Álbum de Figurinhas

“Eu não vou colecionar isso não”.

Mesmo com inúmeros pedidos da Ruiva, era uma decisão tecnicamente inegociável. Fazia anos que não colecionava álbum de figurinhas. Desde que descobri os guias, com as fotos dos jogadores, não tinha o mínimo interesse nos cromos que já tinham virado febre entre meus amigos.

Admito que isso tem a ver com uma certa frustração dos tempos de guri. Quando moleque, não tinha grana pra comprar figurinhas em grande quantidade. Todos os álbuns que completei foram graças ao porquinho e uma estrondosa habilidade no bafo [bafo, bolinha de gude, corrida de tampinhas, pipa e futebol de botão, não fazia feio. Era um grande atleta do decatlo de esportes de subúrbio].

Mas o número de álbuns incompletos sempre foi maior que o número de completos. No do Roque Santeiro, por exemplo, faltou o Beato Salu. Já no da Fórmula 1, faltou o carrinho da Coloni. Cara, o carrinho da Coloni era uma figurinha dificílima. Nem nas partidas de bafo ela aparecia. Era o Santo Graal das figurinhas. Um inferno. A Coloni não andava na pista e a figurinha não rodava no pacote. Eu, sinceramente, não queria que meu guri passasse por isso.

“Mas, nego, você tem de ver que é a primeira copa dele, mesmo com ele não lembrando de nada. E vai ser muito legal daqui a quatro anos, vocês dois folheando o álbum e você mostrando pra ele quem eram os jogadores. O Drogba, o Xavi, o Pirlo, esses caras não vão estar jogando em 2018. Ele precisa saber quem são”.

Tá, esse argumento me deu um wazari. Difícil sair dessa imobilização moral. Aí o Dindo Cadu, muito Dindo, deu aquela moral lá do Rio de Janeiro. Contra a mãe e o Dindo, fica difícil. A Tia Kaká, o Tio Thiago e a Tia Nanda se mobilizaram também. Aí complica mesmo. Estava difícil resistir, mas eu ainda tentava, rumo ao nada, como se fosse Hiroo Onoda nas selvas filipinas. Até que um álbum brotou em minha residência.

Fiquei puto, confesso. Me senti traído, apunhalado moralmente. Estava sendo compelido a fazer algo que não queria, sem nenhum convencimento – não foi por falta de tentativa, admito. Sou teimoso como um hipopótamo, não por acaso é meu bicho preferido. A Ruiva ainda soltou, carinhosa: “Seu pai deve ter feito o mesmo com você”. Eu não tinha essa resposta.

Minha infância é um vazio na cabeça. Lembro de muito pouca coisa. Me recordo de ter visto “O Império Contra-Ataca” no cinema, aos 4 anos. [Valeu, pai, você mandou bem demais nessa]. Tenho memórias de uma coleção imensa de carrinhos de ferro [algo que até hoje não compro, me dá uma melancolia danada. Meus carrinhos, assim como um pedaço das minhas lembranças, se perderam no labirinto do tempo]. Sem lamentos,  sem lamúrias, sem pena. Apenas não estão lá.

E lá estava ele, o álbum, imponente, vazio, como três pacotes de figurinhas. Olhei pra ele, ele olhou pra mim. Antes que tocassem os primeiros acordes de “Adelaide” [minha anã paraguaia], lá estava eu colando um cromo. A Ruiva me interpelou, provocadora: “Ué, e vai colar agora?”. Olhei com meu olhar fuzilador de príncipe George e desci para o jornaleiro. Quando era moleque eu não tinha grana. Agora não sobra, mas faltar, não falta. Trinta pacotes. Assim, de supetão.

TRINTA pacotes? Mas trinta pacotes dá meio pacote de fraldas!” Ué, não era pra levar a sério a brincadeira? Tem coisas que um pai precisa lidar, porque não dá pra proteger o filho do mundo e de todos os desafios que virão. Mas certas coisas um pai não pode deixar acontecer. Este álbum deveria ser completo. Ele seria completo. A missão estava em curso.

Na pelada de segunda-feira? Troca de figurinhas. No trabalho? Troca de figurinhas. Mas isso não era suficiente. Aí surge um fiel escudeiro: Tio Washington. Wash é amigo de longos e bons anos. Carioca de Duque de Caxias, morando em Recife há mais de uma década, é dos melhores amigos que tenho na vida, um dos dois melhores desta terra. Companheiro da pelada de segunda-feira, amigo da vez das cervejas de sexta – já que não bebe – e parceiro de arquibancada dos jogos do Flamengo em cada canto do Nordeste. Apaixonado pelo sobrinho, já tinha decidido: Ele iria completar o álbum e em grande estilo.

Primeiro, arranjou um álbum de capa dura. Aí lá foi a Ruiva descolar as figurinhas coladas no álbum de capa mole e recolocá-las no de luxo. O que seria um suplício para alguém com duas mãos esquerdas, como eu, pra ela foi sopa no mel. Artista é artista. Uma troca de mensagens durante vários fins de semana:

– Cara, tô aqui em Olinda, tem troca de figurinhas, tá faltando o que no álbum?
– Faltam 37, inclusive o Robinho.

Confesso que pensei em colar outra figurinha no lugar do Robinho. Pensei em fazer a figurinha do Brocador, pra subverter a história, como um norte-coreano em 2010, e explicar como Felipão barrou a grande estrela do Flamengo na Copa [observe que a grande estrela do Flamengo é um cara que não jogaria nem no time de 1992. Que fase.]. Pensei também em colocar a figurinha do Caça-Rato na Copa do Nordeste, como protesto, mas desisti a tempo. Robinho, ao menos no álbum, seria escalado. Depois de tanta troca de mensagem, as faltantes foram devidamente conseguidas.

Numa segunda-feira de temporal, na pelada, jogando no estilo Libertadores, só faltavam duas figurinhas: Eduardo Vargas, do Chile, e Omar Rodriguez, dos EUA. E elas surgiram ali, no meio do dilúvio, das mãos do Tio Washington, completando o álbum do moleque.

Confesso que, voltando de carro em meio àquele temporal, me emocionei. Pensei nos álbuns que deixei de completar; pensei também nos que talvez eu tenha feito com meu pai e não lembro sequer quais foram; e me peguei fantasiando daqui a quatro anos, folheando este, tendo que explicar ao guri quem eram Pirlo, Xavi e Drogba, o quanto jogaram, as histórias, e tudo mais. Terei de explicar também porque Robinho não foi ao torneio, mas isso é fácil.

Ao chegar em casa, de forma cerimoniosa, as duas últimas figurinhas foram coladas. O álbum repousa ao lado do Fuleco que a Tia Di, babona, deu de presente. Ali, pertinho do berço, onde ele está sonhando e crescendo. Toda vez que acordo, ao nascer do sol, passo lá, faço um cafuné, dou um beijo na testa dele e agradeço, por através de mais uma coisa, tão singela, mas tão importante, recuperar minha infância. E saio do quarto, na ponta dos pés, pensando: Vai ter Copa sim. Vai ter Copa pra caralho.

P.S.: Estou aqui me perguntando se papai colecionou o álbum da Copa de 1978 pra mim. Vou ligar pra ele.

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6 opiniões sobre “Álbum de Figurinhas

  1. Passei pelo mesmo dilema, e também tenho um caminhão de álbuns incompletos no currículo (talvez daí venha o meu assombro com o livro “O gênio do crime”). Na Copa de 2010 eu fiz vista grossa pros marmanjos que colecionaram, mas nessa aqui eu acabei cedendo. E justo hoje consegui as 4 últimas peças do meu mosaico (um hondurenho, um americano, um nigeriano e um argelino).

    Torço pra que minha filha venha a gostar de futebol (ela vem ao mundo no fim do ano), mas gostando ou não já to ensaiando o discurso: “filha, antes de você nascer teve uma Copa do Mundo no Brasil, e aí veio um álbum de figurinhas e….”

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  2. Cara, álbum de figurinhas é um troço que a gente não esquece, é incrível. A leitura da sua crônica fez aflorar a lembrança de um dos meus mais queridos álbuns. Sei pensar a capa dele inteira, mas esqueci o título (?) … Lembro da figurinha de um habitante aborígene de algum lugar do planeta, outra que mostrava uma locomotiva a vapor e por aí vai … inesquecíveis figurinhas !

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  3. Cara, até minha mãe, que não devia saber o que era álbum de figurinhas há uns 30 anos (quando ela comprava pra mim) comprou um da Copa pra ela. Sexta estava lá ajudando a velha a colar figurinhas…

    E adorei a expressão “decatlo dos esportes de subúrbio”. Embora não fosse craque em boa parte deles, pratiquei todos.

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  4. Que texto mais lindo, filhão!
    PS1 – Mas só um “detalhe” quem colecionava os albuns era eu com vc – até 1985 e o de 78 está aqui comigo e COMPLETO! (junto com outros cacarecos seus)
    Bjs e e saudades, com amor da velha e honorável mãe!
    PS2 – Os seus (quase nossos carrinhos) sumiram no guarda-móveis e quase acionei a firma!

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