O Espinho de Rosa

Atualizando minha leitura de domingo, dei de cara com um texto do El País, retratando o encontro entre uma vítima do terrorismo e seu algoz. Rosa, catalã, e Rafael, basco, etarra e ex-chefe do ETA em Barcelona, mentor do atentado de 19 de junho de 1987 que matou 21 pessoas e feriu 45. Dentre elas, Rosa, seu marido e seu filho de 3 anos.

Graças a um programa do governo espanhol, pela reinserção de presidiários, vítimas e algozes podem se encontrar. Rosa M. P. e Rafael Caride estiveram finalmente frente a frente. 25 anos depois, ela tinha a alma sufocada de perguntas e porquês. Ele tinha as respostas. E teria o direito de negá-las, embora tivesse o dever de dizê-las.

Quando se olhassem nos olhos, poderia ser o ódio uma freqüência comum de comunicação – ou da falta dela. Mas não foi isso o que ocorreu. Mesmo com a sede desesperadora de respostas, Rosa foi terna. Incisiva, dura, mas terna. Não chegou à complacência, mas manteve a serenidade, mesmo quando disse ao terrorista que “queria ver sua cara e lhe dizer que você me devorou a vida”.

Rafael respondeu tudo. Primeiro com aparente frieza; depois com mais vontade e desprendimento. Em ambos os casos com riqueza de detalhes, como se repassar os passos lhe fosse indulgente e como se dar as respostas à sua vítima pudesse aplacar as dores – dela e dele.

Confessou como é difícil sair de uma organização rebelde – que muitas vezes teve atos criminosos como este e, quando ela  perguntou, francamente, sobre como ele se sentia sendo mentor daquele atentado, não soube responder. Talvez nunca tivesse pensado nisso. Provavelmente a causa tinha estrangulado seus próprios juízos de valor. Fanatismo tem dessas coisas.

Ao fim da conversa, Rosa explicou a Rafael que com ódio não se consegue nada, que o caminho passa sempre pela paz. Como disse aquele cabeludo que o Rei – Roberto, não Juan – Carlos citou, “não importam os motivos da guerra, a paz é o mais importante”.

Deixou um livro sobre anjos, que primeiramente Rafael rechaçou, por se dizer sem religião. Ela, firme, lhe disse que não era sobre Deus, era para que lhe fizesse companhia. Mas o que é Deus para quem acredita, senão a muleta e o norte que faz companhia quando se está só e descrente?

Rafael agradeceu a valentia de Rosa, denunciando alívio. Se deram as mãos. Dali, Rosa saiu, mostrando que o espinho da piedade, do perdão e do entendimento é muito mais contundente do que o ódio e a vingança. E, fatalmente, cortou o âmago de Rafael, que provavelmente dorme com o arrependimento e o remorso. E não há ferida que angustie mais a alma do que o remorso.

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Crônica baseada no texto do El País, de XXVI. 05.2012 => http://politica.elpais.com/politica/2012/05/26/actualidad/1338055516_639919.html

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