O Povoado

Aquele barulho diferente e um sacolejo mais insinuante que a nova passista globeleza. O pneu furou. O pneu, no caso, era de uma caminhonete. Furou, no caso, na margem da BR-116, a poucas horas do pôr-do-sol. Ao olhar para o lado esquerdo, apenas o horizonte. Ao olhar para o lado direito, um povoado simples.

Simples, mas prestativo. Encostando o veículo à procura de um borracheiro. Para um sujeito, cara de camponês, gente da pele curtida pelo sol. Eloquente, se dispõe a ajudar e chama o borracheiro, “o melhor da região”, ele diz. E o profissional chega lá e analisa o que houve. E era um furo grande, e precisava vulcanizar, e demoraria uma hora, talvez duas. Preço combinado, tudo certo. Um vai, outro fica ao lado do veículo.

Carro fechado, naquele pequeno povoado, hora de observar ao redor. Uma parada de ônibus com um pequeno logotipo onde se lia “Beberibe, eu te amo”, para proteger do sol os que precisam se locomover. Ao fim da tarde, ali, isolado, aparentemente não há muito o que fazer. Sinal de telefone, inclusive, não há.

Sem internet ou dados, a sensação é de solidão? Ledo engano. O camponês que buscou o borracheiro se apresenta, conta da formação técnica em mecânica, e que gosta de se embrenhar naquele local que mistura caatinga com litoral com pouquíssimos quilômetros de distância.

Logo chega mais um habitante, que conta que nos tempos dos avós tinha muita onça parda por ali. Sim, suçuaranas. E que hoje sumiram, mas ainda tem um tipo de cervo, algumas jararacas, as cascavéis já estão quase extintas.

E ali, atrás do povoado, tem um açude, onde implantaram tilápias e tucunarés, que se adaptaram bem, mas brigam muito, porque tucunarés são territorialistas e matam as tilápias. E ainda dificultam a pescaria, porque são inteligentes ao extremo.

Há uma igreja no meio da praça. Talvez seja uma capela. A falta de catolicismo impede saber a diferença entre uma e outra, mas é uma construção linda, parece uma casa de bonecas, com um santo em sua entrada. E um espaço para os guris, aproveitando que o sol está terminando o expediente, começarem a armar o futebol.

E um deles, o mais loquaz, olha e diz: “moço, vamos jogar bola?”, tirando um sorriso daqueles do fundo da alma e dando uma vontade quase incontrolável de dobrar as calças, tirar o sapato social e assumir uma das posições daquela pelada.

Ao mesmo tempo, jovens se reúnem na frente do povoado, mas não é nenhum motivo religioso ou festa na cidade. Estão esperando o ônibus para estudar. E não, não é colégio ou supletivo. É faculdade, na cidade ali perto. Alguns fazem direito, outros pedagogia e ali falam dos sonhos e contam que criaram um grupo de whats app. Mas como, se não há sinal telefônico? Rádio, wi-fi, modernidades.

E oferecem a senha da rede para ver os emails e passar recados. Mas não, não é preciso. Estar desconectado naquela hora é excelente. Esquecer o mundo para lembrar de si. E informam que naquela casinha azul vende sorvete artesanal. E o preço é baratinho. E tem de nata goiaba, uma combinação tão deliciosa e improvável quanto caatinga e litoral, com nacos de goiabada em meio à nata. Sabor que fica na memória.

O por do sol se aproxima pelas margens da BR-116, preguiçosamente, mesclando-se com a luz dos faróis dos veículos que rasgam aquela estrada. O tempo passa rápido e já vem o borracheiro com o pneu consertado – “muito trabalho, teve que vulcanizar” .

Enquanto ele coloca o pneu de volta, as despedidas, como se fossem velhos conhecidos. Promessas de um dia passar por lá de novo e comer um tucunaré no restaurante da moça, que por sinal é irmã do borracheiro, que namora com o cara que falou das suçuaranas, e ali todo mundo se conhece.

E naquele momento, conhecer aos outros é reconhecer a si mesmo. Agora entendo a mensagem da parada de ônibus.

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Enquanto Vocês Dormem

Enquanto vocês dormem, eu penso. Penso no futuro de vocês. Qual caminho vão seguir? Uma quase entrando na vida adulta, outro começando a dar os primeiros passos. Onde o destino vai lhes levar? E como vocês vão moldar o destino?

Enquanto vocês dormem, tenho dúvidas, me arrependo, renovo as certezas, ergo a cabeça, choro e sorrio. Ser por vocês é ser por mim, e nunca é obrigação, apenas prazer e aprendizado. Aprender com prazer é uma dádiva, basta humildade, discernimento e boa vontade.

Enquanto vocês dormem, aprendo receitas de papinhas nutritivas, leio sobre equações de segundo grau ou funções, atualizo a conta do Netflix – “pô, não tá rodando” – e faço planos mais ou menos mirabolantes para realizá-los quando vocês acordarem.

Enquanto vocês dormem, me sinto protegido, os dois se combinam em uma defesa inexpugnável: capa e espada, tática e estratégia, amor e cuidado, sorriso e abraço. É o que move, onde posso tirar a armadura e descansar com serenidade.

Enquanto vocês dormem, o presente e o futuro se entrelaçam. Ser mais eu, para ser vocês. E eu fico divagando sobre inúmeras coisas que só fazem sentido pra mim, porque vocês descansam, me dando uma imensa sensação de missão cumprida em mais um dia nesta indústria vital. E nesse semblante terno e plácido, encontro meu repouso. Shhhh, vocês dormem.

Enquanto vocês dormem, eu sou paz. E quando vocês acordam, sou também. Com vocês, tudo é pleno.

Trânsito

O trânsito é a maior prova de paciência do mundo. É por isso que eu tenho sérias dúvidas sobre a capacidade serena do Dalai Lama. Porque ser sereno no meio do nada lá na Índia é uma coisa, mesmo com os chineses enchendo o saco. Quero ver ser sereno montado num iaque e engarrafado na cordilheira do Himalaia.

Voltemos ao problema da mobilidade urbana. Sim, o trânsito. Esse mal cotidiano que, na verdade, é a grande antítese social. Se compra um carro ou moto para ir mais rápido para algum lugar. Mas, como pediriam Jane e Herondy, não se vai. Não se vai a canto nenhum. Se fica ali, mais engarrafado do que azeite ruim, esperando a morte chegar ou o tráfego fluir, o que vier primeiro.

E isso só não basta, é possível piorar. Há de se lidar com os arquétipos do trânsito. Tem aquele motoqueiro que corta todo mundo sem ligar seta, se achando o Randy Mamola urbano até sofrer um acidente grave e aparecer sem perna em uma campanha do governo, qualquer governo, com aquela cara de quenga nova em puteiro.

Há o típico barbeiro gospel, aquele cara que não sabe dirigir, que corta os outros, que retarda a esquerda, que não liga a seta e ostenta aquele adesivo gigante com cunho religioso: “Foi Deus quem me deu”, “Dirigido por mim, guiado por Deus”, “Sou irmão de Jesus, será que sou fraco?” e demais congêneres, o que dá uma vontade gigantesca de exercer o ateísmo e, por outro lado, faz pensar que Deus é um péssimo motorista, dono de frota e instrutor.

Se o Todo Poderoso exercesse o lado Deustran, estilo Antigo Testamento, já teria desintegrado metade dos condutores, jogado uma chuva de gafanhotos em mais alguns e teríamos um tráfego mais calmo e sem congestionamentos – e constrangimentos.

Não podemos esquecer do motorista malandrão, que é Ayrton Senna na hora de avançar o sinal vermelho, Nelson Piquet na hora de xingar o coleguinha no trânsito, Penélope Charmosa na hora discutir cara a cara, Rubens Barrichello na hora de pagar as multas e Dick Vigarista quando tenta subornar o guarda. Sim, claro, a vida como ela é. Tem suborno e marmelada, sim senhor.

Temos também aquele condutor cujo carro tem o adesivo da família feliz e ele, além de três filhos e dois cachorros, tem síndrome de Tourette e sai xingando todo mundo, até um carro ofendido emparelhar com ele e o mesmo subir o vidro e colocar Haddaway bem alto pra tocar. Baby, don´t hurt me. No more.

Este é apenas o reflexo de um mundo onde catamos migalhas e comemoramos como Galvão Bueno quando a gasolina abaixa dez centavos, porque está muito cara – e está mesmo. Desviando de buracos em estradas municipais, estaduais e federais, como se fosse um carrinho de Moon Patrol, ou pagando aquele pedágio maroto e travesso quando a estrada é lisinha [mas sinceramente prefiro pagar o pedágio do que trocar os pneus e rodas detonados pelos buracos].

Esperando o trânsito andar, naquele congestionamento sensual, depois de pensar em inúmeras maneiras de matar o coleguinha que fechou seu carro, é necessário se dar conta que ser serial killer não seria suficiente, apenas o genocídio resolveria. E aí, em vez de continuar com estes pensamentos teratológicos, se liga o rádio para escutar uma música que transforma o motorista outrora raivoso em cantor de engarrafamento.

Agora, depois de relaxar e berrar aquele refrão que veio do âmago do ser, o trânsito parece fluir. Façamos como Raimundo Fagner, deixemos de coisa e cuidemos da vida. O desabafo dessas mal traçadas linhas parece surtir efeito e tudo volta ao seu norm… olha aquele filho da puta cortando sem ligar a seta, cara. Ele não merece uma morte dolorosa?

Gabo – Ano Um

[música incidental – “Gabriel”, de Beto Guedes]

“É só de ninar
E de desejar que a luz do nosso amor
Matéria-prima dessa canção
Fique a brilhar…”

Oi, filho. Doze meses. Muito tempo se passou desde a primeira vez que peguei você nos braços, meu amor. Você nasceu grande, mas pra mim era muito miudinho. Eu, ogro e estabanado, morrendo de medo de quebrar você, enquanto a pediatra te pegava com a desenvoltura típica de especialista. “Corta o cordão, pai!” E eu lá, com aquela tesoura cega, querendo romper aquele vínculo físico e ao mesmo tempo morrendo de medo de te machucar. E agora você taí, andando…

Você é muito amado meu filho. Amado pelos seus tios, e, acredite, você tem tios pelo mundo inteiro. Tios de sangue, tios de alma, tios de afeto, tios transbordando carinho; muito amado pelos seus padrinhos, que são pessoas fabulosas, almas boas; muito amado pela sua Tia Nanda, que é um capítulo à parte, porque é sua caçamba, escudeira, guardiã, quase anjo da guarda; muito amado pela sua irmã, esse arco multicolorido que te protege como se você fosse extensão dela – e talvez seja mesmo – e ainda te presenteou com um bicho de estimação que fica montado em cima do seu carrinho fazendo vigília [isso enquanto não dorme, claro].

“E é pra você
E pra todo mundo que quer trazer assim
A paz no coração
Meu pequeno amor…”

Pela sua mãe, o amor nem conta, filho. Ele transcende. Você, que é ruivo como ela, tem muito dos trejeitos. Quando você nasceu, eu disse que éramos imbatíveis. E continuamos sendo imbatíveis. Hoje, eu e sua mãe não estamos mais juntos, mas por você e sua irmã sempre seremos família, um só, inquebrantáveis. O tempo assenta as coisas, ameniza as mágoas e faz com que boas lembranças retornem e surjam. Hoje, tudo é muito recente, mas há de melhorar. Você deve ter orgulho da pessoa espetacular e incrível que é sua mãe, alma boníssima, desprovida de qualquer paranóia ou maldade. Não poderia ter mãe melhor, guri. Vá por mim.

“E de você me lembrar
Toda vez que a vida mandar olhar pro céu
Estrela da manhã…”

Por você e por sua irmã, muitas vezes eu abri os olhos e levantei, carinha. Porque às vezes morremos de medo, mas lembramos que, por sobrar medo, não falta coragem. Não adianta fugir, filho, nem falar e resmungar aos cantos, soltando ao vento nossas tristezas e temores, como moleque covarde. A gente é sujeito homem, lembra? A gente encara de frente. Às vezes passam um monte de besteiras na cabeça, a tempestade é enorme, o afogamento é quase certo, mas o amor como o de vocês são as bóias que fazem flutuar. E eu, filhote, só tenho a agradecer a ti e tua irmã.

“Meu pequeno grande amor
Que é você, Gabriel
Pra poder ser livre como a gente quis
Quero te ver feliz”

Neste primeiro aniversário, Gabriel, parabéns. E que seja sempre suave, mesmo nos momentos duros, que virão, porque eles é que te forjam o caráter. Sempre sereno. Com amor, saúde, alegria e felicidade. Meu Gabriel, Gabo, Gabão, Gabiroba, Ziriguidum, Ziriga, Riga [lembra do grito, filho? Aquele que só papai faz, e que te faz sorrir quando você tá com febre?] e tantos apelidos que virão. Sua mãe, seus tios, sua irmã sempre estarão ao seu lado. Papai também. Você tem pai. E um pai que te ama muito. E que estará ao seu lado em todos os bons momentos, até a hora de seguir em frente e você continuar seu legado, voando só. Que Deus te abençoe. Nós somos de infantaria e mar. Não esqueça. Quero te ver feliz. Sempre feliz. Nesta semana, Feliz Aniversário, o seu primeiro. Neste e em todos os outros momentos, eu amo você.

Infantaria e Mar

Filho, hoje você conheceu a praia. Parece algo comum e corriqueiro, mas pra nós não é assim. As pessoas talvez nos olhem estranho, porque pra elas praia é diversão. Elas se sentem bem na praia, elas gostam de estar ali, naquele ambiente, respirando aquele ar da maresia, por recreação. Nós, não. Ali, pra nós, é sempre um ritual.

Hoje, você é muito novo pra entender isso, guri, mas um dia, você, quando estiver saturado, carregado e cansado do cotidiano, irá à praia. Porque é da sua natureza, assim como da minha. Nosso sangue é de água salgada, ali é nosso habitat natural. Não é aquela balela de ser peixe, ou algo do tipo, é algo que transcende isso. É espiritual.

Ao ver você dar passos, amparados, para ir ao encontro do mar, eu reparei no seu rosto. Normalmente bebês choram, mas você não fez isso. Primeiro reconheceu o piso fofo da areia, depois, calmamente, foi se encaminhando pro mar. Quando tocou na água, resmungou – acredite, isso é uma característica genética, bem mais minha do que da sua mãe, não se assuste – mas logo se adaptou.

A água do Nordeste é morna, mas não pense que a vida será sempre mansa assim. Há lugares que a água será geladíssima. É uma metáfora pra vida, filhote: mesmo que a água pareça desafiadora, não se furte a mergulhar.

Aliás, falando em água, e falando em mar, nunca se esqueça: gente como a gente nunca sai de costas pro mar. A gente sai e olha pra ele, em reverência. E agradece. Porque o mar é acolhedor, mas não tolera desaforo. Só morre no mar quem sabe nadar. A arrogância no oceano é imperdoável. Na vida, se demora mais pra cobrar a conta, mas ali, na imensidão azul, ela vem rápido com direito a gorjeta. Convém nunca abusar.

E você saberá disso, no devido tempo. Como hoje, depois de ter receio, soube onde estava pisando, depois reconheceu onde estava nadando e abriu um sorriso abusado. Se divertiu nos braços dos seus, tomou uma água de coco e voltou pra casa feliz.

Porque gente como nós, meu filho, não trata a praia como diversão ou como um ambiente diferente. Gente como nós é a praia e faz parte dela, assim como ela mora na gente. Porque nós, guri, somos feitos de infantaria e mar.

Álbum de Figurinhas

“Eu não vou colecionar isso não”.

Mesmo com inúmeros pedidos da Ruiva, era uma decisão tecnicamente inegociável. Fazia anos que não colecionava álbum de figurinhas. Desde que descobri os guias, com as fotos dos jogadores, não tinha o mínimo interesse nos cromos que já tinham virado febre entre meus amigos.

Admito que isso tem a ver com uma certa frustração dos tempos de guri. Quando moleque, não tinha grana pra comprar figurinhas em grande quantidade. Todos os álbuns que completei foram graças ao porquinho e uma estrondosa habilidade no bafo [bafo, bolinha de gude, corrida de tampinhas, pipa e futebol de botão, não fazia feio. Era um grande atleta do decatlo de esportes de subúrbio].

Mas o número de álbuns incompletos sempre foi maior que o número de completos. No do Roque Santeiro, por exemplo, faltou o Beato Salu. Já no da Fórmula 1, faltou o carrinho da Coloni. Cara, o carrinho da Coloni era uma figurinha dificílima. Nem nas partidas de bafo ela aparecia. Era o Santo Graal das figurinhas. Um inferno. A Coloni não andava na pista e a figurinha não rodava no pacote. Eu, sinceramente, não queria que meu guri passasse por isso.

“Mas, nego, você tem de ver que é a primeira copa dele, mesmo com ele não lembrando de nada. E vai ser muito legal daqui a quatro anos, vocês dois folheando o álbum e você mostrando pra ele quem eram os jogadores. O Drogba, o Xavi, o Pirlo, esses caras não vão estar jogando em 2018. Ele precisa saber quem são”.

Tá, esse argumento me deu um wazari. Difícil sair dessa imobilização moral. Aí o Dindo Cadu, muito Dindo, deu aquela moral lá do Rio de Janeiro. Contra a mãe e o Dindo, fica difícil. A Tia Kaká, o Tio Thiago e a Tia Nanda se mobilizaram também. Aí complica mesmo. Estava difícil resistir, mas eu ainda tentava, rumo ao nada, como se fosse Hiroo Onoda nas selvas filipinas. Até que um álbum brotou em minha residência.

Fiquei puto, confesso. Me senti traído, apunhalado moralmente. Estava sendo compelido a fazer algo que não queria, sem nenhum convencimento – não foi por falta de tentativa, admito. Sou teimoso como um hipopótamo, não por acaso é meu bicho preferido. A Ruiva ainda soltou, carinhosa: “Seu pai deve ter feito o mesmo com você”. Eu não tinha essa resposta.

Minha infância é um vazio na cabeça. Lembro de muito pouca coisa. Me recordo de ter visto “O Império Contra-Ataca” no cinema, aos 4 anos. [Valeu, pai, você mandou bem demais nessa]. Tenho memórias de uma coleção imensa de carrinhos de ferro [algo que até hoje não compro, me dá uma melancolia danada. Meus carrinhos, assim como um pedaço das minhas lembranças, se perderam no labirinto do tempo]. Sem lamentos,  sem lamúrias, sem pena. Apenas não estão lá.

E lá estava ele, o álbum, imponente, vazio, como três pacotes de figurinhas. Olhei pra ele, ele olhou pra mim. Antes que tocassem os primeiros acordes de “Adelaide” [minha anã paraguaia], lá estava eu colando um cromo. A Ruiva me interpelou, provocadora: “Ué, e vai colar agora?”. Olhei com meu olhar fuzilador de príncipe George e desci para o jornaleiro. Quando era moleque eu não tinha grana. Agora não sobra, mas faltar, não falta. Trinta pacotes. Assim, de supetão.

TRINTA pacotes? Mas trinta pacotes dá meio pacote de fraldas!” Ué, não era pra levar a sério a brincadeira? Tem coisas que um pai precisa lidar, porque não dá pra proteger o filho do mundo e de todos os desafios que virão. Mas certas coisas um pai não pode deixar acontecer. Este álbum deveria ser completo. Ele seria completo. A missão estava em curso.

Na pelada de segunda-feira? Troca de figurinhas. No trabalho? Troca de figurinhas. Mas isso não era suficiente. Aí surge um fiel escudeiro: Tio Washington. Wash é amigo de longos e bons anos. Carioca de Duque de Caxias, morando em Recife há mais de uma década, é dos melhores amigos que tenho na vida, um dos dois melhores desta terra. Companheiro da pelada de segunda-feira, amigo da vez das cervejas de sexta – já que não bebe – e parceiro de arquibancada dos jogos do Flamengo em cada canto do Nordeste. Apaixonado pelo sobrinho, já tinha decidido: Ele iria completar o álbum e em grande estilo.

Primeiro, arranjou um álbum de capa dura. Aí lá foi a Ruiva descolar as figurinhas coladas no álbum de capa mole e recolocá-las no de luxo. O que seria um suplício para alguém com duas mãos esquerdas, como eu, pra ela foi sopa no mel. Artista é artista. Uma troca de mensagens durante vários fins de semana:

– Cara, tô aqui em Olinda, tem troca de figurinhas, tá faltando o que no álbum?
– Faltam 37, inclusive o Robinho.

Confesso que pensei em colar outra figurinha no lugar do Robinho. Pensei em fazer a figurinha do Brocador, pra subverter a história, como um norte-coreano em 2010, e explicar como Felipão barrou a grande estrela do Flamengo na Copa [observe que a grande estrela do Flamengo é um cara que não jogaria nem no time de 1992. Que fase.]. Pensei também em colocar a figurinha do Caça-Rato na Copa do Nordeste, como protesto, mas desisti a tempo. Robinho, ao menos no álbum, seria escalado. Depois de tanta troca de mensagem, as faltantes foram devidamente conseguidas.

Numa segunda-feira de temporal, na pelada, jogando no estilo Libertadores, só faltavam duas figurinhas: Eduardo Vargas, do Chile, e Omar Rodriguez, dos EUA. E elas surgiram ali, no meio do dilúvio, das mãos do Tio Washington, completando o álbum do moleque.

Confesso que, voltando de carro em meio àquele temporal, me emocionei. Pensei nos álbuns que deixei de completar; pensei também nos que talvez eu tenha feito com meu pai e não lembro sequer quais foram; e me peguei fantasiando daqui a quatro anos, folheando este, tendo que explicar ao guri quem eram Pirlo, Xavi e Drogba, o quanto jogaram, as histórias, e tudo mais. Terei de explicar também porque Robinho não foi ao torneio, mas isso é fácil.

Ao chegar em casa, de forma cerimoniosa, as duas últimas figurinhas foram coladas. O álbum repousa ao lado do Fuleco que a Tia Di, babona, deu de presente. Ali, pertinho do berço, onde ele está sonhando e crescendo. Toda vez que acordo, ao nascer do sol, passo lá, faço um cafuné, dou um beijo na testa dele e agradeço, por através de mais uma coisa, tão singela, mas tão importante, recuperar minha infância. E saio do quarto, na ponta dos pés, pensando: Vai ter Copa sim. Vai ter Copa pra caralho.

P.S.: Estou aqui me perguntando se papai colecionou o álbum da Copa de 1978 pra mim. Vou ligar pra ele.

Curva

O que te espera na curva? O fato é que nunca se sabe o que vem pela frente. O imprevisível pode ser afortunado ou fanfarrão, pode causar lágrimas ou sorrisos, pode surpreender ou decepcionar. Somos uma ilha cercada de “mas e senões” por todos os lados.

Na busca incessante pela verdade, que fortaleça nossos pontos de vista, mesmo que a verdade seja uma mentira, ou apenas uma muleta, mesmo que ajude a esconder as fragilidades que teimam em habitar quaisquer almas.

Que apenas sirva pra imposição sem debates, que sempre são necessários. Mesmo que ajude a culpar algo ou alguém que não seja o real causador. A culpa é arma pontiaguda, daquelas que se distribui a bel prazer quando se precisa.

Quando se derrapa nas próprias idiossincrasias, na curva da construção do caráter. Ou quando se deixa a ferida aberta, em vez de cicatrizá-la, apenas para que se infeccione e tenha pus e veneno em forma de sentimento ruim.

Quando pedir desculpa é sacrifício em vez de expiação ou de exercício de humildade. Quando se tem medo do passado e se deixa contaminar o futuro, pelo simples rancor. Em maior ou menor grau, em escalas diferentes, todos somos assim.

E quando o arrependimento chega – se chegar – pode ser tarde demais. Pode não haver tempo para que isso ocorra, pode não haver tempo para que se socorra. Não somos inocentes. Nem culpados. Somos humanos. O filósofo diria que o inferno são os outros. Mas ele, eu e vocês sabemos: O inferno somos nós. E nossos demônios são os piores inimigos que existem. O que te espera na curva? Boa viagem.

15 segundos

Naquele dia ele não queria escrever. Na verdade ele não tinha a mínima inspiração pra isso. Estava cansado. Pensava apenas naqueles quinze segundos que foram intermináveis. E que de vez em quando o assombravam em pesadelo, que durava bem mais do que aquele tempo.

Era como se a areia da ampulheta da alma escorresse pelos seus dedos, como se o barco de Caronte pendesse entre a estação túmulo e a estação berçário. Quinze segundos. Pouquíssimo tempo, mas o suficiente para um piscar de olhos, para Usain ganhar uma corrida, para uma lágrima descer do rosto.

Ele ainda podia ouvir o estampido seco e o chacoalhar insano. E relembrar, passo a passo, aquele momento. Quando fechou os olhos, passou o filme de uma vida inteira em quinze segundos. Menos do que um comercial. Naquele emaranhado de coisas, só pôde pensar: “Fudeu” e fazer uma oração. Os olhos ficaram fechados por uma eternidade efêmera, até que tudo parasse e só pudesse se escutar os pingos grossos de chuva.

Após um suspiro tenso, checar se estava tudo em ordem. O sangue quente, a reslução das coisas. Vivo, enfim. Hora de olhar pra frente, de segurar firme na ampulheta da alma, de manter a frieza e celebrar o que se tem. Quinze segundos que poderiam ter sido ponto final. Apenas um susto, pesadelo real. Foi apenas ponto. Parágrafo.

 

Cerveja

Há quase 15 anos, o ritual sempre era o mesmo. Após algum momento de discussão, normalmente politica, com debates acalorados, sentavam no bar. E aí falavam de assuntos não menos acalorados – mulheres, futebol, iates, comida, dinheiro. Com eles, uma cerveja para acompanhar.

Ficaram muito amigos, daqueles que entram em sintonia. Sintonia do tipo sofrerem um acidente ao mesmo tempo, em cantos diferentes da cidade, num fim de semana. Por obra e graça do destino, todos saíram ilesos. E na segunda-feira, todos estavam mancando e demolidos. E tomaram uma cerveja pra comemorar a vida – não estavam dirigindo àquele dia, nem sabiam dirigir.

E depois, tomaram cervejas e porres de desgosto, ou com gosto, e até mesmo a contragosto. Enquanto houvesse fígado, e este regenerasse. Beberam e brigaram juntos por tudo e por nada, desde que tudo valesse a pena – inclusive nada. Uma vez, no sul do país, um acertou um belo gancho no queixo do outro, que tentava separar uma briga. Um “filho da puta” de cá e um “desculpa” de lá e estavam eles fazendo o de sempre – tomando cerveja.

Brigaram pra se formar na faculdade. Tiveram dificuldades, demorou pra se formarem, a história como espelho. Tiveram vontade de desistir, mas foram até o final. E depois largaram o diploma, seguindo para outros caminhos, onde se encontraram profissionalmente. E conversam sobre isso até hoje.

Amadureceram, sofreram, a amizade só se consolidou. Um foi embora pra longe, o outro ficou. Não conseguiram ir ao casamento do outro, faltou grana pra ambos. Seguiram se apoiando à distância, até que a grana melhorou – pra ambos. Hoje conseguem se rever regularmente. Um está solteiro de novo, outro está cheio de filhos. Tomam sempre uma cervejinha pra botar o papo em dia.

Ambos com cabelos brancos, já não tão magros como no século passado. Ainda mais amigos, irmãos. E, agora, compadres. Não bebem mais como antes, nem aguentam. O gosto mudou, as cervejas agora são diferentes. Em vez de quantidade, bebem por gostar, pra conhecer a bebida, pra solidificar a amizade que começou lá atrás.

Naquele abraço de despedida, a certeza de se encontrarem de novo, em breve. Amigo é família que se faz pelas esquinas da vida. E isso eles são. Amigos, irmãos, compadres. E, certamente, mesmo de longe, vão abrir mais uma cerveja pra comemorar.

Gabo

Férias. Naquele dia, entre churros e café, em algum lugar do Bairro Gótico, decidimos não ter mais filhos. A Pequena faria 15 anos, a gente já havia tentado tantas vezes e não vinha. Estávamos começando a viajar e conhecer o mundo, fora da janela. Ali, em lugar tão sonhado, foi tomada a decisão.

Claro, você deve ter ouvido e colocou o pé na porta, furando a fila. Sem sabermos, naquelas férias, você foi gerado, pra subverter a ordem das coisas pela primeira vez. Voltamos de viagem muito felizes por ela, mas não tínhamos a mínima idéia do tamanho do presente que trazíamos.

Sua mãe, no início de abril, teve um pequeno sangramento que se tornaria a emulação de Moisés abrindo o Mar Vermelho. Ali, atendida na urgência, por um desses médicos jovens e apressados que sabem muito de não saber nada, escutou que “provavelmente era um aborto”. Ficamos arrasados, mas não seria a primeira vez. Fomos em frente.

E em frente sua mãe continuou sentindo dores. Dores que uma médica jovem que tinha “uns oito partos pra fazer no dia” afirmou categoricamente ser um mioma. Pelo menos essa pediu um exame detalhado. Neste exame, entre gargalhadas, o médico que nos atendeu disse que mioma era um nome muito feio pra uma criança. Aí, finalmente, no dia de São Jorge – carregado de simbolismo – soubemos que você viria. E nossa vida mudou.

Não vou contar aqui sobre os preparativos para sua chegada porque isso daria um livro do tamanho daquele “A Vida do Bebê”. Falaremos muito sobre cada detalhe durante sua vida, seja pra você conhecer, seja pra arengarmos contigo. Não se preocupe.

Você vai conhecer pessoas fantásticas na sua vida, Gabo. Sua mãe é fabulosa. Ruiva, zen e braba ao mesmo tempo, com um tempo só dela, que aos olhos dos outros – inclusive eu – parece caos, mas sempre dá certo. Dona de talentos com artes que pouca gente tem, se você for bafejado por este dom estará em ótimo caminho.

Além disso, ela é generosa, dona de uma risada cativante, amorosa e leal, pronta pra ensinar um monte de coisas e valores. Aliás, é o tipo de coisa que ela vai te ensinar enquanto você estiver fazendo trelas ou no cantinho do castigo [essa parte eu não vou te contar, você descobrirá por si só].

Você tem uma irmã, a Pequena, a Bubby, que não é mais tão pequena assim, mas é um primor de generosidade. Nos seus 15 anos, ela, multicolorida, tem uma índole que poucos seres humanos têm. Vai cuidar de você como irmã mais velha e te aperrear [e ser aperreada] bastante.

Além disso, ela tem um senso de humor peculiar e sensacional, e um dom artístico que é coisa raríssima por aí. Desenha como gente grande. Vai te ensinar muito a rabiscar quando você ficar maior. E provavelmente vai te dar uns cascudos se você desenhar as paredes do quarto dela. E serão grandes amigos, como os irmãos devem ser.

Quanto a mim, meu filho, vou fazer o máximo para ser bom pai, te aconselhar e ensinar as coisas nessa estrada que se avizinha. Este não é um texto memorial, porque isso é coisa de filme da Sessão da Tarde [que não sei se existirá no seu tempo] e eu pretendo e vou viver muitos anos. Mas alguns toques são necessários.

Aqui fora, as pessoas buscam muitos rótulos. Quem usa rótulo é remédio, e essa é uma lição importante. Você nasce de uma mistura imensa. Seu sangue é austríaco, caboverdiano, nordestino, gaúcho, carioca e brasileiro, acima de tudo. Você é fruto da tolerância e da relação entre os povos, guri. E isso estará sempre marcado em você.

E em casa, isso se aprofunda mais. Eu sou ligado a religiões africanas, sua mãe é “atéia bundona” [porque ateu que diz “se Deus quiser”, tem medo de espírito e manda um famoso “reza aí” quando está angustiado é muito do cara de pau, né?] e sua irmã é católica. E você vai ser o que você quiser, na hora em que se sentir pronto pra isso.

[Pausa: Aliás, sua mãe um dia vai te contar o causo do seu bisavô – grandíssimo homem – ateu convicto, que com seu sarcasmo peculiar, deixou o bigode crescer no fim da vida. “Se Deus existir, pelo menos chego disfarçado”. Fim da pausa]

Você terá a liberdade de fazer suas escolhas, meu filho. Caberá a nós te educar – exceto seus avós, figuras geniais e de excelente índole, com salvo conduto de amor pra te deseducar – para que você faça as melhores escolhas, mesmo que no primeiro momento não compreendamos e você tenha de nos explicar.

A nós, pouco vai importar se você será hétero ou homo, branco ou negro, de esquerda ou de direita, do mar ou da montanha. Se for o que te faz feliz, desde que não intervenha na liberdade de ninguém, nem seja por meios escusos, será sempre respeitada sua vontade.

[Pausa 2: Inclusive, meu filho, você é livre para escolher seu time de futebol também. Entretanto, sem hipocrisias, é preciso que você saiba que o Flamengo é o time mais legal do mundo, que você ganhou 3 uniformes do Flamengo antes de nascer e que você nasceu aos 43 minutos das 9 horas. Em se tratando de Flamengo, 43 é um número cabalístico, tão cabalístico quanto o 10, quase um indicativo Dalai Lama de rubronegrismo [sic]. Portanto, meu filho, pense com carinho sobre sua opção clubística. Levarei você em centenas de jogos – do Flamengo – até você tomar uma decisão isenta e equilibrada. Fim da pausa]

Meu filho, você só tem um ponto sob o qual não tem a mínima opção. Você tem de ser um cara decente. Sujeito homem, ponta firme, daquele que olha nos olhos, daquele que aperta a mão com firmeza. Que respeita e é respeitado. E que lida com elegância com as adversidades e os adversários, em quaisquer circunstâncias.

Vai andar pelos caminhos que a gente passou, pelos subúrbios, pelas vielas, pelos lugares que hoje você não precisa passar, mas vai, pra saber de onde veio e saber respeitar cada conquista e cada pedaço. Nada vem de mão beijada, tudo é fruto de esforço e sabedoria.

Não vai baixar a cabeça pra ninguém, não vai ser submisso nunca. E ganhando ou perdendo, vai fazer o seu melhor, sempre. Saber lidar com os imprevistos pra surpreender e se surpreender. Buscar acertar sempre, mas reconhecer o erro, porque todos somos humanos. E a partir daí, trilhar o melhor caminho.

Isso, meu filho, também é coisa de família. Passada de geração pra geração. E espero que quando seu herdeiro chegar, da forma que vier, você faça o mesmo. Pois você veio com muita saúde, pra ser muito amado. Pra ser feliz. Temos um ditado em família que diz: “Juntos somos imbatíveis.” Agora a gangue está completa. Seja bem-vindo, amamos muito você.