O Pequeno Sol

O pequeno sol nasce todo dia, em horários variados. Com ele não há tempo ruim, o céu está sempre azul. Para cada olhar de sofrimento e angústia, ele apresenta uma única solução: sorrir. E quem pode dizer que esta não é a melhor solução?

O pequeno sol não fala, brilha. Emite sons em sol maior. E, por ora, isso basta para que ele se expresse. Porque irradia harmonia e tranquilidade nas turbulências, e enquanto o veleiro navega, ele dá o guia da viagem, sem destino e sem porto definido.

O pequeno sol esquenta onde tudo parece estar mais frio. Acalenta e transborda paixão e compaixão. Catalisa a tempestade em paz. Ventila o que está seco, inóspito. Se junta ao arco multicolorido e faz a vida ter sentido, a paciência se recobrar, traz conforto à alma do viajante indomável.

O pequeno sol trabalha, sem saber porque e por quem. Com a mesma elegância que nasce, se põe, plácido, tranquilo, sagaz. E sorri. Para que o amanhã seja um dia de paz. Para que o amanhã seja um dia feliz. E quem é que não quer ser feliz?

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Nau

[Incidental: "Um Girassol da Cor de Seu Cabelo" - Clube da Esquina]

“Se eu cantar, não chore não, é só poesia”

No mar escuro, toca Clube da Esquina na mente. A esmo, sem destino, buscando explicações sobre o que não precisa ser explicado. O murmúrio da canção em fá, cortando o silêncio companheiro. A solidão que tantas vezes ofende, agora é boa companheira. A luz do cigarro fazendo as vezes de farol, guiando por um caminho desconhecido e que, por isso mesmo, gera medo nos ignorantes.

“Como vai você?”

Essa é a pergunta que sempre se faz quando se sente saudade. A vida, essa dádiva e meretriz, que aproxima e afasta, girando sua ampulheta com pressa e, às vezes, covardia. Sem dar satisfação, tira e põe, abre seu baralho de tantas cartas comuns e saca os coringas da mesa, deixando o jogo um pouco mais sem graça. Pequenos grãos de areia, somos nós ao sabor do vento.

“Se eu morrer não chore não, é só a lua”

Abra as velas, porque o tempo é mais rápido. Viver de futuros de pretéritos é o carma. O que podia ser, o que não foi, o que foi mas não é mais. Escolhas ou a falta delas. O peso do mundo nas costas que causa tanto desconforto quanto a pena mais leve que cai com a força de chumbo. Os ciclos que não se compreendem e ocorrem como as marés, altas ou baixas, calmas ou destruidoras, mostrando apenas o quanto somos frágeis perante o que importa. E leigos, por muitas vezes não saber o que importa.

“Você vem?”

Diante das muitas dúvidas e poucas certezas, respira. Quando se acostuma com a escuridão, é possível ver a luz das estrelas, o suficiente para erguer a cabeça e seguir em frente. Fura as ondas, enfrenta a tempestade, busca o porto e, com sensibilidade, não se engana pela luz artificial do cotidiano, que teima em se impor e desviar a atenção do que é relevante.

“Será que é tarde demais?”

É. E nunca é. Sempre haverá tempo, uma próxima vez, em uma estrada dessas que ainda não se conhece, com guia nas mãos ou não, na esperança de ver o nascer do sol e um campo de girassóis, que pode ter a cor do seu cabelo, ou não, com o céu multicolorido das cores dos olhos de gente querida. É preciso não ter medo, e é muito mais fácil falar do que cumprir. Andar incessantemente e navegar, muitas vezes sem bússola, até que as cicatrizes se fechem e virem saudade, para que se chegue ao cais, onde cada um atraca sua nau e todos se encontram, com um brinde e um sorriso. Velas ao mar.

“Ainda gosto de dançar. Bom dia.”

Que seja suave.

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Sete

Sete é conta de mentiroso. Se eu contar, ninguém acredita. Em 1986, quando eu era menino pequeno, bati setenta e oito pênaltis contra um Joel Bats imaginário. Eu sou Arthur, usava a camisa 10 e estava no meu direito. Não errei nenhum e não tenho culpa se o goleiro era imaginário, isso é problema dele. Moleque, estava com vergonha daquela derrota.

Vergonha besta, aliás. Perder de cabeça erguida dói mais do que estar entregue, mas é muito mais valoroso. E aprender a saber perder é lição de vida, da vida e para a vida. Depois vi coisas piores, como o trem fantasma de 1990, o time mais feio do que o Russo do Chacrinha – e olha que tinha bons jogadores.

Vi finalmente o Brasil ser campeão duas vezes – sem pedir “joga pra mim” – e ainda vi a seleção perder uma final com um vareio de bola que, se vocês soubessem a verdade ficariam enojados. [A verdade: Zidane comeu a bola, humilhou o Brasil e a França deu um chocolate. Foi um nojo de atuação]

Depois veio a fase dancing days. Eu torço para um time cujo oba-oba é o segundo santo padroeiro, atrás apenas de São Judas Tadeu. De fuzarca, flamenguista entende. Mas a seleção foi insuperável. Em 2006, o Brasil fez de Weggis uma micareta, tratou a Copa com uma soberba medonha, jogou com um ataque de reis momos [craques, mas reis momos], foi passando dos adversários com uma burocracia digna de inspeção do Detran e parou na França, que tinha um time envelhecido, mas atropelou o Brasil com igualdade, liberdade e fraternidade [do Roberto Carlos, que bobeou na marcação do Henry].

Aí, em 2010, veio a fase dos super-heróis, dos justiceiros, da raiva contra o sistema. O Brasil três acordes de Dunga queria soar como um punk furioso, desafiando a poderosa mídia e o establishment. Foi enfileirando vitórias com um futebol eficiente e até melódico, como se Bad Religion fosse. Jogava bem, no feijão com arroz e fazia sucesso, como um som dos Ramones. Até que contra a Holanda pareceu o Sid Vicious tocando baixo e, bem, desafinou. Amanheceu, pegou a viola, botou na sacola e foi viajar. Mais uma eliminação.

Em 2014 tudo estava a contento. Copa em casa, clima de festa, gigante pela própria natureza, o hino à capella. Coisa linda. [Pausa: aliás, o hino à capella é algo lindo mesmo]. No comando, Felipão, o técnico tão moderno quanto vinil e fusca [Pausa nº 2: muita gente gosta de vinil e fusca, mas a verdade é que em termos de praticidade, são ultrapassados e muito pouco funcionais. É. Pois é.] e Parreira, o maior Forrest Gump da história do futebol brasileiro, enganando todo mundo com seu linguajar castiço e suas aparições na TV. Mesmo assim, a gente acreditava. A mística. Essa muleta que, como a fé, move mundos e montanhas. A danada da mística.

E a mística fez o juizão dar aquela mãozinha no jogo contra a Croácia. Ochoa, no entanto, defendeu a mística e tudo mais que foi pro gol contra o México. Contra Camarões, a mística foi poupada e, jogando bola, uma sacolada no pior time da Copa. Mata-mata, chi-chi-chi, le-le-le, cha-cha-cha, e tome pressão, bumba meu boi, gol de lá, gol de cá, prorrogação dramática, bola na trave, Julio César e passou.

E avançou para as quartas contra a Colômbia, e ganhou, e tudo dava certo quando a mística chamada Neymar se quebrou. E sem o craque, sem o lampejo, sem o capitão chorão que joga bola pra cacete, o time de bons jogadores, mas sem esquema, ficou à imagem e semelhança dos seus comandantes. Tinha como dar certo?

Não. Não tinha. Mas a gente acreditou. A gente sempre acredita. Torcedor e a mística, esse caso de amor impossível. Futebol é como suruba: se você não faz, toma. E o Brasil tomou um gang bang, com direito a bukkake. Uma sevícia, uma humilhação, um esculacho, um esmerilho. A Alemanha desfilou no gramado enquanto o Brasil encolheu.

A torcida nem desesperada ficou. Eu mesmo só fui acreditar nos sete gols no dia seguinte, dirigindo. Uma quase morte. Tomar sete gols porque jogamos no esquema tático “vamo que vamo” é de lascar. A gente sempre acredita, até que uma vez na vida é feito de trouxa. Se eu contar pra quem não viu, ninguém crê. Se um dia disserem que sete é conta de mentiroso, eu vou negar. Gol da Alemanha.

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Menino

Às vezes, é preciso ser menino. Saber que nem tudo está sob controle. É preciso lutar até onde der e tentar saber qual o limite. Como descobrir o limite? Nem sempre é possível, mas é sempre necessário tentar. E viver e cantar e sorrir e chorar.

Homem não chora. Chora. Chora sentido, copioso, dolorido. Até sem lágrimas, quando ninguém está vendo. Chora por saber e por não saber. Por ver e por não ver e, até mesmo, por antever. E mergulha no mar de lágrimas, oceano tempestuoso que queima com as águas vivas da dúvida e da incerteza. Chora, mas não abaixa a cabeça.

É preciso ser pé descalço. Arte, moleque, toco y me voy. Driblar a tristeza, mesmo quando vem aquele carrinho violento do destino. O jogo é jogado, nem todas as faltas são marcadas. Mas se marcar, tem de encobrir a barreira da dificuldade, ao menos tentar. E se a barreira pular, mete a bola rasteira. Só não cobra escanteio curto. A vida é tática no horário comercial. No destino, é melhor jogar a bola na área.

E se refugiar no sono ou na solidão, porque às vezes são bons conselheiros. Fé amolada, faca cega. Sonho que se sonha só é acalento. Calma. Respira. Nem tudo está sob controle. Mas, por ora, só hoje, pra que se preocupar com o tempo? Quem se preocupa com o tempo é homem feito. Nem sempre é necessário ser homem feito. Às vezes, é preciso ser menino.

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Alvorada Blues

Ele acordou ao som do despertador, aquele tom esganiçado que soa como a trombeta do apocalipse iniciando mais um dia. O amanhecer preguiçoso depois de um dia de temporal é metafórico. Às vezes as peças são pregadas, encaixadas e desencaixadas ao bel prazer do destino. E mesmo o sol chove.

Fechar os olhos é se ver em um labirinto que ele mesmo criou. Por ora há espinhos até as saídas, mas ser líder de si mesmo, mesmo que ande em círculos, parece ser mais importante do que buscar desesperadamente uma solução. Há momentos em que não é necessário vencer, apenas sorrir. E sangrar sorrindo, mesmo sendo contraditório, é uma importante pausa para respirar.

Observando os primeiros raios de sol secarem o orvalho não menos preguiçoso das flores, um bocejo soa tão libertador quanto uma carta de alforria. A insônia é o pior dos pecados, o inferno daqueles que precisam viver despertos, mesmo que a vontade seja virar mar.

Por mais que se tente, às vezes o sentido não aparece como uma placa de neon luminosa, piscando na frente e indicando caminhos. É necessária paciência, viver e aprender a jogar, mesmo que o placar ou as alternativas prenunciem derrotas iminentes em quaisquer situações. Às vezes se reencontrar é virar uma partida jogando fora de casa, em gramado ruim.

Enquanto medita sobre o dia vindouro, finalmente abre os olhos. É hora de seguir, cada dia é um dia importante. Cada batalha, surda ou não, merece ser tratada com respeito e reverência. Porque o destino implacável espera na esquina e, para se chegar até ele, é preciso estar de pé e de cabeça erguida. O despertador toca de novo.

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Enfrentando Demônios

[acorda de madrugada, sobressaltado]
[olha assustado]

- Há quanto tempo você está aí?
– Desde sempre.
– Nós já nos encontramos antes?
– Certamente.
– Nunca tinha visto você. Já vi vários como você, mas não a sua figura.
– Eu sempre fitei seus olhos, agora é hora de conversarmos.
– O que você quer de mim?
– Eu? Você.
– Não vai conseguir.
– Será?
– Não tenho dúvida alguma.
– Mas eu te atormento, te tiro o sono, te levo à loucura, te faço pensar.
– Isso não é mérito seu, não preciso de alguém pra me fazer essas coisas.
– Você é arrogante.
– Não. Eu sou altivo. São coisas diferentes.
– E debochado.
– Isso eu sou mesmo. Coloca sarcástico na descrição, que cabe.
– Vou te levar ao inferno.
– Não preciso de guia, conheço o caminho.
– Você não tem medo de mim?
– Não, nenhum. Tenho medo de mim.
– Hum.
– O que foi?
– Essa autoconfiança, que tenta disfarçar a fragilidade.
– Eu nunca escondi meus medos.
– Hipócrita.
– Também nunca escondi que sou hipócrita. Convivo bem com isso. E com minhas idiossincrasias também.
– Hum.
– Mas, por não me faltar medos, me sobra coragem. Eu não tenho nenhum temor de você.
– Vamos ver como você se sai no mar de angústia.
– Navego por isso desde que me entendo por gente. O veleiro enverga, mas não quebra. Mar calmo nunca fez bom arrais, de tormenta é que se vive.
– Você me irrita.
– Esse não é um problema meu. E, quer saber? Sinto falta dos dias azuis, mas consigo conviver com o cinza.
– Uma hora você esmorece para a chuva.
– Uma hora as cicatrizes revelam o sol.
– Eu não sei o que pensar de você.
– Está receoso?
– Que audácia.
– Quem é o demônio, eu ou você?
[olha surpreso]
– Está amanhecendo, é hora de você ir embora.
– Você perdeu seu sono.
– Mas não perdi a vontade. O jogo é jogado. E eu me sinto muito bem com o dia claro. Você não.
– Você brinca com a loucura.
– Tenho mais medo da normalidade.
– Debochado.
– E sarcástico. Não esquece.
– Eu volto pra te questionar.
– Estarei esperando.

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Canção Lunar

Naquela noite escura, ele olhou para a lua. Ele sempre quis pisar lá, desde criança. Ali, por entre as nuvens, com uma brisa quente soprando o rosto, ele pensava no dia que passou, nas voltas e reviravoltas que o mundo dá, no silêncio que às vezes grita e muitas mais vezes conforta. Naquele céu estrelado, ele estava nublado.

Gravidade… queria flutuar, sem sentir o peso dos dias, do destino, das escolhas. Não desejava a outra interpretação, densa, pesada, que aflige a humanidade. Grave, crônico, agudo. Não sabia onde estava pisando, mas estava. Firme. É preciso seguir em frente, tropeçando ou não. O peso do mundo nas costas é bem menor do que o peso da omissão. Crescente ou minguante, no balanço da maré.

Há tempo. Sempre há. As noites não duram para sempre. Respira fundo. Mais uma vez olha para o céu. Sempre reparou nas estrelas, tão indiferentes à astronomia. Não carecem de definição, estão lá. Muitas vezes tentou adivinhar os nomes, mas isso não é preciso. É preciso acreditar. É preciso seguir, para onde for.

Cheio ou novo, é preciso brilhar. Sempre haverá um caminho a seguir. Quando tudo parece escuro, algo surge para lembrar que tudo tem jeito, que é possível. É preciso leveza. Sem gravidade. É preciso olhar a lua sorrir. É preciso deixar de ser eclipse. Naquela noite escura, ele sonhou com a lua.

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Meridional

Ele só queria caminhar. E queria caminhar rumo ao sul. O sul sempre foi seu norte, e não tinha nada de antítese nisso. Gostava da idéia de se sentar naquele banco para ver aquele pôr-do-sol que ninguém conhece. Aliás, acha até melhor assim, porque aquele momento, nos momentos difíceis, é só dele.

Em momentos esparsos, seu corpo e alma disparavam um estado de alerta, que sufocavam seu raciocínio. Brincadeira de tempos de guri, sabia que neste momento ou implodia ou voltava pro seu canto, seu recanto, seu refúgio. Ali, se sentia sempre protegido, com o vento batendo na cara e levando as mazelas pra longe. E ele precisava, como ele precisava.

Pensando nas rasteiras que a vida dá, dessa vez ele não queria levantar. Ficar deitado, respirando, talvez fosse mais útil. Naquele canto, que sempre foi berço das suas memórias, ele se sentia desabafando em silêncio. Ali, ele estava com os seus, mesmo que os seus não soubessem quem ele era. Mas em cada olhar, em cada rosto, havia um sorriso conciliador.

Às vezes é preciso terminar para voltar a começar. Viver é um círculo sem fim, cujo raio aumenta e diminui ao sabor do acaso. Acaso. Nunca gostou do acaso. Sempre gostou de desafiá-lo. Nem sempre ganhou, mas sempre saiu no lucro. Desta vez, não sabia o que pensar. Ele só queria buscar o ar. E ali, no seu abrigo, conseguia.

Sentado naquele banco, ao fim da tarde, repassou todo este momento difícil. Não sabia o que viria no futuro. Quem se importa? O pôr-do-sol já se apresentava, majestoso. Aquele pôr-do-sol que ninguém conhece. A cerveja estava quente. Quem se importa? O vento continuava levando as mazelas para noite. A tristeza, por hoje, no te la puedo dar. Abriu um sorriso.

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Jazz

Sentar na poltrona, acender um cigarro, tomar um whisky – cowboy. Fechar os olhos, pensar no dia que não foi, esquecer o dia que foi, balançar o pé no ritmo que ainda não conseguiu escutar. Por alguns segundos, pensar em nada. O não-pensar é uma forma de raciocinar.

A arte de não fazer nada. A rebelião contra a rotina opressora, que apenas deixa o sonho como refúgio e possibilidade de mergulho. Sonhar com dias sem remédios pra dormir, de sono tranquilo, de paz interior, de cansaço bom. Olhar a bússola em vez de correr a esmo. Cansa caminhar em círculos.

Não saber do que se sabe, não dar ouvidos ao desnecessário, não deixar de sorrir, mesmo na angústia. Não há nada mais temido que o sorriso franco. Enfrentar o inevitável, mudar o que pode ser mudado, desafiar o destino. Tem calma. Tem?

Levantar da poltrona, apagar o cigarro, deixa o whisky pra lá. Abrir os olhos, digerir o dia que foi, pensar no dia que será, dançar no ritmo que a dança pede. Por alguns segundos pensar em tudo. Improvisar é a melhor forma de raciocinar. Jazz.

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Máquina Zero

Ele fez o que fazia ao menos uma sexta-feira todo mês. Se dirigiu ao barbeiro para raspar a cabeça. Máquina zero, como sempre. Um ritual simples, mas que para ele tinha contornos curativos. Ver seus poucos cabelos sendo cortados significava se livrar do peso da maldade daquele mês, como um renascimento. Renovação.

O barbeiro ficava a alguns quilômetros de onde trabalha. O trajeto, na hora do almoço, era feito em poucos minutos, sem muita aporrinhação. Chegando lá, sempre um abraço apertado. Ele era o “careca”; o barbeiro, era simplesmente o “barbeiro”. Assim mesmo, sem nomes, sobrenomes, formalidades. Os adjetivos tinham uma carga de confiança e carinho embutidas naturalmente.

Naquele dia, ao chegar no portão humilde daquele bairro, onde uma placa se destacava com o preço do corte – “6 reais”, escrito assim mesmo – tocou a campainha uma, duas, três vezes. Nada do barbeiro aparecer. Bateu palmas. E mais nada. Esperou mais uns minutos e finalmente desistiu.

Ao virar as costas para ir embora, a porta se abriu. Era a esposa do barbeiro.

“Ele morreu ontem.”

Foi como se sentisse a perda de um membro da família. Um gancho no queixo. O olhar ficou turvo. Como assim, morreu? Olhou para a agora viúva, e os olhares de solidariedade, marejados, se encontraram. Em silêncio, se abraçaram.

Queria ter tido a oportunidade de ter escutado mais uma piada sem graça, um causo sobre o filhote de cachorro de três cabeças, a situação do Santa Cruz e do Flamengo e amenidades sobre política e religião. Escutar desabafos sobre a vida de aposentado e desabafar também, sobre a vida em geral. E ao fim daqueles vinte e muitos minutos, ver a tristeza desaparecer sob o fio da afiada navalha. Mas ali isso não aconteceria mais.

Voltou a dirigir, a esmo, por dentro daquele bairro simples que já tinha aprendido a conhecer. Achou outro barbeiro. Pediu pra passar a máquina. Zero. Enquanto os tufos de pelo caíam, prestava um tributo ao seu amigo sem nome, mas sempre presente. A renovação de alma que ocorre todo mês estava garantida, mas não foi a mesma coisa.

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