Efeito Moral

Ele se prepara. Passou no concurso público faz pouco tempo. Garante seu soldo. Hoje tem missão. Coloca a farda, se protege. Recebe as instruções do líder. Escudo, cassetete, arma na mão. Hora de partir. Não pensa em nada. Apenas vai. Cumpre ordens. É pelo estado. É pela ordem.

Escuta os murmúrios, que viram brados. Posicionado. À espreita. Palavras de ordem. Estão desarmados. Desarmados? Será? Dúvidas. Mas são baderneiros. Baderneiros. Escuta essa palavra há semanas. Ela ecoa em sua cabeça. Escudo bate no cassetete, é a percussão que acende o pavio. A flor que é oferecida, o estopim da bomba. Bum. Gás lacrimogênio. Efeito moral. Pra quem?

A primeira bomba, o primeiro tiro de borracha. E depois, mais. Muitos mais. Ele atira, sem saber ou se importar com quem está do outro lado. Alguns caem, em posição de clemência. Mais borracha. Mais bombas. Não para. Flores em progressão aritimética, bombas em progressão geométrica. Se dá um beijo, dá um tiro.

Eles fogem, ele vai atrás. Caçada, opressão. Dispersar. Gritos. A formação se esvai. Baderneiros. Quem? A adrenalina sobe, ele até sorri. Eles comemoram. Cada hematoma nos outros é uma condecoração a si. Fim das manifestações. Dispersar. Descansar. A adrenalina não baixa. Volta ao batalhão.

Tira a roupa, toma uma ducha, pega uma carona que o deixa no ponto de ônibus, longe do seu local de trabalho. Pega um ônibus pra casa. Não paga passagem, dá carteirada, mas repara no preço. Está caro. Faz um cálculo rápido, faz diferença no orçamento de qualquer um. A adrenalina começa a baixar.

Uma senhora está no ônibus, mancha roxa nos braços. Provavelmente um tiro de borracha. Poderia ser sua mãe. Talvez, avó. Não tem a mínima cara de baderneira. Sua mãe andava de ônibus, sua avó também. Elas não davam carteirada. Abaixa a cabeça, envergonhado.

Lembra que fez concurso público pelo salário, mas também para cuidar da população. Aqueles sonhos de criança, quando assistia “Chips”. “Servir e proteger”. Servir o que? Proteger a quem? “Não pergunte se somos capazes, dê-nos a missão”. Capazes de que? Qual é a missão?

Chega em casa, liga a TV, as informações são confusas. Jornalistas feridos, manifestantes também. Ele não viu rostos, não reparou, mas lembra que sorriu. A vergonha aumenta, não soube quando deixou seu lado mais obscuro aflorar.

Sua mulher está dormindo, seu filho também. Eles poderiam ser manifestantes. Poderiam ter tomado uma bala de borracha, ou um spray de pimenta, ou uma bomba na cara. Suspira fundo. Vai tomar banho. Quando sai do chuveiro, se olha no espelho. Se sente sujo. Imundo. Manchado. Efeito moral. Chora.

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