Esquinas Sem Sombras

Romances têm uma razão particular. Os poetas dizem isso há séculos, com tanta propriedade que já virou clichê. Nos caminhos tortuosos do amor, há esquinas sem sombras nas quais o coração se enche de calor ou congela, bastando uma alteração na temperatura para que o destino se defina.

Ela, mãe, mulher, recompondo sua vida depois de fatos duros. Trabalhando em ritmo frenético, vivendo para os filhos, com o coração fechado para balanço, com mais passivos amorosos do que ativos a receber. Não se considerava pronta para viver um novo amor, mas ele apareceu.

Ele, pai, homem, juntando os cacos da vida depois de fatos pesados. Trabalhando como quer, vivendo para a filha, com o coração fechado para balanço, mas com a braguilha da calça aberta, porque o homem afoga as mágoas à medida que sai com mais gente, e assim se sente mais só. Não se considerava pronto para viver um novo amor, mas ele apareceu.

Eles, desimpedidos, se cruzaram numa dessas esquinas do destino, sem sinal. A colisão imediata despertou o desejo de um pelo outro, para que pudessem se olhar com mais carinho do que o carinho pode mensurar. A chama da paixão começou a consumir aqueles dois, com o coração fechado para balanço, pronto para ser arrombado na marra.

Conforme o tempo passa, eles se aproximam mais. Ela, uma dama no ato, na alma e no sentimento, se dispõe a sarar as feridas e tentar mais uma vez ser feliz com alguém. Ele, como todo vagabundo, tem a alma delicada, e o medo se confunde na vontade de se autoafirmar, como se cada mulher que levasse para a cama pudesse lhe deixar mais forte ou lhe curar.

Ambos choram, por motivos diferentes. Na verdade, choram pelos mesmos motivos, em línguas diferentes. Já se disse que o amor é código não falado, pois no silêncio se diz muito mais do que com palavras. Quem ousaria discordar?

Assim, ela se enche de dúvidas, se enche de medos e talvez encha o saco. Cada passo que dá é em falso, e o receio de cair num cadafalso começa a falar mais forte que a paixão. Ele, cheio de dedos, cheio de medos, se afogando no próprio mar de contradições que criou. Seus sentimentos confusos, que incendiaram um coração na esquina, podem terminar por congelá-lo.

Na grande estrada da vida, é recomendável dirigir com cuidado. Por mais que a velocidade seja atraente, a delicadeza da tocada suave não pode ser esquecida. Todo dia deve se semear a flor do relacionamento, porque mesmo entre damas e vagabundos, podem se colher frutos bons.

Hoje, eles contam os dias para se ver de novo. Entre os medos, entre os dedos, entre os desejos. Aparentemente andando para lados opostos, mas silenciosamente caminhando para a mesma esquina sem sombras, que pode encher de calor ou congelar.

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Não Há Finais Felizes [pegadas de sonho]

Ele nunca acreditou em finais felizes. Nem nos das músicas do Chico Buarque. Nunca acreditou em campanhas pela África, nem em humanidade exagerada. Sempre teve o inalcançável sonho de alcançar o eterno amor.

Conheceu uma menina escocesa, se apaixonou. Engano mortal, o dele. A única coisa escocesa pela qual se deveria render amor se chama whisky. Cometeu este pecado de se encantar por um legítimo scotch de saias. Saias, não kilt, mesmo sem saber gastar linhas para explicar a diferença entre os dois.

O relacionamento com a menina escocesa se acabou, como uma boa garrafa de whisky. E deixou ressaca, como garrafa de Teachers barato. A culpa não foi dela, nem dele. A culpa é da culpa. É sempre assim. Resta juntar os cacos e seguir em frente, se lembrando dos seus dogmas pessoais. De que não há finais felizes.

“Não há finais felizes”. Enquanto medita seu mantra particular, passa uma graciosa menina ao seu lado, com perfume suave e sedutor. O mantra vai por água baixo, os hormônios cabeças acima, e decide se lançar ao inalcançável sonho de alcançar o amor. Mesmo que ele se desminta.