Bolero

Uma noite. Mais uma noite. Só uma noite? Não, ainda uma noite… uma noite triste, em um lugar triste. Quer dizer, uma discoteca que toca techno a noite inteira não é um lugar necessariamente triste. O som é aquele bate-estaca que todos os modernos acham o máximo. Eu não sou moderna. Até me acho moderna, mas não gosto deste tipo de som. Além do que, acho qualquer boate da moda uma mistura de boca de fumo com motel.

A menina dança. Dança nada. Mentira minha. Começos de parágrafos geralmente pedem uma idéia. Sou muito egoísta para começar um parágrafo dizendo a verdade, ainda mais se a verdade é sobre mim. Tampouco sou forte o suficiente para manter a mentira. Mentiras são mais complexas que um jogo de War II, quando você só tem a Ilha de Sumatra. Admito que nem todo o parágrafo que começo é mentira, mas esse foi.

Confusa, muito confusa. Devem ser os quatro sex on the beach. O drink, porque a fantasia não se realiza faz tempo. Você deve se perguntar o porquê de uma menina de 19 anos não ter sequer um raciocínio linear, nem passatempo horizontal. Poderia responder que conheço mulheres de 27 bem piores do que eu, mas seria fugir da pergunta. Então serei direta como poucas vezes fui em minha vida: Me sinto só. Sou só. O fato de beijar a boca de alguém não me faz ser menos só. E não adianta procurar nos lugares onde vou. Porque não vou achar o que quero.

Sim, eu sei, deveria freqüentar outros lugares. Quem iria comigo? O lugar que quero ir é lugar nenhum, é o meu lugar, qualquer lugar. É encontrar uma cara-metade, para tomar e fazer sex on the beach. É rir de tudo e chorar por nada, sem encontrar nenhuma explicação para quaisquer das alternativas citadas. É ser feliz sem precisar pensar em sê-lo, algo automático como ir ao banheiro pela manhã, ou olhar uma notícia em uma revista de fofoca quando se passa pela banca. É escutar as músicas melosas do Guilherme Arantes e do Roupa Nova com a reverência que se escuta Chico Buarque e Johnny Cash. É dançar bolero sem soar ridículo, mesmo sabendo que soa. Pelo menos na minha idade soa.

É isso, amar é ridículo. Pois que é lindo. Lindo – e ridículo – como o bolero. E isso é um sonho. Vou continuar sonhando este sonho. Compassado… dois pra lá, dois pra cá… o sonho de dançar juntinho, o bolero de amor.

[Postado originalmente em 100 contos que não valem nada, em XXVII.04.2005]

A Fotografia Que Não Existiu [repost]

Foi acordado às 7 da manhã de um dia turvo, nublado. Apavorada do outro lado da linha, sua namorada de muitos anos. Ela disse: “- Estou grávida”. Knock-down. Soco desferido no estômago com precisão ferina. A boca secou. A respiração cessou. Por um instante ficou sem reação. Dois instantes. Três, talvez. Deixando o eufemismo de lado, a manhã inteira.

Pensou no sorriso de sua namorada. Anos de amor. Planejavam se formar e logo após casar. Tinham um grande futuro pela frente. Ela, de família de funcionários públicos renomados. Ele, de família humilde, mas um garoto prodigioso no que estudava. De repente uma bomba em forma de notícia. O que fazer?

Depois de um dia longo, em que segundos viraram horas, se encontraram. Ele tomou a iniciativa. Respirou fundo e disparou: “- Quero que tenhamos esse bebê”. Achava que os sinais do destino eram claros, e que valia a pena seguí-los. Ela parecia não ter ouvido a frase, e de pronto respondeu: “- Vou abortar”. Ele silenciou. Queria o contrário, mas não teve forças para repetir o que havia dito anteriormente, desde sempre. Silenciou, de forma companheira e calma.

Ela marcou todo o procedimento necessário. Realizou-o. Ele acompanhou-a em todos os passos. Rachou o pagamento da clínica. Foi com ela na cirurgia. Chorou copiosamente por dentro, implodindo com uma dignidade que só os sabidamente derrotados conseguem ter. Saíram de lá arrasados. Massacrados.

Eles passaram na farmácia. Ela, anestesiada no carro, chorava copiosamente para fora, explodindo com uma fragilidade que só os reconhecidamente arrependidos conseguem expor. Ele voltou com os remédios. Deixou-a em casa, aos cuidados da sua cunhada. E saiu a esmo.

Saiu de carro e ligou o rádio. Enquanto imaginava o que poderia ser do seu futuro com a mulher querida e o filho que não se consumou, a estação de rádio prega uma peça, tocando em seqüência “All of my Love”, do Led Zeppelin, e “Tears in Heaven” de Eric Clapton. Duas pancadas sobre a perda de filhos. Verteu mais lágrimas, sentidamente.

Dirigiu mais umas boas dezenas de quilômetros sem saber para onde ia. Imaginou mais uma vez o futuro já pretérito com a mulher querida e o filho que não se consumou. Uma fotografia que nunca será tirada, pois a cena não existiu. Naquele momento, acabou-se a inocência. E o relacionamento também.

[Publicado originalmente em 100 contos que não valem nada, em XXII.11.2004]