição de destaque. Assim são Palmeiras e Grêmio. Embora alguns papéis tenham se invertido, o encontro de ontem tinha muito da aura de 1995. Sem glamour, mas o espírito estava lá. E em Porto Alegre, soprando o vento norte

Grêmio e Palmeiras não tem mais grandes esquadrões, mas continuam sendo times grandes, com torcidas grandes. O jogo de ontem foi o primeiro capítulo de uma história de ressurreição, cujo autor só será conhecido após o fim dos 180 minutos.

Embora o Palmeiras seja paulista, sua alma oriundi, seu time operário e seu técnico gaudério transformaram o jogo de ontem contra o Grêmio num clássico dos pampas. E entre os técnicos e os times muito mais semelhanças do que diferenças.

Equipes de história grandiosa, que passaram por um rebaixamento, e hoje contam com técnicos que rodaram o mundo e voltaram, decadentes, ao seu país. Com um ódio visceral que os une e os separa, Luxemburgo e Scolari se encontram em um mata-mata depois de décadas, cada um com seu aroma de vingança pessoal.

O jogo em si foi travado, com os jogadores parecendo enredados pela boleadeira. Poucas chances, pouca movimentação. Durante 80 minutos não houve emoção que justificasse um confronto daquela magnitude, exceto pelas bolas paradas como a de Fernando, que caprichosamente estrondou no poste à espreita. Mas aí a partida ganhou contornos de música nativista, puro som bagual.

Como diria Adair de Freitas, de já hoje Felipão voltou aos áureos tempos regressando ao rincão onde nasceu. A escalação de Henrique já havia surpreendido Luxemburgo, mudando o panorama do jogo. As entradas de Cicinho e Mazinho mudariam mais do que isso, selariam o destino da partida.

Menino Rondinelly tem nome de Deus – da raça – mas foi demônio ao bater mal uma cobrança de falta. Logo após o vacilo na querência amada do Grêmio, um contra-ataque maligno do Palmeiras.O mulato maroto Cicinho, para o negro Messi Mazinho. Como diria José Fogaça, vai correr e quem vai embora tem de saber, que é viração. Do vento negro vindo do verde, no barbante de Victor. Palmeiras 1 – 0 Grêmio.

E não havia terminado o suplício azul. Vendo o projeto do título da Copa do Brasil poder escorrer como areia do Palace II, Luxemburgo mandou o time mais à frente e o palmeirense Juninho, ao recuperar a bola, cruzou para Barcos, o pirata da milonga das missões, que cabeceou marotamente. Victor chegou mais atrasado do que novato em concurso de chula. Palmeiras 2 – 0 Grêmio. Apito final do jogo de ida.

Ainda não sabemos quem vai se classificar. Tudo pode acontecer na segunda perna da Copa do Brasil. Mas este jogo, além de povoar de pesadelos a mente gremista, resgatou o espírito gaúcho de Luis Felipe Scolari, que ensinou uma grande lição sobre o Palmeiras aos seus jogadores. Eles honraram a camisa verde, como não faziam há tempos, a vestindo com a liturgia de um poncho molhado. Porque o porco, como o boi, é bicho mas tem alma sob o couro.