Álbum de Figurinhas

“Eu não vou colecionar isso não”.

Mesmo com inúmeros pedidos da Ruiva, era uma decisão tecnicamente inegociável. Fazia anos que não colecionava álbum de figurinhas. Desde que descobri os guias, com as fotos dos jogadores, não tinha o mínimo interesse nos cromos que já tinham virado febre entre meus amigos.

Admito que isso tem a ver com uma certa frustração dos tempos de guri. Quando moleque, não tinha grana pra comprar figurinhas em grande quantidade. Todos os álbuns que completei foram graças ao porquinho e uma estrondosa habilidade no bafo [bafo, bolinha de gude, corrida de tampinhas, pipa e futebol de botão, não fazia feio. Era um grande atleta do decatlo de esportes de subúrbio].

Mas o número de álbuns incompletos sempre foi maior que o número de completos. No do Roque Santeiro, por exemplo, faltou o Beato Salu. Já no da Fórmula 1, faltou o carrinho da Coloni. Cara, o carrinho da Coloni era uma figurinha dificílima. Nem nas partidas de bafo ela aparecia. Era o Santo Graal das figurinhas. Um inferno. A Coloni não andava na pista e a figurinha não rodava no pacote. Eu, sinceramente, não queria que meu guri passasse por isso.

“Mas, nego, você tem de ver que é a primeira copa dele, mesmo com ele não lembrando de nada. E vai ser muito legal daqui a quatro anos, vocês dois folheando o álbum e você mostrando pra ele quem eram os jogadores. O Drogba, o Xavi, o Pirlo, esses caras não vão estar jogando em 2018. Ele precisa saber quem são”.

Tá, esse argumento me deu um wazari. Difícil sair dessa imobilização moral. Aí o Dindo Cadu, muito Dindo, deu aquela moral lá do Rio de Janeiro. Contra a mãe e o Dindo, fica difícil. A Tia Kaká, o Tio Thiago e a Tia Nanda se mobilizaram também. Aí complica mesmo. Estava difícil resistir, mas eu ainda tentava, rumo ao nada, como se fosse Hiroo Onoda nas selvas filipinas. Até que um álbum brotou em minha residência.

Fiquei puto, confesso. Me senti traído, apunhalado moralmente. Estava sendo compelido a fazer algo que não queria, sem nenhum convencimento – não foi por falta de tentativa, admito. Sou teimoso como um hipopótamo, não por acaso é meu bicho preferido. A Ruiva ainda soltou, carinhosa: “Seu pai deve ter feito o mesmo com você”. Eu não tinha essa resposta.

Minha infância é um vazio na cabeça. Lembro de muito pouca coisa. Me recordo de ter visto “O Império Contra-Ataca” no cinema, aos 4 anos. [Valeu, pai, você mandou bem demais nessa]. Tenho memórias de uma coleção imensa de carrinhos de ferro [algo que até hoje não compro, me dá uma melancolia danada. Meus carrinhos, assim como um pedaço das minhas lembranças, se perderam no labirinto do tempo]. Sem lamentos,  sem lamúrias, sem pena. Apenas não estão lá.

E lá estava ele, o álbum, imponente, vazio, como três pacotes de figurinhas. Olhei pra ele, ele olhou pra mim. Antes que tocassem os primeiros acordes de “Adelaide” [minha anã paraguaia], lá estava eu colando um cromo. A Ruiva me interpelou, provocadora: “Ué, e vai colar agora?”. Olhei com meu olhar fuzilador de príncipe George e desci para o jornaleiro. Quando era moleque eu não tinha grana. Agora não sobra, mas faltar, não falta. Trinta pacotes. Assim, de supetão.

TRINTA pacotes? Mas trinta pacotes dá meio pacote de fraldas!” Ué, não era pra levar a sério a brincadeira? Tem coisas que um pai precisa lidar, porque não dá pra proteger o filho do mundo e de todos os desafios que virão. Mas certas coisas um pai não pode deixar acontecer. Este álbum deveria ser completo. Ele seria completo. A missão estava em curso.

Na pelada de segunda-feira? Troca de figurinhas. No trabalho? Troca de figurinhas. Mas isso não era suficiente. Aí surge um fiel escudeiro: Tio Washington. Wash é amigo de longos e bons anos. Carioca de Duque de Caxias, morando em Recife há mais de uma década, é dos melhores amigos que tenho na vida, um dos dois melhores desta terra. Companheiro da pelada de segunda-feira, amigo da vez das cervejas de sexta – já que não bebe – e parceiro de arquibancada dos jogos do Flamengo em cada canto do Nordeste. Apaixonado pelo sobrinho, já tinha decidido: Ele iria completar o álbum e em grande estilo.

Primeiro, arranjou um álbum de capa dura. Aí lá foi a Ruiva descolar as figurinhas coladas no álbum de capa mole e recolocá-las no de luxo. O que seria um suplício para alguém com duas mãos esquerdas, como eu, pra ela foi sopa no mel. Artista é artista. Uma troca de mensagens durante vários fins de semana:

– Cara, tô aqui em Olinda, tem troca de figurinhas, tá faltando o que no álbum?
– Faltam 37, inclusive o Robinho.

Confesso que pensei em colar outra figurinha no lugar do Robinho. Pensei em fazer a figurinha do Brocador, pra subverter a história, como um norte-coreano em 2010, e explicar como Felipão barrou a grande estrela do Flamengo na Copa [observe que a grande estrela do Flamengo é um cara que não jogaria nem no time de 1992. Que fase.]. Pensei também em colocar a figurinha do Caça-Rato na Copa do Nordeste, como protesto, mas desisti a tempo. Robinho, ao menos no álbum, seria escalado. Depois de tanta troca de mensagem, as faltantes foram devidamente conseguidas.

Numa segunda-feira de temporal, na pelada, jogando no estilo Libertadores, só faltavam duas figurinhas: Eduardo Vargas, do Chile, e Omar Rodriguez, dos EUA. E elas surgiram ali, no meio do dilúvio, das mãos do Tio Washington, completando o álbum do moleque.

Confesso que, voltando de carro em meio àquele temporal, me emocionei. Pensei nos álbuns que deixei de completar; pensei também nos que talvez eu tenha feito com meu pai e não lembro sequer quais foram; e me peguei fantasiando daqui a quatro anos, folheando este, tendo que explicar ao guri quem eram Pirlo, Xavi e Drogba, o quanto jogaram, as histórias, e tudo mais. Terei de explicar também porque Robinho não foi ao torneio, mas isso é fácil.

Ao chegar em casa, de forma cerimoniosa, as duas últimas figurinhas foram coladas. O álbum repousa ao lado do Fuleco que a Tia Di, babona, deu de presente. Ali, pertinho do berço, onde ele está sonhando e crescendo. Toda vez que acordo, ao nascer do sol, passo lá, faço um cafuné, dou um beijo na testa dele e agradeço, por através de mais uma coisa, tão singela, mas tão importante, recuperar minha infância. E saio do quarto, na ponta dos pés, pensando: Vai ter Copa sim. Vai ter Copa pra caralho.

P.S.: Estou aqui me perguntando se papai colecionou o álbum da Copa de 1978 pra mim. Vou ligar pra ele.

Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XVI – Das Fraudes

[Nada escrito neste texto é inverídico. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. São depoimentos reais de cafajestes atuantes, em remissão, aposentados, mas sempre, sempre com o gene da cafajestagem como dominante]

Ser cafajeste demanda muito trabalho. É uma arte milenar, burilada e lapidada no âmago da malemolência. Como diria Baden e Vinicius – dois cafajestes notórios – no “Canto de Ossanha”, o homem que diz “vou”, não vai, porque quem vai mesmo não diz. O cafajeste até diz que é, mas nunca parece ser. A cafajestagem é um drink emocional com doses bem divididas de canalhice, cretinice, lealdade e quetais. Uma dose equivocada e dá uma dor de cabeça danada.

Certa vez, em uma mesa redonda formada por cafajestes em remissão – a cafajestagem é um comportamento autoimune, ela pode até estar adormecida, mas nunca sai do interior dos raros hospedeiros – se discutiu a tendência e necessidade atual deste arquétipo. Como é um tipo valorizado, estão tentando vendê-lo como moda, tendência, como se fosse um Nauru do início dos anos 90, uma calça de bali, uma tiara de flores, uma cerveja artesanal.

Portanto, você, leitor ou leitora que tem uma queda inexorável por cafajestes, tem de saber que há fraudes por aí. Em todos os lados, todos os setores. A verdade está lá fora. O cafajeste, tal e qual o papa, é pop. E, vocês sabem, o pop não poupa ninguém.

Hoje, os diários secretos da cafajestagem apresentam pequenos relatos feitos por experts na área, do sexo masculino e feminino, que não serão identificados pela preservação das identidades e da – má – reputação.

São 4 tipos comuns de fraude, que sempre, incontáveis vezes, conseguem engambelar o incauto. Observem essas dicas, pois podem ser muito úteis naqueles momentos garotos, marotos, travessos e podem evitar o gosto amargo da desilusão. [Aviso: Não se pode reclamar de cafajestagem no Procon. Você compra o que você acha que vê]

Importante ressaltar que até cafajestes experimentados já se utilizaram de movimentações fraudulentas. Ninguém é inocente neste mundo, jovens. Então, não é uma questão territorial. Às vezes, é até um mea culpa, ou culpa inteira, quiçá culpa e meia. Importante dizer que a fraude da cafajestagem pode até ser entendida como um tipo diferente de cafajestagem, vegetariana, digamos assim. Não há um julgamento sobre quem usa esta
artimanha. Cada um joga o jogo com a bola que tem.

O cara do violão: Normalmente, sempre há um cara do violão. Ele, nas festinhas, puxando um sucesso da época, para encantar inocentes que acabam caindo naquela ladainha cifrada. Entre lá, si, dó, uma pestana mal colocada, aquele olhar lânguido dizendo que é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, querendo demonstrar toda a habilidade musical que o levaria no máximo ao programa de Calouros do Raul Gil. Este é um tipo que hoje em dia normalmente usa barba e canta músicas de bandas pretensiosas, com temas sensíveis demais – pois ele é alguém que chora.

O poeta/escriba/cronista das belezas femininas: Esta é uma fraude refinada. Sempre com aqueles escritos sob medida, como se fosse um tailleur espiritual. Valoriza a imperfeição, a rejeição, o talento, com muita maestria. Como se fosse um disco do AC/DC, faz várias variações sobre o mesmo tema. Conta com a benevolência de quem ouve/lê, porque o discurso encaixa perfeitamente no desejo. E aí, como diria o filósofo moderno, créu. O alvo, inebriado, e já na querência, não tarda a cair. É um tipo mais raro, porque demanda habilidades de escrita, inclusive para fazer a tática Zinho em 94: rodar, rodar, rodar e parar no mesmo lugar – a cama.

O polêmico: Aquele que sempre entra na discussão com uma visão absolutamente diferente de tudo que se viu, imaginando fazer um voleio de Bebeto contra a Argentina em 1989, mas na maioria das vezes elaborando um cruzamento do André Santos. Mesmo assim, chama a atenção pela opinião firme e personalidade forte, dando um ar de sapiência naquele momento da conquista. É uma fraude que exige esforço porque é não é uma fraude-arte, uma fraude moleque, uma fraude toco y me voy. É uma fraude científica, que exige tática para saber o melhor momento para atacar. É a tentativa que a cafajestagem força tenha sucesso sobre a cafajestagem malemolência [no pasarán]

O ativista de ocasião: Essa é uma fraude nova, que veio com a evidência do terceiro setor, das ONGs, da consciência social, das manifestações. Sempre a favor de uma causa que mexa com o seu alvo. Com seu conhecimento tão profundo quanto a banheira do Gugu, vai desfiando palavras de ordem para deixar o coração em desordem. Quando consegue seu intuito, demonstra ser uma pessoa comum, até mesmo com vícios e preconceitos incomuns e aí, parte para um novo ativismo/alvo, com suas botas vermelhas, seu casaco de general, alguns broches e anéis. É um tipo de fraude polêmica – embora faça bastante sucesso, pois envolve um mosaico de personalidade que não nos cabe julgar aqui, nem em canto algum.

Esses tipos andam por aí, entre nós. Podem inclusive ser um de nós. Portanto, ao se encantar com um cafajeste por aí, leitor ou leitora, lembre-se que ele pode ser uma fraude, contra a qual você não pode pedir ressarcimento. Divirta-se, mas fique de olho. Boa noite. E boa sorte.

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O capítulo I dos Diários Secretos da Cafajestagem, “La Bombonera”, está aqui

O capítulo II dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Reveillón”, está aqui

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O capítulo IV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Evidências”, está aqui

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O capítulo VIII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Nome Artístico”, está aqui

O capítulo IX dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Churrasco”, está aqui

O capítulo X dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Aniversário”, está aqui

O capítulo XI dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Consórcio”, está aqui

O capítulo XII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Toalha”, está aqui

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O capítulo XIV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Putão”, está aqui

O capítulo XV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Cachê”, está aqui

 

 

O Evento

– Oi, filha, boa noite, como foi na sua avó?
– Tudo certo, tranquilidade.
– E no dentista?
– Tudo em paz.
– Hum.

[toca um rock no carro, balançam a cabeça no ritmo do som]

– Ó, vai ter um evento naquela casa de shows.
– Um evento?
– É. Um evento.
– Hum. Conte-me mais.
– É um evento de animes, com a apresentação de uma das grandes bandas de K-Pop do mundo.
– K-Pop?
– É. K-Pop. Você não conhece?
– Deveria?
– Deveria. Você está ficando obsoleto.
– Obsoleto. Hum. Entendo.
– Dizem que esse evento pode ser maior que a Comic Con.
– Claro, claro.
– É o que dizem.
– Ei, esse é meu bordão.
– Tal pai, tal filha. Posso usar.
– Você é muito palhaça.
– Nunca neguei.
– Ei, esse também é meu bordão.
[…]
– Então, você compra meu ingresso?
– Vai depender de suas notas. Como estamos este ano, na zona do rebaixamento?
– Não, tô estudando, juro.
– Sério mesmo?
– Sério.
– Tenho observado. É uma leitura muito dinâmica. É um estudo enquanto dorme, algo do tipo? Sabe como é, estou ficando obsoleto, preciso aprender essas coisas.
[faz cara feia]. – Tô falando sério. Inclusive vai ter essa banda que falei.
– Hum, que banda é essa?
[pega um papel na mochila, mostra o logo da banda]– É a フロウ.
– Cuma?
– フロウ [se fala “Flow”]
“Flow”, do inglês?
– É.
– E por que você não fala logo “Flow” em vez de mostrar esse logo フロウ?!
– Porque perde a graça. Assim, além de eu rir, dá pra ver que você está obsoleto.
– Hum. Entendo.
– Mas e aí? Você vai comprar o ingresso pra mim?
– Você vai fantasiada?
– Não é fantasia, é cosplay.
– Claro, tinha esquecido dessa diferença. Mas vai fantasiada?
– Vou.
– De que?
– Jack Frost.
– Hum. Sua galera vai?
– Vai! Vão fulano, sicrano, beltrano… [mais de 289 nomes em pouco mais de 4 minutos…]
– Certo, conheço alguns.
– Então, você deixa?
– É possível, mas preciso ver suas notas antes.
– Tá. Tô tranquila, tá no começo do ano ainda.
– Tem poucas notas pra análise. Garota esperta.
[sorri encabulada]
– Vou falar com sua mãe e ela te dá o dinheiro.
– Beleza.
– Filha, só um pedido.
– O que?
– Além de juízo, vê se não me arranja mais um namorado de cabelo azul, pelo amor dos céus.
– Para com isso, pô.

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Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XV – Cachê

Eles sempre tinham um ponto de encontro pós-noitadas, bebedeiras e, certamente, cafajestagens. Aquele bar à beira-mar, na altura do Lido, tinha chopp gelado e havia sido testemunha ocular de grandes romances, quebra-paus e gargalhadas. Nada mais natural de ter se tornado o quartel-general de um bando de canalhas.

Ademais, aquele mesmo bar tinha a característica de ser o local da happy after hour das moças pós-trabalho na Help, na rua, nas boates da Prado Junior e localidades afins. Ao fim do expediente, elas iam pra lá relaxar, partilhar experiências, beber um chopp gelado e paquerar.

Sim. Paquerar. Porque trabalho é trabalho, romance é romance, amor é amor e um lance é um lance. Ali era campo neutro, fora do horário de expediente. Um xamego e um xodó valiam tanto quanto algumas notas de dólar amassadas. Unindo o útil ao agradável com o chopp gelado, muitos casais fugazes de apenas uma noite se formaram naquelas mesas e balcões.

Muitas vezes nem se viam mais. Em algumas viravam casais eternos, leais, ciumentos e confidentes com a duração de poucas horas. Ninguém esperava nada daquele fim de noite, que poderia se tornar a parte mais interessante da saída. Certa vez, eles estavam no bar e já começavam aqueles movimentos típicos do xadrez entre os possíveis casais. Um deles, observando – e bebendo – fixamente seu sexto chopp, viu adentrar uma mulher estonteante.

Com sorriso de comercial de pasta de dente, simpatia de comercial (011) 1406 e uma malemolência que faria Michael Jackson ter uma ponta de inveja, ela pediu um chopp como se estivesse em um filme francês, tamanho charme. Ele a observava e já tinha engatilhado todo seu estoque de cantadas para que pudesse observá-la. Ela o fitou nos olhos e naquele momento tudo parou, virou clichê, tocou música de Julio Iglesias e filme de John Woo, com todos os presentes em câmera lenta.

E ele gastou sua saliva, seu repertório, seu latim e ela se mostrou muito acessível. Ela sapecou-lhe um beijo na boca, tão inesperado quanto correspondido. Galvão e seu “É tetra!” já ecoavam em sua mente. A vitória estava quase garantida. Tomou coragem e a chamou para da um passeio.

Era a senha para ser feliz. Se levantou, os amigos bateram palmas. Era o gol do fantástico, o assunto que permearia a mesa de bar por dias, semanas e seria lembrado nas próximas gerações. De mãos dadas, na porta do bar, começam a travar um singelo diálogo.

– Meu amor, você vai me levar pra onde?
– Naquele motelzinho ali, é simples, mas gostoso. Vamos curtir o momento e depois ver o amanhecer no
Arpoador.
– Tá. Mas olha, meu cachê é de R$ 250,00

Cachê?! Cachê?!?!?! Havia uma regra não-escrita na qual não se cobrava cachê ali. Ela estava ferindo a regra. Mas naquela hora, não poderia recuar. Não havia dinheiro suficiente para o cachê, apenas malemolência para curtir a situação. Tinha de pensar rápido. E pensou.

– R$ 250,00?! Tá bom.
[ela o beija demoradamente]
– Minha gata, vamos nessa, mas você está me devendo R$ 50,00.
– R$ 50,00?! De que?!
– Meu cachê é de R$ 300,00. Já que você faz por R$ 250,00, te dou um abatimento e você só me deve R$ 50,00.

O estampido do tapa na cara foi ouvido no bar inteiro. Enquanto ele era xingado, as amigas explicavam que naquele bar não era hora de trabalho, mas sim de descanso. Até os mal-entendidos serem desfeitos, foram alguns minutos.

Ela decidiu ir pra casa, não sem antes se desculpar e dar o telefone a ele, caso ele precisasse de um relax depois. Ele foi consolado por uma amiga dela, que se sentiu compelida a reverter o quadro. E os amigos gargalham e contam essa história até hoje.

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Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XIV – Putão

[Nada escrito neste texto é inverídico. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. São depoimentos reais de cafajestes atuantes, em remissão, aposentados, mas sempre, sempre com o gene da cafajestagem como dominante]

Estava tudo certo para o churrasco que se avizinhava. Aniversário de um deles, comemoração grande, coisa de 100 pessoas. Carne comprada, cerveja também. Som garantido, um ziriguidum ali, um pancadão acolá, os amigos – e as amigas – convidados, tudo nos conformes, exceto pelo céu chumbo que se avizinhava.

– Ih, caralho, será que vai chover?
– Vai nada.
– Porra, tu é meteorologista?
– Não.
– Então como é que tu sabe que não vai chover?
– Eu tenho um pacto com o cara lá de cima.

Caiu um temporal durante a madrugada, mas o certo é que – com renegociação do pacto ou não – o dia amanheceu bem ensolarado. O churrasco começou sem grandes percalços, e com muita diversão.

Um deles não aguentava mais beber e decidiu ir pra casa descansar, enquanto os outros continuaram uma baratona que duraria a eternidade de uma madrugada, com direito a tombos escalafobéticos no gelo e no box blindex classic sesosbra realizados por uma mesma pessoa, que poderia ter virado dublê – fontes dizem que foi o narrador desta história, que desmente categoricamente tal fato, inclusive apagando essas linh… continuemos.

Entre 3 e 4 da manhã, pegam o telefone para ligar para o amigo desertor:

– Tuuuu.
– “Oi, você ligou para a casa da avó do amigo, deixe seu recado na caixa postal que retornaremos assim que pudermos”
– E aí, putããããããão, foi embora, né? Desertor. Sabe aquela menininha que você curte? Ela está aqui perguntando por você. Que vacilo, hein? Alô, putãããããããão, devia ter ficado com a gente. Da próxima vez fica com a gente, putão.
– Piiii.

O amigo já estava dormindo chapado em casa e não escutou a secretária eletrônica…

… entretanto, a avó dele acordou cedo para ir à missa. Antes disso, viu aquele pisca-pisca vermelho no aparelho telefônico e foi checar a mensagem. Nada disse.

Ao voltar pra casa da Missa, a avó o encontrou tomando café.

– Oi, Vó, bom dia.
– [ela olha e coloca a bolsa no apoio, antes de se sentar]
– Tudo bem vó? Como foi a missa?
– Foi tudo ótimo, putão. E o seu churrasco, foi bem?

Ele não sabia onde enfiar a cara…

– Seus amigos deixaram uma mensagem na secretária eletrônica pra você.

E enquanto ele ouvia a mensagem, apenas uma expressão passava pela sua cabeça: “filhos da puta”.

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Cabelo Rosa

– Oi. Tudo bem?
– Tudo ótimo. [beija]
– Como foi seu dia? Como está o Miúdo?
– Tudo corrido, mas todos bem. Miúdo está meio molengotengo por causa vacina, mas bem.
– Cadê ele.
– Está dormindo e vai continuar assim.
– Gosto dessas sugestões sutis e delicadas, como se fossem um comercial de sabonete.
– Apenas a verdade.
– Cadê a Pequena?
– Tá no quarto.
– Tudo bem com ela?
– Tudo ótimo, incl…

[Pequena chega na cozinha]

– Mãe, aqui está a tintura pra descolorir a ponta dos cabelos. Vamos fazer agora que Miúdo está dormindo?
– Desc… desc… como é que é?
– Então, era o que eu estava tentando dizer [olha pra Pequena com aquela cara de “porra, cê fez cagada”], nós fizemos um pequeno trato e eu a deixei pintar as pontas do cabelo de rosa.
– Hum. Entendo. Conte-me mais sobre este “trato”.
– Eu e mam…
– É melhor eu falar, minha filha. [aquele olhar de “agora o bicho vai pegar”]
– Tá, vou ali descolorir o cabelo.
– Ei, ei, ei
– Deixa a menina ir. Escuta.
[olha com aquela cara de “véi, você traiu o movimento”]
– Eu fiz um trato com ela, naquele momento em que ela estava no pau da goiabeira pra passar de ano.
– Veja bem, estar no pau da goiabeira pra passar de ano ocorre desde o Jardim III. Isso não é desculpa. Mas qual foi o trato?
– Se ela passasse sem conselho de classe, apenas no estudo, eu a deixaria pintar os cabelos de rosa.
– Hum.
– Mas só as pontas, porque se ficar horroroso podemos cortar.
– Sabe o que é isso? É influência daquele ex-namorado de cabelo azul, figurante de desenho do Smurf.
– Inclusive ela já está com um novo pretendente, oriental.
– Pinta o cabelo?
– Não, acho que não.
[Pequena lá do quarto: “descolore de vez em quando pra fazer cosplay”]
– Um japonês com cabelo de Ivo Meirelles? É o Nakata?
– Que Nakata?
– O jogador de futebol.
– Sei lá quem é Nakata. Filha, pesquisa o Nakata no google.
– Nakata é feio que dói, mãe. Ele tá me sacaneando. De novo.
– Pare de sacanear sua filha, ela está de férias.
– Tá. E esse cabelo aí?
– Ué, ela vai pintar.
– Podia ter me avisado.
– Nessa correria, a gente acaba esquecendo.
– Hum…
– Veja só, ela tem 15 anos, adolescente, a hora dela fazer essas cagadas no cabelo é agora. Depois de velha é que não dá pra fazer. Veja você, que usava mais brinco do que vitrine de loja de bijuteria e mais anel do que puxador de escola de samba, quando era moleque?
– Olha a palhaçadinha…
– É sério. Eu também tive meus arroubos na juventude.
– Seu cabelo parecia o da Elba Ramalho.
– Você quer apanhar?
– Opa, já não está mais aqui quem falou.
– Aproveite que não está mais aqui e leve o lixo lá fora. E passe o café também.
– Parece justo. Filha?
[ela vem do quarto, com a ponta dos cabelos em processo de descoloração]
– Você vai ficar parecendo uma personagem de Zillion.
– ?!
– Pesquise, jovem. Pesquise.
– Tá.
– E, ó. Mesmo de cabelo rosa, eu te amo.
– Eu também te amo.
– Depois você me conta quem é o Jiraya que está querendo te namorar.
– Essa é uma outra história…

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Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XIII – Miscelânea

[Nada escrito neste texto é inverídico. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. São depoimentos reais de cafajestes atuantes, em remissão, aposentados, mas sempre, sempre com o gene da cafajestagem como dominante]

– E aí, galera? Tudo beleza? Desce uma cerveja aí, camarada. O que me contam?
– Estamos aqui conversando sobre essas modernidades de avaliação de homens e mulheres.
– Cara, besteira. Alguém se importa?
– Não, nem um pouco.
– Embora eu seja adepto do “Teorema da Tailândia”.
– ?
– O que acontece na Tailândia, fica na Tailândia. E o mundo, caras, o mundo é uma imensa Tailândia.
– E quando você comenta com a gente sobre as queridas?
– Vocês estão retirando do contexto.
– Hum. Entendo. Conte-me mais.
– Eu sou o protagonista da minha vida. Vocês são os coadjuvantes que alegram, como se fossem uns Morgan Freeman. Então, o protagonista sempre conversa com o Morgan Freeman. Apenas isso. Sem segunda intenção.
– Sei. Faz sentido, mas você deveria parar de beber.
[gargalham]

* * *

– Já eu prefiro o “Teorema de Alexandre Pires”.
– Cuma?
– Mineiramente a gente come quieto, come mais e come duas vezes.
– Claro. Danado.
– É sério.
– Tô quase acreditando.
– Pois acredite. Cunhado.
– Cunhado?
– Eu não te contei, você não sabia. Tá vendo como o teorema funciona?
– Mas que filho da puta.

* * *

– Mas, então, lembram daquela guria?
– Putz, ela é muito gata.
– Me mandou umas fotos.
– Fotos?
– Sim, fotos.
– Porra, compartilha com a gente.
– Não.
– Sou contra também. E se fosse pra ver fotos e imagens, prefiro ver filme pornô. Esse negócio de fotos amadoras é complicado. Tem de saber proteger quem confiou.
– Justo.
– Mas nem uma espiadela?
– Também acho que não tem que mostrar foto não. Foto de mulher nua é que nem maconha: Se for pra consumo próprio, é sossegado, se for pra distribuir, é criminoso.
– Vocês são cheios das expressões de efeito.
– Claro.
– Então vou soltar uma expressão de efeito: “Vão à merda”.
– Você está muito beligerante. Sossega o facho. Agora paga a cerveja.

* * *

– E ela, o que você acha?
– Charmosa. Eu pegaria.
– Eu também.
– Eu também.
– Eu não, não faz meu estilo.
– Hum. Estilo. Sei.
– É. Estilo. Você vai querer regular meu estilo.
– A verdade é que há homens na vida que se aproximam do camisa 10 clássico, sempre com estilo, assinatura, buscando a plasticidade do lance.
– …
– Outros são como camisas 9, matadores, trombadores, limpra-trilhos, feio é não fazer o gol, DNA de Charles Miller, o que importa é a bola rolar.
– Isso está interessante.
– Alguns jogam na cabeça de área ou na zaga, são mais contidos, tímidos, defendem o amor de toda a vida, vestem a mesma camisa sempre.
– Faz todo sentido.
– Vocês se encaixam em algum desses arquétipos.
– Eu não.
– Não?
– De jeito nenhum.
– Porra, claro que se encaixa. Qual é sua teoria?
– Nenhuma teoria, neste time aí eu jogo de libero.
– ?!
– Amigo, eu sou feio, desprovido de charme e chato. Enquanto vocês debatem se são 9 clássicos, 10 matadores e vice-versa, eu fico de libero. Saio jogando na sobra, sempre.
– Ah, deixa de história.
– Sério. Faço meu papel de líbero com perfeição. Enquanto vocês disputam o papel de bola de ouro, eu fico lá, dizendo que o defeito é lindo, que a calcinha de algodão é bela, que o sorriso desdentado tem o vácuo do amor. Sou uma fraude, mas a canalhice colarinho branco tem valor.
– Mas que filho da puta.
[gargalham]

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O capítulo I dos Diários Secretos da Cafajestagem, “La Bombonera”, está aqui

O capítulo II dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Reveillón”, está aqui

O capítulo III dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Falha”, está aqui

O capítulo IV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Evidências”, está aqui

O capítulo V dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Impedimento”, está aqui

O capítulo VI dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Urucubaca e Pênalti”, está aqui

O capítulo VII dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Cultura da Sacanagem”, está aqui

O capítulo VIII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Nome Artístico”, está aqui

O capítulo IX dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Churrasco”, está aqui

O capítulo X dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Aniversário”, está aqui

O capítulo XI dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Consórcio”, está aqui

O capítulo XII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Toalha”, está aqui

A Viagem

– Filha, vamos. Você está atrasada.
– Bora. [vai calçando o tênis, penteando o cabelo, escovando os dentes e rezando antes de sair de casa, tudo ao mesmo tempo]
[no carro]
– E aí, como está, tudo beleza?
– Tudo. O colégio mandou uma carta, vai ter uma viagem de fim de ano.
– Sério? Que bacana! Essas viagens de fim de ano são muito legais, meio que marcam a passagem do ensino fundamental pro médio, no meu tempo do ginásio pro científico.
“ginásio pro científico”?! É a velhice, hein?
– Me respeite, figurinha. Pra onde é a viagem?
– Fortaleza.
– Fortaleza é bem bacana, hein? Tá cheia de moral. Quanto custa?
[diz o preço]
– Hum. Vamos proporcionar.
– Sério?!
– Sim, sério.
– Que legal. Você e mamãe são demais mesmo! Que felicidade, vou viajar com a galera.
– Sim, vai.
[dá um beijo e um abraço]

* * *

– Filha?
– Oi.
– Juízo nessa viagem.
– Tá. Será massa.
“massa”. Hum.
– Que foi?
– Nada. Ah, esqueci de falar algo importante.
– O que?
– E o boletim? Vou receber o boletim antes dessa viagem?
– Ahn…
– Ué, você achou que eu não ia querer ver o boletim?
– Eu acho que o boletim só sai depois da viagem.
– Você “acha”. Hum. Entendo.
– Sério, só deve sair depois da viagem.
– Filha, aqui é tática Papai Joel. Primeiro a gente se livra do rebaixamento, depois ganha prêmio.
– Mas eu tô bem no colégio, juro!
– Olha, o último boletim que eu vi tinha um foco de revolução comunista em matemática, cheio de vermelhos reunidos.
– Eu tô melhorando.
– Sei.
– Alivia aí, pô
– Você tem quinze anos criada na classe média pernambucana e quer dar migué em um suburbano, de onde você tirou isso?!
– Aprendi com você?
– Comigo?!
– É. [gargalha]
– Essas balbúrdias você aprende rápido, mas matemática que é bom, necas, né?
– Sério, vou passar de ano. Deixa eu viajar, vai…
– Vou falar com sua mãe.
– Deixa que eu falo com ela.
– Hum. Veremos.

* * *

– Olha, vou liberar a viagem dela. É a primeira viagem dela sozinha, faz bem. É um passo importante.
– Concordo contigo, mas…
– Eu sei, você vai falar do boletim. É só uma exceção. Depois a gente endurece, mesmo que ela esteja um pouco embolada em matemática.
– Mas ela estar embolada em matemática não é exceção, é regra, pô. Vai aliviar mesmo?
– É verdade, mas vamos liberar. Só dessa vez. Vou aliviar.
– Hum. “Só dessa vez”. Entendo. Ah lá ela olhando da porta, abrindo o sorriso marto depois desse “só dessa vez”.

* * *

– Filha, vamos comprar sua viagem, mas estaremos atentos ao seu boletim.
– Oba! Tudo vai dar certo. Eu quero passar de ano, também estou preocupada com isso.
– Vamos ver. Espero que você não me desaponte.
– Pode deixar.
– Outra coisa, filha. Traz um pacote de castanhas de caju pra mim?
– Trago.
– Paga com o dinheiro da sua mesada, ok?
– Mas aí você tá gastando minhas economias.
– É pra você ver como a matemática é importante na vida. Só dessa vez.
“Só dessa vez”. Entendo.

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Sobre as aventuras e desventuras da paternidade, Bicicleta, Ororo, o Cinema e a Sogra, A Banda de Rock15 O Namorado de Cabelo AzulO Namorado de Cabelo Azul parte II – O ‘Inimigo’ Agora é Outro e O Beijo

Bicicleta

– Eu não sei andar de bicicleta.
– Tá na hora de aprender, uai.
– Tenho receio.
– Medo?
– É. Medo.
– Mas por que? Você tem muito pouca idade pra ter medo.
– Nem tanto. Mas realmente é um medo infundado.
– Então, vamos seguir em frente. Vou te ensinar a andar de bicicleta.
– Hum. Vamos ver.
– A gente não pode ter medo do bicho até enxergar o tamanho dele, certo? Não é uma das grandes lições da vida?
– Sim. É. Essa é inesquecível, hein?
– Ô.
– Mas eu topo o desafio.
– Oba. Vamos nessa! Esse papo me deixou com uma dúvida.
– Fala.
– Você, com essa idade, tem medo de morrer?
– Sim. Tenho.
– Por que?
– Porque não é minha hora, porque tenho muito a fazer por aqui.
– Você acha que existe céu, inferno, essas coisas?
– Eu acho que deve ter um lugar muito legal, com uma praia muito bonita, onde não exista hora de acordar.
– Nem de dormir.
– Nem de dormir.
– Gostei dessa visão, vou pensar por esse lado, que deve ser um lugar muito legal onde as pessoas ficam bem e não sentem dor.
– Isso.
– Mas as pessoas envelhecem, como deve ser lá? Que cara elas vão ter?
– O rosto que você quiser que elas tenham. Afinal, a gente enxerga as pessoas do jeito que quisermos.
– É verdade…

* * *

– Será que a gente vai encontrar as pessoas que se foram um dia?
– Talvez, quem garante?
– Lembra que o bisavô deixou crescer o bigode antes de morrer?
– Lembro. Ele era ateu, caso encontrasse Jesus, queria estar disfarçado. É uma boa tática, convenhamos.
– É.
– E vovó que morreu com sorriso no rosto, querendo descansar e encontrar vovô.
– É. Essa te doeu, né?
– Ô…
– Dói até hoje.
– A dor vira saudade. A maior forma de homenagear quem já foi é seguir em frente.
– Seguir em frente é sempre importante.
– Bicicleta é bom pra seguir em frente… [ri]
– É mesmo. [ri junto]

* * *

– E a bicicleta,cadê?
– Tá ali. Vamos, pai, vou te ensinar a andar de bicicleta. Enquanto isso, você me ensina outras coisas.
– No fim das contas, filha, os tombos são os mesmos. Alguns doem mais do que outros, mas todos saram. Vamos andar de bicicleta.

Carrossel de Emoções

Olhar pra trás e se ver criança é uma das melhores sensações que se pode ter. A nostalgia amarelada que vem junto com as lembranças, jogando bola, soltando pipa, rodando pião, pulando muro. Recordar dos amigos e das traquinagens, sempre com um sorriso sapeca no rosto.

Olhar para os lados e relembrar dos amigos. Onde estão? Pra onde foram? Daqueles um milhão de amigos, sobraram os que se contam nos dedos da mão, não por raiva ou entrevero, mas porque os ventos da vida sopram em tantas direções e velocidades que as pessoas se perdem. E repousam nos causos e na saudade.

Vieram os novos, outras histórias, outros caminhos. Que andam de mãos dadas, ou que passam como brisa. Que descem como vodka rascante ou que flanam como um bom vinho do Porto. E tudo se mescla e gera uma nova perspectiva.

Olhar para frente e descobrir o futuro. Os sonhos de ser jogador de futebol, cantor, de passar em uma faculdade. O primeiro gol na rua, mais importante que o de Pelé. A primeira briga, o primeiro flerte. O primeiro beijo, mais importante que o gol que já era aquilo tudo.

O primeiro namoro, a primeira lágrima do término doloroso, quando tudo que se quer é morrer de forma indolor, sem saber que daqui a um ano haverá um novo amor, geralmente platônico e impossível. Lidar com a perda, a primeira morte, tão impactante quanto a música de plantão que toca na TV.

Descobrir o corpo, o proibido, lidar com os medos, com as lendas. O homem do saco, a loira do banheiro, o papa figo, o cara da kombi. Se sentir imortal, imbatível, imparável, para o desespero dos pais, que nem sempre estão juntos, aliás. Lidar com a família partida ou unida, uma roleta que não depende daquele olhar.

Olhar para si e ver a vida crescer. Ver sementes que brotam e nascem. Observar seu presente virar passado, seu futuro virar o hoje. Deixar de ser o calouro e virar o experiente. Ver o ponteiro que girava lento passar a correr como velocista.

Olhar para dentro e desvendar que o olhar dos seus pais agora está ali, reverberado. Os medos, os apuros, as alegrias, os sorrisos e as lágrimas. E até as lágrimas com sorrisos. Saber dividir, desde a última gota de paciência até o primeio raio de sol que entra na janela do sono gostosamente mal dormido.

E seguir em frente, a rumo incerto e não sabido, mas sabendo que deixou um legado. Que anda, que fala, que pensa, sente e vive. Que é herdeiro e responsável direto por tudo e de tudo que se faz. E que consegue manter os velhos sempre com o frio na barriga do medo e com os olhos brilhando de orgulho. Novos e velhos, sempre crianças, no carrossel de emoções.