Reino é Reino

Era uma vez, num reino não tão distante assim, uma rainha. Comandava um reino no qual vários clãs queriam assumir o poder e derrubá-la. A mandatária queria dar um presente ao seu povo, carente de pão e vitórias. Reuniu seu séquito e decidiu, mesmo sem planejamento ou orçamento, buscar um cavaleiro. Diziam que ele tinha vencido muitas batalhas, sido o melhor do mundo. Ela o trouxe, como brioches para o povo.

O cavaleiro tinha um escudeiro, ávido por metais preciosos. Se dependesse dele, os tesouros sempre seriam mais importantes que a glória. Não se sabia se o escudeiro era feiticeiro, mas a verdade é que o ginete parecia encantado pelas palavras dele. Como um zumbi, um familiar, seguia tudo que ele falava, sem pestanejar.

A rainha o apresentou com festa. Com pompa e circunstância o novo herói declarou ao povo, com a heráldica rubra e negra em seu manto: “Reino é Reino”. A massa acreditou, era uma nova esperança.

Entre sorrisos amarelos e tesouros prometidos – quase nunca cumpridos, o cavaleiro rodou pelo reino durante um ano. O povo começou a sentir fome, o ginete não liderava seu exército e o escudeiro/feiticeiro tentava explicar confundindo, confundir explicando.

A rainha, ansiosa por reconhecimento, querendo ampliar seus domínios, enlouquecia. Tremia como se não soubesse governar o reino – e não sabia. Subia, descia, dava uma rodada, ela estava descontrolada. O cavaleiro andava pelas festas do reino e mal conseguia cavalgar nas batalhas, trotando ao ritmo de festa como se estivesse escrevendo o melancólico réquiem pessoal.

A escolhida queria usar o ginete como o modelo de seu reino, atraindo aliados e enriquecendo. Seria uma parceria com tráfico de poder e influência para todos. Mas nenhum mecenas se interessou por aquele exército, antes tão desejado. E, de peito limpo, iam para as batalhas, com as armas enferrujadas. A cavalaria virou sinônimo de descaso.

Entretanto, quando confrontado, o cavaleiro dizia, [in]seguro: “Reino é Reino”. O povo, cada vez mais faminto, começou a questionar seu líder. Não se pode usar o décimo manto sem ter condições para tal. Os apupos ficaram freqüentes. Brioches não se sustentam sozinhos.

O feiticeiro, então, foi à alfaiataria do reino e quis roubar armaduras, porque não achava o tesouro prometido. A rainha se escondeu, o séquito emudeceu, o povo não aguentava mais ser escravizado pela angústia e se rebelou.

Percebendo a fogueira arder em chamas, o cavaleiro se isolou em retiro espiritual. O feiticeiro ordenou que o distinto não voltasse ao reino, chamou uma velha e sumida bruxa para ajudá-lo na empreitada e o ginete bateu em retirada, fechando as portas para sempre e se despindo do manto rubro e negro.

A rainha e seu séquito estão assustados com a guilhotina, não só física, como a moral. O povo rebelde tenta tomar o poder, mas é pobre, não vive em parques, apenas em celeiros, estádios e estábulos. Há algo de podre no Reino da Gávea, e não é de hoje.

O conto que começou feliz termina com rainha, cavaleiro, feiticeiro e séquito duelando entre si, numa intriga de conspiração e poder. O povo tenta ser revolucionário, mas é apenas bobo da corte. Aguardando o próximo conto, que deveria ser de fadas, mas provavelmente será do vigário, num lugar não tão distante assim. Afinal, Reino é Reino.