À Deriva

Muitas vezes se quer escrever para desabafar, colocar em ordem a desordem dos sentimentos, expor algumas chagas, curar outras feridas ou apenas relatar sonhos e devaneios. As letras normalmente são boas amigas, daquelas leais, que não costumam abandonar o escriba em nenhum momento.

Mas há momentos em que elas não bastam, elas não são suficientes. Há horas em que por mais que se queira exprimir ou espremer, as palavras se recusam a sair. Olhar para o papel e ver um amontoado de letras significa muito menos do que a folha em branco, talvez molhada com uma lágrima ou outra.

Não é questão de criatividade ou falta dela. Nem de transpiração ou inspiração. Nem clichê serve de muleta. É apenas saber que o escrito no papel jamais substituirá o que se sente, não pode mensurar o que quer se dizer nem aliviar aquela dor latejante que teima em pulsar, tremendo cada osso que pavimenta o caminho do corpo. Enxaqueca da alma.

Neste momento, quando se olha pra dentro e se sente só, no escuro, impotente, as letras, que teimam em sair, ficam lá, fazendo companhia. Quando se está à deriva, perdido em si mesmo, lamentando a perda da maior ilusão que o ser humano tem, o controle. No momento em que não se sabe pra onde ir, é melhor deixar que a maré do destino leve.

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Cœur et L´âme

Mais um daqueles dias em que ele acorda antes do nascer do sol. Já era comum fazer isso, mas naquela quase manhã, em especial, ele despertou diferente. Era hora de se despir das defesas e encarar seus demônios no espelho da alma.

Ele sempre teve dúvidas se era um cara bom. Bom, mesmo com as hipocrisias, idiossincrasias e defeitos. Defeitos, sim; virtudes, talvez. Nunca soube contabilizar suas virtudes. Seu espelho era turvo, e os olhos, mesmo os claros como vidro, muitas vezes são opacos.

Sempre se vangloriava de antever movimentos e ler tudo a sua volta com perspicácia, mas era completamente analfabeto na leitura de si. Cego, poderia se dizer. Em braille, acertava e errava, tateando nos caminhos do destino e tocando em frente, como dava, mesmo se não dava, porque pra trás não se anda.

Balanço. Era um balanço. Mas, afinal, o que na vida não é um balanço? Seja no sentido figurado, equilibrando as contas consigo mesmo e com outrem, tentando sair do passivo de maldade e fechar no equilíbrio, seja no sentido literal, gingando e tropeçando nas rasteiras que a vida dá, sempre buscando um contra-ataque, um martelo cruzado, um rabo de arraia. Benção.

Sempre soube que era seu maior amigo, inimigo e conselheiro. Os seus demônios são terríveis, mas quase como animais de estimação. Um leão que faz questão de manter adormecido, porque cutucá-lo libera sua caixa de Pandora particular.

Naquele momento, pensou em se despir da armadura, mas fazendo sua auto-análise, percebeu que já estava sem ela há tempos. Tinha crescido, rumo a algum lugar, e aquelas defesas já não serviam mais, apenas tinha de manter a proteção, mas trocar a casca.

Abriu os olhos, lavou o rosto, tomou um copo d´água. Fez a saudação ao sol. Sorriu. Os primeiros raios de sol acordavam também. Vestiu a sua nova armadura, as espadas que sempre trazia consigo e seguiu. Em frente. Porque pra trás não se anda. E o caminho é longo.

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Pizza

Ele não come pizza sozinho. Pra ele, pizza é sinônimo de companhia. O atestado maior de solidão é saboreá-la só. Não tem o mesmo gosto, a mesma textura, o mesmo tempero. Perde sabor. O ato da refeição solitária é pior do que colocar ketchup em cima da iguaria.

Fazia tempo que ele não a via. Sentia saudades. Entre muitas coisas, por causa dos jantares animados, da amizade, dos papos extremamente relevantes sobre tudo, inclusive nada. E sempre, invariavelmente, terminava em pizza. Pepperoni pra um lado, portuguesa por outro, com variações esporádicas.

Naqueles tempos, com muita correria, muito trabalho, tinham se afastado. Nenhuma briga, nenhum rancor, apenas o dia a dia, este vilão invisível que se alia com a ampulheta que não se cansa de girar a areia. Nunca cobrou, mas se lamentava, porque eram aqueles bons momentos que faziam valer a pena a amizade. Sentia saudade – da pizza e da conversa.

Num daqueles dias pesados e tristes de trabalho, chegou em casa chateado. Tomou uma ducha gelada, se sentou pra ver televisão, ligou em um programa de esportes qualquer, mal escutava o que dizia a locução. Em transe pra se livrar da ziquizira que foi aquele dia, só foi despertado pela campainha inesperada. Ela estava lá, com uma pizza na mão. E duas cervejas.

“Vamos conversar? Tô com saudade.”

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O Evento

- Oi, filha, boa noite, como foi na sua avó?
- Tudo certo, tranquilidade.
- E no dentista?
- Tudo em paz.
- Hum.

[toca um rock no carro, balançam a cabeça no ritmo do som]

- Ó, vai ter um evento naquela casa de shows.
- Um evento?
- É. Um evento.
- Hum. Conte-me mais.
- É um evento de animes, com a apresentação de uma das grandes bandas de K-Pop do mundo.
- K-Pop?
- É. K-Pop. Você não conhece?
- Deveria?
- Deveria. Você está ficando obsoleto.
- Obsoleto. Hum. Entendo.
- Dizem que esse evento pode ser maior que a Comic Con.
- Claro, claro.
- É o que dizem.
- Ei, esse é meu bordão.
- Tal pai, tal filha. Posso usar.
- Você é muito palhaça.
- Nunca neguei.
- Ei, esse também é meu bordão.
[...]
- Então, você compra meu ingresso?
- Vai depender de suas notas. Como estamos este ano, na zona do rebaixamento?
- Não, tô estudando, juro.
- Sério mesmo?
- Sério.
- Tenho observado. É uma leitura muito dinâmica. É um estudo enquanto dorme, algo do tipo? Sabe como é, estou ficando obsoleto, preciso aprender essas coisas.
[faz cara feia]. – Tô falando sério. Inclusive vai ter essa banda que falei.
- Hum, que banda é essa?
[pega um papel na mochila, mostra o logo da banda]- É a フロウ.
- Cuma?
- フロウ [se fala "Flow"]
- “Flow”, do inglês?
- É.
- E por que você não fala logo “Flow” em vez de mostrar esse logo フロウ?!
- Porque perde a graça. Assim, além de eu rir, dá pra ver que você está obsoleto.
- Hum. Entendo.
- Mas e aí? Você vai comprar o ingresso pra mim?
- Você vai fantasiada?
- Não é fantasia, é cosplay.
- Claro, tinha esquecido dessa diferença. Mas vai fantasiada?
- Vou.
- De que?
- Jack Frost.
- Hum. Sua galera vai?
- Vai! Vão fulano, sicrano, beltrano… [mais de 289 nomes em pouco mais de 4 minutos...]
- Certo, conheço alguns.
- Então, você deixa?
- É possível, mas preciso ver suas notas antes.
- Tá. Tô tranquila, tá no começo do ano ainda.
- Tem poucas notas pra análise. Garota esperta.
[sorri encabulada]
- Vou falar com sua mãe e ela te dá o dinheiro.
- Beleza.
- Filha, só um pedido.
- O que?
- Além de juízo, vê se não me arranja mais um namorado de cabelo azul, pelo amor dos céus.
- Para com isso, pô.

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Sobre as aventuras e desventuras da paternidade com a Pequena, Cabelo RosaA ViagemBicicletaOroro, o Cinema e a Sogra, A Banda de Rock15 O Namorado de Cabelo AzulO Namorado de Cabelo Azul parte II – O ‘Inimigo’ Agora é Outro e O Beijo

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Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XV – Cachê

Eles sempre tinham um ponto de encontro pós-noitadas, bebedeiras e, certamente, cafajestagens. Aquele bar à beira-mar, na altura do Lido, tinha chopp gelado e havia sido testemunha ocular de grandes romances, quebra-paus e gargalhadas. Nada mais natural de ter se tornado o quartel-general de um bando de canalhas.

Ademais, aquele mesmo bar tinha a característica de ser o local da happy after hour das moças pós-trabalho na Help, na rua, nas boates da Prado Junior e localidades afins. Ao fim do expediente, elas iam pra lá relaxar, partilhar experiências, beber um chopp gelado e paquerar.

Sim. Paquerar. Porque trabalho é trabalho, romance é romance, amor é amor e um lance é um lance. Ali era campo neutro, fora do horário de expediente. Um xamego e um xodó valiam tanto quanto algumas notas de dólar amassadas. Unindo o útil ao agradável com o chopp gelado, muitos casais fugazes de apenas uma noite se formaram naquelas mesas e balcões.

Muitas vezes nem se viam mais. Em algumas viravam casais eternos, leais, ciumentos e confidentes com a duração de poucas horas. Ninguém esperava nada daquele fim de noite, que poderia se tornar a parte mais interessante da saída. Certa vez, eles estavam no bar e já começavam aqueles movimentos típicos do xadrez entre os possíveis casais. Um deles, observando – e bebendo – fixamente seu sexto chopp, viu adentrar uma mulher estonteante.

Com sorriso de comercial de pasta de dente, simpatia de comercial (011) 1406 e uma malemolência que faria Michael Jackson ter uma ponta de inveja, ela pediu um chopp como se estivesse em um filme francês, tamanho charme. Ele a observava e já tinha engatilhado todo seu estoque de cantadas para que pudesse observá-la. Ela o fitou nos olhos e naquele momento tudo parou, virou clichê, tocou música de Julio Iglesias e filme de John Woo, com todos os presentes em câmera lenta.

E ele gastou sua saliva, seu repertório, seu latim e ela se mostrou muito acessível. Ela sapecou-lhe um beijo na boca, tão inesperado quanto correspondido. Galvão e seu “É tetra!” já ecoavam em sua mente. A vitória estava quase garantida. Tomou coragem e a chamou para da um passeio.

Era a senha para ser feliz. Se levantou, os amigos bateram palmas. Era o gol do fantástico, o assunto que permearia a mesa de bar por dias, semanas e seria lembrado nas próximas gerações. De mãos dadas, na porta do bar, começam a travar um singelo diálogo.

- Meu amor, você vai me levar pra onde?
- Naquele motelzinho ali, é simples, mas gostoso. Vamos curtir o momento e depois ver o amanhecer no
Arpoador.
- Tá. Mas olha, meu cachê é de R$ 250,00

Cachê?! Cachê?!?!?! Havia uma regra não-escrita na qual não se cobrava cachê ali. Ela estava ferindo a regra. Mas naquela hora, não poderia recuar. Não havia dinheiro suficiente para o cachê, apenas malemolência para curtir a situação. Tinha de pensar rápido. E pensou.

- R$ 250,00?! Tá bom.
[ela o beija demoradamente]
- Minha gata, vamos nessa, mas você está me devendo R$ 50,00.
- R$ 50,00?! De que?!
- Meu cachê é de R$ 300,00. Já que você faz por R$ 250,00, te dou um abatimento e você só me deve R$ 50,00.

O estampido do tapa na cara foi ouvido no bar inteiro. Enquanto ele era xingado, as amigas explicavam que naquele bar não era hora de trabalho, mas sim de descanso. Até os mal-entendidos serem desfeitos, foram alguns minutos.

Ela decidiu ir pra casa, não sem antes se desculpar e dar o telefone a ele, caso ele precisasse de um relax depois. Ele foi consolado por uma amiga dela, que se sentiu compelida a reverter o quadro. E os amigos gargalham e contam essa história até hoje.

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O capítulo I dos Diários Secretos da Cafajestagem, “La Bombonera”, está aqui

O capítulo II dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Reveillón”, está aqui

O capítulo III dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Falha”, está aqui

O capítulo IV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Evidências”, está aqui

O capítulo V dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Impedimento”, está aqui

O capítulo VI dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Urucubaca e Pênalti”, está aqui

O capítulo VII dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Cultura da Sacanagem”, está aqui

O capítulo VIII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Nome Artístico”, está aqui

O capítulo IX dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Churrasco”, está aqui

O capítulo X dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Aniversário”, está aqui

O capítulo XI dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Consórcio”, está aqui

O capítulo XII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Toalha”, está aqui

O capítulo XIII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Miscelânea”, está aqui

O capítulo XIV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Putão”, está aqui

 

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Amor Bandido

Futebol é amor bandido. Daqueles que entorpece, engana, magoa, humilha e dá raros e inesquecíveis momentos de prazer. De todos os amores que o ser humano pode ter na sua vida, o futebol é mais que eterno, pois começa antes de nascer. Entretanto, é dos sentimentos mais ingratos e nefastos que habita a alma, porque usa o hospedeiro sem a mínima piedade.

Em nome do futebol, um ser humano comum acha que pode legitimar o preconceito, a violência, a corrupção. E embora o futebol seja causador disso, ele, esperto, ensaboado, sorrateiro, sai da frente e desnuda o torcedor, mostrando sua face mais obscura e indomada. Quando o adepto cai em si, está lá, envergonhado e só, pois o futebol, nesses momentos, larga quem o ama à própria sorte.

Por ele, se tenta justificar os fins, os meios, os inícios, quase uma música do Raul Seixas com Paulo Coelho, por mais indefensáveis que sejam os argumentos – ou até o Raul Seixas com Paulo Coelho, dependendo do gosto musical. O futebol é como uma droga que, se consumida sem moderação, dopa, vicia, cega e prostitui os valores.

Famílias brigam, amigos discutem, conceitos caem, preconceitos sobem, muitas vezes pelo futebol. Que une com freqüência muito menor que desune. E são minimizados com o prosaico argumento de que “é futebol”. Mas na hora de arcar com as conseqüências, ele, o futebol, mentor intelectual do delito, sai de fininho, rumo à glória, deixando a vergonha com seu interlocutor.

E o torcedor vai tentar defender o indefensável, justificar o injustificável, até perder o fio de esperança e a razão, respirar e ver o tamanho da bobagem que defendeu. Como todo vício, futebol dá ressaca, muitas vezes moral.

Ao término da crise de euforia e depressão, sempre haverá uma reclamação e um julgamento no espelho, no qual o torcedor, eterna mulher de malandro, vai reconhecer os abusos, a pancada que tomou e se sentir só. Mas, tal e qual um abstinente, vai tremer, relutar, se enervar e vai voltar ao vício. E vai perceber que nunca teve razão. E continuar, em sua esmagadora maioria, cometendo o mesmo erro. Porque, infelizmente, no fim das contas, futebol é amor bandido.

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Marciano

“Eu vim de Marte. Um dia, volto pra lá.”

Era assim que ele se apresentava sempre. Aos olhos dos transeuntes, um mendigo louco que perambulava pela Zona Sul. Os moradores mais antigos se apiedavam dele e até gostavam daquelas estórias surreais com discos voadores, seres de cores diferentes que podiam se transformar na forma humana e que viviam na sociedade, geralmente em cargos de destaque.

Ele sempre recebia comida, roupas, água e, mais importante, um sorriso desses moradores antigos. As crianças troçavam dele, o chamavam de “Marciano”. E ele sempre saía correndo atrás delas, tomando cuidado para, no passo mais lento que o possível, jamais alcançá-las. Quando elas sumiam da vista, ele sorria, complacente.

A convivência era plena e pacífica entre a sociedade e aquele corpo estranho travestido de pedinte, que, ao contrário do normal em todo e qualquer lugar preconceituoso, não causava estranheza e já estava integrado à paisagem.

Embora fosse mendigo, ele tinha seu cantinho. Um barraco de compensado, mas com contornos de arquitetura de guerrilha cuidadosamente organizados, de modo que não houvesse sujeira, nem bichos. Não era um puxadinho, era uma edícula, diriam publicações do meio. E carinhosamente decoradas com pôsteres de discos voadores e, em algumas delas, cobertas por letras ininteligíveis, tatuando aquele emaranhado de compensado transformado em paredes.

A cidade receberia um evento dali a alguns meses, e o prefeito começou uma série de obras ao estilo assombração: sem pé, nem cabeça. Junto com as obras, chegou a guarda municipal. E a polícia. Conforme iam avançando, chegaram perto do barraco do pedinte, que estava brincando com as crianças na praça, sorrindo para os habitantes antigos e contando suas histórias sobre o sistema solar e seus habitantes.

Ao voltar para seu barraco, não havia mais. Tudo derrubado, queimado. Ainda viu uma dupla de policias gargalhando e soltando impropérios humilhantes em sua direção. Engoliu o choro, mas as lágrimas desceram silenciosas pela face empoeirada. Murmurou: “vou embora”.

Nunca mais apareceu. Os moradores do bairro se preocupam, acham que a polícia fez alguma coisa. As crianças, ao lembrarem dele, dizem que o “Marciano” voltou pra casa. Os adultos não acreditam, mas não duvidam. Sem deixar rastros, deixou apenas saudade. O carro dos policiais que fizeram troça e humilhação bateu em um poste na mesma noite em que ele foi embora . Ambos morreram, embora não tivessem ferimentos aparentes.

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Pelada

Naquele retângulo, campo de futebol, há uma máquina do tempo, onde homens se transformam. Muitos dos sonhos de infância voltam à flor da pele. Não há diferença de idade, credo, etnia, muito menos de talento e técnica. A pelada é a instituição mais democrática que a sociedade pode criar.

Disse um técnico campeão do mundo de futebol, certa vez, que, em uma peneira de qualquer esporte, se um técnico recusa um anão, um aleijado e um gordão, terá feito a coisa certa. Mas, se for no futebol, poderá ter recusado Maradona, Garrincha e Puskas. Essa é a mística, embora na pelada não haja nem Caça-Ratos, quanto mais um dos antes citados.

Naqueles minutos intermináveis pra quem joga, onde se mata a saudade e o fôlego, não existem nomes nem sobrenomes. Não há Saldanhas, Almeidas, Silvas. Há “toca”, “passa” e, com o passar da intimidade, “puta que pariu”, “filho da puta” e “vai tomar no cu”. O palavrão da pelada não é ofensivo, é solidário. É o passaporte da amizade que depois vira cerveja, abraço e sorriso.

Tem aquela contagem benevolente de gols e assistências, esquecendo convenientemente das patacoadas e dos erros crassos. Aquela galhofa providencial e a sensação de redescobrir músculos antes esquecidos. E, claro, sempre, um sorriso prosaico e singelo, por isso tão bonito, de reviver momentos que estavam largados dentro da selva de pedra que se transforma a alma de adultos.

Até porque, na pelada, jogam pessoas de todas as idades e classes sociais. É uma grande massa uniforme de alegria. O drible é a maior das justiças, humilha indistintamente. O erro também não perdoa ninguém. O sambista diria que todo menino é um rei. Na pelada, amigo, todos viram reis de novo.

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Curva

O que te espera na curva? O fato é que nunca se sabe o que vem pela frente. O imprevisível pode ser afortunado ou fanfarrão, pode causar lágrimas ou sorrisos, pode surpreender ou decepcionar. Somos uma ilha cercada de “mas e senões” por todos os lados.

Na busca incessante pela verdade, que fortaleça nossos pontos de vista, mesmo que a verdade seja uma mentira, ou apenas uma muleta, mesmo que ajude a esconder as fragilidades que teimam em habitar quaisquer almas.

Que apenas sirva pra imposição sem debates, que sempre são necessários. Mesmo que ajude a culpar algo ou alguém que não seja o real causador. A culpa é arma pontiaguda, daquelas que se distribui a bel prazer quando se precisa.

Quando se derrapa nas próprias idiossincrasias, na curva da construção do caráter. Ou quando se deixa a ferida aberta, em vez de cicatrizá-la, apenas para que se infeccione e tenha pus e veneno em forma de sentimento ruim.

Quando pedir desculpa é sacrifício em vez de expiação ou de exercício de humildade. Quando se tem medo do passado e se deixa contaminar o futuro, pelo simples rancor. Em maior ou menor grau, em escalas diferentes, todos somos assim.

E quando o arrependimento chega – se chegar – pode ser tarde demais. Pode não haver tempo para que isso ocorra, pode não haver tempo para que se socorra. Não somos inocentes. Nem culpados. Somos humanos. O filósofo diria que o inferno são os outros. Mas ele, eu e vocês sabemos: O inferno somos nós. E nossos demônios são os piores inimigos que existem. O que te espera na curva? Boa viagem.

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Dedicatórias

Eles tiveram um tórrido romance, que terminou como fim de enterro: triste, gélido, chuvoso. Ela sofreu como um cão, se apegando aos livros e músicas e caminhadas ao ar fresco, quando tentava expurgar o tumor do remorso. Ele se apegou à bebida, a outras mulheres e todos aqueles clichês que homem usa quando não tem coragem suficiente de sofrer.

Depois de alguns meses ela já caminhava com suas próprias pernas e assistia a flimes românticos sem chorar, andando de cabeça erguida e trocando olhares de soslaio com rapazes na direção contrária. Ele começava a cair na real, senhor do tempo atrasado, tendo saudade à medida em que o domínio da situação escorria como água entre os dedos da mão.

Lembrou-se da maior das paixões dela: os livros. E comprou um deles para se reaproximar. Capa dura, edição comemorativa, raríssimo, caríssimo. Do bom e do melhor. No meio daquelas centenas de páginas consagradas, não se furtou em pegar a primeira página delas, em branco e escrever, com todo ímpeto.

Oi, tudo bem?

Faz tempo que a gente não se vê. Na verdade, eu nunca deixei de sonhar com você. Sei que nosso fim não foi das melhores coisas e, por um minuto, achei que tivesse sido a melhor saída, mas hoje me arrependo. Queria te pedir desculpas por tudo que disse e pelo que eu não disse.

Me desculpe também por flertar com algumas amigas suas e até por ter saído com uma delas. Sabe como é, o álcool, esse motor da maldade. Mas não foi por mal, era apenas uma maneira infantil de tentar te atingir. No fim das contas, eu só queria que você sentisse minha falta.

Por favor, se você gostar desse livro, me liga, me manda um sinal de fumaça, me dê um sinal de que sente minha falta. Te amo.

Um beijo.

Deixou o livro na portaria do edifício dela, na esperança de que houvesse uma resposta. Os dias se passaram e nada. Um, dois, três, uma semana. Até que recebeu um SMS singelo. “Adorei o livro. Você é indiferente. P.S.: Filho da puta, rabiscou meu livro.

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