Jurubeba

Mirrado, franzino e com a voz que parecia um fiapo, ninguém acreditou quando Luiz Abelardo perguntou se poderia jogar na pelada da Rua Roberto Silva. Os moleques olharam desconfiados aquele garoto que mais parecia uma armação de pipa, de tão magro. Perguntaram a ele em que posição jogava e ele praticamente sussurrou: “no gol”.

Pois deixaram Luis Abelardo na de fora. Quando ele entrou, com o time mais fraco possível, simplesmente fechou o gol. Os guris tentaram vazá-lo de tudo quanto era jeito. De esquerda, de direita, de cabeça, e nada. O garoto magrinho parecia um exu tranca-rua debaixo dos três paus, transformando as redes em sua oferenda.

Depois daquela pelada de fim de tarde, P3, Pedro Paulo Pedreira, o técnico do time da Roberto Silva, que estava sendo em um bar na esquina, chamou o guri. Perguntou se ele queria jogar no Campeonato de Ramos pelo time da rua. Os olhos de Luiz Abelardo brilharam e ele já acenava a cabeça positivamente quando escutou uma voz de trovão.

“Moleque, qual é teu nome?”
“Luis Abelardo”, respondeu, com sua voz suave e pequena.
“Porra, isso nunca vai dar certo!”

O menino se assustou e o técnico da Roberto Silva se irritou com aquele velho barrigudo e intrometido. Salvador era o nome dele. Com aquele sotaque esquisito de quem comia pinhão, dizia que tinha sido zagueiro do Coritiba ao lado do Fedato, e que tinha jogado mais que ele. Todo mundo levava isso como bravata, mas era inegável que, entre uma cachaça e outra, o araucária parecia conhecer de futebol.

P3, já irritado, emendou:

“Ô Salvador, por que você acha que isso vai dar errado?”
“Porra, P3, o moleque tem nome de funcionário público de livro do Nelson Rodrigues. “Luiz Abelardo”. Onde isso vai dar certo. Não tem sonoridade de nome de goleiro!”

P3 ficou olhando incrédulo para o barrigudo curitibano, que arrematou:

“Veja só, presta atenção: quem era o goleiro do Flamengo campeão do mundo?”
“Raul”
“Raul, não. Rauuuuuuuuuuuuuuuuuuuul”
“E o do Vasco campeão carioca de 1982?”
“Acácio”
“Não, porra. Acáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaacio”
“E o do Fluminense?”
“Paulo Victor”
“Não, cacete. Tudo junto! Pauloviiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiictor”

Depois de entender o raciocínio, P3 emendou:

“E o do Botafogo era o…”
“Cara, o Botafogo ganhou algo?”
“Não”
“Também, com goleiro sem sonoridade fica difícil. Com esse nome, o moleque não vai longe. Temos de mudar o batismo dele”

Luiz Abelardo olhava incrédulo para a discussão entre os velhos. P3 tentava argumentar e Salvador tomava mais um quartinho de sua cachaça, quando olhou para o rótulo da garrafa e definiu:

“Meu filho, tu, a partir de agora, vai se chamar Jurubeba nas peladas. Tudo bem assim?”

Luiz Abelardo apenas assentiu com a cabeça.

“Veja a diferença, P3: Luiz Abelaaaaaaaaardo, olha que porcaria”
“E agora… Jurubeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeba, como um gato! Tá vendo?!”

Ambos gargalharam e até o franzino moleque riu. A partir daquele momento, Jurubeba era o camisa 1 do time da Rua Roberto Silva.

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Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, algumas personagens e jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “1986” “Regulamento”“Superstição”, “O Pênalti”“O Professor”“Arena”“O Protesto”“Maldição” “Po锓Cabaço” , “O Amor na Marca da Cal” e “O Clássico”

1986

21 de junho de 1986. As ruas de Ramos estavam vazias naquele sábado à tarde. E silenciosas. Se caísse uma agulha em qualquer lugar do bairro, seria prontamente escutado. A última frase que havia sido proferida, em altos brados, foi um “puta que pariu, não!” a plenos pulmões.

Na Rua da Feira, silenciosamente, Zabelê, Zumbi e Besouro, irmãos e companheiros de ataque no Cimão, saíram com a bola debaixo do braço. Encontraram Comunista e Munha, rivais do time da rua de baixo, mas naquele momento não havia clima para guerra. No meio da tristeza, havia um inimigo em comum e ele haveria de ser enfrentado.

Encontraram Girino chorando abraçado a Cecê. Logo eles que se digladiavam tanto e sempre nos clássicos do campeonato do bairro estavam ali, transtornados. Bobby chegou por perto, se comunicou com os irmãos hippies apenas com um olhar e disse aos galalaus emotivos: “Não acabou!”.

Ali, na rua, montaram as traves. Onze contra onze. Seriam eles que iriam enfrentar Platini, Bats, Giresse, Tigana, Amoros, entre outros. O apito imaginário tocou e eles começaram a jogar contra o mais envolvente e poderoso dos adversários: a imaginação.

Munha tabela com Zabelê, sabendo que Girino e Cecê estariam segurando a defesa. Passaram de passagem por Tigana e Amoros. Se livraram de Fernandez, que não sabia marcar. Um passe estilingado para Cabaço, que com um drible de corpo deixou Battiston na saudade. Ao cruzar, encontrou Comunista, livre, que só tocou para as redes. 1-0.

O time não se furtava ao ataque, embora os adversários fossem perigosos. Mas ali era uma revanche, uma vendetta, uma vingança, e eles não seriam intimidados. Mesmo assim Stopyra passou para Platini, que arriscou um chute. A bola desviou em Girino e enganou Bobby. 1-1.

A equipe poderia ter se abalado com o empate, mas não se assustou. Em uma tabela envolvente, Cabaço deixou Munha livre na área, e ele foi derrubado. Ainda houve a impressão de que ele teria caído sozinho, mas a arbitragem apontou para a marca de cal. Pênalti.

Um princípio de discussão se formou. Normalmente, Besouro bateria o pênalti, mas Zumbi tomou a bola do irmão. Um quiprocó se formou. Besouro queria efetuar a cobrança, mas Zumbi apresentou um argumento irrefutável:

– Não cara, tu não vai bater essa porra. O último flamenguista que bateu pênalti contra a França durante o jogo não funcionou. Deixa eu cobrar, eu sou América.
– Porra…

Não dava para contra-argumentar. Assim, Zumbi ajeitou a bola, respirou fundo e partiu pra cobrança. Bats ainda resvalou na bola, que caprichosamente tocou na trave antes de morrer no fundo das redes. 2-1. Com uma maturidade fora do normal, eles tocaram a bola, cansando o adversário, que era mais experiente, mas não podia contra o sol forte de Ramos e uma equipe determinada.

O apito trilou indicando o fim do jogo. Eles estavam vingados. Até hoje, os jogadores de Ramos juram de pés juntos que derrotaram a temível França de Platini. Não houve testemunhas no bairro vazio, mas ninguém ousa discordar. Naquela sepulcral tarde de sábado, o bairro virou Guadalajara.

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Para conhecer melhor as personagens citadas neste conto, leia  “O Clássico”.

Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, algumas personagens e jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “Regulamento”“Superstição”, “O Pênalti”“O Professor”“Arena”“O Protesto”“Maldição” “Po锓Cabaço” e  “O Amor na Marca da Cal” 

Regulamento

Seria um grande domingo em Ramos. O time da Rua da Feira de Cima decidiria o título contra a surpreendente Travessa, que jamais havia sido campeã do torneio. O destaque do time era um atacante magrinho cuja alcunha era Kanu. Forte, ajeitado e filho de mãe solteira, Kanu era o vice-artilheiro do torneio e poderia se consagrar naquela decisão.

Entretanto, no domingo ao amanhecer, antes da festa e do jogo começar, Coronel Wilson apareceu. Dizia ele que o filho dele conhecia Kanu de muito tempo e que Kanu não tinha mais idade para jogar o torneio. “Kanu só teria idade se tivesse nascido em 29 de fevereiro“, assim disse o Coronel. Estava formado o buruçu.

O ex-militar dizia que segundo o artigo 4, parágrafo 18, inciso XIII, do regulamento do campeonato, a Travessa tinha de ser eliminada e a Cabo Reis teria de jogar a final. Os técnicos dos times não lembravam nem quem tinha feito o regulamento, pois o jogo em Ramos sempre se baseou nos resultados do asfalto. “Que porra é essa?“, bradou Bigode, treinador da Travessa, sendo seguido pelos seus pares.

Mais estranho nisso tudo é que o Coronel não gostava de futebol. Mas gostava de leis, de poder. Aproveitou uma conversa durante o dominó no bar da esquina para esmiuçar o regulamento e atuar com um procurador geral soberano, voltando aos tempos de farda.

O Coronel não se abalou, explicou o regulamento e exigiu que a Cabo Reis fosse classificada para a final. Todos olharam para o técnico da Cabo Reis, que envergonhado, disse que não tinha nada a ver com isso. Wilson então disse que deveria ser cumprida a lei, nada menos que a lei, custe o que custar. “Sabe quem dizia isso? Ele mesmo, o Garrastazu“, disse Pink Floyd, técnico da Rua da Feira de Cima, homem de paz, já emputecido com a situação.

A confusão só se alastrava e nada parecia mudar aquilo. Kanu se defendia dizendo que tinha a idade pra jogar o torneio, uma vez que fez aniversário durante o campeonato e ninguém avisou que não podia. Wilson falou que aquilo era uma irresponsabilidade e o técnico Bigode, já emputecido, bradou colocando o dedo em riste: “ô Coronel, pelo artigo 5º, ele pode jogar“. “Que artigo 5º, que não estou vendo?“, replicou o coronel. “Artigo dos meus 5 dedos na sua cara“, disse Bigode, já dando um tapão na cara do idoso coronel e transformando o que já era um inferno numa zona digna de “Feirinha da Pavuna”.

Até as velhinhas da igreja pararam pra ver o entrevero. Separa daqui, puxa de lá, “me segura” de acolá, e cada vez mais não se sabia em que resultaria aquilo. A situação estava fora de controle, até que o técnico dos Marajás, Marcelo Monstro, decidiu usar a solução mais drástica. “Vamos chamar o Supremo“. Todo mundo se calou, até o Coronel Wilson perguntar: “Quem ou o que é o Supremo?

Chama o Djavan.

Djavan chegou com aquela sua malemolência habitual. Não importava se era 0x0 ou 1×1, uma solução teria de ser buscada, naquele momento. O Coronel Wilson lembrou de seu último encontro com Djavan e já não parecia mais tão senhor das leis. O técnico da Cabo Reis, que já achava aquilo tudo surreal, nem quis se meter. Pink Floyd, técnico da Rua da Feira de Cima, habitualmente paz e amor, se recolheu. Bigode e o ex-militar apenas escutaram atentamente.

Vocês sabem que eu tenho muitas discordâncias com a lei“, disse Djavan. Senhor Wilson resmungou que não poderia ser diferente, pois fosse o contrário a sina de Djavan seria treinar e jogar no time de Bangu, não o proletário, mas o do presídio. Djavan ainda perguntou se alguém tinha dito algo, mas o Coronel negou. Continuou Djavan. “Acho que todos os aspectos devem ser contemplados e o que é legal, nem sempre é legítimo ou justo“.

O Coronel Wilson ainda tentou argumentar, lembrando que Djavan era uma autoridade do “comércio” informal. Mas aí Djavan lembrou ao ex-militar: “Por exemplo, Coronel. Muita gente morreu neste país porque o exército estava amparado numa lei pra torturar os outros. Isso é legal? Isso é bacana?“. Coronel estava estupefato com Djavan e seu conhecimento de história. Mesmo assim insistiu em chamar golpe de revolução e Djavan não quis discutir, mas lembrou que o legalismo estrito nunca é um bom caminho, embora ele mesmo fosse suspeito de afirmar tal coisa. “Pelo menos é coerente“, afirmou o milico.

E qual é a solução então, Seu Djavan?“, perguntou o árbitro da partida. Djavan decidiu que o resultado em campo devia prevalecer, pelo bem do futebol. Em primeiro lugar, suspendeu o Coronel Wilson de todas as suas funções desportivas, até porque ele nunca teve nenhuma mesmo. “Coronel, vai cuidar do seu cachorro novo, o Garrastazu“. Em segundo lugar, decidiu que o resultado de campo continuaria o mesmo, e que Kanu poderia fazer sua despedida do torneio, já que até ali, ninguém tinha dado por conta e a culpa não era do guri.

O pessoal da Cabo Reis ainda tentou chiar, mas Djavan lembrou que eles eram “terceiros interessados e nada tinham a ver com aquilo” “Se não interessa, mando eu“, disse o cartola meliante, ausente de bem-querer e de encanto. Após o burburinho, acharam melhor não recorrer. A última sentença de Djavan foi que o regulamento deveria ser refeito, porque zona só é boa na Vila Mimosa e aquilo ali era uma bagunça. O árbitro do último jogo então seria ele, auxiliado por Marilu, sua Magnum .40 de estimação, para evitar quaisquer discussões.

E assim, em Ramos, os times voltaram a decidir o torneio em campo, enquanto os técnicos firmaram um acordo de escrever um novo regulamento tão logo este campeonato acabasse. E todos eles concordaram em escrever expressamente que o Coronel Wilson não poderia representar nenhum time ou discutir nada do papel. E Djavan trilou o apito, para que o jogo fosse como deveria ser: jogado.

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Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, alguns personagens e jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “Superstição”, “O Pênalti”“O Professor”“Arena”“O Protesto”“Maldição” “Po锓Cabaço”,  “O Amor na Marca da Cal” e “O Clássico”

Superstição

Ramos em setembro tem festa da igreja. A Igreja de Nossa Senhora das Mercês, que fica ali, na Roberto Silva, perto do supermercado. Igreja famosa por ter sido protagonista de um acidente entre aviões, nos anos 50. Triste coincidência. A igreja é linda. Nome de santa, nome de avó. Santo é quem acalenta, não é mesmo?

Pois bem, devido à quermesse, o jogo entre a Roberto Silva – onde ficava a igreja – e a Rua da Feira de Cima teria de ser disputado na sexta- feira. Nada demais, não fosse o fato de ser uma sexta 13, e o técnico do Cimão, Pink Floyd, ser absurdamente supersticioso.

Pink Floyd, em que pese seu passado militar, virou hippie, daqueles bem atuantes. Entre a paz, o amor, as flores e o poder, a era de Aquário não resistia a um gato preto, a uma escada mal colocada e coisas do tipo.

Ramos, embora seja de alma enorme, é um bairro pequeno. Existe o lado de lá, da Avenida Brasil, do Piscinão e dessas coisas que chamam atenção no noticiário, e o lado de cá, do campeonato de ruas, das festas juninas, do fuzuê, da Imperatriz, do Cacique de Ramos, do Morro do Adeus e do Complexo do Alemão.

Sendo um bairro pequeno, todo mundo sabia o quanto Pink Floyd era supersticioso, inclusive P3, Pedro Paulo Pedreira, o técnico da Roberto Silva. O treinador, além de amigo próximo de Pink Floyd, era gaiato. Muito gaiato. Aquela sexta seria inesquecível.

Pink Floyd detestava sair na sexta-feira 13. Viagens, nem pensar. Ele até pensou em não comparecer ao jogo, mas seria uma desfeita com a equipe, que ia bem no campeonato. Seus filhos – Zabelê, Zumbi e Besouro – imploraram ao pai que ele fosse.

E ele decidiu ir. Todo de branco. Colocou seu patuá. Rezou três vezes. Confiava num sinal dos céus. E foi. Assim que chegou na esquina da Roberto Silva, P3 jogou um gato preto no caminho. Quem se arrepiou todo foi o velho hippie. Seu lado escuro da lua, seu coração atômico, todos os seus ecos ressoaram. Dureza.

O time da Roberto Silva entrou todo de preto, mudando o uniforme tradicional. “Mau presságio”, pensou Pink Floyd. O jogo começou e o time da Rua da Feira de Cima parecia tão amedrontado quanto seu técnico. Tungstênio estava endiabrado e explosivo – sem trocadilhos – e marcou duas vezes no primeiro tempo. 2×0 para os corvos da Roberto Silva.

O intervalo chegou e P3 colocou uma escada no caminho de Pink Floyd. Enquanto um se arrepiava todo, o outro gargalhava. Na preleção, apenas o muxoxo do treinador borocoxô. Um hippie borocoxô não era lá algo comum, mas o que fazer? Do outro lado, Tucano, Tungstênio e Alcione – um moleque que ganhou o apelido por ser marrom, garoto, maroto e travesso – tinham jogado o fino da bola no primeiro tempo.

Até que o padre da igreja foi fazer os testes pra quermesse. O sacristão dizia que era melhor ser prudente e ver se estava tudo nos conformes. O padre, então, mandou o sacristão tocar o sino. E o sino ecoou, o gato preto se assustou e a escada caiu – sabe-se lá porque. Pink Floyd achou que aquilo era o sinal dos céus. No final do intervalo, reuniu o time, mudou o astral e apresentou as armas. A preleção se resumiu num “agora vai! vamo virar essa merda.”

E o time que parecia um trem fantasma voltou um carrossel de emoções. Oh, yes. Zabelê, para Zumbi, para Besouro. Todos voando. Um 14-Bis. Besouro diminuiu o placar logo no primeiro lance pós-intervalo. P3 não acreditava no que via. Pink Floyd brilhava. O sino da divisão tinha começado a tocar.

Os meninos da Roberto Silva não sabiam o que fazer com a bola. Era um exorcismo futebolístico. Girino, o zagueiro pura disposição, aproveita um escanteio e sobe. Por quem os sinos dobram: Não sei, mas Girino, ele sabe. E testa a bola como se fosse um Tomahawk, um Patriot, um Exocet [calcinha]. Míssil. É o gol de empate.

O gato preto se aninha perto do lugar onde está P3. Ele olha com aquela cara de “sai pra lá, sai pra lá”, característica de quem deve e teme. Pink Floyd está em estado de êxtase. Altas expectativas. A chuva desaba, limpando as mazelas. Bobby, o goleiro cabeçudo, passou a fechar o gol. O Cimão dominava.

E assim veio um ataque do Cimão, mais potente que simpatia de São Cipriano. Girino tocou para Afonso Perereca, que tinha essa alcunha por ser dançarino de charme e pular mais do que pogobol descontrolado.

A tabela anfíbia deu certo e encontrou o ataque hippie. De Zumbi, para Besouro; de Besouro, para Zabelê, que observou o goleiro saindo e deu um toque caprichado, encobrindo o camisa 1 com requintes de crueldade. Gol da vitória.

P3 não acreditava, Pink Floyd não acreditava. Uma vitória histórica, que entraria para o anedotário de Ramos. Após os cumprimentos, Pink Floyd decidiu ir pra casa, não era bom ficar no bar numa sexta-feira à noite.

Ainda assim, P3 perguntou o que ele tinha feito pra vencer a superstição. Pink Floyd disse que falou com uns amigos do além e usou uns galhos de arruda. Os amigos do além pediram pra ele esperar um sinal do céu. A chuva veio, os sinos ecoaram. P3 ficou atônito e incrédulo com a resposta.

No dia seguinte, na quermesse, por curiosidade, perguntou quem era o sacristão. O zelador da paróquia era o Seu Malaquias, ex-jogador do Cimão em tempos antigos e que conhecia bem as manias de Pink Floyd. O sino tocou pela influência dele. O deus do hippie era a mão parceira. P3 ficou com o gosto amargo da derrota. E o gato preto no seu pé.

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Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, alguns personagens e jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “O Pênalti”“O Professor”“Arena”“O Protesto”“Maldição” “Po锓Cabaço”,  “O Amor na Marca da Cal” e “O Clássico”

O Pênalti

Mais um domingo animado no campeonato de Ramos. O Flamenguinho da Aracati enfrentaria a Doutor Noguchi. Embora não fosse tão grandioso quanto o “Xepão”, também era um clássico do torneio.

Muitas caras conhecidas em ambos os times. Chamou a atenção o novo reforço que Diplomata, passista da Imperatriz e técnico nas horas vagas, assimilou para o time: Montanha.

Vinícius era um garoto incomum para sua idade. Aos 16 anos, tinha quase 100 quilos e era mais forte do que um touro nelore e já ajudava empurrando os carros alegóricos da Imperatriz. Seu apelido, “Montanha”, por pouco não era literal. Entretanto, o negócio do galalau não era futebol. Ele chamava a bola por Vossa Excelência, num tratamento desprovido de intimidade.

Diplomata, mesmo assim, inscreveu Montanha como camisa 12, goleiro reserva. Era muito raro ter goleiro reserva em Ramos. Se já era difícil encontrar um titular, imagine banco. Ninguém entendeu o que o treinador malemolente queria. Ele apenas respondia: “Deixa que eu sei o que estou fazendo.”

O trilador de apito da contenda seria “Figurante”. Arnaldo Romualdo Coelho, formado em arbitragem, que apitava jogos do campeonato carioca – da Série C – e ainda por cima aparecia como ator em novelas da Globo, fazendo sempre pontas menores do que guimba de cigarro, daí o apelido. Se houvesse arbitragem “FIFA” em Ramos, Figurante seria o mais importante.

Ele era temperamental, era estrela e, às vezes – quase todas – gostava de tomar o show pra si. Já tinha discutido e brigado com Diplomata diversas vezes, o que o deixava como persona non grata na quadra da Imperatriz. Por este motivo, Figurante não podia sambar em casa, o que o deixava mais raivoso contra o passista treinador. Havia uma rixa, de fato.

O jogo começou pegado. Como a Dr.Noguchi jogava sempre na Aracati, era o único que não sentia os efeitos da “altitude”, da rua inclinada. era um jogo tradicionalmente de poucos gols e, neste dia, o time estava melhor em campo.

Mas o Flamenguinho da Aracati – chamado assim pelo uniforme rubro-negro – tinha seu ataque demolidor de sempre. Cabaço e Paulinho Rolimã sempre trocando passes, de forma envolvente. Era osso duro jogar bola ali. No intervalo, 0-0. No segundo tempo, a Noguchi tomou um bombardeio, mas segurava o resultado com galhardia…

… até que o tempo regulamentar acabou, ficando por conta dos acréscimos do juiz Figurante. E regra de acréscimos, em Ramos, é simples: saiu, acaba. Lateral e cruzamento de Polenguinho, buscando o centroavante Paulinho Rolimã, bem marcado pelo zagueiro Iba.

[pausa: Iba tinha esse apelido porque jogava com seu irmão gêmeo no time. Ambos eram filhos do borracheiro da rua, um paraibano arretado. O irmão lateral ficou com o apelido de “Pará” e o irmão zagueiro ficou conhecido como “Iba”. Fim da pausa]

Pois Rolimã enganchou-se com Iba e se jogou na área. Nada. Mas o apito trilou. Figurante apontou e gritou: “É pênalti”. Confusão, buruçu, furdunço. Diplomata invadiu o campo, com dedo em riste: “Pênalti é o caralho, seu ator de novela da CNT”. Figurante empurrou o passista, os jogadores dos times começaram a se empurrar também.

Figurante perdeu a cabeça e tentou bater no treinador que era lendário na rua. Montanha entrou em ação: deu dois sopapos no juiz. Todo mundo lembrou da regra básica da pelada dos adultos de Ramos: goleiro reserva serve pra bater e apanhar na confusão.  Diplomata instituiu pela primeira vez esse mote nas categorias de base.

Nesse caso, Montanha bateu. Figurante ficou sem som e sem imagem, mais fora do ar que TV em dia de chuva.  Com o árbitro nocauteado, os técnicos tentavam uma solução pacífica em um ambiente beligerante: “Foi”, “Não foi”. “Foi” “Não foi”. Uma confusão dos diabos, mais de duas horas de discussão e o por-do-sol prenunciava o fim daquele domingo, antes da depressão que a musiquinha do “Fantástico” causava.

Sem nenhuma concordância, alguém foi ao orelhão, fez uma ligação e disse: “Chamei o Djavan”. Djavan, eminência não-oficial da região, traficante destemido e temido das bandas de Ramos, estava meio sumido, com medo de ser guardado, mas mexer com o futebol de ruas era mexer com ele.

Quando ele chegou, no meio do buxixo, escutou da arbitragem que ali quem decidia era o juiz, que Djavan era só espectador. Figurante foi enérgico, disse que era árbitro pro-fis-sio-nal, assim mesmo, fazendo questão de separar as sílabas. A noite já caía e o soprador de apito falou que o jogo só acabaria quando o pênalti fosse batido. Tensão no ar.

Djavan se irritou. Sacou a arma. Muitos correram. Figurante ficou paralisado pelo medo. O traficante/cartola mirou e atirou perfeitamente com sua pistola. No alvo. O transformador da rua explodiu. Toda a Aracati ficou sem luz. E então perguntou: “O que diz a regra de jogos sem luz?”. Os técnicos responderam: “Jogo sem luz por fator externo é adiado e deve ser remarcado e jogado depois, com a luz do sol”. Djavan olhou para o árbitro, que estava extremamente assustado, e disse: “Prazer, fator externo.”

Figurante então pegou a bola, apitou e apontou pro alto. O jogo tinha acabado e deveria ser remarcado. Djavan mandou um de seus asseclas ligar pra Light, com o recado de que era ele que estava pedindo. Antes do fim do “Fantástico”, a luz tinha voltado. Os técnicos decidiram aceitar o 0x0 pelo aperto no calendário. E Figurante pediu “afastamento” do Campeonato de Ruas de Ramos, nunca mais voltando a apitar.

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Agora pare: Espalhe por aí

O Professor

Pedro Carlos nunca jogou uma partida no campeonato de Ramos. Ele era ruim. Jogava mal, mal mesmo. Nas peladas, só era escalado quando era o dono da bola. E o time da Peçanha Póvoas estava numa má fase de dar dó. Quando os melhores da rua eram escalados, ganhar uma partida já era difícil.

Pois o time, que era treinado por Cara de Balde, andava mal das pernas no campeonato. Para completar, o treinador sofreu um acidente que o impossibilitou de acompanhar as partidas. Sem técnico, as coisas estavam ainda mais duras. Nenhum dos coroas da rua queria treinar o time, que estava sem lenço, sem documento e sem pontos no torneio.

Visualizando a oportunidade, Pedro Carlos, o menino deslocado, isolado, batizado assim porque sua mãe era grande fã de Roberto e Erasmo, se ofereceu para treinar o time. Todos os moleques se olharam incrédulos e a primeira reação foi negar. No fim do dia, entretanto, foram à casa do garoto e aceitaram a proposta. Não tem tu, vai tu mesmo.

Pedro Carlos tinha um vizinho desprezado pelo time da rua. Vanderlei, apelidado carinhosamente de Michelã, pelas dobras que tinha no corpo todo. Ninguém deixava Michelã jogar, mas Pedro brincava de bola com ele e sabia que o gorduchinho chutava bem. E forte.

No primeiro treinamento, na pelada, Michelã encostou pra jogar e ninguém entendeu. Ao ser questionado, Pedro Carlos respondeu. “No meu projeto, é Michelã e mais 10”. E Michelã se destacou. Time escalado pro futebol de domingo, contra a Rua Professor Lacê.

O time adversário já contava com a vitória, porque a Peçanha Póvoas estava apanhando mais do que Rocky Balboa em começo de luta. Rodada após rodada, surra após surra, o time estava com a moral em baixa. Quando viram o pequeno buda Michelã em campo, os rivais gargalharam.

Os técnicos, que sabiam que Cara de Balde não iria mais treinar o time, mas não conheciam seu substituto, olharam com desdém aquele menino que nem o campeonato já tinha disputado.

Pois quando trilou o apito, e a primeira bola caiu nos pés de Michelã, saiu uma bomba. Hiroshima, Nagasaki, Mururoa e bola no fundo da rede. 1- 0. E até o final do primeiro tempo, o menino sharpei já tinha feito mais dois. Craque.

Ao fim do jogo, uma goleada com Michelã sendo protagonista. Os treinadores que estavam ironizando, olharam curiosos. Acreditavam ter sido fogo de palha. Nem os próprios jogadores do time podiam crer naquela partida tão boa. Só que isso se repetiu. Mais uma vitória. E depois outra.

Os coroas cascudos perguntaram a ele como tinha descoberto aquele gorducho do ataque e ele disse que era fruto das observações que fazia há tempos. Um cara moderno, pensaram todos. E a partir dali, começaram a mudar.

E rodada, após rodada, Pedro Carlos inovava, fazia inversões, mudava jogadores de posição, distribuía nós táticos. O time voltou a ser respeitado, temido e destemido. Por causa dos uniformes, réplicas da Fiorentina, da Amaro Sports, o time foi batizado de Jamelão Mecânico.

Pedro Carlos se tornou figura conhecida no bairro, chamado de estrategista, professor, pequeno Telê. E acabou atraindo, veja só, até a atenção de algumas garotas, conseguindo, além de fama, umas bitocas e amassos.

Depois de algumas semanas, o pequeno treinador se sentia a estrela da companhia. Barrou Cabeção, melhor jogador do time e figura agregadora da rua. “Cabeção está muito estrela, usando brinco, no meu time não pode.” Tecla SAP, jogador que tinha este apelido por gostar de músicas americanas, e cantar todas erradas, foi barrado por causa do corte de cabelo.

O time, que já não era uma surpresa, entrou em campo contra a Rua da Feira de Baixo todo retalhado. Não foi nem sombra do que tinha sido rodadas atrás. Tomou uma goleada e nem Michelã, nem ninguém, jogou bola. Na partida seguinte, a mesma coisa.

Antes da próxima rodada, todos se reuniram e foram conversar com o treinador. Sob a justificativa de que o comprometimento e a disciplina eram mais importantes que o talento, o professor não voltou atrás em sua opinião. Os meninos do time então, conversaram entre si e tomaram a decisão.

Colocaram o professor em um corredor polonês, deram um bando de cascudos e o demitiram do time, Michelã entre eles. Pra jogar sem se divertir e ganhar, melhor rir perdendo. Todos os jogadores foram reintegrados e na partida seguinte, contra todos os prognósticos, venceram o jogo, com gol do pequeno buda. A Pedro Carlos, restou usar suas táticas e técnicas no jogo de computador.

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Arena

A Rua Cabo Reis era especial em Ramos. Poucas ainda mantinham um traçado do início do século, mas os paralelepípedos daquele cantinho do bairro, que diziam ter sido montados com óleo de baleia, traziam certo ar bucólico aos moradores.

E além do mais, transformava o time da Cabo Reis num adversário duríssimo de ser batido no campeonato. Grandes goleiros do bairro foram enganados pela prestidigitação da bola quicando naqueles paralelepípedos. Diz a lenda que o montinho artilheiro da rua tinha mais gols do que o Pelé. A equipe raramente perdia jogos em casa e, quando sapecava muitos pontos fora, se transformava naturalmente em favorita ao título.

O folclore se consumava ainda com o fato do time, caso estivesse perdendo em casa por mais de três gols ou sendo humilhado, contar com ajuda de um morador para liberar um rottweiler para correr atrás dos adversários. “Mimoso” era o nome do canino malévolo, que era utilizados em momentos raros e estratégicos.

Lá pelos idos dos anos 90, chegou à rua um velho de cabelos alvos e antipático, senhor Wilson. Senhor, não. Coronel Wilson. Na verdade, diziam que ele era tenente-coronel, mas isso não vem ao caso. Além de implicar com os meninos da rua e dizer que nos tempos da ditadura tudo era melhor, o cabeça branca tinha contatos na prefeitura. E achava uma rua de paralelepípedos algo anacrônico e ultrapassado – doce ironia.

O velhinho passou um abaixo-assinado no ano anterior, querendo proibir que jogos do campeonato fossem disputados na Cabo Reis, e só desistiu quando um “simpático” traficante da região, de codinome Djavan, mandou um bem querer para o velhinho, dizendo que se ele continuasse com a palhaçada, nem flor de lis restaria. Compreendendo a sina, não restou esquina de reclamação por parte do milico.

Faltando duas semanas para o início do campeonato, num domingo, a rua foi acordada pelo barulho de rolos compressores e demais equipamentos. Os paralelepípedos estavam sendo retirados. Entre boêmios indignados pelos barulhos – e pela ressaca – e senhorinhas estupefatas, Senhor Wilson saiu triunfante, com trajes sociais, mais parecendo ir à missa do que acompanhar uma obra.

Senhor Wilson encheu a boca para explicar que devido aos contatos, conseguiu asfaltar a rua, que deveria ser um sonho de planejamento e progresso de todo morador. No seu discurso nervoso, quase apoplético, só faltou louvar o hino e chamar o exército.

Quando estava falando em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, se escutou um sonoro “puta que pariu” gutural, mais parecido com vocalista do Ratos de Porão, bradado da esquina. Kubrusly do Cacique, técnico do time da Cabo Reis e morador antigo da rua, estava indignado.

Kubrusly do Cacique era o codinome de Josivaldo, um quarentão barbudo que era idêntico ao repórter da TV daquela época. O apelido se explica de forma peculiar: Na primeira vez em que treinou o time, no meio da confusão, um gaiato jogador adversário disparou um: “Kubrusly, cala a boca, fala mais besteira que na TV”.

Complementando o brocardo, a segunda parte do codinome advém do fato do treinador e sua mulher, passista – e gostosa – serem figurinhas fáceis no mítico pagode da tamarineira, no Cacique de Ramos, na Rua Uranos.

Pois bem, o técnico soltou cobras e lagartos contra o autor daquela imbecilidade. Aquilo era inadmissível, coisa de quem soltou pipa no ventilador, jogou bola de gude no carpete. O cabeça branca começou a gritar e a confusão virou uma confusão de tenores, que faziam mais barulho do que as máquinas que lá estavam. O furdunço já estava formado.

Não só o furdunço, como o asfalto. A rua já ganhava contornos lisos, gerando lamúrias nos meninos. Lerrybardi, o goleiro mítico da Cabo Reis, só faltou chorar. Todos os jogadores se irmanaram numa tristeza. O cabeça branca, sem entender nada, começou a proferir mais asneiras:

“Vocês não vêem que agora o barato é a modernidade? Até aquele time da Holanda com nome de detergente, que esqueci qual é, agora abriu estádio novo. Chamam de Arena. Então, essa é a Arena da Cabo Reis”.

Todos os meninos, além de Kubrusly do Cacique, olharam pro velho com ódio. Não tivesse o coroa idade para andar de graça no ônibus, teria tomado uma sova monumental ali mesmo. Percebendo a beilgerância, Sr. Wilson se recolheu triunfante, embora com medo.

Uma semana depois, Mimoso, o rottweiler símbolo da rua, morreu. Alguns falam que foi cinomose, muitos dizem que de desgosto. Abalado emocionalmente, jogando naquilo que tinha virado um campo neutro, a Cabo Reis foi goleada nas três primeiras partidas nos seus domínios, algo que jamais havia acontecido. Uma tristeza que impressionou até as senhorinhas, que nunca viram os guris tão amuados.

Indignado de ver seu amado esquadrão ser ludibriado assim, Kubrusly do Cacique explicou seu drama aos demais técnicos no conselho arbitral. Todos concordaram em ajudá-lo. O plano já estava armado. Falaram com algumas senhorinhas da rua, explicaram a situação especial e todas concordaram, e pegaram o aceite das demais carolas. Agora era só executar.

Na tarde de sábado, fecharam a Cabo Reis. Fizeram um churrasquinho, ligaram o som. Junto com o som, três britadeiras, bateram as estacas, e começaram a esburacar a rua toda. Resumindo, fizeram um escarcéu poucas vezes visto.

Senhor Wilson quando viu, ficou indignado. Não sabia se xingava ou respirava. Teve uma síncope. Ameaçou chamar a polícia e prender todos aqueles vagabundos, baderneiros, delinquentes e demais adjetivos depreciativos.

Quando ele saiu de casa, telefone sem fio na mão, fazendo cada vez mais e mais ameaças, Kubrusly do Cacique o chamou no canto. Tinha um bilhete pra ele, era de Djavan. “Se fizer alguma coisa, velho xexelento, fudeu.”

Senhor Wilson ficou impressionado. Primeiro porque Djavan não cometeu erro de concordância; segundo porque estava com medo de morrer. Fato consumado, missão cumprida.

Na segunda-feira, a prefeitura foi remendar a Cabo Reis toda esburacada, completamente desnivelada com seu novo e horroroso asfalto. Assim, a troca de piso ensejou alguns treinamentos, mas o time, refeito moralmente, voltou a ser um osso duro de roer em seus domínios. O equilíbrio do torneio estava restaurado.

O vizinho das antigas, emocionado, comprou um novo rottweiler, que foi treinado para perseguir os adversários e carinhosamente foi batizado de “Mini Djavan”. Senhor Wilson nunca encrencou com ele.

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Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, alguns personagens e jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “O Protesto”“Maldição” “Po锓Cabaço”,  “O Amor na Marca da Cal” e “O Clássico”

O Protesto

Fazia tempo que o caminhão de lixo não passava em Ramos. O cheiro imundo e alguns bichos já passeavam pelas ruas, trazendo indignação no povo. Na Rua da Feira, após a referido mercado social, o cheiro de peixe misturado com a xepa já trazia náuseas na tradicional sociedade suburbana.

Naquele domingo, a Rua da Feira de Cima jogaria mais uma partida do campeonato, contra a Doutor Noguchi. Entretanto, pouco antes do horário marcado para o jogo, a rua estava tomada de senhorinhas e coroas com seus cartazes. “Queremos limpeza urbana”.

O buruçu estava armado. O bububu no bobobó. O bar do português Acácio fechou. Desceu uma galera de outras ruas para encorpar o protesto. As palavras de ordem foram gritadas: “Não é mole não, Ramos não é bairro de lixão”. “O povo unido, jamais será vencido” “Eu sou brasileiro, com muito orgulho…” Não, essa não, aí já é mancada.

Até um senhor que tinha sido cabo nos tempos de repressão saiu pra rua, gritando que “nos tempos da ditadura não acontecia isso”. Pink Floyd, o técnico riponga da Rua da Feira de Cima se indignou, mas, antes que houvesse um conflito, a esposa do cabeça branca convocou o ancião milico para sua residência, porque começaria mais um episódio de “Samba de Primeira”, marcando a idiossincrasia natural do carioca.

Os times da rodada do Campeonato de Ramos se indignaram com o protesto na rua, em cima do campo. O futebol das ruas do bairro era sagrado. Logo, havia um protesto e um contraprotesto. As bandeiras dos clubes estavam agitadas, até que alguns manifestantes gritaram “bandeira de clube não pode!” “Como não pode?”. Mais um desentendimento. Os brados estavam cada vez mais altos.

Os técnicos dos times, entre eles Pink Floyd, Marcelo Monstro, Diplomata, entre outros, estavam tentando uma solução pacífica, e quando a coisa ia descambando para os empurrões, se irmanaram e disseram que nas senhorinhas e coroas ninguém bate, que o inimigo era outro. A molecada de Ramos colocou o rabo entre as pernas e pediu desculpa para as tias.

Mesmo sendo domingo, chegou uma equipe do RJTV ao local. Uma senhorinha mais exaltada mandou seu recado na TV, enquanto as pessoas gritavam que o povo não era bobo, enquanto comentavam, nos intervalos, sobre o desfecho da última novela. Depois de 3 horas de muita gritaria e confusão, chegou finalmente o pessoal do lixo.

E o pessoal do lixo quase foi linchado. Muitos gritos, xingamentos, sacos de lixo voando como shurikens. A balbúrdia. Um gari ensejou arremessar o saco de volta, mas desistiu ao ouvir as palavras de carinho de Marcelo Monstro: “Se acertar uma senhorinha eu vou te meter a porrada!”

O secretário da cidade dava entrevista ao RJTV, enquanto era carinhosamente agraciado com gritos diversificados que variavam entre “filho da puta” e “filho da puta”. Gaguejava em frente as câmeras e seu terno importado de lã fria e camisa com abotoaduras já encharcava pela cortesia do sol inclemente.

No meio da confusão, quando as coisas não pareciam ter solução, todos lembraram que os garis também são do povo, gente como todos e que a culpa era do secretário, que tomou um saco de lixo na cabeça e se retirou urgentemente. Os garis tiveram seu nome gritado: “Garis, nossa luta também é sua” Alguém propôs: “Que tal um jogo entre a seleção do
campeonato de Ramos e os garis?”

Sugestão aceita. Após três horas de trabalho, que coincidiu com o entardecer, os garis tiraram as botas, pegaram shorts emprestados e iam jogar contra a seleção do campeonato, para finalizar aquele dia turbulento em paz. A rodada tinha sido adiada, mas haveria futebol em Ramos.

Pela primeira vez, Zabelê, Zumbi, Besouro, Cabaço, Poé, Munha e entre outros, jogariam juntos. A bola começou a rolar, todo mundo de pé descalço, inclusive Munha, que abriu mão dos tênis coloridos. Lerrybardi fechava o gol, até que Mussum, um gari malemolente e sambista, que ainda falava “Cacildis”, abriu o placar com uma bicicleta.

Pink Floyd gritou: “São gente da gente e sabem jogar bola”. O time não se abateu. Tabela entre Zé e Zabelê, Zé e Zumbi, Zé e Besouro, Zé e gol. Empate. Até as senhorinhas explodiram em alegria. Gritaram gol e tudo mais. E ecoava o grito de “Ramos, Ramos”.

O jogo foi animado, mas a molecada de Ramos, cheia de energia, começou a se aproveitar do cansaço dos garis e foi enfileirando gols: De Munha, de Zabelê, de Besouro e até Cabaço, vejam só, fez dois gols. O placar elástico não tirou a alegria da turma. No final, cervejada no bar de Seu Acácio, pois a convivência havia sido restaurada.

E na rua limpinha, na hora da cerveja, alguém disse para cantarem o hino nacional. O velho militar cabeça branca puxou o hino de sua janela, até que o passista Diplomata sabiamente bradou: “Hino é coisa séria, porra. Estamos bebendo cerveja, vamos respeitar o país. Vamos cantar o samba da Imperatriz de 1989.” Todos concordaram.

E foi assim, democraticamente, com as ruas limpas e em harmonia, que garis e o povo de Ramos clamaram, irmanados, a liberdade, liberdade. Enquanto isso, o secretário municipal tentava em uma lavanderia chique tirar as manchas e o cheiro de lixo que ficou em seu terno importado…

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Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, alguns personagens e jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “Maldição” “Po锓Cabaço”,  “O Amor na Marca da Cal” e “O Clássico”

Maldição

Aquele era um jogo importante em Ramos. Os times eram líderes do campeonato. A Rua da Feira de Baixo, conhecida como o time dos Marajás, iria encarar a Roberto Silva, num duelo de ruas que, se não envolvia rivalidade, tinha um componente a mais para o tempero: Haveria um olheiro do Olaria assistindo ao jogo.

No meio do burburinho, todos sabiam quem o olheiro queria ver. Munha, o ensaboado atacante do time dos Marajás, que vinha de um campeonato brilhante. Todos os times da Zona Norte carioca queriam contar com ele, mas o Olaria foi o primeiro a mandar olheiro.

Um pouco antes do jogo começar, os jogadores começam a se reunir. Quando todos chegam, Munha aparece com um tênis na cor laranja berrante, mais reluzente que uniforme de gari da Comlurb iniciante.

Todos olham perplexos para o guri, já que é sabido que em Ramos futebol se joga descalço, no máximo com um kichute. Alguns não acreditavam, outros achavam que Munha tinha virado estrela. O técnico Marcelo Monstro foi ao encontro dos jogadores, quando se deparou com a visão do tênis marca texto.

O treinador não resistiu e perguntou à Munha: “Meu filho, esse troço ajuda você a jogar bola? Que coisa horrível, tire isso.” Munha não quis tirar, queria ser diferente e achou o tênis uma boa idéia. O técnico retrucou: “Meu filho, seu nome de guerra é Munha. Quer algo mais diferente do que isso? Essas porcarias de pisantes circenses são uma maldição”. Não teve jeito, ele foi pro jogo com a chuteira fluorescente.

Do lado do time da Roberto Silva, entre muitos bons jogadores, como o meio-campo Tungstênio – batizado pelo pai bêbado após consultar a tabela periódica em vez do livro de nomes -, o atacante Paulinho Batatinha – por ser baixinho, gordinho e ter bigode – e o zagueiro Tucano, dono de 1,84m de altura e 15 centímetros de nariz, aos 16 anos.

O jogo começou animado, com o time da Roberto Silva se defendendo ferrenhamente. Munha e seus tênis coloridos não eram páreo pra Tucano, que sobrevoava toda e qualquer bola na defesa. O primeiro tempo terminou 0-0 e Marcelo Monstro bradou, inclemente: “Munha, pelo amor de Jeová, tira esses tênis! Isso é uma maldição!”

O menino relutou e se recusou a tirar os tênis. O técnico, sabendo da grande fase do seu pupilo, não o substituiu. E assim o jogo se arrastou, até que no final da partida, houve uma falta para o time da Roberto Silva, na intermediária. Tucano se apresentou para bater a falta.

O técnico da Roberto Silva, P3 – abreviatura de Pedro Paulo Pedreira – se desesperou. Tucano nunca havia batido faltas pelo time. Que coisa é essa? “Tucano, sai daí, porra. Você não sabe bater falta!” “Sai daí moleque sarnento” “Vou te substituir” “Tucano, seu miser. GOL, GOL, GOL!”

Tucano bateu a falta de bico, pé descalço, com a potência de um canhão, um Célio Silva redivivo. O goleiro não viu sequer a cor da bola. A rede só não balançou porque em futebol de rua as traves não têm véu. 1-0 e muita comemoração.

Imediatamente, Marcelo Monstro sacou Munha de campo e colocou Xerelete, filho de feirante que vendia peixes do mesmo nome. Inverteu os jogadores de posição, uma vez que Tucano parecia intransponível. O menino entrou endiabrado e empatou o jogo no seu terceiro toque na bola. O jogo correu sem maiores sobressaltos e terminou empatado.

Ao fim do jogo, o olheiro apontou para Tucano e disse “Você é o novo Mozer! Quero você jogando no Olaria agora”. De pés descalços o Cyrano da Leopoldina tinha anulado o ensaboado atacante de quem tanto falavam. Aproveitou e olhou para Xerelete, convidando o maroto peixeiro para um teste também.

Munha se encheu de coragem e perguntou ao olheiro o porquê de não ser chamado. “O problema nem foi a má atuação, porque isso pode acontecer. Mas esse tênis num torneio de rua é muita frescura. No Olaria não entra moleque estrelinha”.

Marcelo Monstro olhou para o garoto com cara de “eu te disse, esse troço de pisante colorido não dá certo. É uma maldição!”. Na manhã seguinte, os fios elétricos de Ramos amanheceram com um par de tênis laranja pendurado…

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Poé

Ninguém soube direito de onde ele veio. Se tinha mãe, não se conhecia. Pai, muito menos. Aliás, nem o nome ele fazia questão de dizer, apenas o apelido. Poé. A origem? Completamente incerta e não sabida.

Pedia esmola nos sinais vermelhos do bairro. Com as moedas, ia jogar Street Fighter 2 nos fliperamas da região, em frente à estação de trem. Sempre jogando com o gordão japonês, sempre vencendo dos meninos. Ganhava tanto que irritava. “Cuscuz”, dizia, sem esboçar sorriso, quando finalizava mais um desafiante.

Aquele garoto começou a chamar a atenção dos meninos do bairro. Pedia para entrar nas peladas, mas por preconceito ou estranheza, era sempre barrado. Até que um dia, pra completar o time em dia de chuva, deixaram Poé jogar.

Mirrado, desnutrido, pouquíssimos dentes na boca, olhar triste. Idade desconhecida, mas presumíveis 15 anos. Poé era verborrágico. Falava pelos cotovelos, parecia ter engolido um rádio. Dono de pernas tortas, como Garrincha, aproveitou a oportunidade e chamou a atenção de todos. Driblava com maestria. Não gostava de fazer gols. Preferia costurar os adversários com habilidade e entregar a bola para o artilheiro marcar.

A partir daquele dia, começou a cavar seu lugar no bairro. Como não tinha casa, foi escolhido para o time da Doutor Noguchi, que estava com pouco elenco. O técnico, um passista da Imperatriz chamado carinhosamente de “Diplomata”, fez questão de integrar o guri, encantado com o talento do garoto. “Rabisca, Poé”, era o que ele gritava sempre, incentivando o menino.

Rabisca, Poé.

E ele rabiscava, escrevendo seu conto por ali, mesmo sendo analfabeto. Poé ganhou ainda mais respeito das crianças do bairro, quando em uma das partidas do campeonato, encarou o zagueiro truculento cujo apelido era PCO. PCO era chamado assim porque, bem nascido, sempre levava em sua lancheira pão com ovo para comer no recreio do colégio. As iniciais do lanche viraram sua alcunha. Contra PCO, geralmente passava a bola ou o jogador, nunca os dois.

PCO tentou intimidar Poé com palavras preconceituosas. Ele nem se abalou. E ainda debochou. No primeiro encontro entre os dois no jogo, passou a bola, Poé foi derrubado; no segundo, PCO deu um tranco em Poé no muro chapiscado, ralando o menino todo. Saiu rindo. Poé sangrava, mas sorriu também. No terceiro encontro entre os dois… bem, não teve terceiro.

Poé parou a bola e pedalou, atraindo PCO. Quando o galalau armou o bote, tomou um direto do menino mirrado, caindo estatelado no asfalto, sem som e sem imagem. . Quando voltou a si, o time adversário todo estava gargalhando. PCO estava desmoralizado e nunca mais foi tão violento.

Rabisca, Poé.

O morador de rua virou xodó do bairro. De vez em quando dormia na igreja das Mercês, às vezes no terreiro de macumba. Não ficava tão solto por aí. A diretora da escola pública – curiosamente mãe de PCO – arranjou uma vaga para ele. Poé nunca tinha estudado. Não aguentou mais de dois meses na escola, com vergonha. Mas conseguiu aprender a escrever seu apelido neste meio tempo. Quando perguntavam seu nome, não respondia. Sempre se denominou Poé.

No campeonato, o time ia cada vez melhor. Foram incontáveis as vezes que Poé driblava e entregava para os companheiros fazerem gols. O repertório de truques com a bola era enorme. Nunca ganharam o título, mas ele virou ídolo do time.

Ganhava roupas, comida, era conhecido do bairro. Fazia pequenos serviços para as senhoras e senhores da região. E aos domingos, virava mais um dos inúmeros garotos que disputavam o campeonato. Já tinha amigos e desafiava o preconceito comum.

Rabisca, Poé.

Depois de dois campeonatos, Poé começou a sumir. Aparecia muito poucas vezes. Diplomata esperava que ele viesse, era seu último ano no campeonato, pois iria completar presumíveis 18. Algo estava estranho. Uma bermuda de marca aqui, um tênis de arco-íris ali, uma marra que não existia. Boa coisa não era. Quando um dos meninos foi assaltado no bairro, Poé apareceu devolvendo o relógio do guri. E ainda deu uma surra no larápio.

Quando uma das velhinhas que Poé ajudava o viu com relógio, bermuda e tênis de marca, puxou sua orelha e passou uma descompostura daquelas. Poé não disse nada. Apenas pediu desculpas. E depois a benção. Mesmo com a marra, o menino de rua que fora acolhido ainda morava naquela alma. De certa forma, aquelas broncas o confortavam. Era sinal de que alguém se importava. Ali em Ramos, muita gente se importava.

Rabisca, Poé.

Apareceu depois com uma morena daquelas que parava o trânsito, deu um abraço nos amigos, até mesmo em PCO. Cordãozão de ouro, volume na cintura, embaixo da blusa. Deu boa tarde a todo mundo, recomendou juízo. Sorriu despreocupado o sorriso desdentado. Subiu numa moto da moda, saiu por aí, não sem antes tomar mais um belo esporro das donas de casa do bairro.

Talvez quisesse ser alguém, algo mais que um apelido. Queria dar certo de alguma forma, ganhar o mundo por algum caminho dentre todos os descaminhos. Poé queria rabiscar sua própria história e deixar de ser, aos olhos alheios, rascunho de cidadão, rasura de ser humano.

Rabisca, Poé.

Muitos meses depois, explodiu uma guerra do tráfico entre facções rivais em Ramos. Na capa de um daqueles jornais que saem sangue se amassar, estavam vários corpos estirados, dentre eles foi reconhecido o de Poé, cravejado de balas.

Jornal exposto nas bancas do bairro, com a matéria descrevendo “…um dos mortos, sem documentos, sequer conhecido pelo nome, chamado vulgarmente de Poé…” e muitos moradores chorando e se lamentando como se perdessem um ente querido, alguém próximo. E era mesmo.

Todos se sentiram um pouco fracassados e culpados, queriam ter ajudado mais aquele menino mirrado que se foi do jeito que veio, sem ninguém saber direito como e porquê. Diplomata, muito abalado, resumiu o sentimento do bairro.

“Rabiscaram Poé.”

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Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos e suas verdades fictícias, leia “Cabaço”,  “O Amor na Marca da Cal” e “O Clássico”