A Cigarra

Faltam exatamente 76 dias para a estréia do Brasil nas Olimpíadas. E um pouco mais de dois anos para a estréia na Copa do Mundo. E até o momento Mano Menezes não tem sequer o rascunho de uma base montada para a seleção. Este tipo de situação já foi observada antes, mas nunca com contornos tão preocupantes.

Mano nunca foi unanimidade no comando da seleção. Sua escolha, como estepe de Muricy Ramalho, já era indício claro disso. Mas o cavalo selado passou na sua frente e ele montou, como um gaúcho pimpão dos pampas, atravessando a Oswaldo Aranha e entrando no Parque Farroupilha. Entretanto, não está sabendo lidar com a chance de ouro que a vida lhe proporcionou.

Participou de programas de TV [escolhidos a dedo], foi garoto propaganda, se deslumbrou à frente da seleção e viajou muito, mas nada com algum resultado efetivamente prático para a montagem de uma equipe competitiva.Para um protagonista, se comporta como um Cigano Igor.

Ao contrário de seu antecessor, que mesmo sendo criticado mantinha coerência e tinha esquema tático delineado, Mano não prima pela unidade e planejamento de seus passos, transformando toda a seleção num grande bumba meu boi. Suas convocações são mais confusas do que saída de bloco de carnaval em Olinda. Raras são as unanimidades, muitas são as desconfianças e algumas apostas do técnico são cercadas de incredulidade e suspeitas.

Até hoje, não tinha convocado em nenhum momento uma seleção baseada em idade olímpica. Agora o faz de forma atabalhoada. Por vaidade ou insegurança, quer dirigir o time nos Jogos, tarefa que seria melhor se estivesse nas mãos de Ney Franco, que montou um insinuante time sub-20 e demonstra, ao contrário de Mano, rara sensibilidade na montagem e treinamento de equipes com esta idade. Parafraseando o cantor Ney – Franco, não o Matogrosso – Mano se encontra na beira do caos.

Soma-se a isso o fato de Mano Menezes comportar-se como jogador de FIFA 12 no videogame, daqueles que praticam no nível semiprofissional. Em vez de adaptar seu conceito às características de quem é convocado, prefere amontoá-los a um esquema que julga ideal, mas que na seleção não funciona. Para um comandante, Mano se mostra acomodado, obsoleto e alienado, só se mexendo quando a água bate na bunda, como é o caso de agora.

Seu elenco não tem um líder – o que lembra a grande piada que foi tentar transformar Ronaldinho no comandante do barco, lembrando que o dentuço não joga nada há tempos e não comanda nem a própria vida – não é homogêneo, não tem união. É uma equipe regida pela insegurança, reflexo da CBF como um todo.

Com a fuga do presidente da CBF para Miami, num remake grosseiro de “Vale Tudo”, Mano ficou sem o respaldo institucional que tinha, já que o respaldo da opinião pública é nulo, o da imprensa é muito pequeno e Andres Sanches, seu grande guardião no cargo, mesmo antes de integrar a Confederação, é o primeiro candidato à guilhotina do novo presidente.

No meio deste turbilhão, com uma entidade sem comando, é natural que a comissão técnica, que já era completamente displicente, fique ainda mais à deriva. Um cruzeiro de loucos, onde todos procuram uma bóia para não se afogar.

Como diria La Fontaine, Mano Menezes é a cigarra que tocou, trelou e se divertiu durante o longo verão à frente da Seleção Brasileira. Enquanto isso, as formiguinhas de outras seleções trabalharam arduamente. Faltam 76 dias para a estréia do Brasil nos Jogos Olímpicos. A pergunta que se faz é: Conseguirá o treinador suportar o inverno?

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