O Amor na Marca da Cal

Mais um domingo se avizinhava em Ramos. Com o dia santo, vinha também mais uma rodada do campeonato entre ruas. Naquela manhã, logo após a Missa na paróquia de Nossa Senhora das Mercês, as Ruas Cabo Reis e Miguel Vieira iriam se enfrentar. O embate, entretanto, guardava muito mais do que um simples jogo de futebol.

A Cabo Reis jogava em sua rua, um alçapão de paralelepípedos nos quais muitos tampões de dedões descansam em paz. Deixar um pedaço do dedo ali era um batismo de fogo, um rito de passagem, uma prova de identidade em meio ao campeonato. A bola não rolava ali, tinha ataques epiléticos. A pelota virava um cavalo selvagem, que não aceitava ordens e corria sem direção.

No arco do time, estava Lerrybardi, um loiro de quase 1,90, que mais parecia um viking dinamarquês, embora tivesse nascido em Tomás Coelho. Lerry tinha este nome porque o pai, um galeguinho emigrado do Nordeste, era fã de basquete e Estados Unidos, e encantado com o talento do ala.

O único porém é que Seu Eustáquio – pai do guri – tinha uma boa pronúncia mas certa dificuldade, digamos assim, na escrita em inglês, que transformava os nomes dos filhos em uma sopa de letrinhas mais complexa do que as letras de Djavan.

Seu Estáquio era realmente fascinado pelos Estados Unidos. Tinha uma filha, cujo nome era Rhillary, batizada assim em homenagem à primeira dama americana da época, embora o H de seu nome estivesse tão mal colocado quanto o charuto de Mr. Bill Clinton em Monica Lewinsky.

Nome de americana, bunda de brasileira, Rhil encantava com seu gingado, sua malícia e seu biquini amarelinho tão pequenininho, que nas tardes de verão dava o ar da graça no caminho do 484, até chegar no Arpoador, onde brilhava mais que o sol ou, em dias de preguiça, na piscina Tony que fazia – literalmente – a alegria da garotada suburbana.

Rhillary despertava paixões, tesões e torcicolos. Mas não correspondia a ninguém, exceto José Carlos dos Santos Silva e Silva. Embora tivesse o nome maior do que muitos becos do bairro, seu apelido era simples, como seu futebol: Zé.

Zé jogava muita bola, sem firulas, de forma objetiva, o que lhe garantia a camisa 10 do time da Miguel Vieira, justamente o rival da Cabo Reis – e de Lerrybardi – naquele domingo. Além disso, era o cobrador oficial de faltas e pênaltis da equipe.

Obviamente Lerry e Zé não se davam bem. O galalau galego não gostava de imaginar aquele pegue no bumbum e pegue no compasso entre o moreno mirrado e sua irmã querida, o bibelô que viu crescer em casa. E Zé, aquele miserável, ainda era filho único, nem dava pra fazer uma vingança, pensava o goleirão.

Antes do jogo começar, Lerry e Zé se encararam fixamente. Os times vinha bem no campeonato e a premissa era de uma partida equilibrada, sem favoritos. A Miguel Vieira era uma rua quase vizinha à Cabo Reis, então os jogadores temiam muito pouco o campo de paralelepípedos. Todos eles já tinham deixado um tampão do dedo de oferenda.

O jogo foi animado, lá e cá. Durante todo o tempo, a bola, essa diva caprichosa não quis se enamorar com o gol. Bateu na trave, passou rente a linha, mas nada de entrar. Zé e Lerrybardi mal se encontraram em campo. Assim foi durante todo o primeiro tempo, assim foi no segundo tempo.

A peleja se encaminhava para terminar em um 0-0, quando no finalzinho do jogo, Zé driblou dois, entrou na área, deu uma entortada em Lerrybardi e tomou uma rapa daquelas, premeditada. Saiu rolando pelos paralelepípedos, com sua pele deixando autógrafo pela Cabo Reis, com dedicatória e tudo. Atropelamento sem fuga. O apito trilou: pênalti. Lerrybardi nem reclamou.

Zé se levantou, mais ralado do que parmesão em restaurante italiano, todo ardido e colocou a bola embaixo do braço. Lerrybardi chegou pertinho, ao pé do ouvido, e sussurrou: “Se fizer o gol, não vê mais minha irmã”. Zé não disse nada, apenas colocou a bola na marca da  cal feita na rua, para cobrança do castigo máximo.

Poderiam ter passado mil coisas na cabeça de Zé, mas nenhuma delas foi algo no estilo Montéquio e Capuleto. Zé tinha apelido simples, era simples, viver no drama não fazia sua cabeça.

Mesmo machucado, correu com altivez. Lerrybardi cresceu no gol, mas Zé bateu na bola com uma cavadinha que desconjuntou o goleirão. O viking naufragou, enquanto a bola entrou mansa, garota, marota, travessa, pelos paus da trave. 1-0 pra Miguel Vieira, sem tempo pra mais nada, o jogo acabou.

Rhillary acompanhou o jogo como muitos da rua. Esboçou um sorriso contido, mas sincero. Afinal, ela era cria da Cabo Reis, acima de tudo. Certas coisas devem sre respeitadas. Mas ficou feliz com o gol de Zé, ah, se ficou.

Lerrybardi correu para Zé, dizendo que ele jamais veria sua irmã de novo. A turma do deixa-disso entrou em ação e a confusão terminou sem nem começar. Zé nem esquentou. Antes de ir embora, deu aquela piscada saliente para Rhillary. Tinha jogo aquela noite, no bailinho do Social Ramos.

Por mais que Lerrybardi se irritasse, não haveria muito a ser feito. Já fazia tempo que Zé dava seus dribles e cavadinhas amorosas em Rhillary, enganando não só o goleirão, mas a família inteira. O amor andava na marca da cal e, até ali, todos os pênaltis do relacionamento tinham sido convertidos.

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Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos e suas verdades fictícias, leia “O Clássico”

Se quiser conhecer as desventuras do “Ziriguidópolis” na Taça SP de futebol Junior, leia ali, no link.

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