Poncho Molhado

Velhos conhecidos se reencontrando em posição de destaque. Assim são Palmeiras e Grêmio. Embora alguns papéis tenham se invertido, o encontro de ontem tinha muito da aura de 1995. Sem glamour, mas o espírito estava lá. E em Porto Alegre, soprando o vento norte

Grêmio e Palmeiras não tem mais grandes esquadrões, mas continuam sendo times grandes, com torcidas grandes. O jogo de ontem foi o primeiro capítulo de uma história de ressurreição, cujo autor só será conhecido após o fim dos 180 minutos.

Embora o Palmeiras seja paulista, sua alma oriundi, seu time operário e seu técnico gaudério transformaram o jogo de ontem contra o Grêmio num clássico dos pampas. E entre os técnicos e os times muito mais semelhanças do que diferenças.

Equipes de história grandiosa, que passaram por um rebaixamento, e hoje contam com técnicos que rodaram o mundo e voltaram, decadentes, ao seu país. Com um ódio visceral que os une e os separa, Luxemburgo e Scolari se encontram em um mata-mata depois de décadas, cada um com seu aroma de vingança pessoal.

O jogo em si foi travado, com os jogadores parecendo enredados pela boleadeira. Poucas chances, pouca movimentação. Durante 80 minutos não houve emoção que justificasse um confronto daquela magnitude, exceto pelas bolas paradas como a de Fernando, que caprichosamente estrondou no poste à espreita. Mas aí a partida ganhou contornos de música nativista, puro som bagual.

Como diria Adair de Freitas, de já hoje Felipão voltou aos áureos tempos regressando ao rincão onde nasceu. A escalação de Henrique já havia surpreendido Luxemburgo, mudando o panorama do jogo. As entradas de Cicinho e Mazinho mudariam mais do que isso, selariam o destino da partida.

Menino Rondinelly tem nome de Deus – da raça – mas foi demônio ao bater mal uma cobrança de falta. Logo após o vacilo na querência amada do Grêmio, um contra-ataque maligno do Palmeiras.O mulato maroto Cicinho, para o negro Messi Mazinho. Como diria José Fogaça, vai correr e quem vai embora tem de saber, que é viração. Do vento negro vindo do verde, no barbante de Victor. Palmeiras 1 – 0 Grêmio.

E não havia terminado o suplício azul. Vendo o projeto do título da Copa do Brasil poder escorrer como areia do Palace II, Luxemburgo mandou o time mais à frente e o palmeirense Juninho, ao recuperar a bola, cruzou para Barcos, o pirata da milonga das missões, que cabeceou marotamente. Victor chegou mais atrasado do que novato em concurso de chula. Palmeiras 2 – 0 Grêmio. Apito final do jogo de ida.

Ainda não sabemos quem vai se classificar. Tudo pode acontecer na segunda perna da Copa do Brasil. Mas este jogo, além de povoar de pesadelos a mente gremista, resgatou o espírito gaúcho de Luis Felipe Scolari, que ensinou uma grande lição sobre o Palmeiras aos seus jogadores. Eles honraram a camisa verde, como não faziam há tempos, a vestindo com a liturgia de um poncho molhado. Porque o porco, como o boi, é bicho mas tem alma sob o couro.

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