Abstenção

“O Senado aprovou a cassação de Demóstenes Torres por 56 votos a favor a 19 votos contra, com cinco abstenções.”  Esta foi a notícia recorrente na semana passada. Sem entrar no mérito político da cassação em si, até porque sobre isso já demos um pitaco, o assunto trouxe à tona o famigerado instituto da abstenção.

Abstenção. O Houaiss define a palavra como: 1. recusa voluntária de membro de assembléia de intervir, como participante, em discussão, deliberação, decisão etc; 2. Rubrica: termo jurídico, repúdio, declaração de que não se quer alguma coisa Ex.: a. de herança; 3 Rubrica: política. Renúncia do eleitor ao direito e dever de votar. 

Há poucas situações que justificam uma abstenção. O eleitor vota nulo, ou branco, se abstém como posição política – o fato de protestar ou  se declarar “apolítico”, inclusive, é uma posição política. Em relações pessoais, se abster de dar opinião é aceitável, uma vez que certas decisões da vida são coisas indivisíveis e opinar neste caso atrapalha mais do que ajuda. Na grande maioria das vezes, entretanto, se abster é se omitir, de forma covarde.

No caso da cassação de Demóstenes, há o agravante da votação ter sido secreta – instrumento feito para proteger políticos em caso de ditadura e hoje muito utilizado pelos mesmos políticos para suas práticas corporativistas. Houve 19 votos contrários à cassação, que talvez não se sustentassem se a sessão fosse com voto aberto. Na prática, porém, houve 24.

Porque cinco senadores abriram mão covardemente de opinar, jogando apenas para a torcida, se escondendo atrás da “abstenção”. Quando se é eleito – ou se é suplente – em um mandato de 8 anos, certas coisas deveriam ser proibidas. Se omitir é uma delas. Afinal, a função desses políticos é legislar. Se pode até desaprovar veementemente quem votou contra, mas não se pode negar que tiveram a “coragem” [temos de lembrar quem foi uma sessão secreta] de firmar sua posição. E quem se absteve?

O ato é legal, mas não é justificável, nem deveria ser aceitável. E muitas vezes não basta a letra fria da lei, é preciso que a mesma seja aplicada dentro dos anseios sociais.  A falência do poder legislativo brasileiro é crescente, culminando numa onda não recomendável de resignação da maioria votante.

Alguns poucos cidadãos votam tentando modificar o panorama, à esquerda ou à direita, ou protestam, se abstendo de votar. A maioria, obrigada a votar, esquece destes detalhes e, de dois em dois anos, marca qualquer coisa nas urnas, apenas para se livrar do fardo de decidir, o que não deixa de ser uma abstenção, uma pena e um ciclo vicioso. O fim do voto obrigatório reduziria – muito – o problema.

A falta de contrapontos e argumento é um problema imponente, mas é muito menos do que a falta de postura, o conformismo, as opiniões voláteis. A política do Brasil nunca esteve em uma antítese tão grande: Enquanto amadurece economica e socialmente, vê um questionamento moral cada vez maior. Enquanto essa abstenção – e aberração – política ocorrer, as mudanças do país serão sempre vagarosas.

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A Ciranda do Cinismo

Paraguai. Além de Arce, Gamarra, Itaipu, Larissa Riquelme e comércio exterior – aquele ato de atravessar a ponte da amizade e consumir produtos com alíquotas amigáveis, quando as tem – ninguém lembra do país guarani com freqüência. O surreal impeachment do presidente Fernando Lugo traz a nação aos holofotes novamente.

A nação tricolor sempre teve uma queda pela ditadura. Desde os tempos do presidente vitalício – eufemismo charmoso – Solano Lopez, que aliás era filho de ditador, passando por Alfredo Stroessner, o Paraguai seguiu a tradição sul-americana de ser uma terra de ditaduras com poucos períodos de democracia.

Entretanto, era de se prever que o Paraguai tivesse tempos de paz após Stroessner e a transição na seqüência com Andres Rodriguez, o que não ocorreu. Wasmosy, Cubas, Macchi e Duarte fizeram governos democráticos com o fio da navalha bem afiado – O vice-presidente de Cubas inclusive foi assassinado.

Fernando Lugo, eclesiástico, foi eleito em 2008 destroçando uma hegemonia de 60 anos do Partido Colorado. Era sustentado por uma base ampla de partidos de esquerda e direita. Um presidente do povo, filho de Deus, para o povo. Enredo romântico de filme com final feliz, que nunca se realizou.

O alicerce que sustentava Lugo se quebrou paulatinamente durante os anos de seu mandato. O presidente ficou cada vez mais só. Além disso, começou a viver um inferno astral extremamente irônico para um eclesiasta.

Teve comprovada a paternidade de dois filhos concebidos enquanto era bispo e enfrentou bravamente um câncer linfático. Além disso, a principal promessa do presidente, a reforma agrágria, não andou para a frente em seu governo. Sua plataforma política caiu pelas tabelas e o apoio, institucional e popular, estava seriamente comprometido.

Aí ocorreu o fato detonador de toda a sórdida situação atual: O massacre de Curuguaty, um conflito entre sem-terras e capatazes. No caso, cupinchas de Blás Riquelme, ex-senador do Partido Colorado. 18 mortos, de ambos os lados, manchando com mais sangue a terra impura e obtida ilegalmente, nos tempos ditatoriais, de um caudilho oligarca. Nitroglicerina eleitoral.

O massacre foi enquadrado como delito presidencial na Constituição paraguaia, de texto prosaico e simplório, a ponto de permitir estas livres interpretações. Com a perda do apoio do Partido Liberal, a posição de Lugo enquanto presidente ficou extremamente frágil, ainda mais em um país cuja interpetação de democracia é amplamente distorcida.

O congresso paraguaio, na ânsia de se livrar do indesejável chefe de estado, forjou uma pantomima. Mais uma vez adaptou prazos e interpretou a Constituição de maneira esdrúxula. Lugo foi destroçado impiedosamente por seus inimigos políticos numa ciranda de cinismo poucas vezes vista em um meio tão sórdido quanto a política.

O vice-presidente assumiu. O ciclo político paraguaio pós-ditadura vai se repetindo, como farsa. Provavelmente Franco, a seguir o roteiro cuidadosamente remontado na República Guarani, será trucidado futuramente. Em ciclos. Em uma ciranda. Cínica. A política paraguaia é o produto mais falso que o país gerou durante toda sua história

O Presidente Celeste

Presidente. Status. O poder de ser uma pessoa importante. Inebriados pelo poder, presidentes geralmente esquecem a austeridade, as peculiaridades e ficam mais ricos, robóticos e pomposos. Não é o caso de Pepe Mujica, mandatário uruguaio.

Um país pequeno, mas com brios lutadores desde sua independência, a República Oriental do Uruguai sempre se pautou por momentos políticos instáveis, que culminaram com a ditadura iniciada por Bordaberry em 1973 e que se encerrou em 1985.

Ex-guerrilheiro tupamaro e ex-preso político, José Pepe Mujica foi libertado em 1985, juntamente com a volta da democracia ao país cisplatino. Logo que recuperou sua liberdade, declarou que todos no país deveriam aprender a viver como pobres. Casado com a ex-guerrilheira – e ex-classe abastada – Lucia Topolansky, ambos se mudaram para uma chácara e recomeçaram sua vida de forma simples.

Foi deputado e Ministro da Pecuária, Agricultura e Pesca. Eleito presidente em novembro de 2009, preservou seus hábitos simples. Doa 90% de seus rendimentos a um fundo de moradia e ao partido – Frente Ampla. Sua esposa faz o mesmo com seu quinhão de senadora. É comum vê-lo realizando tarefas prosaicas como comprar uma tampa de privada. Pepe Mujica não abre mão de ser humano, no sentido mais generoso da palavra.

Mujica é um estudioso da antropologia. Os doze anos preso foram revertidos em estudos e mais estudos sobre o comportamento humano e as condições para uma vida melhor. Pepe acredita na humanidade como elo de ligação entre si. Em um mundo onde status confere grau de quase santidade a estadistas, ele faz o caminho contrário. Acredita na proximidade com o povo e leva a cabo o lema de que o “líder deve estar onde seus liderados estão”.

Em vez de Rolls-Royces ou Limusines, Mujica tem um Fusca. 1987. Se este fusca falasse, poderia traçar com exatidão o perfil de seu motorista. Atropelamento e fuga de todo e qualquer senso normal. Mujica e seu Fusca, uma dupla incomum no atual cenário mundial.

Obviamente Mujica deve ter defeitos. Um monte deles. Quem não os tem? Por outro lado, quem abriria as portas de um palácio presidencial para abrigar os pobres? Populista? Talvez. Mas não há recordações de um presidente populista ou caudilho que tenha feito isso. Se é demagogia, é daquelas que efetivamente ajuda ao povo.

Cabe lembrar que, ano passado, quando uruguaios pobres morreram de hipotermia, Mujica demitiu a Ministra responsável, por não ter feito nenhum plano de ação preventivo ou repressivo de tal situação. Agiu em vez de contemporizar. Isso também é raro em Chefes do Executivo.

Não é caso de dizer que, por este tipo de comportamento, Pepe Mujica é um brilhante estadista. Deve ser avaliado e observado de forma crítica, como qualquer político. Mas o presidente charrúa é diferente. É nítido que ele se preocupa com o aspecto humano e, mesmo que o acusem de demagogo e populista, é dos poucos que levou ao pé da letra as tentativas de auxiliar seu povo, de maneira realista.

O sopro de diferença neste mundo uniforme e cinzento nos dá uma perspectiva celeste, como a cor oficial da bandeira e do uniforme do país que Pepe Mujica dirige. Com o cuidado e a singeleza que guia seu Fusca, também azul. E é muito bom sair da poluição da mesmice.

A História Se Repete

“A história se repete como farsa”. Um brocardo antigo, que muitas vezes se prova eficaz e infalível. Seja em tempos antigos, seja em tempos atuais, sempre há um exemplo que permita que o ditado nunca caia em desuso e seja lembrado com esmero.

Demóstenes. Orador grego famoso. Reza a lenda que superou uma gagueira imensa, declamando poemas correndo contra o vento e falando com a boca cheia de seixos, para se tornar dos maiores realizadores de discursos da Grécia Antiga. As filípicas tiravam Filipe II da Macedônia do sério. Demóstenes era um esteio político.

Demóstenes. Político goiano famoso. Formado em direito, obeso, começa sua carreira como promotor de justiça, galgando espaços na procuradoria até chegar a secretário de segurança do Governo de Goiás e, posteriormente, Senador da República. Ganha destaque como maior e mais honesta voz da oposição, presidindo a Comissão de Constituição e Justiça do Senado e relatando a Lei da Ficha Limpa, contra maus políticos.

Na Grécia Antiga, o orador se vê envolvido em conspirações, se vendendo a um Ministro de Alexandre, o Grande, é preso, consegue fugir, deixa Atenas e sua influência decai. Volta depois, triunfante, revolta-se contra Antíptaro, sucessor de Alexandre, sente sua chapa esquentar e, no templo de Poseidon, se suicida.

Na Brasília atual, Demóstenes é levado por uma cachoeira de denúncias. Toda sua moral paladina escorre pelo ralo. Seus apoiadores começam a lhe dar as costas, seu nome vai para a lama, mas ele, usando de sua inteligência inegável e as brechas que a lei lhe permite, vai se calando, ironicamente, esperando a poeira baixar. Quando um homem cuja virtude é ser orador usa de silêncio para se salvar, é porque algo fez. E não foi bom.

O ciclo vai se fechando. O Demóstenes antigo nada tem a acrescentar, mas o Demóstenes novo ainda tem tempo de se salvar, no Templo de Poseidon das brechas da lei. Resta saber se cometerá suicídio político. Por enquanto, de forma metafórica, mas com coincidências gritantes, a história vai se repetindo. Como farsa.

O Espinho de Rosa

Atualizando minha leitura de domingo, dei de cara com um texto do El País, retratando o encontro entre uma vítima do terrorismo e seu algoz. Rosa, catalã, e Rafael, basco, etarra e ex-chefe do ETA em Barcelona, mentor do atentado de 19 de junho de 1987 que matou 21 pessoas e feriu 45. Dentre elas, Rosa, seu marido e seu filho de 3 anos.

Graças a um programa do governo espanhol, pela reinserção de presidiários, vítimas e algozes podem se encontrar. Rosa M. P. e Rafael Caride estiveram finalmente frente a frente. 25 anos depois, ela tinha a alma sufocada de perguntas e porquês. Ele tinha as respostas. E teria o direito de negá-las, embora tivesse o dever de dizê-las.

Quando se olhassem nos olhos, poderia ser o ódio uma freqüência comum de comunicação – ou da falta dela. Mas não foi isso o que ocorreu. Mesmo com a sede desesperadora de respostas, Rosa foi terna. Incisiva, dura, mas terna. Não chegou à complacência, mas manteve a serenidade, mesmo quando disse ao terrorista que “queria ver sua cara e lhe dizer que você me devorou a vida”.

Rafael respondeu tudo. Primeiro com aparente frieza; depois com mais vontade e desprendimento. Em ambos os casos com riqueza de detalhes, como se repassar os passos lhe fosse indulgente e como se dar as respostas à sua vítima pudesse aplacar as dores – dela e dele.

Confessou como é difícil sair de uma organização rebelde – que muitas vezes teve atos criminosos como este e, quando ela  perguntou, francamente, sobre como ele se sentia sendo mentor daquele atentado, não soube responder. Talvez nunca tivesse pensado nisso. Provavelmente a causa tinha estrangulado seus próprios juízos de valor. Fanatismo tem dessas coisas.

Ao fim da conversa, Rosa explicou a Rafael que com ódio não se consegue nada, que o caminho passa sempre pela paz. Como disse aquele cabeludo que o Rei – Roberto, não Juan – Carlos citou, “não importam os motivos da guerra, a paz é o mais importante”.

Deixou um livro sobre anjos, que primeiramente Rafael rechaçou, por se dizer sem religião. Ela, firme, lhe disse que não era sobre Deus, era para que lhe fizesse companhia. Mas o que é Deus para quem acredita, senão a muleta e o norte que faz companhia quando se está só e descrente?

Rafael agradeceu a valentia de Rosa, denunciando alívio. Se deram as mãos. Dali, Rosa saiu, mostrando que o espinho da piedade, do perdão e do entendimento é muito mais contundente do que o ódio e a vingança. E, fatalmente, cortou o âmago de Rafael, que provavelmente dorme com o arrependimento e o remorso. E não há ferida que angustie mais a alma do que o remorso.

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Crônica baseada no texto do El País, de XXVI. 05.2012 => http://politica.elpais.com/politica/2012/05/26/actualidad/1338055516_639919.html

Pátria de Chuteiras

A globalização gerou equipes de futebol estelares, times que se equiparam e, muitas vezes, superam seleções. Atualmente, temos oportunidade de ver verdadeiros esquadrões dos sonhos forjados com dinheiro, quando antigamente os que timaços existentes eram muito mais obra da inspiração do acaso e da transpiração do treinamento do que moldados pelo vil metal. Mas há um time que destoa desta nova ordem mundial: O Athletic Bilbao.

O Athletic é o legítimo representante do País Basco. Mesmo com a flexibilização de algumas regras, só aceita jogadores bascos ou que tenham raízes bascas em seu elenco, ao contrário de sua maior rival, La Real Sociedad – que aceita estrangeiros, embora não aceite espanhóis. Por isso, reduz as alternativas de mão de obra, recrutando apenas jovens com as características citadas.

Nos tempos de limitações de estrangeiros, o Athletic foi um grande da Espanha, faturando vários títulos e sendo temido pelos rivais Barcelona, Real Madrid e a própria Sociedad. Com a abertura de mercado, o time perdeu espaço e correu, por diversas vezes, o risco de ser rebaixado. Quis o destino que um forasteiro desse à instituição de alma nativista um novo alento.

Marcelo Bielsa, argentino, de família intelectual, conhecido por sua obsessão nos fundamentos do futebol, assumiu o desafio de treinar a esquadra basca e moldá-la ao seu feitio. No decorrer da temporada, transformou um time vacilante em insinuante, que ataca com rapidez e busca o gol a qualquer preço.

De berço influente, cujo irmão Rafael foi Ministro de Relações Exteriores da Argentina e é um dos maiores juristas de direito público da atualidade, além de bom poeta, Marcelo teve intimidade com a delicadeza das palavras e conhecimento, atrelando a isso sua fome eterna em jogar, estudar e aprender os meandros do futebol. O resultado disso é um técnico com características e peculiaridades únicas, conhecido popularmente com o apodo “El Loco”.

Pois El Loco chegou a Bilbao para virar herói, como se fosse um “ballenero vasco”, mito das cantigas locais. A ele, juntam-se os alucinados e ensandecidos que povoam “La Catedral” de San Mamés, torcedores fanáticos que pulsam o time nas veias, bombeando a equipe de encontro aos adversários e transformando o estádio num dos mais sagrados locais profanos do futebol.

Soma-se a este conjunto de fatores uma geração talentosa que conta com ótimos jogadores como Muniain, Susaeta e Llorente, que aprendeu com seu treinador a não desistir nunca e vem demonstrando ser copera y peleadora, a ponto de estar na final das duas competições eliminatórias que disputou, a Copa del Rey e a Liga Europa, buscando um título, uma vez que o doce sabor da vitória há muito tempo não é degustado pela equipe e seus adeptos.

Em Bucareste, na final do torneio europeu, o Athletic encontrará o Atletico Madrid, time que nasceu em sua homenagem. Atletico, o pato feio e primo pobre da capital. Num jogo entre clubes que foram grandes e querem retomar seu lugar entre os gigantes espanhóis. Um jogo de Davi contra Davi, no qual ambos lutam por recuperar a grandeza mas só o Athletic joga pela grandeza e por uma nação.

Este time, cuja camisa é vestida por nativos ao menos na essência, que leva no coração e nos pés a esperança de um povo sedento por afirmação cultural e política, defendendo uma língua rara e marcando sua identidade como poucos outros, chegando até a níveis extremos.

Athletic, a verdadeira pátria de chuteiras, carregando os anseios de uma nação e fazendo o mundo observar uma região que estava sendo notada pelos atentados terroristas do ETA, hoje finalmente relembrada pelo seu futebol. Pela história, por Bielsa, pelo estilo e pelo futebol, essa pátria terá na torcida o reforço carinhoso de muitos amantes da bola no dia 9 de maio de 2012, para que Bucareste seja mais um pedaço do Euskadi.

Tic Tac

O Brasil é o país da contradição. Mais do que a hipocrisia, a contradição molda e ambienta todo nosso modus vivendi. Camadas e camadas de pessoas que teimam em se achar diferenciadas, água e óleo, quando são apenas pessoas.  Nesta pátria partida, a evolução social e financeira vem causando a inevitável queda da máscara da hipocrisia e, com isso, se aproxima o momento de uma verdadeira convulsão social, que hoje, embora ainda seja silenciosa, já começa a emitir seus primeiros murmúrios.

Com a estabilidade da moeda iniciada no governo de Fernando Henrique e perpetuada nos governos Lula e Dilma, o povo brasileiro de qualquer classe social passou a poder sonhar e se planejar. Os governos Lula e Dilma adicionaram a esta mistura um componente social importante, que permitiu às camadas sociais mais pobres finalmente respirar o ar da modernidade e viver com mais conforto e dignidade do que jamais viveu.

Além disso, a jovem democracia agora debutante permite as mais diversas formas de expressão e inclusão. E, curiosamente, a soma de evolução social com evolução da liberdade de expressão abre uma rachadura irreparável na lenda de que o brasileiro é um povo tolerante, compreensivo e sociável. Não é. E isso é comprovado desde as senhorinhas pudicas de Higienópolis até os playboys de Boa Viagem, passando pelos pitboys da Barra da Tijuca, todos irmanados em serem irascíveis.

A moda do momento no Brasil é o maniqueísmo. Uma moda vintage, eu diria. Esquerda contra direita, cotas contra anticotas, a favor do aborto, contra o aborto, velha classe média contra nova classe média. A tentativa de impor posições e rótulos no grito, para mostrar que sua posição é onisciente, como se houvesse apenas uma face da moeda. O debate é esquecido, não existe mais, o que comprova que toda a evolução social e financeira não esconde uma falha grave e letal na formação do caráter da atual sociedade brasileira: A involução da educação.

O país que trata professores como prostitutas, obrigando profissionais dedicados a trabalharem em diversos lugares e fazerem jornada tripla para viverem com um mínimo de dignidade, pois seu salário é ridículo. O péssimo trato ao professorado é uma chaga indelével e nefasta do governo de FHC, que Lula e Dilma não corrigiram. E o impacto disso se reflete de forma cada vez mais cristalina em nosso convívio social.

Cada vez menos jovens querem ser professores. Cada vez menos educação é dada em casa e, com menos docentes, o nível educacional decai. E assim, vamos criando uma sociedade cada vez menos educada e mais involuída, num paradoxo gritante com a evolução social e financeira.

Sem educação, com ignorância, com truculência. É assim que opiniões divergentes hoje se tratam no Brasil. Uma das maiores virtudes que qualquer sociedade pode ter é o bom senso. E esta virtude é solenemente ignorada no país. Pegando o gancho de uma discussão recente, cada vez mais o corpo social brasileiro é anencéfalo.

Assim, com mais informação, com mais dinheiro, com mais pessoas podendo se expressar, mas sem um pingo de educação e respeito, nosso país vai se tornando uma ode ao confronto  entre classes, uma bomba-relógio prestes a explodir e que, caso seja acionado o detonador, pode expor ainda mais a fratura horrenda do caráter de nossa sociedade. Tic Tac.