Ele, o Rio de Janeiro

Nunca vou me esquecer do dia 28 de julho de 2004. Pelas contingências da vida, amanheceu, peguei minha viola, pus na sacola e fui viajar. Destino: Recife. Uma mão na frente, outra atrás, cheio da arrogância que meus 26 anos permitiam ter. Não entro em bola dividida pra perder. Fui, vi, sofri, aprendi a ser homem, a ter mais humildade e disciplina. Mas venci. Adotei o agreste como meu lar, construo vida e família e não penso em voltar.

Agora, anos depois, costumo ir à Terra Mãe a trabalho. Este ano já foram quatro vezes. É uma sensação de dever cumprido, confesso. Tento sempre dar um beijo na mãe e na avó. Encontrar meus amigos, verdadeiros irmãos  e família que construí, principalmente na Faculdade Nacional de Direito. E no meio da loucura cotidiana, andar pelo meu chão, minha terra.

Esqueça Cristo Redentor e Pão de Açúcar. São apenas moldura pro ar que respiro quando estou no Rio. Eu gosto de comer um pão na chapa com pingado no Irajá, passar e reverenciar a quadra da Imperatriz em Ramos, assim como reverencio a sede do Flamengo na Gávea. Olho com olhar nostálgico pro Social Ramos, onde joguei bola e diziam que um cara que era duas categorias acima jogava muito mais que eu, um tal de Ronaldo Nazário. Fraco.

Curtir o samba do Cacique de Ramos, o funk da Via Show ou o rock no Heavy Duty. Comer um queijo coalho na Feira de São Cristóvão, fazer o circuito dos sebos escondidos entre o Campo de Santana e a Uruguaiana, comer um pastel com caldo de cana do chinês, uma batida no Osvaldo, almoçar no árabe do Largo do Machado e beber uma no Pontes em Botafogo.

Olhar o sol se esvair diariamente no Arpoador, sentir o ambiente bucólico da Urca, andar a pé pelo Centro da Cidade, quase em câmera lenta, como uma cigarra, enquanto as pessoas estão frenéticas como formigas no seu movimento habitual, para terminar com um chopp na Lapa, meu lugar desde a época de boemia clássica, sem hype, do fim dos anos 90. O Rio tem um balanço natural que nenhum outro lugar tem, uma malemolência própria. E mesmo com todas as mazelas, Ele [uma entidade, para mim substantivo próprio] é arte, moleque, é toco y me voy.

Toda vez que eu me preparo para mais um check-in, saindo do Rio, as lágrimas brotam. E sempre que o avião alça vôo e passa pela Igreja da Penha, que me abençoa desde criança, elas começam a rolar. Como rolaram no longínquo 28 de julho de 2004. No dia em que viajei sabendo que voltaria com o sorriso de quem cumpre sua parte. Com a certeza de que, mesmo que saia do Rio, ele nunca sairá de mim.

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