Jurubeba

Mirrado, franzino e com a voz que parecia um fiapo, ninguém acreditou quando Luiz Abelardo perguntou se poderia jogar na pelada da Rua Roberto Silva. Os moleques olharam desconfiados aquele garoto que mais parecia uma armação de pipa, de tão magro. Perguntaram a ele em que posição jogava e ele praticamente sussurrou: “no gol”.

Pois deixaram Luis Abelardo na de fora. Quando ele entrou, com o time mais fraco possível, simplesmente fechou o gol. Os guris tentaram vazá-lo de tudo quanto era jeito. De esquerda, de direita, de cabeça, e nada. O garoto magrinho parecia um exu tranca-rua debaixo dos três paus, transformando as redes em sua oferenda.

Depois daquela pelada de fim de tarde, P3, Pedro Paulo Pedreira, o técnico do time da Roberto Silva, que estava sendo em um bar na esquina, chamou o guri. Perguntou se ele queria jogar no Campeonato de Ramos pelo time da rua. Os olhos de Luiz Abelardo brilharam e ele já acenava a cabeça positivamente quando escutou uma voz de trovão.

“Moleque, qual é teu nome?”
“Luis Abelardo”, respondeu, com sua voz suave e pequena.
“Porra, isso nunca vai dar certo!”

O menino se assustou e o técnico da Roberto Silva se irritou com aquele velho barrigudo e intrometido. Salvador era o nome dele. Com aquele sotaque esquisito de quem comia pinhão, dizia que tinha sido zagueiro do Coritiba ao lado do Fedato, e que tinha jogado mais que ele. Todo mundo levava isso como bravata, mas era inegável que, entre uma cachaça e outra, o araucária parecia conhecer de futebol.

P3, já irritado, emendou:

“Ô Salvador, por que você acha que isso vai dar errado?”
“Porra, P3, o moleque tem nome de funcionário público de livro do Nelson Rodrigues. “Luiz Abelardo”. Onde isso vai dar certo. Não tem sonoridade de nome de goleiro!”

P3 ficou olhando incrédulo para o barrigudo curitibano, que arrematou:

“Veja só, presta atenção: quem era o goleiro do Flamengo campeão do mundo?”
“Raul”
“Raul, não. Rauuuuuuuuuuuuuuuuuuuul”
“E o do Vasco campeão carioca de 1982?”
“Acácio”
“Não, porra. Acáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaacio”
“E o do Fluminense?”
“Paulo Victor”
“Não, cacete. Tudo junto! Pauloviiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiictor”

Depois de entender o raciocínio, P3 emendou:

“E o do Botafogo era o…”
“Cara, o Botafogo ganhou algo?”
“Não”
“Também, com goleiro sem sonoridade fica difícil. Com esse nome, o moleque não vai longe. Temos de mudar o batismo dele”

Luiz Abelardo olhava incrédulo para a discussão entre os velhos. P3 tentava argumentar e Salvador tomava mais um quartinho de sua cachaça, quando olhou para o rótulo da garrafa e definiu:

“Meu filho, tu, a partir de agora, vai se chamar Jurubeba nas peladas. Tudo bem assim?”

Luiz Abelardo apenas assentiu com a cabeça.

“Veja a diferença, P3: Luiz Abelaaaaaaaaardo, olha que porcaria”
“E agora… Jurubeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeba, como um gato! Tá vendo?!”

Ambos gargalharam e até o franzino moleque riu. A partir daquele momento, Jurubeba era o camisa 1 do time da Rua Roberto Silva.

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Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, algumas personagens e jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “1986” “Regulamento”“Superstição”, “O Pênalti”“O Professor”“Arena”“O Protesto”“Maldição” “Po锓Cabaço” , “O Amor na Marca da Cal” e “O Clássico”

1986

21 de junho de 1986. As ruas de Ramos estavam vazias naquele sábado à tarde. E silenciosas. Se caísse uma agulha em qualquer lugar do bairro, seria prontamente escutado. A última frase que havia sido proferida, em altos brados, foi um “puta que pariu, não!” a plenos pulmões.

Na Rua da Feira, silenciosamente, Zabelê, Zumbi e Besouro, irmãos e companheiros de ataque no Cimão, saíram com a bola debaixo do braço. Encontraram Comunista e Munha, rivais do time da rua de baixo, mas naquele momento não havia clima para guerra. No meio da tristeza, havia um inimigo em comum e ele haveria de ser enfrentado.

Encontraram Girino chorando abraçado a Cecê. Logo eles que se digladiavam tanto e sempre nos clássicos do campeonato do bairro estavam ali, transtornados. Bobby chegou por perto, se comunicou com os irmãos hippies apenas com um olhar e disse aos galalaus emotivos: “Não acabou!”.

Ali, na rua, montaram as traves. Onze contra onze. Seriam eles que iriam enfrentar Platini, Bats, Giresse, Tigana, Amoros, entre outros. O apito imaginário tocou e eles começaram a jogar contra o mais envolvente e poderoso dos adversários: a imaginação.

Munha tabela com Zabelê, sabendo que Girino e Cecê estariam segurando a defesa. Passaram de passagem por Tigana e Amoros. Se livraram de Fernandez, que não sabia marcar. Um passe estilingado para Cabaço, que com um drible de corpo deixou Battiston na saudade. Ao cruzar, encontrou Comunista, livre, que só tocou para as redes. 1-0.

O time não se furtava ao ataque, embora os adversários fossem perigosos. Mas ali era uma revanche, uma vendetta, uma vingança, e eles não seriam intimidados. Mesmo assim Stopyra passou para Platini, que arriscou um chute. A bola desviou em Girino e enganou Bobby. 1-1.

A equipe poderia ter se abalado com o empate, mas não se assustou. Em uma tabela envolvente, Cabaço deixou Munha livre na área, e ele foi derrubado. Ainda houve a impressão de que ele teria caído sozinho, mas a arbitragem apontou para a marca de cal. Pênalti.

Um princípio de discussão se formou. Normalmente, Besouro bateria o pênalti, mas Zumbi tomou a bola do irmão. Um quiprocó se formou. Besouro queria efetuar a cobrança, mas Zumbi apresentou um argumento irrefutável:

– Não cara, tu não vai bater essa porra. O último flamenguista que bateu pênalti contra a França durante o jogo não funcionou. Deixa eu cobrar, eu sou América.
– Porra…

Não dava para contra-argumentar. Assim, Zumbi ajeitou a bola, respirou fundo e partiu pra cobrança. Bats ainda resvalou na bola, que caprichosamente tocou na trave antes de morrer no fundo das redes. 2-1. Com uma maturidade fora do normal, eles tocaram a bola, cansando o adversário, que era mais experiente, mas não podia contra o sol forte de Ramos e uma equipe determinada.

O apito trilou indicando o fim do jogo. Eles estavam vingados. Até hoje, os jogadores de Ramos juram de pés juntos que derrotaram a temível França de Platini. Não houve testemunhas no bairro vazio, mas ninguém ousa discordar. Naquela sepulcral tarde de sábado, o bairro virou Guadalajara.

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Para conhecer melhor as personagens citadas neste conto, leia  “O Clássico”.

Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, algumas personagens e jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “Regulamento”“Superstição”, “O Pênalti”“O Professor”“Arena”“O Protesto”“Maldição” “Po锓Cabaço” e  “O Amor na Marca da Cal” 

Regulamento

Seria um grande domingo em Ramos. O time da Rua da Feira de Cima decidiria o título contra a surpreendente Travessa, que jamais havia sido campeã do torneio. O destaque do time era um atacante magrinho cuja alcunha era Kanu. Forte, ajeitado e filho de mãe solteira, Kanu era o vice-artilheiro do torneio e poderia se consagrar naquela decisão.

Entretanto, no domingo ao amanhecer, antes da festa e do jogo começar, Coronel Wilson apareceu. Dizia ele que o filho dele conhecia Kanu de muito tempo e que Kanu não tinha mais idade para jogar o torneio. “Kanu só teria idade se tivesse nascido em 29 de fevereiro“, assim disse o Coronel. Estava formado o buruçu.

O ex-militar dizia que segundo o artigo 4, parágrafo 18, inciso XIII, do regulamento do campeonato, a Travessa tinha de ser eliminada e a Cabo Reis teria de jogar a final. Os técnicos dos times não lembravam nem quem tinha feito o regulamento, pois o jogo em Ramos sempre se baseou nos resultados do asfalto. “Que porra é essa?“, bradou Bigode, treinador da Travessa, sendo seguido pelos seus pares.

Mais estranho nisso tudo é que o Coronel não gostava de futebol. Mas gostava de leis, de poder. Aproveitou uma conversa durante o dominó no bar da esquina para esmiuçar o regulamento e atuar com um procurador geral soberano, voltando aos tempos de farda.

O Coronel não se abalou, explicou o regulamento e exigiu que a Cabo Reis fosse classificada para a final. Todos olharam para o técnico da Cabo Reis, que envergonhado, disse que não tinha nada a ver com isso. Wilson então disse que deveria ser cumprida a lei, nada menos que a lei, custe o que custar. “Sabe quem dizia isso? Ele mesmo, o Garrastazu“, disse Pink Floyd, técnico da Rua da Feira de Cima, homem de paz, já emputecido com a situação.

A confusão só se alastrava e nada parecia mudar aquilo. Kanu se defendia dizendo que tinha a idade pra jogar o torneio, uma vez que fez aniversário durante o campeonato e ninguém avisou que não podia. Wilson falou que aquilo era uma irresponsabilidade e o técnico Bigode, já emputecido, bradou colocando o dedo em riste: “ô Coronel, pelo artigo 5º, ele pode jogar“. “Que artigo 5º, que não estou vendo?“, replicou o coronel. “Artigo dos meus 5 dedos na sua cara“, disse Bigode, já dando um tapão na cara do idoso coronel e transformando o que já era um inferno numa zona digna de “Feirinha da Pavuna”.

Até as velhinhas da igreja pararam pra ver o entrevero. Separa daqui, puxa de lá, “me segura” de acolá, e cada vez mais não se sabia em que resultaria aquilo. A situação estava fora de controle, até que o técnico dos Marajás, Marcelo Monstro, decidiu usar a solução mais drástica. “Vamos chamar o Supremo“. Todo mundo se calou, até o Coronel Wilson perguntar: “Quem ou o que é o Supremo?

Chama o Djavan.

Djavan chegou com aquela sua malemolência habitual. Não importava se era 0x0 ou 1×1, uma solução teria de ser buscada, naquele momento. O Coronel Wilson lembrou de seu último encontro com Djavan e já não parecia mais tão senhor das leis. O técnico da Cabo Reis, que já achava aquilo tudo surreal, nem quis se meter. Pink Floyd, técnico da Rua da Feira de Cima, habitualmente paz e amor, se recolheu. Bigode e o ex-militar apenas escutaram atentamente.

Vocês sabem que eu tenho muitas discordâncias com a lei“, disse Djavan. Senhor Wilson resmungou que não poderia ser diferente, pois fosse o contrário a sina de Djavan seria treinar e jogar no time de Bangu, não o proletário, mas o do presídio. Djavan ainda perguntou se alguém tinha dito algo, mas o Coronel negou. Continuou Djavan. “Acho que todos os aspectos devem ser contemplados e o que é legal, nem sempre é legítimo ou justo“.

O Coronel Wilson ainda tentou argumentar, lembrando que Djavan era uma autoridade do “comércio” informal. Mas aí Djavan lembrou ao ex-militar: “Por exemplo, Coronel. Muita gente morreu neste país porque o exército estava amparado numa lei pra torturar os outros. Isso é legal? Isso é bacana?“. Coronel estava estupefato com Djavan e seu conhecimento de história. Mesmo assim insistiu em chamar golpe de revolução e Djavan não quis discutir, mas lembrou que o legalismo estrito nunca é um bom caminho, embora ele mesmo fosse suspeito de afirmar tal coisa. “Pelo menos é coerente“, afirmou o milico.

E qual é a solução então, Seu Djavan?“, perguntou o árbitro da partida. Djavan decidiu que o resultado em campo devia prevalecer, pelo bem do futebol. Em primeiro lugar, suspendeu o Coronel Wilson de todas as suas funções desportivas, até porque ele nunca teve nenhuma mesmo. “Coronel, vai cuidar do seu cachorro novo, o Garrastazu“. Em segundo lugar, decidiu que o resultado de campo continuaria o mesmo, e que Kanu poderia fazer sua despedida do torneio, já que até ali, ninguém tinha dado por conta e a culpa não era do guri.

O pessoal da Cabo Reis ainda tentou chiar, mas Djavan lembrou que eles eram “terceiros interessados e nada tinham a ver com aquilo” “Se não interessa, mando eu“, disse o cartola meliante, ausente de bem-querer e de encanto. Após o burburinho, acharam melhor não recorrer. A última sentença de Djavan foi que o regulamento deveria ser refeito, porque zona só é boa na Vila Mimosa e aquilo ali era uma bagunça. O árbitro do último jogo então seria ele, auxiliado por Marilu, sua Magnum .40 de estimação, para evitar quaisquer discussões.

E assim, em Ramos, os times voltaram a decidir o torneio em campo, enquanto os técnicos firmaram um acordo de escrever um novo regulamento tão logo este campeonato acabasse. E todos eles concordaram em escrever expressamente que o Coronel Wilson não poderia representar nenhum time ou discutir nada do papel. E Djavan trilou o apito, para que o jogo fosse como deveria ser: jogado.

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Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, alguns personagens e jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “Superstição”, “O Pênalti”“O Professor”“Arena”“O Protesto”“Maldição” “Po锓Cabaço”,  “O Amor na Marca da Cal” e “O Clássico”

Dodes´ka-Den

Aos sete anos, o despertador do menino era o barulho do trem, que passava na esquina da rua onde morava. Aos sete, às sete, escutar o chacoalhar dos vagões era o prenúncio de que era hora de ir para a escola e aprender as coisas da vida, mesmo que se resumisse a português, matemática, estudos sociais e OSPB.

De vez em quando, ia jogar bola do outro lado da linha do trem. O “outro lado da linha do trem” era quase um país. Um lugar longínquo, um faroeste. A fronteira do desconhecido. Diziam que tinha mar, tinha praia, avenidas movimentadas e quetais.

O menino só conhecia a fundo o seu lado da linha do trem. O lado da música, do samba, das escolas, dos campeonatos de rua. Eram como se fossem duas Alemanhas encravadas no subúrbio. A única coisa que as unia, além do nome do bairro, eram as festas juninas. Havia celebração em ambos os lados, herança valente do povo nordestino que habitava e alegrava o local.

Quando passava pela passarela que ligava os lados do bairro, muitas vezes via o trem passando. Rápido, lépido, faceiro. Imaginava que muitas vidas começaram no trem. Havia lenda de partos, de namoros e até casamentos que se iniciaram entre as composições daquele ramal.

Por outro lado, sabia dos suicídios e atropelamentos que também passavam e permeavam aqueles trilhos. O sopro da vida, o bafo da morte. Lado a lado. Como é. Como tem de ser. O som do trem embalando o destino.

Às vezes, andava de trem, vendendo picolés para comprar uma bermuda, uma camisa. Por vezes, vendia bem; em outras comia o produto. Ali, muita coisa aconteceu, outras ganharam significado e outras foram desmistificadas.

O barulho do trem o acompanhou pela adolescência e pelo início da vida adulta. Trilha sonora de alguns amores e outros dissabores. Onomatopéia de momentos de tensão e relaxamento. Um companheiro de boas e más jornadas.

Hoje, longe dos trilhos daquele trem, seguindo sua própria locomotiva, de vez em quando o menino escuta o barulho da composição caminhando em si. Vem de dentro da alma. É seu destino sendo trilhado por aí, indicando a velocidade das mudanças. Lado a lado. Como é. Como tem de ser.

Superstição

Ramos em setembro tem festa da igreja. A Igreja de Nossa Senhora das Mercês, que fica ali, na Roberto Silva, perto do supermercado. Igreja famosa por ter sido protagonista de um acidente entre aviões, nos anos 50. Triste coincidência. A igreja é linda. Nome de santa, nome de avó. Santo é quem acalenta, não é mesmo?

Pois bem, devido à quermesse, o jogo entre a Roberto Silva – onde ficava a igreja – e a Rua da Feira de Cima teria de ser disputado na sexta- feira. Nada demais, não fosse o fato de ser uma sexta 13, e o técnico do Cimão, Pink Floyd, ser absurdamente supersticioso.

Pink Floyd, em que pese seu passado militar, virou hippie, daqueles bem atuantes. Entre a paz, o amor, as flores e o poder, a era de Aquário não resistia a um gato preto, a uma escada mal colocada e coisas do tipo.

Ramos, embora seja de alma enorme, é um bairro pequeno. Existe o lado de lá, da Avenida Brasil, do Piscinão e dessas coisas que chamam atenção no noticiário, e o lado de cá, do campeonato de ruas, das festas juninas, do fuzuê, da Imperatriz, do Cacique de Ramos, do Morro do Adeus e do Complexo do Alemão.

Sendo um bairro pequeno, todo mundo sabia o quanto Pink Floyd era supersticioso, inclusive P3, Pedro Paulo Pedreira, o técnico da Roberto Silva. O treinador, além de amigo próximo de Pink Floyd, era gaiato. Muito gaiato. Aquela sexta seria inesquecível.

Pink Floyd detestava sair na sexta-feira 13. Viagens, nem pensar. Ele até pensou em não comparecer ao jogo, mas seria uma desfeita com a equipe, que ia bem no campeonato. Seus filhos – Zabelê, Zumbi e Besouro – imploraram ao pai que ele fosse.

E ele decidiu ir. Todo de branco. Colocou seu patuá. Rezou três vezes. Confiava num sinal dos céus. E foi. Assim que chegou na esquina da Roberto Silva, P3 jogou um gato preto no caminho. Quem se arrepiou todo foi o velho hippie. Seu lado escuro da lua, seu coração atômico, todos os seus ecos ressoaram. Dureza.

O time da Roberto Silva entrou todo de preto, mudando o uniforme tradicional. “Mau presságio”, pensou Pink Floyd. O jogo começou e o time da Rua da Feira de Cima parecia tão amedrontado quanto seu técnico. Tungstênio estava endiabrado e explosivo – sem trocadilhos – e marcou duas vezes no primeiro tempo. 2×0 para os corvos da Roberto Silva.

O intervalo chegou e P3 colocou uma escada no caminho de Pink Floyd. Enquanto um se arrepiava todo, o outro gargalhava. Na preleção, apenas o muxoxo do treinador borocoxô. Um hippie borocoxô não era lá algo comum, mas o que fazer? Do outro lado, Tucano, Tungstênio e Alcione – um moleque que ganhou o apelido por ser marrom, garoto, maroto e travesso – tinham jogado o fino da bola no primeiro tempo.

Até que o padre da igreja foi fazer os testes pra quermesse. O sacristão dizia que era melhor ser prudente e ver se estava tudo nos conformes. O padre, então, mandou o sacristão tocar o sino. E o sino ecoou, o gato preto se assustou e a escada caiu – sabe-se lá porque. Pink Floyd achou que aquilo era o sinal dos céus. No final do intervalo, reuniu o time, mudou o astral e apresentou as armas. A preleção se resumiu num “agora vai! vamo virar essa merda.”

E o time que parecia um trem fantasma voltou um carrossel de emoções. Oh, yes. Zabelê, para Zumbi, para Besouro. Todos voando. Um 14-Bis. Besouro diminuiu o placar logo no primeiro lance pós-intervalo. P3 não acreditava no que via. Pink Floyd brilhava. O sino da divisão tinha começado a tocar.

Os meninos da Roberto Silva não sabiam o que fazer com a bola. Era um exorcismo futebolístico. Girino, o zagueiro pura disposição, aproveita um escanteio e sobe. Por quem os sinos dobram: Não sei, mas Girino, ele sabe. E testa a bola como se fosse um Tomahawk, um Patriot, um Exocet [calcinha]. Míssil. É o gol de empate.

O gato preto se aninha perto do lugar onde está P3. Ele olha com aquela cara de “sai pra lá, sai pra lá”, característica de quem deve e teme. Pink Floyd está em estado de êxtase. Altas expectativas. A chuva desaba, limpando as mazelas. Bobby, o goleiro cabeçudo, passou a fechar o gol. O Cimão dominava.

E assim veio um ataque do Cimão, mais potente que simpatia de São Cipriano. Girino tocou para Afonso Perereca, que tinha essa alcunha por ser dançarino de charme e pular mais do que pogobol descontrolado.

A tabela anfíbia deu certo e encontrou o ataque hippie. De Zumbi, para Besouro; de Besouro, para Zabelê, que observou o goleiro saindo e deu um toque caprichado, encobrindo o camisa 1 com requintes de crueldade. Gol da vitória.

P3 não acreditava, Pink Floyd não acreditava. Uma vitória histórica, que entraria para o anedotário de Ramos. Após os cumprimentos, Pink Floyd decidiu ir pra casa, não era bom ficar no bar numa sexta-feira à noite.

Ainda assim, P3 perguntou o que ele tinha feito pra vencer a superstição. Pink Floyd disse que falou com uns amigos do além e usou uns galhos de arruda. Os amigos do além pediram pra ele esperar um sinal do céu. A chuva veio, os sinos ecoaram. P3 ficou atônito e incrédulo com a resposta.

No dia seguinte, na quermesse, por curiosidade, perguntou quem era o sacristão. O zelador da paróquia era o Seu Malaquias, ex-jogador do Cimão em tempos antigos e que conhecia bem as manias de Pink Floyd. O sino tocou pela influência dele. O deus do hippie era a mão parceira. P3 ficou com o gosto amargo da derrota. E o gato preto no seu pé.

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Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, alguns personagens e jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “O Pênalti”“O Professor”“Arena”“O Protesto”“Maldição” “Po锓Cabaço”,  “O Amor na Marca da Cal” e “O Clássico”

Catarina

– Preparado pra sair? Assim recebeu a comunicação que sairia nas vésperas de Natal. Indulto. Clemência. Sorriu sarcasticamente. Era oportunidade de acertar contas com o destino e, principalmente, reencontrar Catarina.

Depois de tanto tempo na cadeia, já havia esquecido certas coisas e certos gestos. Queria ser lúdico, sonhar que estava fora daquele inferno, não contar como estatística, letra de rap, numeral. Ordinário. Mas seus pensamentos eram mais pesados do que o ar, fazia anos que não conseguia nutrir esperanças, apenas contava os dias, quando contava. A liberdade era meio, não era fim.

Foi preso injustamente. Parece balela, pois na cadeia todos são inocentes. É a regra implícita número um. Mas no caso dele foi pego por algo que realmente não fez. Culpa de um idiota qualquer, que além de tudo fez com que seu filho fosse morto sem querer. Ódio virou seu sobrenome, ódio era o que o mantinha vivo.

Quando o informaram que finalmente iria sair, pelo indulto de Natal, teria chance de colocar o destino em xeque, reencontrar Catarina, realizar seus desejos. Sua mudez cheia de rancor foi interpretado como bom comportamento. De ouro, o silêncio é de ouro.

Finalmente a porta da cela se abre, assim como algumas outras portas e cadeados. Pôde finalmente respirar o ar da rua. Depois de muitos anos aprisionado, a hora de colocar as contas em dia chegou. Sua ceia era o anseio.

Chegou em casa, viu a cara sofrida da mulher, maltratada e chibatada pelo destino, que a deixou sem o filho único e com o marido cerrado. Um abraço forte, emocionado. Se olharam. Ele disse sem dizer, ela assentiu sem nada falar. Tomou um café da patroa, quanto tempo não tomava um café da patroa. Quando o líquido quente e forte irrompeu pela garganta, finalmente falou: “Catarina”.

A patroa respondeu de bate pronto: “no lugar de sempre”. Ele vai ao quarto, abre o criado mudo, que tanto ouviu as lágrimas de sua esposa. Lá estava Catarina. Glock 17, 9 milímetros, todas as balas intactas no pente. Olhou, limpou, colocou Catarina na cintura. A hora era agora. Beijou a mulher na testa. Ela se benzeu.

Andou não mais do que quinhentos metros. Entrou na birosca. Ele estava lá, bêbado, como na maioria das vezes. Antes bandido respeitado, tinha sido vencido pelo crack e pela cachaça. Agora era personagem folclórico da favela, mais digno de pena do que temido.

Quando parou de prestar atenção na bebida, viu aquele que foi injustamente para a cadeia em seu lugar, aquele de quem matou o filho, mesmo que sem querer, no meio de um tiroteio. Tentou se levantar, tropeçou. Tentou correr, não conseguiu. Sentiu aquela vez como se fosse a última. Um pacote bêbado, um pacote flácido, uma frase desconstruída de Construção.

Olhou nos olhos do seu algoz do instante seguinte. Tentou pedir desculpas, gaguejou. Posto que não falava, Catarina falou. E falou alto. O pente descarregado, cravejando o pobre diabo de balas, tingindo de vermelho o piso do bar.

Enquanto ele estrebuchava, morto, Catarina voltou à cintura de seu dono. Caminhou os mesmos quinhentos metros de volta, em silêncio. Quando a polícia chegou, nada descobriu. Quem soube, disse que não sabia. Quem viu, disse que não via. Abraçou a mulher, aliviado. Disse: “Feliz Natal”. Tomou um banho. Sentaram-se à mesa, depois de guardar sua companheira de tanto tempo no criado mudo. Sua ceia não era mais anseio.