Era só mais um Silva

São Paulo, 25 de março de 2012. Domingo. Um domingo como na música do Só Pra Contrariar, um domingo de sol, talvez. Nunca dá pra saber se está sol em São Paulo, o tempo muda como o humor dos seus cidadãos. Cidadãos. Bela palavra. Define seres humanos com direitos e deveres perante a sociedade. Sociedade. Hum…

Pois em 25 de março de 2012 centenas de pseudo cidadãos se enfrentaram na Inajar de Souza. Paus, pedras, bombas, o fim do caminho. E no meio do caminho, havia uma bala. Entre muitos feridos, uma cabeça estourada. Como melancia. Simples assim. Uma vida é retirada com uma bala na cabeça, como se o ser humano fosse uma melancia.

André Alves, 21 anos. Com vinte e um anos você quer namorar todas as mulheres do mundo. Com vinte e um anos você quer terminar a faculdade e viajar o mundo. Se acha imortal, faz várias coisas estúpidas. André Alves provavelmente se sentia imortal. E provavelmente fez vários tipos de estupidez. Descobriu, na mais arriscada delas, que não era imortal. Morreu numa briga entre torcidas organizadas.

Torcida Organizada. Irônico, hein? A sociologia moderna a definiria como “quase grupo”. “O ser humano se amolda à sociedade na qual ele vive”. Gurvitch. Ou Durkheim, sei lá, nunca sei diferenciar. Sociologia. A arte de decifrar os pensamentos de uma comunidade. Todos os envolvidos neste caso são culpados, inclusive o morto. Duro, cruel, mas verdadeiro. Na ânsia de serem “heróis” de uma “organização”, meninos e outros – não tão meninos assim – viram massa de manobra.

E a polícia? Ah, a polícia… Das instituições públicas, a polícia costuma ser o retrato mais fiel da sociedade em que vivemos. Isso explica muita coisa. Inclusive as inexplicáveis. Quando ocorrem estas situações brutais, ficamos chocados, com repulsa. Mas no dia seguinte estamos comentando o resultado do jogo. A vida anda rápido. O tempo não para, nem para consternação.

São Paulo, 25 de março de 2012. Mas poderia ser no Rio de Janeiro, Curitiba, Belo Horizonte, Recife, Salvador, Fortaleza, Goiânia. Por alto, são os lugares que lembro terem mortes por briga de torcida nos últimos dois anos. Você lembra o nome dos mortos? Nem eu. Todos, em nossa memória, são indigentes. André Alves é o mais recente. Mas semana que vem, será um indigente. Indigente geralmente é chamado de Silva. Era só mais um Silva, que a estrela não brilha, uma pessoa como eu e você, que tinha família. Até quando?

[Texto guardado no baú como B-side, desde XXV.3.2012, relembrado após mais uma morte estúpida, agora de um torcedor do Flamengo, no Rio de Janeiro]

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