Caleidoscópio

                                                       “Yo no hablo de venganzas ni perdones; el olvido es la única venganza y el único perdón” [Jorge Luis Borges]

Ele não lembrava. Quando ele se deparou com fotos da sua infância, não reconheceu nenhum daqueles momentos. Como poeira no vento, sua memória daqueles tempos se dissipou. Não sabia quando, mas sabia o porquê.

Quando pequeno, viu seus pais se separarem. Não lembra do que houve. Em brigas de casais que se rompem, há sempre três versões: a de um lado, a do outro e a verdade. Não se acorda de nenhuma delas. Apenas sabe dos fatos. Se separaram, a vida seguiu.

Ama ambos, conversa e se dá bem com eles. Recuperou o tempo perdido construindo o presente, visualiza o futuro com pai e mãe ao lado, aconselhando e debatendo, mas do passado não tem nenhum resquício. Começa a folhear as fotos, repetidamente.

É bem verdade que ultimamente tem flashes. Corta. Lembra do quarto com a coleção de carrinhos. Corta. Lembra de ter ido assistir ao “Retorno de Jedi” na carcunda do pai. Corta. Lembra de jogar bola na sala e tomar uma bronca da mãe. Corta. Lembra de chegar no aeroporto de uma nova cidade e de dormir no chão. Corta.

Não lembra mais de nada. Se esforça. Torce e retorce as memórias para achar mais algo importante. Não consegue. Tenta de novo. Não dá. Vai tomar uma ducha. Gelada. Abre uma cerveja. Bebe. Pensa em não pensar. Difícil. Os olhos enchem de lágrima, até embaçar. Queria lembrar, se sente sem identidade.

7 anos sem lembranças. 2.555 dias. Como um filme mofado, como um segredo de Fátima, perdido nos corredores da memória. Se sente desgostoso ao fazer essas cálculos inúteis. Pensa que é melhor seguir em frente. Pergunta sobre as fotos. As olha de novo. Reconstrói caminhos. Tem mais algumas lembranças.

Guarda as fotos, carinhosamente. Decide seguir. Não adianta buscar o que está empoeirado e bem guardado no fundo d´alma. O esquecimento perdoa, o esquecimento vinga. O esquecimento deve ter seus motivos. Borges sabiamente dizia, quem é ele pra duvidar?

Melhor deixar o passado guardado como está, lembrando e acariciando os poucos retalhos. Continuará com sua memória remota assim, como um caleidoscópio. Ao menos, poderá contemplar o mosaico de lembranças da forma que quiser.