Estilhaços

Nunca soube lidar com perdas. A verdade é que uma vida inteira de grandes derrotas sempre se sobressai às vitórias. E elas, as vitórias, também não foram poucas. No balanço, ativo e passivo se equilibram. Não há do que se queixar, nem se lamentar. Ao menos até o momento. Entretanto, há momentos em que as coisas fogem ao controle. Granada de si mesmo, lançada no universo.

É muito difícil ser algoz. Dos outros, de si. Não se trata de algo simples, um clic, um mecanismo que simplesmente se aciona. Envolve dores, lembranças, sabores e dissabores. Envolve sentimento. Que segue o curso independente das vontades, que são reféns dele. Sofrimento não é amargura, tristeza não é pecado. Mas dói. Como dói.

Seria muito melhor se fosse fácil. Sem mágoas. Apenas boas lembranças. Mas não é assim que funciona. Há todo um tortuoso caminho a ser percorrido, e as distâncias parecem cada vez maiores. O amargo sabor do fracasso, o olhar de quem não entende nada e de quem entende. O passado colorido que lateja cada vez que se olha o presente chuvoso.

Machucar a quem se preza, quem se ama, é muito dolorido. Ferir a si mesmo também é muito desgastante. Homicídios e suicídios que caminham de mãos dadas, se apegando a tentativas e maneiras mais ou menos ardidas. Sem maquiagens e sem máscaras, apenas os olhares nostálgicos e respeitosos que se cruzam, marejados, buscando um porquê, um onde, um senão…

Ali, onde a coragem se confunde com a covardia, o amor com a mágoa, o não com o sim, o talvez. Ali, onde os sonhos parecem estar se aconchegando num sono sem fim, porque dormem no travesseiro do futuro mutante. Ali, onde os caminhos divergem, e não por falta de tentativas, mas porque os compassos são diferentes, numa dança sem coreografia onde os calos da alma são pisados. A granada de si mesmo, lançada no universo, explode e implode, e os estilhaços fazem vítimas inocentes em sua culpa e culpados em sua inocência.

Quem sabe lidar com a perda? Quem sabe lidar com a derrota? Quem sabe lidar com o fracasso? Quem sabe ser algoz? Sobram os estilhaços.

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Enfrentando Demônios, II

- Oi.
– Você? Aqui? É pesadelo?
– Não. Ausência de sonhos. Não é inventivo? Por que você acha que não consegue dormir?
– Não sei. Por sua causa?
– Exatamente.
– Vaidoso.
– Eu falei que voltaria pra te questionar. Voltei.
– É. Não foi convidado.
– Nunca sou convidado, não faz meu perfil.
– É verdade.
– É bonito te ver definhar.
– Gosto do fato de você ser lúdico.
– E você continua debochado.
– É importante manter a verve.
– Até quando você vai resistir?
– Até o momento em que me sentir só. Você, por exemplo, está me acompanhando.
– O que?
– É. Enquanto você se importa em me questionar, eu sirvo pra algo.
– Mas eu sou seu demônio.
– Você existe por minha causa, não o contrário.
– Faz sentido. Mesmo assim, não pense que sou seu amigo.
– Não é. Mas de você eu sei o que esperar. Pra mim você é previsível. E não é meu inimigo.
– Não?
– Não. Meu inimigo sou eu, muito mais contundente e imprevisível que você.
– E você acha que aguenta?
– Mesmo com gente por perto, há lutas que se lutam só.
– Muitas frases de efeito. Você já foi melhor nisso.
– Ultimamente a excelência não é meta; sobreviver é.
– Dramático.
– Realista.
– Já disse que uma hora o temporal te consome.
– Chuva só vem quando tem de molhar, não me assusta.
– O mais irritante em você é essa falsa consciência sobre si.
– Quem atormenta quem aqui?
– Vai pro inferno.
– Já tenho visto no passaporte. Está amanhecendo, quem não gosta de sol é você.
– Eu volto…
– Você já não tem a mesma segurança na voz…
– Mas…
– Bom dia pra você.

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Saturno

Quando criança ele gostava de olhar o céu. E dos livros que falavam do céu. Astronomia. Nunca quis decorar o nome das estrelas. Aliás, só sabia reconhecer o Cruzeiro do Sul. O seu negócio era ver os planetas. Júpiter, Marte, Netuno, Urano, Mercúrio e, principalmente, Saturno.

Ele gostava deles, tinha fascínio. Ficou um tanto quanto frustrado quando descobriu que eram necessários milhares de anos para se chegar a um deles. E que não havia tecnologia que fizesse um ser humano chegar lá, quanto mais sobreviver. A tristeza aumentou quando viu na TV que Vênus estaria visível a olho nu. Quando finalmente o localizou, parecia uma estrelinha. “Estrelinha”, bufou, antes de fechar a cara.

Envelhecendo, quis comprar uma luneta, mas o dinheiro nunca dava. A vida sempre o atropelava com prioridades. A demência do cotidiano e seus arroubos, que impedem coisas aparentemente simples. Nunca é fácil viver, e às vezes é muito difícil sonhar. Sonho não é pra qualquer um, ainda mais quando diz respeito a algo importante, mesmo que pareça bobo. Muitas vezes, sonhar é um ato de coragem. Ele não desistia, queria ver Saturno.

Certa vez, houve um evento no planetário. Pra ver Saturno, só de madrugada. Mesmo assim, foi uma festa. Muita gente. Com telescópio bom. Coisa fina. Ele foi, enfrentou fila, e quando finalmente chegou sua hora, pra lá das três da manhã, o tempo ficou encoberto. E não conseguiu ver o planeta. Cabisbaixo, foi embora mais uma vez frustrado.

Ainda hoje ele se pega pensando em Saturno. Nos anéis. Essas coisas de criança. Por mais que, às vezes, o entristeça, ele não desiste de sonhar. Poderia se conformar, deixar pra lá, afinal o planeta está tão longe do seu alcance… mas, sempre se lembra dos tempos de guri, do sorriso solto, do peito aberto. Afinal, muitas vezes, sonhar é um ato de coragem.

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Cheiro de Café

O mais complexo na vida é enxergar a simplicidade. O mais prazeroso, também. Nada mais natural do que uma contradição para guiar o caminho. Tatear no escuro é a única maneira de seguir em frente. Um dia de cada vez, sempre em passos pequenos, seja pra que lado for. Tempo ao tempo, é o que diz a sabedoria.

Ali, nas pequenas e delicadas coisas, como trabalho de ourives, se talha o destino. A 18 quilates, maleável ao extremo, mas com certa dose de sujeira, não para macular a pureza, mas para dar alicerce, cicatriz, dureza necessária para entender e compreender a beleza dos momentos, inclusive os duros.

“Se lágrima fosse de pedra, eu choraria”. Assim diz o poeta citado por outro poeta e replicado por quem não entende de poesia. É mentira, claro. Não há pedras no peito, no máximo nos rins. A roda da fortuna às vezes se traveste de infortúnio, entrelinhas tortuosas que revelam bem mais que bem traçadas linhas. Há sempre a necessidade do pé no chão, embora sonhos sejam combustível e se incendiar seja bem mais atraente e gratificante. A vontade de se afogar às vezes é maior que a de nadar.

Entretanto, mesmo que o mar grande chame, buscando arrebentar na arrebentação, ninguém vira as costas para a paz. A brisa serena, não fazer nada, sentir apenas os raios de sol ou o brilho do luar que caminham preguiçosos pelo rosto, dando novo gosto e levando desgostos.

E aí, nestes caminhos e descaminhos, futuros do préterito mais que imperfeito, a vida passa. Repassa. Trespassa. Espaça. E alma, sequestrada pela angústia e melancolia, foge, desiste de ser refém da tristeza, para não ser assassinada pela amargura e sorri, desafiadora. Para flanar, sentir a brisa ou incendiar. Trivial, vaporoso e inebriante, como cheiro de café. Assim, simples, fazendo sem saber. Apenas sendo. Afinal, o mais complexo na vida é enxergar a simplicidade.

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Enfants

Pipa. Através do vento, a liberdade, sonhar, voar, rasgar os céus até que, inadvertidamente, um choque com outra e o cerol, cortante, desprende o objeto e o deixa flanando, sem rumo, sem destino, perdido até cair, de forma nem sempre suave, em algum lugar que o vento leve.

Peão. Como o destino. A partir do momento que se sai da mão, gira, gira, gira, não sabendo onde vai parar, sem controle da velocidade dos acontecimentos e contando com o acaso para uma chegada segura, que nem sempre ocorre, posto que o caminho é imprevisível.

Pique-Esconde. Aguardando a contagem, se escondendo, aparecendo apenas quando quiser, mesmo sabendo que uma hora será descoberto. Não dá para ficar recluso para sempre. Não se vive só de defesa, o ataque – ou contra- ataque – é necessário.

Rolimã. Montar um plano, viajar nele, construir cada pedaço e depois descer ladeira abaixo, sem controle, tentando frear o máximo possível, buscando o domínio máximo em situações de pressão, até chegar são e salvo – ou tomar um estabaco.

Corrida de Tampinhas. Cada um com o seu, em uma estrada comum, buscando chegar em primeiro lugar, às vezes trilhando o caminho certo, às vezes saindo da pista, sendo jogado para fora, ou fazendo o mesmo por revide. Ou, resignado em dias cansados, apenas curtindo a viagem, sem criar expectativas nem competitividade.

Carniça. Ser o alvo ou a flecha, conforme a composição do grupo. Rir com e rir de, conforme a disposição dos fatos. Ser objeto de riso. Caminhar em círculos até sair da posição incômoda e, em vez de vítima, assumir os ares de algoz.

Festa de aniversário. Celebrar, mesmo que não tenha vontade. Comer, mesmo não sendo próximo. Bater palmas, mesmo sem querer aplaudir. Furar o bolo, apenas pelo prazer da galhofa. Esquecer da falta de vontade, de não ser próximo, de não aplaudir e ser solidário, intuitivamente.

Fim de tarde. Abraçar, sorrir, lembrar nostalgicamente. Viver em paz. Passar a curtir mais e competir menos, crescer, dividir angústias, felicidades e tristezas. A infância nos ensina o caminho do futuro, pena que precisamos ficar velhos para identificá-los no passado.

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O Pequeno Sol

O pequeno sol nasce todo dia, em horários variados. Com ele não há tempo ruim, o céu está sempre azul. Para cada olhar de sofrimento e angústia, ele apresenta uma única solução: sorrir. E quem pode dizer que esta não é a melhor solução?

O pequeno sol não fala, brilha. Emite sons em sol maior. E, por ora, isso basta para que ele se expresse. Porque irradia harmonia e tranquilidade nas turbulências, e enquanto o veleiro navega, ele dá o guia da viagem, sem destino e sem porto definido.

O pequeno sol esquenta onde tudo parece estar mais frio. Acalenta e transborda paixão e compaixão. Catalisa a tempestade em paz. Ventila o que está seco, inóspito. Se junta ao arco multicolorido e faz a vida ter sentido, a paciência se recobrar, traz conforto à alma do viajante indomável.

O pequeno sol trabalha, sem saber porque e por quem. Com a mesma elegância que nasce, se põe, plácido, tranquilo, sagaz. E sorri. Para que o amanhã seja um dia de paz. Para que o amanhã seja um dia feliz. E quem é que não quer ser feliz?

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Nau

[Incidental: "Um Girassol da Cor de Seu Cabelo" - Clube da Esquina]

“Se eu cantar, não chore não, é só poesia”

No mar escuro, toca Clube da Esquina na mente. A esmo, sem destino, buscando explicações sobre o que não precisa ser explicado. O murmúrio da canção em fá, cortando o silêncio companheiro. A solidão que tantas vezes ofende, agora é boa companheira. A luz do cigarro fazendo as vezes de farol, guiando por um caminho desconhecido e que, por isso mesmo, gera medo nos ignorantes.

“Como vai você?”

Essa é a pergunta que sempre se faz quando se sente saudade. A vida, essa dádiva e meretriz, que aproxima e afasta, girando sua ampulheta com pressa e, às vezes, covardia. Sem dar satisfação, tira e põe, abre seu baralho de tantas cartas comuns e saca os coringas da mesa, deixando o jogo um pouco mais sem graça. Pequenos grãos de areia, somos nós ao sabor do vento.

“Se eu morrer não chore não, é só a lua”

Abra as velas, porque o tempo é mais rápido. Viver de futuros de pretéritos é o carma. O que podia ser, o que não foi, o que foi mas não é mais. Escolhas ou a falta delas. O peso do mundo nas costas que causa tanto desconforto quanto a pena mais leve que cai com a força de chumbo. Os ciclos que não se compreendem e ocorrem como as marés, altas ou baixas, calmas ou destruidoras, mostrando apenas o quanto somos frágeis perante o que importa. E leigos, por muitas vezes não saber o que importa.

“Você vem?”

Diante das muitas dúvidas e poucas certezas, respira. Quando se acostuma com a escuridão, é possível ver a luz das estrelas, o suficiente para erguer a cabeça e seguir em frente. Fura as ondas, enfrenta a tempestade, busca o porto e, com sensibilidade, não se engana pela luz artificial do cotidiano, que teima em se impor e desviar a atenção do que é relevante.

“Será que é tarde demais?”

É. E nunca é. Sempre haverá tempo, uma próxima vez, em uma estrada dessas que ainda não se conhece, com guia nas mãos ou não, na esperança de ver o nascer do sol e um campo de girassóis, que pode ter a cor do seu cabelo, ou não, com o céu multicolorido das cores dos olhos de gente querida. É preciso não ter medo, e é muito mais fácil falar do que cumprir. Andar incessantemente e navegar, muitas vezes sem bússola, até que as cicatrizes se fechem e virem saudade, para que se chegue ao cais, onde cada um atraca sua nau e todos se encontram, com um brinde e um sorriso. Velas ao mar.

“Ainda gosto de dançar. Bom dia.”

Que seja suave.

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Sete

Sete é conta de mentiroso. Se eu contar, ninguém acredita. Em 1986, quando eu era menino pequeno, bati setenta e oito pênaltis contra um Joel Bats imaginário. Eu sou Arthur, usava a camisa 10 e estava no meu direito. Não errei nenhum e não tenho culpa se o goleiro era imaginário, isso é problema dele. Moleque, estava com vergonha daquela derrota.

Vergonha besta, aliás. Perder de cabeça erguida dói mais do que estar entregue, mas é muito mais valoroso. E aprender a saber perder é lição de vida, da vida e para a vida. Depois vi coisas piores, como o trem fantasma de 1990, o time mais feio do que o Russo do Chacrinha – e olha que tinha bons jogadores.

Vi finalmente o Brasil ser campeão duas vezes – sem pedir “joga pra mim” – e ainda vi a seleção perder uma final com um vareio de bola que, se vocês soubessem a verdade ficariam enojados. [A verdade: Zidane comeu a bola, humilhou o Brasil e a França deu um chocolate. Foi um nojo de atuação]

Depois veio a fase dancing days. Eu torço para um time cujo oba-oba é o segundo santo padroeiro, atrás apenas de São Judas Tadeu. De fuzarca, flamenguista entende. Mas a seleção foi insuperável. Em 2006, o Brasil fez de Weggis uma micareta, tratou a Copa com uma soberba medonha, jogou com um ataque de reis momos [craques, mas reis momos], foi passando dos adversários com uma burocracia digna de inspeção do Detran e parou na França, que tinha um time envelhecido, mas atropelou o Brasil com igualdade, liberdade e fraternidade [do Roberto Carlos, que bobeou na marcação do Henry].

Aí, em 2010, veio a fase dos super-heróis, dos justiceiros, da raiva contra o sistema. O Brasil três acordes de Dunga queria soar como um punk furioso, desafiando a poderosa mídia e o establishment. Foi enfileirando vitórias com um futebol eficiente e até melódico, como se Bad Religion fosse. Jogava bem, no feijão com arroz e fazia sucesso, como um som dos Ramones. Até que contra a Holanda pareceu o Sid Vicious tocando baixo e, bem, desafinou. Amanheceu, pegou a viola, botou na sacola e foi viajar. Mais uma eliminação.

Em 2014 tudo estava a contento. Copa em casa, clima de festa, gigante pela própria natureza, o hino à capella. Coisa linda. [Pausa: aliás, o hino à capella é algo lindo mesmo]. No comando, Felipão, o técnico tão moderno quanto vinil e fusca [Pausa nº 2: muita gente gosta de vinil e fusca, mas a verdade é que em termos de praticidade, são ultrapassados e muito pouco funcionais. É. Pois é.] e Parreira, o maior Forrest Gump da história do futebol brasileiro, enganando todo mundo com seu linguajar castiço e suas aparições na TV. Mesmo assim, a gente acreditava. A mística. Essa muleta que, como a fé, move mundos e montanhas. A danada da mística.

E a mística fez o juizão dar aquela mãozinha no jogo contra a Croácia. Ochoa, no entanto, defendeu a mística e tudo mais que foi pro gol contra o México. Contra Camarões, a mística foi poupada e, jogando bola, uma sacolada no pior time da Copa. Mata-mata, chi-chi-chi, le-le-le, cha-cha-cha, e tome pressão, bumba meu boi, gol de lá, gol de cá, prorrogação dramática, bola na trave, Julio César e passou.

E avançou para as quartas contra a Colômbia, e ganhou, e tudo dava certo quando a mística chamada Neymar se quebrou. E sem o craque, sem o lampejo, sem o capitão chorão que joga bola pra cacete, o time de bons jogadores, mas sem esquema, ficou à imagem e semelhança dos seus comandantes. Tinha como dar certo?

Não. Não tinha. Mas a gente acreditou. A gente sempre acredita. Torcedor e a mística, esse caso de amor impossível. Futebol é como suruba: se você não faz, toma. E o Brasil tomou um gang bang, com direito a bukkake. Uma sevícia, uma humilhação, um esculacho, um esmerilho. A Alemanha desfilou no gramado enquanto o Brasil encolheu.

A torcida nem desesperada ficou. Eu mesmo só fui acreditar nos sete gols no dia seguinte, dirigindo. Uma quase morte. Tomar sete gols porque jogamos no esquema tático “vamo que vamo” é de lascar. A gente sempre acredita, até que uma vez na vida é feito de trouxa. Se eu contar pra quem não viu, ninguém crê. Se um dia disserem que sete é conta de mentiroso, eu vou negar. Gol da Alemanha.

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Menino

Às vezes, é preciso ser menino. Saber que nem tudo está sob controle. É preciso lutar até onde der e tentar saber qual o limite. Como descobrir o limite? Nem sempre é possível, mas é sempre necessário tentar. E viver e cantar e sorrir e chorar.

Homem não chora. Chora. Chora sentido, copioso, dolorido. Até sem lágrimas, quando ninguém está vendo. Chora por saber e por não saber. Por ver e por não ver e, até mesmo, por antever. E mergulha no mar de lágrimas, oceano tempestuoso que queima com as águas vivas da dúvida e da incerteza. Chora, mas não abaixa a cabeça.

É preciso ser pé descalço. Arte, moleque, toco y me voy. Driblar a tristeza, mesmo quando vem aquele carrinho violento do destino. O jogo é jogado, nem todas as faltas são marcadas. Mas se marcar, tem de encobrir a barreira da dificuldade, ao menos tentar. E se a barreira pular, mete a bola rasteira. Só não cobra escanteio curto. A vida é tática no horário comercial. No destino, é melhor jogar a bola na área.

E se refugiar no sono ou na solidão, porque às vezes são bons conselheiros. Fé amolada, faca cega. Sonho que se sonha só é acalento. Calma. Respira. Nem tudo está sob controle. Mas, por ora, só hoje, pra que se preocupar com o tempo? Quem se preocupa com o tempo é homem feito. Nem sempre é necessário ser homem feito. Às vezes, é preciso ser menino.

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Alvorada Blues

Ele acordou ao som do despertador, aquele tom esganiçado que soa como a trombeta do apocalipse iniciando mais um dia. O amanhecer preguiçoso depois de um dia de temporal é metafórico. Às vezes as peças são pregadas, encaixadas e desencaixadas ao bel prazer do destino. E mesmo o sol chove.

Fechar os olhos é se ver em um labirinto que ele mesmo criou. Por ora há espinhos até as saídas, mas ser líder de si mesmo, mesmo que ande em círculos, parece ser mais importante do que buscar desesperadamente uma solução. Há momentos em que não é necessário vencer, apenas sorrir. E sangrar sorrindo, mesmo sendo contraditório, é uma importante pausa para respirar.

Observando os primeiros raios de sol secarem o orvalho não menos preguiçoso das flores, um bocejo soa tão libertador quanto uma carta de alforria. A insônia é o pior dos pecados, o inferno daqueles que precisam viver despertos, mesmo que a vontade seja virar mar.

Por mais que se tente, às vezes o sentido não aparece como uma placa de neon luminosa, piscando na frente e indicando caminhos. É necessária paciência, viver e aprender a jogar, mesmo que o placar ou as alternativas prenunciem derrotas iminentes em quaisquer situações. Às vezes se reencontrar é virar uma partida jogando fora de casa, em gramado ruim.

Enquanto medita sobre o dia vindouro, finalmente abre os olhos. É hora de seguir, cada dia é um dia importante. Cada batalha, surda ou não, merece ser tratada com respeito e reverência. Porque o destino implacável espera na esquina e, para se chegar até ele, é preciso estar de pé e de cabeça erguida. O despertador toca de novo.

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