Maldição

Aquele era um jogo importante em Ramos. Os times eram líderes do campeonato. A Rua da Feira de Baixo, conhecida como o time dos Marajás, iria encarar a Roberto Silva, num duelo de ruas que, se não envolvia rivalidade, tinha um componente a mais para o tempero: Haveria um olheiro do Olaria assistindo ao jogo.

No meio do burburinho, todos sabiam quem o olheiro queria ver. Munha, o ensaboado atacante do time dos Marajás, que vinha de um campeonato brilhante. Todos os times da Zona Norte carioca queriam contar com ele, mas o Olaria foi o primeiro a mandar olheiro.

Um pouco antes do jogo começar, os jogadores começam a se reunir. Quando todos chegam, Munha aparece com um tênis na cor laranja berrante, mais reluzente que uniforme de gari da Comlurb iniciante.

Todos olham perplexos para o guri, já que é sabido que em Ramos futebol se joga descalço, no máximo com um kichute. Alguns não acreditavam, outros achavam que Munha tinha virado estrela. O técnico Marcelo Monstro foi ao encontro dos jogadores, quando se deparou com a visão do tênis marca texto.

O treinador não resistiu e perguntou à Munha: “Meu filho, esse troço ajuda você a jogar bola? Que coisa horrível, tire isso.” Munha não quis tirar, queria ser diferente e achou o tênis uma boa idéia. O técnico retrucou: “Meu filho, seu nome de guerra é Munha. Quer algo mais diferente do que isso? Essas porcarias de pisantes circenses são uma maldição”. Não teve jeito, ele foi pro jogo com a chuteira fluorescente.

Do lado do time da Roberto Silva, entre muitos bons jogadores, como o meio-campo Tungstênio – batizado pelo pai bêbado após consultar a tabela periódica em vez do livro de nomes -, o atacante Paulinho Batatinha – por ser baixinho, gordinho e ter bigode – e o zagueiro Tucano, dono de 1,84m de altura e 15 centímetros de nariz, aos 16 anos.

O jogo começou animado, com o time da Roberto Silva se defendendo ferrenhamente. Munha e seus tênis coloridos não eram páreo pra Tucano, que sobrevoava toda e qualquer bola na defesa. O primeiro tempo terminou 0-0 e Marcelo Monstro bradou, inclemente: “Munha, pelo amor de Jeová, tira esses tênis! Isso é uma maldição!”

O menino relutou e se recusou a tirar os tênis. O técnico, sabendo da grande fase do seu pupilo, não o substituiu. E assim o jogo se arrastou, até que no final da partida, houve uma falta para o time da Roberto Silva, na intermediária. Tucano se apresentou para bater a falta.

O técnico da Roberto Silva, P3 – abreviatura de Pedro Paulo Pedreira – se desesperou. Tucano nunca havia batido faltas pelo time. Que coisa é essa? “Tucano, sai daí, porra. Você não sabe bater falta!” “Sai daí moleque sarnento” “Vou te substituir” “Tucano, seu miser. GOL, GOL, GOL!”

Tucano bateu a falta de bico, pé descalço, com a potência de um canhão, um Célio Silva redivivo. O goleiro não viu sequer a cor da bola. A rede só não balançou porque em futebol de rua as traves não têm véu. 1-0 e muita comemoração.

Imediatamente, Marcelo Monstro sacou Munha de campo e colocou Xerelete, filho de feirante que vendia peixes do mesmo nome. Inverteu os jogadores de posição, uma vez que Tucano parecia intransponível. O menino entrou endiabrado e empatou o jogo no seu terceiro toque na bola. O jogo correu sem maiores sobressaltos e terminou empatado.

Ao fim do jogo, o olheiro apontou para Tucano e disse “Você é o novo Mozer! Quero você jogando no Olaria agora”. De pés descalços o Cyrano da Leopoldina tinha anulado o ensaboado atacante de quem tanto falavam. Aproveitou e olhou para Xerelete, convidando o maroto peixeiro para um teste também.

Munha se encheu de coragem e perguntou ao olheiro o porquê de não ser chamado. “O problema nem foi a má atuação, porque isso pode acontecer. Mas esse tênis num torneio de rua é muita frescura. No Olaria não entra moleque estrelinha”.

Marcelo Monstro olhou para o garoto com cara de “eu te disse, esse troço de pisante colorido não dá certo. É uma maldição!”. Na manhã seguinte, os fios elétricos de Ramos amanheceram com um par de tênis laranja pendurado…

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Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, alguns jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “Po锓Cabaço”,  “O Amor na Marca da Cal” e “O Clássico”

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