E Agora, José? [remix 12 polegadas]

Ao fim do apito dos dramáticos 120 minutos no Santiago Bernabeu, Real Madrid e Bayern Munchen se entregaram à travosa e amarga dança da solidão dos pênaltis. O batedor e o goleiro, num tango cujo passo final determina quem estará com a cabeça a prêmio. No caso de ontem, após a derrota do Real Madrid nos pênaltis, a noite esfriou, o povo sumiu, a luz apagou. E agora, José?

O Real Madrid conseguiu marcar os dois gols que lhe dariam a classificação. O Bayern buscou o gol redentor que arrastaria o jogo para a prorrogação. Ao fim dos noventa minutos, faltaram pernas, sobrou coração. Os trinta minutos extras foram disputados com uma paixão incomum para quem ganha tanto dinheiro. A essência da várzea aflorou em cada tufo de grama do lindo Bernabeu.

O sonho do Real chegar à final da Champions League estava ali, nítido, evidente. Não veio a utopia. E tudo acabou. E tudo fugiu. E tudo mofou. E o treinador que é o mago, um dos donos do espetáculo, que zomba dos outros, que ama e protesta, ficou sem o riso. Ajoelhou no campo. O riso não veio. E agora, José?

Quando o Barcelona foi eliminado na noite anterior, a segunda parte do pesadelo merengue foi sepultada. Sábado passado, a primeira parte já tinha sido devidamente exorcizada com uma convincente vitória no Camp Nou, na casa do rival, que nos últimos tempos se tornou especialista em tripudiar sobre a cor branca.

Barcelona fora, o título perto, só faltava fazer a sua parte, Real Madrid. Faltava ganhar – e levar – do Bayern. Com a chave na mão, quer abrir a porta. Não existe porta. Nadou e morreu na praia. Quer morrer no mar, e o mar não secou. E o Bayern, que nada tinha a ver com isso, jogou como o gigante que é e decidirá o título em sua Platz particular. E agora, José?

Na hora dos pênaltis, um dos melhores do mundo e dois campeões do mundo falharam. Cristiano Ronaldo, Kaká, Sergio Ramos. Se eles gritassem, se eles tocassem, se eles chutassem, se Neuer não fosse uma muralha. Mas Neuer não morre,  Neuer não desiste, Neuer voa e busca a bola, é duro esse Neuer!

E o sonho acabou. Sozinho no escuro, qual bicho do mato, restando o Espanhol, o Real Madrid marcha. Mas marcha para onde? Sem o sonho da orelhuda, que escorreu pelas mãos, ao Real resta ganhar o campeonato doméstico como obrigação, enquanto toda sua torcida, todos os seus jogadores e o próprio Mourinho perguntam: E agora, José?

[Homenagem a Carlos Drummond de Andrade, com sampler e incidentais de seu poema famoso]

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