Esponja

Ele se acostumou a entender o lado de todos. Conselheiro, guru, ombro amigo. Era o primeiro a ser procurado quando as coisas ficavam enegrecidas. O esteio de muitos, cansou de ser padrinho de casamentos e batizados. O braço forte e a mão amiga, mas uma pergunta o atormentava: “e quem cuida de mim?”. Absorvia o problema de todos a quem queria bem, como filtro, ficando alerta e insone inúmeras vezes. Esponja.

Muitas vezes queria explodir e implodia. Não conseguia enxergar no espelho o conselheiro que todos viam. Além disso, sempre achava que perdia o timing das suas próprias coisas. A ansiedade de acertar o consumia. Ele queria mais do que ser o ouvido, queria ser ouvido. Queria ser coração, estar em paz, ser feliz. Sofrer pelo presente, não pelo futuro do pretérito.

Guardava seus anseios para si, como uma caixa de pandora. Muitas vezes via o dia anoitecer na esperança de se reencontrar e saber onde tinha se perdido. Precisava dialogar consigo mesmo. Se apaixonou tantas vezes quanto desapaixonou, por perder o bonde do tempo, ou simplesmente por temê-lo. Decidiu, entre copos de chopp, que não seria mais assim.

E passou a viver mais leve, a não temer a solidão, embora não a valorizasse como inimiga. Decidiu aguçar o olhar. Não deixou de aconselhar aos amigos, mas passou a se aconselhar com frequência. Com paciência e serenidades budistas, buscou alternativas. Do desencanto, passou a se encantar e encantar aos outros.

Decidiu absorver a coisa boa da vida e se permitir sonhar, não só ser esponja de outrem, mas de si mesmo. Ele, que sempre foi ateu, fez do amor próprio e da compaixão sua meta, religião. E finalmente conseguiu torcer a esponja, ficar leve, viver livre. E voltou a dormir bem.

Suco de Tangerina

Ele sempre teve a contradição como seu ombro amigo. A segurança de saber o que era andava de mãos dadas com a insegurança de não saber o que esperar – de si, de outrem, do mundo. Muitas vezes usava uma máscara de arrogância para se proteger daquilo que não conhecia ou temia conhecer, mesmo que fosse do espelho.

Sempre traçava seus planos e seus sonhos como se fosse uma obra de vida. Detestava os imprevistos, embora adorasse os improvisos. O romance com a idiossincrasia era um dos amores mais duradouros que tinha, e tinha se conformado com essa rotina de mudar opiniões mesmo se aferrando a princípios.

Perdido e absorto em seus próprios pensamentos, muitas vezes demorava a tomar decisões. Não só por receio, mas por tentar compreender o que cada uma delas significava em toda a sua essência. Nos contratos e distratos feitos com a vida, gostava de ler as letras miúdas.

Entretanto, há uma hora que os caminhos se tornam inevitáveis e que é preciso tomar atitudes. A contradição deixa de ser poltrona e vira espada, perigo iminente, como na parábola de Dâmocles. Nesses momentos, não há como não fazer. Apenas assumir as negligências e responsabilidades. As opiniões e princípios estão lá, mas asfixiam mais do que fazem respirar.

A cada passo, uma nova sensação. Dor, tristeza, serenidade, esperança, paz. Sem perder a alteridade, palavra da moda, espírito necessário. É preciso entender e compreender o que se passa, e deixar de se irmanar com a contradição. Para poder andar em frente, é preciso olhar para trás e, principalmente, ao redor. É preciso se despir da roupa antiga e sentir o vento da esperança.

E deixar de se importar com as coisas dramaticamente grandes e importantes da vida e do mundo. Esquecer um pouco dos anseios e ardores da alma, deixar as feridas respirarem, buscando a cura por si só, mesmo que as cicatrizes deixem quelóides. Desarmar o espírito e relembrar que mais relevante que saber bater, é aprender a apanhar.

Sem sonhos, nem pesadelos, reaprender a caminhar, relembrar as coisas simples, saber que tudo pode e vai se assentar. E que a contradição gerada pela ânsia de entender o mundo perde seu lugar pra simplicidade. Que, às vezes, opinião, princípio, compreensão devem ser colocadas em repouso. Apenas sentir, buscar a calmaria. Em vez de se embriagar de dúvidas e necessidades, algo prosaico, como suco de tangerina. Assim, simples. Intransitivo. Um brinde.

Ilha

Caminhando entre as inseguranças e as impossibilidades, vislumbrando o futuro e escondendo as cicatrizes do passado, vivendo ou sobrevivendo o presente, a vida segue. Enquanto tenta se olhar no espelho e refletir-se o que é, o que gostaria que fosse, o que não foi. O ser humano é uma ilha cercada de dúvidas.

Oscilando entre mares tormentosos e calmarias momentâneas, se agarrando em postes ou ombros para se salvar dos furacões, consumido pelas perguntas sem respostas e respostas sem perguntas, alimentando a paranóia e a amargura ou simplesmente as descartando ou enfrentando, como um demônio de capa e espada, o ser humano é uma ilha cercada de medos.

Vivendo a melancolia como combustível, lembrando da frase que uma cronista escreveu, de que a tristeza é só um posto de gasolina na estrada da felicidade, tentando colocar o vagão da vida nos trilhos, ou descarrilando de vez em quando, porque o risco às vezes vale a pena, mesmo que ele seja apenas paz, e na busca pelo reencontro de si mesmo, o ser humano é uma ilha cercada de anseios.

Nas palavras truncadas que se enrolam nas cordas vocais, no disse que não se disse, no que queria se falar, mas se calou, do que não devia ter sido dito e jogou fora um brilho, no silêncio que diz tudo, no discurso que diz nada, na tentativa de se expressar – conseguindo ou não – o ser humano é uma ilha cercada de pontos, vírgulas e parágrafos.

No retrovisor que mostra o que ficou pra trás, no farol que ilumina o que vai na frente, nos amigos que viraram estrelas, nos amigos que amparam e escoram, na solidão acompanhada ou simplesmente na solidão que é só, na esperança do sorriso de criança, que faz lembrar que a alegria existe, basta saber procurar. O ser humano é uma ilha cercada de saudades.

Infantaria e Mar

Filho, hoje você conheceu a praia. Parece algo comum e corriqueiro, mas pra nós não é assim. As pessoas talvez nos olhem estranho, porque pra elas praia é diversão. Elas se sentem bem na praia, elas gostam de estar ali, naquele ambiente, respirando aquele ar da maresia, por recreação. Nós, não. Ali, pra nós, é sempre um ritual.

Hoje, você é muito novo pra entender isso, guri, mas um dia, você, quando estiver saturado, carregado e cansado do cotidiano, irá à praia. Porque é da sua natureza, assim como da minha. Nosso sangue é de água salgada, ali é nosso habitat natural. Não é aquela balela de ser peixe, ou algo do tipo, é algo que transcende isso. É espiritual.

Ao ver você dar passos, amparados, para ir ao encontro do mar, eu reparei no seu rosto. Normalmente bebês choram, mas você não fez isso. Primeiro reconheceu o piso fofo da areia, depois, calmamente, foi se encaminhando pro mar. Quando tocou na água, resmungou – acredite, isso é uma característica genética, bem mais minha do que da sua mãe, não se assuste – mas logo se adaptou.

A água do Nordeste é morna, mas não pense que a vida será sempre mansa assim. Há lugares que a água será geladíssima. É uma metáfora pra vida, filhote: mesmo que a água pareça desafiadora, não se furte a mergulhar.

Aliás, falando em água, e falando em mar, nunca se esqueça: gente como a gente nunca sai de costas pro mar. A gente sai e olha pra ele, em reverência. E agradece. Porque o mar é acolhedor, mas não tolera desaforo. Só morre no mar quem sabe nadar. A arrogância no oceano é imperdoável. Na vida, se demora mais pra cobrar a conta, mas ali, na imensidão azul, ela vem rápido com direito a gorjeta. Convém nunca abusar.

E você saberá disso, no devido tempo. Como hoje, depois de ter receio, soube onde estava pisando, depois reconheceu onde estava nadando e abriu um sorriso abusado. Se divertiu nos braços dos seus, tomou uma água de coco e voltou pra casa feliz.

Porque gente como nós, meu filho, não trata a praia como diversão ou como um ambiente diferente. Gente como nós é a praia e faz parte dela, assim como ela mora na gente. Porque nós, guri, somos feitos de infantaria e mar.

Coxinha

O Brasil é pródigo em injustiças. Uma delas, das mais flagrantes, vitimiza a coxinha. Não falaremos aqui do cabuloso e pejorativo adjetivo que qualifica pessoas xexelentas, porque blogs diversos já opinaram sobre isso, inclusive determinando os tipos de coxinha. O que está em pauta é o salgado mais nobre entre os salgados, o mais saboroso, o que merece mais respeito.

A massa crocante baseada em farinha de trigo, juntamente com o recheio malemolente de galinha, é das combinações mais matadoras da baixa gastronomia. Algo como Lennon/McCartney, Jagger/Richards, Sullivan/Massadas, Claudinho/Buchecha. A coxinha-arte, coxinha moleque, coxinha frita na hora e me voy hoje é artigo raro no mercado, mas ainda é possível se encontrar exemplares crocantes e saborosos por aí, nas andanças da vida. O aumento de lanchonetes gourmets e a invasão de pastelarias que desvalorizam o salgado nobre, faz com que a coxinha de raiz esteja ameaçada de extinção, mais ou menos o que o pardal fez com o tico-tico.

Pra piorar a situação, ultimamente a coxinha vem sendo seviciada por empresários inescrupulosos do ramo de alimentos da baixa gastronomia, que preparam o salgado antes e depois querem esquentá-lo no micro-ondas. Por muito menos do que isso Jesus foi crucificado, por exemplo. É das coisas mais deprimentes ver um salgadinho rançoso, dormido, moribundo, ser requentado. Deveria ser crime de falsificação ideológica.

Jamie Oliver que me desculpe – aliás, tem que desculpar porra nenhuma não. O cara não gosta de quindim, não dá pra respeitar quem não gosta de quindim – mas a coxinha deveria estar no cardápio escolar pelo menos uma vez por semana. E deveria ser acompanhada com uma cartilha para ensinar a comer o alimento. Afinal, como diz o grande filósofo Mr. Catra, bumbum não se pede, bumbum se conquista. A coxinha deve ser comida pelo bico, não pela bunda.

A língua portuguesa tem um sem número de xingamentos. Em vez de ofender aquele cara mané e babaca de coxinha, respeite a iguaria nobre da baixa gastronomia. E não deixe a coxinha morrer, não deixe a coxinha acabar. Muitas barrigas adolescentes foram esculpidas por causa do salgadinho. É necessária a resistência.

Estilhaços

Nunca soube lidar com perdas. A verdade é que uma vida inteira de grandes derrotas sempre se sobressai às vitórias. E elas, as vitórias, também não foram poucas. No balanço, ativo e passivo se equilibram. Não há do que se queixar, nem se lamentar. Ao menos até o momento. Entretanto, há momentos em que as coisas fogem ao controle. Granada de si mesmo, lançada no universo.

É muito difícil ser algoz. Dos outros, de si. Não se trata de algo simples, um clic, um mecanismo que simplesmente se aciona. Envolve dores, lembranças, sabores e dissabores. Envolve sentimento. Que segue o curso independente das vontades, que são reféns dele. Sofrimento não é amargura, tristeza não é pecado. Mas dói. Como dói.

Seria muito melhor se fosse fácil. Sem mágoas. Apenas boas lembranças. Mas não é assim que funciona. Há todo um tortuoso caminho a ser percorrido, e as distâncias parecem cada vez maiores. O amargo sabor do fracasso, o olhar de quem não entende nada e de quem entende. O passado colorido que lateja cada vez que se olha o presente chuvoso.

Machucar a quem se preza, quem se ama, é muito dolorido. Ferir a si mesmo também é muito desgastante. Homicídios e suicídios que caminham de mãos dadas, se apegando a tentativas e maneiras mais ou menos ardidas. Sem maquiagens e sem máscaras, apenas os olhares nostálgicos e respeitosos que se cruzam, marejados, buscando um porquê, um onde, um senão…

Ali, onde a coragem se confunde com a covardia, o amor com a mágoa, o não com o sim, o talvez. Ali, onde os sonhos parecem estar se aconchegando num sono sem fim, porque dormem no travesseiro do futuro mutante. Ali, onde os caminhos divergem, e não por falta de tentativas, mas porque os compassos são diferentes, numa dança sem coreografia onde os calos da alma são pisados. A granada de si mesmo, lançada no universo, explode e implode, e os estilhaços fazem vítimas inocentes em sua culpa e culpados em sua inocência.

Quem sabe lidar com a perda? Quem sabe lidar com a derrota? Quem sabe lidar com o fracasso? Quem sabe ser algoz? Sobram os estilhaços.

Enfrentando Demônios, II

- Oi.
– Você? Aqui? É pesadelo?
– Não. Ausência de sonhos. Não é inventivo? Por que você acha que não consegue dormir?
– Não sei. Por sua causa?
– Exatamente.
– Vaidoso.
– Eu falei que voltaria pra te questionar. Voltei.
– É. Não foi convidado.
– Nunca sou convidado, não faz meu perfil.
– É verdade.
– É bonito te ver definhar.
– Gosto do fato de você ser lúdico.
– E você continua debochado.
– É importante manter a verve.
– Até quando você vai resistir?
– Até o momento em que me sentir só. Você, por exemplo, está me acompanhando.
– O que?
– É. Enquanto você se importa em me questionar, eu sirvo pra algo.
– Mas eu sou seu demônio.
– Você existe por minha causa, não o contrário.
– Faz sentido. Mesmo assim, não pense que sou seu amigo.
– Não é. Mas de você eu sei o que esperar. Pra mim você é previsível. E não é meu inimigo.
– Não?
– Não. Meu inimigo sou eu, muito mais contundente e imprevisível que você.
– E você acha que aguenta?
– Mesmo com gente por perto, há lutas que se lutam só.
– Muitas frases de efeito. Você já foi melhor nisso.
– Ultimamente a excelência não é meta; sobreviver é.
– Dramático.
– Realista.
– Já disse que uma hora o temporal te consome.
– Chuva só vem quando tem de molhar, não me assusta.
– O mais irritante em você é essa falsa consciência sobre si.
– Quem atormenta quem aqui?
– Vai pro inferno.
– Já tenho visto no passaporte. Está amanhecendo, quem não gosta de sol é você.
– Eu volto…
– Você já não tem a mesma segurança na voz…
– Mas…
– Bom dia pra você.

Saturno

Quando criança ele gostava de olhar o céu. E dos livros que falavam do céu. Astronomia. Nunca quis decorar o nome das estrelas. Aliás, só sabia reconhecer o Cruzeiro do Sul. O seu negócio era ver os planetas. Júpiter, Marte, Netuno, Urano, Mercúrio e, principalmente, Saturno.

Ele gostava deles, tinha fascínio. Ficou um tanto quanto frustrado quando descobriu que eram necessários milhares de anos para se chegar a um deles. E que não havia tecnologia que fizesse um ser humano chegar lá, quanto mais sobreviver. A tristeza aumentou quando viu na TV que Vênus estaria visível a olho nu. Quando finalmente o localizou, parecia uma estrelinha. “Estrelinha”, bufou, antes de fechar a cara.

Envelhecendo, quis comprar uma luneta, mas o dinheiro nunca dava. A vida sempre o atropelava com prioridades. A demência do cotidiano e seus arroubos, que impedem coisas aparentemente simples. Nunca é fácil viver, e às vezes é muito difícil sonhar. Sonho não é pra qualquer um, ainda mais quando diz respeito a algo importante, mesmo que pareça bobo. Muitas vezes, sonhar é um ato de coragem. Ele não desistia, queria ver Saturno.

Certa vez, houve um evento no planetário. Pra ver Saturno, só de madrugada. Mesmo assim, foi uma festa. Muita gente. Com telescópio bom. Coisa fina. Ele foi, enfrentou fila, e quando finalmente chegou sua hora, pra lá das três da manhã, o tempo ficou encoberto. E não conseguiu ver o planeta. Cabisbaixo, foi embora mais uma vez frustrado.

Ainda hoje ele se pega pensando em Saturno. Nos anéis. Essas coisas de criança. Por mais que, às vezes, o entristeça, ele não desiste de sonhar. Poderia se conformar, deixar pra lá, afinal o planeta está tão longe do seu alcance… mas, sempre se lembra dos tempos de guri, do sorriso solto, do peito aberto. Afinal, muitas vezes, sonhar é um ato de coragem.

Cheiro de Café

O mais complexo na vida é enxergar a simplicidade. O mais prazeroso, também. Nada mais natural do que uma contradição para guiar o caminho. Tatear no escuro é a única maneira de seguir em frente. Um dia de cada vez, sempre em passos pequenos, seja pra que lado for. Tempo ao tempo, é o que diz a sabedoria.

Ali, nas pequenas e delicadas coisas, como trabalho de ourives, se talha o destino. A 18 quilates, maleável ao extremo, mas com certa dose de sujeira, não para macular a pureza, mas para dar alicerce, cicatriz, dureza necessária para entender e compreender a beleza dos momentos, inclusive os duros.

“Se lágrima fosse de pedra, eu choraria”. Assim diz o poeta citado por outro poeta e replicado por quem não entende de poesia. É mentira, claro. Não há pedras no peito, no máximo nos rins. A roda da fortuna às vezes se traveste de infortúnio, entrelinhas tortuosas que revelam bem mais que bem traçadas linhas. Há sempre a necessidade do pé no chão, embora sonhos sejam combustível e se incendiar seja bem mais atraente e gratificante. A vontade de se afogar às vezes é maior que a de nadar.

Entretanto, mesmo que o mar grande chame, buscando arrebentar na arrebentação, ninguém vira as costas para a paz. A brisa serena, não fazer nada, sentir apenas os raios de sol ou o brilho do luar que caminham preguiçosos pelo rosto, dando novo gosto e levando desgostos.

E aí, nestes caminhos e descaminhos, futuros do préterito mais que imperfeito, a vida passa. Repassa. Trespassa. Espaça. E alma, sequestrada pela angústia e melancolia, foge, desiste de ser refém da tristeza, para não ser assassinada pela amargura e sorri, desafiadora. Para flanar, sentir a brisa ou incendiar. Trivial, vaporoso e inebriante, como cheiro de café. Assim, simples, fazendo sem saber. Apenas sendo. Afinal, o mais complexo na vida é enxergar a simplicidade.

Enfants

Pipa. Através do vento, a liberdade, sonhar, voar, rasgar os céus até que, inadvertidamente, um choque com outra e o cerol, cortante, desprende o objeto e o deixa flanando, sem rumo, sem destino, perdido até cair, de forma nem sempre suave, em algum lugar que o vento leve.

Peão. Como o destino. A partir do momento que se sai da mão, gira, gira, gira, não sabendo onde vai parar, sem controle da velocidade dos acontecimentos e contando com o acaso para uma chegada segura, que nem sempre ocorre, posto que o caminho é imprevisível.

Pique-Esconde. Aguardando a contagem, se escondendo, aparecendo apenas quando quiser, mesmo sabendo que uma hora será descoberto. Não dá para ficar recluso para sempre. Não se vive só de defesa, o ataque – ou contra- ataque – é necessário.

Rolimã. Montar um plano, viajar nele, construir cada pedaço e depois descer ladeira abaixo, sem controle, tentando frear o máximo possível, buscando o domínio máximo em situações de pressão, até chegar são e salvo – ou tomar um estabaco.

Corrida de Tampinhas. Cada um com o seu, em uma estrada comum, buscando chegar em primeiro lugar, às vezes trilhando o caminho certo, às vezes saindo da pista, sendo jogado para fora, ou fazendo o mesmo por revide. Ou, resignado em dias cansados, apenas curtindo a viagem, sem criar expectativas nem competitividade.

Carniça. Ser o alvo ou a flecha, conforme a composição do grupo. Rir com e rir de, conforme a disposição dos fatos. Ser objeto de riso. Caminhar em círculos até sair da posição incômoda e, em vez de vítima, assumir os ares de algoz.

Festa de aniversário. Celebrar, mesmo que não tenha vontade. Comer, mesmo não sendo próximo. Bater palmas, mesmo sem querer aplaudir. Furar o bolo, apenas pelo prazer da galhofa. Esquecer da falta de vontade, de não ser próximo, de não aplaudir e ser solidário, intuitivamente.

Fim de tarde. Abraçar, sorrir, lembrar nostalgicamente. Viver em paz. Passar a curtir mais e competir menos, crescer, dividir angústias, felicidades e tristezas. A infância nos ensina o caminho do futuro, pena que precisamos ficar velhos para identificá-los no passado.